Saúde

Sarna Sarcóptica em Cachorro: Sarcoptes, Prurido Intenso e Zoonose

A sarna sarcóptica (Sarcoptes scabiei var. canis) é uma das dermatoses mais pruriginosas do cão — prurido intenso, progressivo e não sazonal, com crostas nas bordas das orelhas, cotovelos e esterno. É ZOONOSE: transmissível para humanos. Diagnóstico: raspado de pele ou resposta terapêutica. Tratamento com isoxazolines (afoxolaner, fluralaner, sarolaner) ou ivermectina. Tratamento de todos os contatos é obrigatório.

29 de maio de 2026·2 min de leitura

O Vira-lata chegou ao abrigo com alopecia generalizada, crostas nas bordas das orelhas e nos cotovelos. O funcionário que o manipulou sem luvas voltou para casa com coceira intensa nos antebraços dois dias depois.

Sarna sarcóptica. O funcionário tinha a resposta no próprio corpo.

O Ácaro e o Prurido Imunomediado

O Sarcoptes scabiei var. canis é um parasita microscópico que escava a pele — mas o prurido devastador não é causado diretamente pela escavação.

É uma resposta imunológica:

  1. Ácaro deposita fezes, saliva e proteínas na pele
  2. Sistema imune do cão sensibiliza-se: IgE + linfócitos T
  3. Resposta de hipersensibilidade → liberação massiva de histamina e citocinas inflamatórias
  4. Resultado: prurido intenso mesmo com poucos ácaros

Isso explica por que é tão difícil encontrar o ácaro no raspado — poucos ácaros, muito prurido.

O Reflexo Ótico-Podal — Sinal Diagnóstico

Ao coçar a borda do pavilhão auricular do cão com a unha:

  • O cão involuntariamente levanta a pata traseira ipsilateral para coçar
  • Presente em ~75-80% dos casos de sarna sarcóptica
  • Resultado de hipersensibilização dos nervos periféricos
  • Relativamente específico para sarna

Distribuição Típica das Lesões

| Localização | Característica | |---|---| | Bordas das orelhas | Crostas e descamação — sinal mais típico | | Cotovelos e tarsos | Crostas hemorrágicas sobre proeminências ósseas | | Esterno ventral | Eritema e crostas | | Abdômen | À medida que progride | | Generalizado | Casos avançados não tratados |

Zoonose Real

O Sarcoptes do cão infesta humanos — mas não completa o ciclo de vida em pele humana:

  • Causa prurido intenso, especialmente nos antebraços e abdômen
  • Resolve espontaneamente quando o cão é tratado
  • O tratamento do cão = tratamento indireto do humano
  • Caso o humano persista com sintomas: consultar dermatologista (sarna humana pode coexistir)

Tratamento de Primeira Linha

| Medicamento | Posologia | Nota | |---|---|---| | Afoxolaner (NexGard) | 2-3 doses / 4 semanas | Isoxazoline oral | | Fluralaner (Bravecto) | 1-2 doses / 12 semanas | Isoxazoline oral | | Sarolaner (Simparica) | 2-3 doses / 4 semanas | Isoxazoline oral | | Ivermectina | 0,3 mg/kg SC semanal | Contraindicada em MDR1 |

Tratar todos os cães em contato — obrigatório.

Perguntas frequentes

O que é a sarna sarcóptica e como se transmite?+

A sarna sarcóptica é causada pelo ácaro Sarcoptes scabiei var. canis — um parasita obrigatório que vive nos túneis que escava na epiderme do cão. O ácaro: microscópico (0,2-0,4 mm); fêmea escava túneis na camada córnea da pele para depositar ovos; os ovos eclodem em 3-4 dias; ciclo de vida de 17-21 dias; Mecanismo do prurido: o prurido intenso é predominantemente IMUNOMEDIADO, não diretamente mecânico; o organismo do cão reage às fezes, saliva e proteínas do ácaro → resposta de hipersensibilidade imediata (IgE) e tardia (linfócitos T); mesmo poucos ácaros causam prurido intenso em cão sensibilizado; Transmissão: contato direto com cão infestado (o mais comum); cama, coleiras, acessórios compartilhados; ambiente (o ácaro sobrevive fora do hospedeiro por até 3-4 dias); Zoonose: S. scabiei var. canis pode infecções os humanos que convivem com o cão; na pele humana, o ácaro não completa o ciclo de vida (hospedeiro inadequado) — mas causa prurido intenso, especialmente nos antebraços e barriga; a infestação humana se resolve espontaneamente quando o cão é tratado; tratar o cão é tratamento indireto dos humanos.

