Queratite em Cachorro: Inflamação da Córnea — Tipos, Causas e Tratamento
Queratite é a inflamação da córnea — causa dor, lacrimejamento, opacidade e blefarospasmo. Pode ser infecciosa, imunomediada (pannus) ou por exposição. Pastor Alemão tem predisposição ao pannus. Tratamento varia de colírios antibióticos a ciclosporina.
A queratite — inflamação da córnea — é uma das condições oftalmológicas mais dolorosas em cães e, se não tratada, pode causar perda permanente de visão. A córnea é a estrutura frontal transparente do olho, responsável por transmitir e focalizar a luz. Quando inflamada, perde sua transparência e a função visual é comprometida progressivamente.
A identificação precoce é crítica: muitos tipos de queratite — especialmente úlcera de córnea — progridem rapidamente e podem resultar em perfuração ocular em dias sem tratamento adequado.
Anatomia da Córnea
A córnea saudável tem características únicas:
- Avascular: sem vasos sanguíneos (recebe nutrição do humor aquoso e do filme lacrimal)
- Transparente: permite passagem da luz com mínima dispersão
- Altamente inervada: uma das estruturas mais sensíveis do corpo — por isso a queratite é muito dolorosa
- Cinco camadas: epitélio → membrana de Bowman → estroma → membrana de Descemet → endotélio
A presença de vasos sanguíneos na córnea (vascularização) é sempre patológica — sinal de inflamação ou hipóxia crônica.
Sinais Clínicos
| Sinal | Descrição | |---|---| | Blefarospasmo | Olho semicerrado por dor — sinal de dor ocular intensa | | Lacrimejamento | Epífora — lágrimas escorrendo pelo focinho | | Fotofobia | Evita luz intensa; pisca excessivamente | | Opacidade corneana | Brancamento, opacidade azulada (edema), pigmentação escura | | Vascularização | Vasos vermelhos visíveis na superfície da córnea | | Secreção | Mucoide ou mucopurulenta dependendo da causa | | Defeito epitelial | Úlcera — corado com fluoresceína (verde sob luz de Wood) |
Colar elizabetano: cão com queratite frequentemente esfrega o olho — o esfregamento pode transformar úlcera superficial em profunda ou causar perfuração. O colar é obrigatório até a resolução.
Classificação e Tipos
Queratite Ulcerativa (Úlcera de Córnea)
A forma mais comum e urgente. Perda de epitélio e porção variável do estroma.
Classificação por profundidade:
- Superficial: apenas o epitélio — cura em 5-7 dias com tratamento
- Estromal: penetra no estroma — semanas para curar; risco de progressão
- Descemetocele: estroma totalmente perdido, somente a membrana de Descemet visível — EMERGÊNCIA — risco iminente de perfuração
- Perfuração: ruptura total — emergência cirúrgica
Diagnóstico: coloração com fluoresceína — o corante adere ao estroma exposto e emite fluorescência verde-amarela sob luz de Wood (luz azul). Qualquer oftalmologista veterinário ou clínico geral tem essa coloração.
Causas comuns:
- Trauma (arranhão, corpo estranho, entrópion)
- Ressecamento (ceratoconjuntivite seca — KCS)
- Infecção bacteriana secundária
- Queratite por exposição (lagoftalmia em braquicefálicos)
Úlcera indolente (SCCED): úlcera superficial que não cicatriza após 3-4 semanas — frequente em Boxer, Corgi, Husky. O epitélio não adere adequadamente ao estroma. Tratamento: desbridamento mecânico + estromectomia superficial (keratotomy em grade).
Queratite Superficial Crônica — Pannus (QSC)
Condição imunomediada específica do Pastor Alemão (e Pastor Belga, com menor prevalência).
Mecanismo: linfócitos T atacam a córnea → infiltrado inflamatório → invasão de vasos sanguíneos e melanócitos → opacificação progressiva.
