Saúde

Surdez em Cachorro: Congênita, Adquirida e Diagnóstico BAER

A surdez em cães pode ser congênita (genética, associada ao gene merle ou ao padrão piebald/branco excessivo) ou adquirida (infecções crônicas, otite, ototoxicidade, envelhecimento). O teste BAER (Brainstem Auditory Evoked Response) é o diagnóstico definitivo. Cães surdos vivem bem com treinamento adaptado em linguagem de sinais.

29 de maio de 2026·2 min de leitura

O Dálmata branco com uma pequena mancha preta em cima de um olho parece o exemplar perfeito.

Mas nenhum comprador sabe: esse padrão de cor — muito branco, mancha apenas em um lado — é fortemente associado à surdez unilateral.

O teste BAER diria. Mas não foi realizado.

A Conexão Entre Cor Branca e Surdez

A lógica genética é consistente em várias raças:

A estria vascular da cóclea precisa de melanócitos para funcionar.

Os genes que causam pelagem branca ou reduzem a pigmentação eliminam melanócitos da pele E da cóclea simultaneamente. Sem melanócitos cocleares → a estria vascular degenera nas primeiras semanas de vida → surdez irreversível.

Dois Genes, Dois Mecanismos

| Gene | Mecanismo | Raças afetadas | |---|---|---| | Merle (M) | Dilui pigmento irregularmente; MM (duplo-merle) = branco + surdo | Australian Shepherd, Border Collie, Dachshund merle, Collie | | Piebald excessivo (sw) | Branco excessivo na cabeça → sem melanócitos cocleares | Dálmata, Bull Terrier branco, Boxer branco, Dogo Argentino |

Dálmata — O Caso Mais Documentado

  • ~8% são bilateralmente surdos (não ouvem nada)
  • ~22% são unilateralmente surdos (ouvem de um lado)
  • Total: 30% dos Dálmatas têm algum grau de déficit auditivo
  • Surdez unilateral passa despercebida sem BAER — o cão ouve normalmente no dia a dia

O Teste BAER — Por Que É Necessário

Surdez unilateral é impossível de detectar clinicamente — o cão responde normalmente ao seu nome, reage a barulhos.

O BAER registra a atividade elétrica do nervo auditivo em resposta a estímulos sonoros em cada ouvido separadamente:

  • Cão normal: ondas I-V características em 10 ms
  • Cão surdo (ouvido afetado): ausência de ondas
  • Pode ser realizado a partir de 5-6 semanas

Raças que Devem ser Testadas por BAER

| Raça | Prevalência de surdez | |---|---| | Dálmata | ~30% (unilateral + bilateral) | | Bull Terrier branco | Alta | | Australian Shepherd merle | Variável | | Border Collie merle | Variável | | Great Dane arlequim | Moderada | | Boxer branco | Alta |

Cão Surdo — Linguagem de Sinais

Cães surdos aprendem sinais como qualquer outro treinamento:

| Sinal | Gesto | |---|---| | Sentar | Mão paralela ao chão, palma para baixo | | Ficar | Palma aberta na direção do cão | | Vir | Gesto de chamar com o braço | | Bom/Parabéns | Polegar para cima ou sorriso exagerado |

Eles usam olfato, visão e vibração do piso de forma intensificada — e vivem vidas completamente plenas.

Perguntas frequentes

Quais são as causas de surdez congênita em cães?+

A surdez congênita — presente desde o nascimento — é muito mais comum em cães do que a maioria dos tutores imagina. Mecanismo genético principal: a surdez congênita em cães está associada à falta de pigmentação na cóclea (estria vascular); o gene responsável pela cor clara ou branca na pelagem frequentemente co-segrega com ausência de melanócitos cocleares; sem melanócitos, a estria vascular degenera nas primeiras semanas de vida → surdez irreversível. Dois mecanismos genéticos principais: Gene Merle (M): o Merle dilui a pigmentação de forma irregular; Homozigoto merle (MM — duplo merle): 25% dos filhotes de cruzamentos merle × merle; frequentemente branco, com surdez bilateral comum e defeitos oculares; mesmo o Merle simples (Mm) pode ter surdez unilateral; raças: Dálmata, Border Collie, Australian Shepherd, Collie, Dachshund merle, Shetland Sheepdog, Great Dane arlequim; Gene Piebald/Branco excessivo (sw): cães com excesso de branco (piebald extremo) — a falta de pigmento na cabeça afeta a cóclea; o clássico 'Dálmata branco com manchas pretas': ~8% são bilateralmente surdos; ~22% são unilateralmente surdos (UNILATERAL É COMUM E PASSA DESPERCEBIDA); raças: Dálmata, Bull Terrier branco, Setter Inglês, Boxer branco, Dogo Argentino.

