Saúde

Shunt Portossistêmico em Cachorro: Desvio Hepático Congênito

O Shunt Portossistêmico (SPS) é um vaso anômalo que desvia o sangue do intestino direto para a circulação sistêmica, sem passar pelo fígado. Yorkshire Terrier e Maltês são os mais afetados. Encefalopatia hepática, crescimento retardado e cálculos de urato são os sinais. Cirurgia pode ser curativa.

27 de maio de 2026·7 min de leitura

O Shunt Portossistêmico é uma das condições congênitas mais interessantes em veterinária — e uma das que mais confunde tutores, porque o filhote aparentemente saudável de repente tem episódios de comportamento bizarro (andar em círculos, olhar para o nada, pressionar a cabeça contra a parede), especialmente depois de comer. Esses episódios de encefalopatia hepática são a consequência direta da amônia e outras toxinas que chegam ao cérebro sem ter sido processadas pelo fígado.

E a tragédia frequente no Brasil: o Yorkshire Terrier com convulsões que recebe diagnóstico de "epilepsia idiopática" e inicia fenobarbital, quando na verdade tem SPS — uma condição cirurgicamente tratável.

Circulação Portal Normal

Para entender o SPS, é necessário entender o sistema porta:

  1. Após a digestão, nutrientes, aminoácidos, bactérias intestinais e toxinas entram nas veias do intestino delgado e grosso
  2. Essas veias convergem para a veia porta, que leva esse sangue ao fígado
  3. No fígado: ammonia → ureia (ciclo da ureia); bactérias são fagocitadas; toxinas são metabolizadas; aminoácidos são processados
  4. O sangue "limpo" sai pelo sistema venoso hepático → veia cava caudal → circulação sistêmica

O fígado como "filtro": o sistema porta permite que o fígado "veja" e processe todo o conteúdo absorvido pelo intestino antes que chegue ao resto do organismo.

No feto: existe o ducto venoso — conexão entre a veia porta e a veia cava, que permite que o sangue placentário bypass o fígado (ainda não funcional no feto). Esse vaso deve fechar ao nascimento.

Tipos de Shunt

SPS Extrahepático Congênito

O mais comum em raças pequenas.

O vaso anômalo está fora do fígado — mais frequentemente:

  • Portocava (veia porta → veia cava caudal)
  • Portocava via ázigos (veia porta → veia ázigos)
  • Outras variações

Na maioria dos casos, é um único vaso — facilitando a correção cirúrgica.

SPS Intrahepático Congênito

Mais comum em raças grandes.

O vaso anômalo está dentro do fígado — geralmente o ducto venoso que persistiu após o nascimento.

  • Divisão esquerda (ductus venoso): Irish Wolfhound, Labrador
  • Divisão central ou direita: várias raças grandes

Tecnicamente mais desafiador para cirurgia — acesso ao vaso dentro do parênquima hepático.

SPS Adquirido (Não Congênito)

Resultado de hipertensão portal crônica (cirrose, fibrose hepática) — múltiplos vasos colaterais se desenvolvem para aliviar a pressão portal.

Não é cirúrgico — tratar a doença hepática subjacente.

Fisiopatologia

Encefalopatia Hepática

Sem o fígado para processar, a amônia (produto do metabolismo de proteínas por bactérias intestinais) chega ao cérebro:

  • Amônia interfere com neurotransmissores (GABA, glutamato)
  • Acúmulo de glutamina no astrócito → edema celular
  • Produção de óxido nítrico → disfunção mitocondrial

Gatilho pós-prandial: a digestão de proteínas gera pico de amônia → episódio de encefalopatia 1-3 horas após refeições proteicas.

Modulação dos receptores GABA: amônia e seus metabólitos potencializam o GABA endógeno → efeito "benzodiazepínico endógeno" → sedação, ataxia, comportamento anormal.

Hipocrescimento

A veia porta carrega fatores tróficos hepáticos (IGF, insulina, glucagon). Sem esse estímulo, o fígado fetal/neonatal não cresce adequadamente → microhepatia (fígado pequeno).

Hiperuricemia e Cálculos de Urato

Normalmente: o fígado converte o ácido úrico (produto do metabolismo das purinas) em alantoína (mais solúvel) pela enzima uricase.

No SPS: o fígado com função comprometida falha nessa conversão → hiperuricemia → cristalização de urato de amônio nas vias urinárias → cálculos de urato.

Cálculos de urato de amônio em filhote de raça predisposta = investigar SPS.

Sinais Clínicos

Em Filhotes (Sinais Iniciais)

  • Filhote menor que os irmãos — hipocrescimento
  • Inapetência ou preferência por dietas sem proteína (alguns cães "preferem" vegetais naturalmente)
  • Poliúria/Polidipsia: pelo comprometimento da concentração renal por amônia
  • Urinação frequente com cálculos ou cristais de urato visíveis

Encefalopatia Hepática — Os Episódios

Pós-prandiais (1-3h após refeição proteica) ou espontâneos:

  • Desorientação: cão parece perdido em ambiente familiar
  • Andar em círculos
  • Head pressing: pressionar a cabeça contra parede ou chão
  • Amaurose: cegueira transitória — não responde a ameaça visual
  • Convulsões: epileptiformes, tônico-clônicas
  • Letargia extrema a estupor
  • Salivação excessiva

Os episódios duram minutos a horas e resolvem — o cão volta ao "normal" depois.