Localização inicial: quadrante temporal inferior (canto externo-inferior) da córnea — avança centripetamente.
Fator ambiental crítico: radiação UV é o principal fator desencadeante e agravante. Pastores Alemães em altitudes elevadas (Andes, planalto), em regiões de sol intenso ou que ficam muitas horas ao sol desenvolvem pannus com mais frequência e gravidade.
Progressão sem tratamento: vascularização → pigmentação → opacificação → cegueira bilateral.
Diagnóstico: clínico — a aparência e a raça são diagnósticas. Confirmação pode ser feita por citologia (raspado da lesão) mostrando linfócitos e plasmócitos.
Tratamento:
- Ciclosporina 0,2% colírio (Optimmune): 2x/dia indefinidamente — inibe a resposta imune T-cell mediada
- Tacrolimus 0,02-0,03% colírio: alternativa quando ciclosporina é insuficiente — mais potente
- Corticosteroides tópicos (prednisolona, dexametasona): uso inicial para casos avançados; não usar se houver úlcera
- Proteção UV: óculos de proteção para cães (Doggles) — reduz a exposição UV significativamente
- Evitar horários de pico solar (10h-16h)
Expectativa: controle é excelente na maioria dos casos. Lesões antigas (fibrose e pigmentação densa) não regridem completamente. O tratamento evita progressão.
Queratite Bacteriana
Infecção bacteriana da córnea — geralmente secundária a úlcera existente.
Agentes: Staphylococcus, Pseudomonas (grave — destrói estroma rapidamente), Streptococcus.
Sinais de infecção ativa: secreção purulenta, úlcera com bordas esmaecidas, estroma edemaciado e turvo.
Urgência: Pseudomonas produz enzimas que dissolvem o estroma em horas — emergência oftalmológica.
Tratamento: colírio antibiótico de amplo espectro em alta frequência (ciprofloxacino, tobramicina a cada 2-4 horas nas primeiras 24h); cultura e antibiograma quando disponível.
Queratite por Exposição (Lagoftalmia)
O olho não fecha adequadamente — a córnea fica exposta ao ressecamento e trauma.
Causas:
- Braquicefalismo severo — exoftalmia (olhos proeminentes) + pálpebras não cobrem o olho
- Paralisia facial
- Exoftalmia por massa retrobulbar
Tratamento: lubrificante artificial frequente + tratamento da causa (cirurgia para braquicefálicos severos).
Queratite Fúngica
Rara em cães — mais comum em gatos. Associada a trauma com material vegetal (espinho, folhas). Tratamento com voriconazol ou itraconazol tópico e sistêmico.
Queratite Intersticial (Profunda)
Inflamação das camadas profundas da córnea sem úlcera — frequentemente imunomediada ou por uveíte anterior.
Causas: Leishmaniose (muito importante no Brasil), hepatite infecciosa canina (CAV-1), brucela.
Sinal: edema corneano difuso (córnea azulada) — "olho azul".
Diagnóstico Oftalmológico
Coloração com Fluoresceína
Imprescindível em qualquer olho vermelho — detecta úlceras que podem não ser visíveis a olho nu.
Teste de Schirmer (STT)
Avalia a produção lacrimal — fundamental para descartar KCS como causa da queratite. Realizado ANTES de qualquer colírio.
Tonometria
Pressão intraocular — úlcera grave pode ser associada a uveíte (baixa pressão) ou glaucoma secundário.
Citologia de Raspado Corneano
Em casos de queratite infecciosa: raspado da lesão para citologia e cultura.
Lâmpada de Fenda (Biomicroscopia)
Exame detalhado das estruturas oculares — ideal para avaliar profundidade da úlcera, vascularização e câmara anterior.