Como realizar o teste BAER e o que ele mede?+

O teste BAER (Brainstem Auditory Evoked Response — Resposta Auditiva Evocada do Tronco Cerebral) é o padrão ouro para diagnóstico de surdez em cães. Como funciona: eletrodos são colocados no couro cabeludo (vértex), orelhas e terra; um fone de ouvido insere som (clique) em cada ouvido separadamente; o equipamento registra os potenciais elétricos gerados pelo nervo auditivo e tronco cerebral em resposta ao som; resultado: cão com audição normal: 5 ondas características (I-V) nos 10ms após o estímulo; cão surdo: ausência de ondas ou ondas muito reduzidas; Vantagens do BAER: testa cada ouvido separadamente — identifica surdez unilateral (impossível de detectar clinicamente); objetivo — não depende da resposta do cão; pode ser realizado em filhotes a partir de 5-6 semanas; não requer sedação na maioria dos casos (filhotes quietos se contidos); Quando realizar: obrigatório em: Dálmatas (breeding); todas as raças merle antes de cruzamento; Bull Terrier branco, Boxer branco; Australian Shepherd e Border Collie merle; quando suspeita clínica de surdez; Disponibilidade no Brasil: centros de referência em neurologia veterinária nas capitais oferecem BAER; não é exame disponível em toda clínica veterinária — buscar especialistas ou universidades veterinárias.

Quais são as causas de surdez adquirida em cães?+

A surdez adquirida desenvolve-se após o nascimento e tem várias causas. Principais causas: Otite crônica: otite externa crônica não tratada → otite média → otite interna → dano ao nervo auditivo e cóclea; é a causa mais comum de surdez adquirida em cães; raças predispostas a otite (Cocker, Basset, Poodle) têm maior risco; Ototoxicidade (fármacos ototóxicos): aminoglicosídeos (gentamicina, amicacina, neomicina) são altamente ototóxicos — especialmente ototópicos (gotas de ouvido com aminoglicosídeo) em ouvido com perfuração timpânica; cisplatina: quimioterápico com toxicidade coclear; furosemida em doses altas e prolongadas; Envelhecimento (presbiacusia): perda auditiva progressiva em cães seniores (>10-12 anos); relacionada à degeneração das células ciliadas cocleares; mais pronunciada em frequências altas; Infecções: otite interna bacteriana, viral, fúngica; cinomose: pode causar surdez central (dano ao tronco cerebral); Trauma: trauma craniano ou de ouvido externo; Tumores: neoplasia no canal auditivo ou ouvido médio/interno. Suspeita de surdez adquirida: teste BAER confirma; buscar causa tratável (otite, ototóxico) antes de concluir surdez irreversível.

Como cuidar de um cão surdo e qual o prognóstico?+

Cães surdos vivem vidas plenas com adaptações simples. Treinamento adaptado — linguagem de sinais: cães surdos respondem excelentemente a comandos em linguagem de sinais; os sinais são intuitivos e fáceis de aprender; comandos básicos em sinais: sentar (mão para baixo, palma aberta), ficar (mão estendida, palma aberta), vir (gesto de chamar), deitar, bom (polegar para cima). Adaptações de rotina: desperte o cão com toque gentil — nunca por trás (pode assustar e reagir); vibração do piso (bater no chão) funciona como chamado de atenção; coleira de identificação com 'CACHORRO SURDO' para evitar acidentes; nunca soltar sem coleira em áreas abertas — não ouvirá chamado ou buzina; lanternas e luzes: treine o cão a olhar para luz piscada (substitui chamado verbal). Qualidade de vida: cães surdos têm qualidade de vida excelente; usam os outros sentidos (olfato, visão, vibração) de forma intensificada; socialização e treinamento positivo são as mesmas que para cão ouvinte — apenas o canal de comunicação muda; surdez unilateral: o cão raramente percebe e vive exatamente como um cão com audição bilateral normal. Raças com alta prevalência de surdez congênita que mais precisam de teste BAER: Dálmata (todos deveriam ser testados), Bull Terrier branco, Australian Shepherd merle, Border Collie merle, Great Dane arlequim.