Saúde

Ruptura do Ligamento Cruzado em Cachorro: Sintomas e Tratamento Cirúrgico

A ruptura do ligamento cruzado cranial é a cirurgia ortopédica mais comum em cães. Causa claudicação aguda do membro posterior. Raças grandes são mais afetadas. TPLO e TTA são os procedimentos cirúrgicos de referência. Sem cirurgia, a artrose é progressiva.

27 de maio de 2026·6 min de leitura

A ruptura do ligamento cruzado cranial (LCC) — equivalente ao ligamento cruzado anterior humano — é a lesão ortopédica mais comum em cães, responsável pela grande maioria das cirurgias ortopédicas realizadas na medicina veterinária. Diferente do ACL humano (que frequentemente rompe por trauma agudo em esportes), no cão a ruptura do LCC é predominantemente degenerativa — o ligamento enfraquece progressivamente até romper.

O Joelho Canino e o Ligamento Cruzado Cranial

O joelho canino (articulação femorotibiopatelar) tem estrutura similar ao humano mas com uma diferença importante: a plataforma tibial do cão tem uma inclinação (angulação caudal de 20-30°). Essa inclinação cria uma força que desliza a tíbia para frente em relação ao fêmur durante o apoio — o LCC é o principal estabilizador contra esse deslizamento (chamado "thrust cranial").

O LCC canino suporta estresse constante durante qualquer apoio do membro — ao contrário do ACL humano, que só é fortemente solicitado durante rotação e pivotamento. Isso explica por que o LCC canino se degenera progressivamente com a idade e o uso.

Por que Rompe — Fisiopatologia

Degeneração Progressiva (Principal Mecanismo)

A maioria das rupturas do LCC em cães não é traumática — é o desfecho de degeneração progressiva do ligamento:

  1. Alterações inflamatórias e degenerativas começam no tecido ligamentar (provavelmente imunomediadas em parte)
  2. O ligamento perde resistência progressivamente
  3. Ruptura parcial primeiro — pode ser assintomática ou causar claudicação intermitente
  4. Ruptura completa — claudicação aguda

Implicação: o outro joelho tem risco alto de desenvolver ruptura futura. Estudos mostram que 30-50% dos cães com ruptura unilateral desenvolvem ruptura no joelho contralateral dentro de 2 anos.

Fatores Predisponentes

Raça: algumas raças têm prevalência altamente elevada — Rottweiler, Labrador Retriever, Golden Retriever, Newfoundland, Mastiff, Staffordshire Bull Terrier, West Highland White Terrier.

Obesidade: o excesso de peso aumenta o estresse sobre o LCC.

Angulação da plataforma tibial: cães com maior angulação têm mais força de thrust cranial — maior estresse sobre o LCC.

Castração precoce: estudos em Labradors, Goldens e Rottweilers mostram associação entre castração antes de 12-24 meses e risco aumentado de ruptura do LCC — possível efeito dos hormônios sexuais na maturação dos tecidos conectivos.

Apresentação Clínica

Ruptura Aguda Completa

  • Claudicação aguda e grave — o cão subitamente não apoia o membro posterior
  • Pode ou não ter sido precedida de sinais
  • Inchaço do joelho rapidamente
  • Dor à manipulação

Ruptura Parcial

  • Claudicação intermitente — piora após exercício, melhora com repouso
  • Progressiva ao longo de semanas a meses
  • Articulação pode parecer quase normal em repouso

Menisco Lesionado (Complicação)

O menisco medial é frequentemente lesionado em conjunto com o LCC. Sinais típicos: "clique" ou "pop" audível durante a marcha ou na palpação do joelho — som de "rolha de garrafa".

A lesão meniscal causa dor adicional e piora o prognóstico se não for tratada cirurgicamente.

Diagnóstico

Exame Ortopédico

Teste de gaveta (drawer test): o veterinário estabiliza o fêmur e desliza a tíbia — em LCC intacto, não há deslizamento; na ruptura, há movimento cranial anormal da tíbia.

Teste de compressão tibial (Tibet compression test): flexionar o tarso com o joelho levemente estendido — em LCC rompido, causa movimento cranial da tíbia.

Crepitação e inchaço: palpação do joelho revela efusão articular (líquido), espessamento da cápsula e crepitação.

Radiografia

Não visualiza o ligamento diretamente — mas mostra:

  • Efusão articular (apagamento da gordura infrapatelar)
  • Artrose (osteófitos, esclerose subchondral)
  • Mineralização do ligamento em casos crônicos
  • Posição relativa do fêmur e tíbia

Radiografia confirma suspeita clínica e fornece informações para o planejamento cirúrgico (medição da plataforma tibial para TPLO).

Artroscopia

Permite visualização direta do LCC, meniscos e cartilagem — diagnóstico definitivo e tratamento concomitante de lesões meniscais.

Tratamento

Tratamento Cirúrgico — Indicado para Médio e Grande Porte

TPLO (Tibial Plateau Leveling Osteotomy)

O procedimento de referência na maioria dos centros especializados.

Princípio: a plataforma tibial inclinada gera thrust cranial que sobrecarrega o LCC. A TPLO faz um corte circular na tíbia (osteotomia), gira o fragmento para nivelar a plataforma a 0-5° de inclinação — eliminando o thrust cranial. O joelho torna-se estável sem o LCC.

Fixação: placa e parafusos de titânio.

Resultados: excelentes a longo prazo — a maioria dos cães retorna a atividade plena em 4-6 meses. Melhor documentação científica de todos os procedimentos.

TTA (Tibial Tuberosity Advancement)

Princípio diferente: avança a tuberosidade tibial (onde se insere o ligamento patelar) para que o ligamento patelar fique perpendicular à plataforma tibial — neutraliza o thrust cranial por mecanismo biomecânico diferente.