Tratamento por Tipo
| Tipo | Tratamento Principal | |---|---| | Úlcera superficial | Antibiótico tópico + lubrificante + colar elizabetano | | Úlcera profunda/descemetocele | Emergência: cirúrgica (enxerto conjuntival, rotação de flap) | | Pannus (QSC) | Ciclosporina ou tacrolimus colírio — vitalício | | Queratite bacteriana | Antibiótico em alta frequência + cultura | | Queratite por exposição | Lubrificante + correção cirúrgica da causa | | SCCED (indolente) | Desbridamento mecânico + keratotomy |
Prognóstico
- Úlcera superficial tratada precocemente: excelente — cicatrização completa sem sequelas em 1-2 semanas
- Úlcera profunda com tratamento adequado: bom, possível cicatriz (nebula, leucoma) residual com impacto variável na visão
- Descemetocele/perfuração: reservado — cirurgia imediata pode salvar o olho; resultado depende da extensão
- Pannus: muito bom com tratamento vitalício — a maioria dos cães mantém visão funcional por toda a vida com colírio regular
- Queratite bacteriana por Pseudomonas: reservado — pode progredir de úlcera a perfuração em 24-48 horas sem tratamento agressivo
Perguntas frequentes
O que é queratite em cachorro?+
Queratite é a inflamação da córnea — a camada transparente e avascular que cobre a parte frontal do olho. A córnea saudável é completamente transparente, permitindo a passagem da luz. Quando inflamada, pode ficar opaca (branca, cinza ou azulada), vascularizada (vasos sanguíneos visíveis, que normalmente não existem na córnea) e ulcerada. Sinais: olho vermelho, lacrimejamento excessivo, blefarospasmo (olho semicerrado), fotofobia (evita luz), secreção ocular, opacidade visível na córnea. É uma condição dolorosa — cão com queratite frequentemente esfrega o olho.
O que é pannus em cachorro?+
Pannus (Queratite Superficial Crônica — QSC) é uma doença imunomediada da córnea específica e muito prevalente no Pastor Alemão. O sistema imunológico ataca a córnea, causando invasão de vasos sanguíneos e tecido pigmentado que avança progressivamente da periferia da córnea para o centro — se não tratado, pode levar à cegueira por opacificação total. É fortemente associada à radiação ultravioleta (UV): Pastores Alemães em altitudes elevadas ou em regiões de sol intenso são mais afetados. Tratamento é com ciclosporina tópica ou tacrolimus tópico — controla mas não cura. O cão com pannus usa colírio para o resto da vida e deve ter proteção ocular do sol.
Queratite em cachorro tem cura?+
Depende do tipo: Queratite infecciosa (bacteriana, por herpesvírus felino — mais em gatos, fúngica): tratada a causa, a córnea pode cicatrizar completamente. Úlcera de córnea simples: cicatriza em 5-7 dias com tratamento adequado. Pannus (QSC imunomediada): não tem cura — o tratamento controla a doença e pode estabilizar ou regredir a vascularização, mas se interrompido, o pannus avança novamente. É tratamento vitalício. Queratite por exposição (olho que não fecha adequadamente — lagoftalmia, comum em braquicefálicos): requer correção cirúrgica da causa. Úlcera de córnea profunda ou descemetocele (comprometimento de camadas profundas): emergência — risco de perfuração.
Como tratar queratite em cachorro?+
O tratamento depende da causa: Queratite bacteriana: colírio antibiótico de amplo espectro (ciprofloxacino, tobramicina, cloranfenicol) 4-6x/dia. Úlcera de córnea: antibiótico + protetores da córnea (colírio lubrificante), colar elizabetano obrigatório para prevenir automutilação. Pannus/QSC: ciclosporina 0,2% (Optimmune) ou tacrolimus 0,02-0,03% colírio — 2x/dia indefinidamente. Corticosteroides tópicos (prednisolona colírio, dexametasona) podem ser usados inicialmente mas não na presença de úlcera. Proteção solar: óculos de proteção caninos ou evitar horários de pico de UV. Queratite por exposição: cirurgia de correção de entrópion, lagoftalmia (braquicefálicos) ou tarsorrafia temporária.
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