Confusão com epilepsia idiopática: muito frequente. A diferença chave: epilepsia idiopática raramente tem gatilho pós-prandial; a bioquímica hepática está normal na epilepsia idiopática.

Cistite Recorrente

Infecção urinária recorrente, hematúria, disúria — por cálculos de urato nas vias urinárias.

Anestesia Problemática

Recuperação anestésica prolongada ou anormal — pelo comprometimento do metabolismo de fármacos no fígado.

Diagnóstico

Bioquímica Sérica

Ácidos biliares pré e pós-prandiais — o teste mais sensível:

  • Colheita em jejum de 12 horas (ácidos biliares pré-prandiais)
  • Refeição com gordura
  • Colheita 2 horas após (ácidos biliares pós-prandiais)
  • Normal: < 15 μmol/L pré; < 25 μmol/L pós
  • SPS: pós-prandiais frequentemente > 100-200 μmol/L (às vezes > 500 μmol/L)

Amônia sanguínea:

  • Colheita em jejum, processamento imediato (amônia se degrada)
  • Elevada em SPS: > 90 μmol/L

Alterações inespecíficas:

  • ALT, ALP levemente elevados ou normais
  • Proteínas totais e albumina reduzidas (fígado com função comprometida)
  • Ureia frequentemente baixa (não há conversão eficiente de amônia em ureia)
  • BUN < 7 mg/dL em jejum é sugestivo

Urinálise

  • Cristais ou cálculos de urato de amônio — sugestivos de SPS
  • Hematúria, piúria (infecção por cálculos)

Ultrassonografia Abdominal

O exame de imagem inicial:

  • Microhepatia — fígado pequeno para o porte
  • Identificação do vaso anômalo em mãos experientes (nem sempre visível)
  • Doppler portal: fluxo portal anômalo, hipofluxo portal
  • Ausência de outros vasos portais intrahepáticos normais em alguns casos

TC com contraste (angiotomografia portal):

  • Identifica com precisão a anatomia do shunt (tamanho, localização, tipo)
  • Planejamento cirúrgico
  • Disponível em centros de referência

Cintigrafia portal com Tc-99m:

  • Gold standard para diagnóstico de SPS
  • Injeção retal de Tc-99m → rastreamento do percurso → shunt visualizado
  • Disponível em poucos centros no Brasil

Hemograma

  • Anemia microcítica hipocrómica — clássica de SPS (metabolismo de ferro comprometido)
  • Leucocitose leve por ativação imune

Tratamento

Manejo Médico Pré-cirúrgico e Paliativo

Objetivo: controlar a encefalopatia e melhorar o estado clínico para a cirurgia.

Dieta de restrição proteica com proteína de alta qualidade:

  • Proteínas vegetais (soja, feijão) e lácteas (caseína) geram menos amônia que proteínas animais
  • Dietas comerciais hepáticas (Royal Canin Hepatic, Hill's l/d)
  • NÃO eliminar proteína completamente — o fígado precisa de proteína para regenerar

Lactulose:

  • Acidifica o cólon → amônia fica como NH4+ (não absorvível) em vez de NH3 (absorvível)
  • Acelera o trânsito intestinal → menos tempo para formação de amônia
  • Dose: 0,5-1 mL/kg VO 2-3x/dia (ajustar para 2-3 evacuações moles/dia)

Antibióticos intestinais:

  • Amoxicilina, metronidazol, neomicina (não absorvível) — reduzem as bactérias urease-positivas que geram amônia
  • Uso rotacional para evitar resistência

Cirurgia — Tratamento Definitivo

O objetivo: ocluir o shunt para forçar o sangue a passar pelo fígado.

Cautela: a oclusão total imediata pode causar hipertensão porta aguda grave (vômito, diarreia sanguinolenta, dor abdominal, morte) — especialmente em fígados muito hipoplásicos que não toleram o súbito aumento do fluxo portal.

Técnicas de oclusão gradual:

Ameróide Constrictor:

  • Anel de ameróide (material higroscópico) colocado ao redor do shunt
  • Absorve fluido e comprime o vaso ao longo de 4-8 semanas até a oclusão completa
  • O fígado tem tempo para adaptar-se progressivamente ao aumento do fluxo
  • Técnica mais utilizada atualmente

Band de Celofane (Cellophane Banding):

  • Banda de celofane envolve o shunt → induz fibrose gradual
  • Oclusão progressiva em 4-12 semanas

Ligadura com sutura:

  • Oclusão imediata — só viável se a medição de pressão porta (intraoperatória) mostrar que o fígado tolera sem hipertensão

Embolização por cateterismo (shunts intrahepáticos):