Resultados: similares ao TPLO em estudos comparativos.

Variações: TTA-Rapid, TTA-2 (técnicas mais recentes com modificações no implante).

Técnicas Extra-Articulares (Sutura Lateral)

Para cães pequenos (< 10-15 kg): sutura com nylon grosso que substitui o LCC externamente. Menos estável que TPLO/TTA mas adequada para cães leves.

Limitação: a sutura eventualmente perde a estabilidade com o tempo — o joelho passa a depender da fibrose periarticular para estabilidade.

Tratamento Meniscal

Durante a cirurgia de TPLO/TTA, o menisco é avaliado:

  • Menisco íntegro: liberação meniscal profilática (parcial) — debatida
  • Menisco lesionado: meniscectomia parcial (remoção do fragmento lesionado)

Tratamento Conservador (Cães < 10 kg, casos selecionados)

Repouso restrito: 8-12 semanas de restrição total de atividade.

Fisioterapia veterinária: fortalecimento muscular, hidroaterapia.

Controle da dor: AINEs, gabapentina.

Limitação: o joelho permanece instável — artrose progride. Taxa de retorno à função normal: ~50% em cães pequenos (contra > 85% com cirurgia em cães grandes).

Fisioterapia Pós-Cirúrgica

Componente fundamental da recuperação:

  • Hidroterapia (esteira subaquática) — permite exercício sem apoio completo do peso
  • Laser de baixa intensidade — reduz inflamação e dor
  • Exercícios de propriocepção — reequilíbrio articular
  • Fortalecimento progressivo dos músculos do membro

Protocolo típico:

  • Semana 1-2: laser, massagem passiva, sem exercício ativo
  • Semana 3-4: hidroterapia iniciada, passeios brevíssimos
  • Semana 5-8: hidroterapia intensificada, exercícios de propriocepção
  • Semana 8-12: retorno gradual ao exercício em solo

Prognóstico

Com cirurgia (TPLO ou TTA) + fisioterapia:

  • 85% dos cães retornam a atividade plena em 4-6 meses

  • Artrose progride mas mais lentamente que sem cirurgia
  • Joelho contralateral: monitoramento obrigatório

Sem cirurgia (raças de médio/grande porte):

  • Artrose progressiva e grave
  • Dor crônica
  • Perda funcional progressiva do membro

Prevenção

  • Controle do peso — obesidade é fator de risco modificável
  • Exercício regular e moderado — fortalece musculatura estabilizadora do joelho
  • Evitar exercício intenso irregular ("weekend warrior" — cão sedentário durante a semana com exercício extenuante aos finais de semana)
  • Considerar não castrar precocemente em raças de grande porte — conversar com o veterinário sobre o momento ideal

Perguntas frequentes

Como saber se meu cachorro rompeu o ligamento cruzado?+

Sinais de ruptura do ligamento cruzado cranial (LCC) em cães: claudicação súbita ou progressiva do membro posterior — o cão para de apoiar a pata, anda em três patas ou apoia com a ponta dos dedos; 'estalo' audível no momento da ruptura (nem sempre percebido); inchaço do joelho; o joelho sente-se frouxo quando o veterinário realiza o 'teste de gaveta' (deslizamento anormal da tíbia em relação ao fêmur). Em rupturas parciais, a claudicação pode ser intermitente — piora após exercício intenso, melhora com repouso, piora novamente. O diagnóstico definitivo é pela avaliação ortopédica e pode ser confirmado por artroscopia ou cirurgia.

Ruptura de ligamento cruzado em cachorro precisa de cirurgia?+

Para a maioria dos cães — especialmente os de médio a grande porte — a cirurgia é o tratamento de escolha. Sem cirurgia, a articulação permanece instável, causando degeneração articular progressiva (artrose grave) e dor crônica. A taxa de retorno à função normal sem cirurgia é baixa em cães grandes. Em cães de pequeno porte (< 10 kg), o tratamento conservador (repouso + fisioterapia) tem taxas de sucesso maiores — alguns se recuperam adequadamente sem cirurgia, mas artrose ainda progride. A decisão deve ser feita com o ortopedista veterinário avaliando o caso específico.

O que é TPLO e TTA para cachorro?+

TPLO (Tibial Plateau Leveling Osteotomy) e TTA (Tibial Tuberosity Advancement) são os dois procedimentos cirúrgicos mais usados para ruptura do LCC em cães. Ambos corrigem a instabilidade sem substituir o ligamento rompido — em vez disso, modificam a geometria da articulação para que ela seja estável sem o ligamento. TPLO: corte circular na tíbia e rotação para nivelar a plataforma tibial — o procedimento com melhor documentação científica de longo prazo; amplamente considerado o padrão ouro. TTA: avanço da tuberosidade tibial — eficaz, com bons resultados documentados; algumas variações técnicas como TTA-Rapid e TTA-2. Ambos requerem especialização em ortopedia veterinária.

Qual é o tempo de recuperação da cirurgia de ligamento cruzado em cachorro?+

Recuperação pós-TPLO ou TTA: 8-12 semanas de restrição de atividade. Semanas 1-2: repouso quase absoluto, passeios brevíssimos (5 minutos) na guia apenas para necessidades. Semanas 3-6: reintrodução gradual do exercício; fisioterapia recomendada (hidroterapia, laser, exercícios específicos). Semanas 6-12: aumento progressivo do exercício com supervisão. Semanas 12+: retorno gradual à atividade normal. Fisioterapia veterinária acelera significativamente a recuperação e melhora o resultado final. Radiografia de controle em 8-10 semanas confirma a cicatrização óssea.