Quais são os sinais clínicos da sarna sarcóptica?+

A sarna sarcóptica tem padrão de distribuição característico. Localização típica das lesões: Bordas das orelhas: crostas e descamação nas margens do pavilhão auricular — sinal muito sugestivo de sarna; Reflexo ótico-podal: ao coçar a borda da orelha com a unha, o cão involuntariamente levanta a pata traseira ipsilateral para coçar — reflexo de scratch (sensibilização dos nervos periféricos); presente em 75-80% dos casos — sinal clínico útil; Cotovelos e tarsos: crostas hemorrágicas e alopecia nas proeminências ósseas; Esterno ventral: crostas e eritema; Abdômen ventral; Cabeça: à medida que a infestação progride. Sinais gerais: Prurido extremamente intenso — frequentemente incessante; prurido não sazonal (diferente da atopia) e progressivo; o cão se coça, morde e esfrega dia e noite; perda de sono do cão e do tutor; Progressão sem tratamento: alopecia generalizada; hiperpigmentação e liquenificação; infecção bacteriana secundária (pioderma); linfonodomegalia generalizada; caquexia em casos prolongados. Diagnóstico diferencial: a sarna sarcóptica mimetiza atopia, alergia alimentar e outras dermatites; o prurido muito intenso + distribuição típica + exposição a cão de rua sugere fortemente sarna.

Como diagnosticar e tratar a sarna sarcóptica?+

Diagnóstico: Raspado de pele profundo: o método diagnóstico clássico; coletar em múltiplos locais (bordas das orelhas, cotovelos); visualizar ácaros, ovos ou fezes ao microscópio; sensibilidade: ~50% — um resultado negativo NÃO exclui sarna sarcóptica (os ácaros são difíceis de encontrar); teste ELISA: teste sorológico para anticorpos anti-Sarcoptes; maior sensibilidade que o raspado; disponível em laboratórios de referência; Diagnóstico terapêutico (ex juvantibus): tratamento empírico para sarna em cão com prurido intenso de distribuição típica; se o cão melhora com tratamento = diagnóstico confirmado. Tratamento: Isoxazolines — PRIMEIRA LINHA: afoxolaner (NexGard): 1-3 doses com intervalo de 2-4 semanas; fluralaner (Bravecto): 1-2 doses com intervalo de 12 semanas; sarolaner (Simparica): 1-3 doses; eficácia >95%; seguro em raças MDR1; Ivermectina: 0,3 mg/kg SC semanal × 4-6 semanas; eficaz mas CONTRAINDICADA em Collies, Pastores Americanos, Shelties (mutação MDR1); Selamectina (Revolution): aplicação tópica spot-on a cada 2-4 semanas; Milbemicina: alternativa oral; Todos os animais em contato: tratar todos os cães e gatos do domicílio; Ambiente: lavagem de camas com água quente (≥60°C); o ácaro não sobrevive no ambiente por mais de 3-4 dias; Corticosteroides: para controle do prurido no início do tratamento enquanto aguarda ação antiparasitária — curto prazo.

A sarna sarcóptica pode ser confundida com outras doenças?+

Sim — a sarna sarcóptica é frequentemente chamada de 'o grande imitador' em dermatologia veterinária. Principais condições para diferenciar: Dermatite Atópica (DA): similaridades: prurido intenso, evolução crônica; diferenças: DA tem sazonalidade inicial frequente; DA concentra-se em face, virilha, interdigital (não bordas das orelhas e cotovelos); teste de alergia + histórico; o reflexo ótico-podal é mais sugestivo de sarna; Alergia alimentar: prurido não sazonal e contínuo — similar; a distribuição é diferente — alergia alimentar mais comum em face, patas, virilha; Demodicose: alopecia sem prurido intenso (até a infecção bacteriana secundária); raspado mostra Demodex, não Sarcoptes; não é zoonose; Dermatofitose (tinha): lesões circulares alopécicas menos pruriginosas; cultura e fluorescência com lâmpada de Wood; Cheyletiellase: ácaro Cheyletiella; escamas abundantes ('caspa caminhante'); prurido moderado; visível com lupa. A regra clínica: se o cão tem prurido intenso que não cede a corticosteroide em dose adequada, suspeite de sarna sarcóptica e trate empiricamente — mesmo com raspado negativo. Resposta ao tratamento = diagnóstico.