  • Acesso pela veia jugular ou femoral → embolização percutânea do shunt com coils ou outros agentes
  • Disponível em centros de cardiologia/radiologia veterinária de referência

Pós-operatório

  • Monitorar sinais de hipertensão porta (nas primeiras 24-72h): dor abdominal, vômito, diarreia
  • Manutenção de dieta hepática e lactulose por 3-6 meses até o fígado regenerar
  • Reavaliação de ácidos biliares pós-prandiais aos 3 e 6 meses pós-cirurgia

Prognóstico

SPS extrahepático único com oclusão bem-sucedida:

  • 70-90% de resolução clínica completa — o cão cresce, a encefalopatia desaparece, os cálculos de urato resolvem
  • Mortalidade cirúrgica: 5-10%

SPS intrahepático:

  • Mais complexo — prognóstico dependente da anatomia e da técnica
  • 60-80% de melhora significativa

Shunts múltiplos adquiridos:

  • Não cirúrgico — tratar a causa da hipertensão portal

Sem tratamento:

  • Deterioração progressiva da função hepática e dos episódios encefálicos
  • Qualidade de vida muito comprometida a longo prazo

O Yorkshire Terrier jovem com "epilepsia" que tem episódios pós-prandiais deve ser investigado para SPS antes de iniciar anticonvulsivante. O diagnóstico correto — e a cirurgia no momento certo — pode dar ao animal anos de vida normal.

Perguntas frequentes

O que é shunt portossistêmico em cachorro?+

O Shunt Portossistêmico (SPS) é um vaso sanguíneo anômalo que conecta a veia porta (que normalmente leva sangue rico em nutrientes e toxinas do intestino ao fígado para processamento) diretamente à circulação sistêmica (cava ou ázigos), bypossando o fígado. Sem passar pelo fígado, o sangue intestinal chega à circulação geral com amônia, ácidos biliares, toxinas intestinais, aminoácidos não metabolizados e outros compostos que normalmente seriam filtrados e processados. O resultado é: fígado pequeno (sem o estímulo de crescimento da veia porta), encefalopatia hepática (amônia e toxinas afetam o cérebro), hiperuricemia (ácido úrico não convertido — cálculos de urato no rim e bexiga) e comprometimento geral do crescimento. A maioria dos SPS em raças pequenas é extrahepático congênito — um vaso fetal que não regrediu após o nascimento.

Quais raças têm mais shunt portossistêmico?+

O SPS intrahepático é mais comum em raças grandes: Irish Wolfhound, Labrador Retriever, Golden Retriever, Husky Siberiano. O SPS extrahepático (o mais comum) predomina em raças pequenas: Yorkshire Terrier — raça com maior prevalência documentada de SPS extrahepático; Maltês, Bichon Frisé, Chihuahua, Cairn Terrier, Shih Tzu, Miniature Schnauzer, Poodle Toy. No Yorkshire Terrier, estudos indicam prevalência de 1-2% na raça — muito alta para uma condição cirúrgica. A herança é provavelmente poligênica — filhotes de pais com SPS têm risco aumentado.

Quais são os sinais de shunt portossistêmico em cachorro?+

Os sinais mais comuns em filhotes e adultos jovens de raças pequenas: crescimento retardado — filhote menor que os irmãos de ninhada; encefalopatia hepática — episódios de comportamento anormal (andar em círculos, olhar fixo para paredes, pressionar a cabeça contra superfícies, convulsões, cegueira transitória, letargia extrema) especialmente após as refeições (o pico de amônia pós-prandial piora a encefalopatia); urinação excessiva (poliúria/polidipsia); cálculos vesicais de urato (urina com 'areia', cistite recorrente) — os cálculos de urato em Yorkshire jovem são altamente sugestivos de SPS; anestesia problemática — recuperação lenta ou anormal de anestesias. O achado clínico clássico: Yorkshire Terrier de 6-18 meses, pequeno para a idade, com episódios pós-prandiais de desorientação e convulsão.

O shunt portossistêmico tem cura em cachorro?+

Sim — a cirurgia para oclusão do shunt pode ser curativa em uma proporção significativa dos casos. As técnicas cirúrgicas incluem: ligadura do shunt com fio (oclusão parcial) — a oclusão total imediata pode causar hipertensão porta grave; ameróide constrictor — anel de ameróide (material higroscópico) colocado ao redor do shunt que comprime gradualmente ao longo de 4-6 semanas; band oclusão por celofane — anel de celofane que induz fibrose gradual; embolização intravascular por cateterismo — em centros especializados para shunts intrahepáticos. Após a oclusão bem-sucedida, o fígado recebe o fluxo portal normal e cresce — os sinais de encefalopatia desaparecem. Taxa de resolução clínica com cirurgia: 70-90% em SPS extrahepáticos únicos. Mortalidade cirúrgica: 5-15%. Manejo médico (sem cirurgia): dieta com restrição de proteína de alta qualidade + lactulose + antibióticos intestinais (amoxicilina ou metronidazol) controla a encefalopatia mas não é curativo.