Saúde

Prolapso de Disco Intervertebral (IVDD) em Cachorro: Hérnia de Disco

O Prolapso de Disco Intervertebral (IVDD) é a principal causa de paralisia em cães — material do disco comprime a medula espinhal. Dachshund, Beagle e Cocker têm alta predisposição. Grau de dor e perda de locomoção orientam o tratamento: cirurgia ou tratamento conservador.

27 de maio de 2026·7 min de leitura

O IVDD é a emergência neurológica mais frequente em medicina veterinária de pequenos animais — e uma que divide claramente em dois grupos: os que chegam com "o cão está com dor nas costas" (tratamento conservador, ótimo prognóstico) e os que chegam com "o cão acordou ontem e não levanta mais" (emergência cirúrgica, prognóstico determinado pela velocidade de intervenção).

Para donos de Dachshunds — e de qualquer raça condrodistrófica — conhecer os sinais e entender que paralisia em progressão é emergência veterinária pode ser a diferença entre um cão que caminha novamente e um cão permanentemente paraplégico.

Anatomia do Disco Intervertebral

O disco intervertebral está entre cada par de vértebras. Composto por:

Núcleo pulposo: material gelatinoso, rico em proteoglicanos e água — o "gel" amortecedor que absorve impacto.

Anel fibroso: camadas concêntricas de fibrocartilagem que envolve o núcleo — resistente à compressão e tensão.

Endplacas cartilaginosas: fazem a interface com os corpos vertebrais.

Em cão adulto normal: o núcleo pulposo mantém o caráter gelatinoso — deformável, elástico.

Tipos de IVDD

Hansen Tipo I — Extrusão (Condrodistrófico)

O mais comum em raças condrodistróficas.

  1. Metaplasia condroide precoce: nas raças condrodistróficas, o núcleo pulposo começa a substituir sua matriz gelatinosa por tecido cartilaginoso e depois ósseo — calcificação progressiva.
  2. Fragilidade: o núcleo calcificado é quebradiço em vez de elástico.
  3. Ruptura aguda do anel: com movimento súbito, esforço ou trauma mínimo, o anel fibroso rompe e o núcleo calcificado é extrudado explosivamente para dentro do canal espinhal.
  4. Compressão medular aguda: o material contundente comprime e contunde a medula — combinação de compressão + lesão por concussão.

Características:

  • Início agudo a subagudo (horas a 1-2 dias)
  • Frequentemente sem trauma identificável
  • Risco maior em jovens a adultos jovens (2-7 anos em Dachshunds)
  • Alta probabilidade de déficit neurológico significativo

Hansen Tipo II — Protrusão (Não-Condrodistrófico)

Mais comum em raças grandes de médio a grande porte.

  1. Degeneração fibroide lenta do anel fibroso (envelhecimento normal acelerado)
  2. O anel fibroso abaula para o canal espinhal sem ruptura — protrusão gradual
  3. Compressão medular crônica e progressiva

Características:

  • Início insidioso (semanas a meses)
  • Cães mais velhos (6-10+ anos)
  • Déficit neurológico gradual — frequentemente interpretado como "envelhecimento"
  • Mielopatia por compressão crônica pode causar lesão desmielinizante difusa

Hansen Tipo III — Extrusão de Alta Velocidade

"Cough disc" ou "high velocity, low volume" extrusion:

  • Material mínimo, mas extrudado com força explosiva (pressão muito alta)
  • Síndrome de contusão medular aguda severa sem compressão persistente
  • Ressonância magnética pode mostrar lesão medular sem compressão significativa
  • Prognóstico variável — depende da extensão da contusão

Localizações Mais Comuns

Região Toracolombar (T3-L3) — A mais frequente:

  • Segmentos T11-T13 e L1-L3 são os mais afetados
  • Causa paraparesia/paraplegia dos membros pélvicos
  • Bexiga e intestino frequentemente afetados (incontinência)

Região Cervical (C1-C7):

  • C2-C3, C5-C6 são os mais afetados
  • Causa dor cervical intensa + tetraparesia
  • O cão não move o pescoço, postura de pescoço rígido

Região Lombar Baixa (L4-S3):

  • Síndrome da cauda equina — dor lombar, claudicação dos pélvicos, incontinência urinária/fecal

Classificação Neurológica e Prognóstico

| Grau | Sinais | Prognóstico | Tratamento | |---|---|---|---| | 1 | Dor; sem déficit motor ou sensitivo | Excelente | Conservador | | 2 | Paresia ambulatória (anda com fraqueza) | Bom | Conservador ou cirúrgico | | 3 | Paresia não-ambulatória (não anda, tenta) | Bom | Cirurgia recomendada | | 4 | Paraplegia; dor profunda preservada | Favorável | Cirurgia urgente | | 5 | Paraplegia; sem dor profunda | Reservado | Cirurgia emergencial (< 24-48h) |

Teste de Dor Profunda

O exame prognóstico mais importante:

Apertar a falange proximal do dígito com hemostática (alligator forceps) com pressão suficiente para causar dor:

  • Resposta positiva (dor profunda preservada): o cão retira o membro, vocaliza ou olha para o membro — a via de dor profunda (que percorre a substância branca profunda da medula) está intacta
  • Resposta ausente (dor profunda ausente): sem reação — apenas reflexo espinhal de retirada (que ocorre mesmo sem dor conscientemente percebida)

Interpretação: dor profunda ausente = lesão grave da substância branca medular. Janela de cirurgia < 24-48h antes de mielomalacia progressiva irreversível.

Diagnóstico

Exame Neurológico

  • Propriocepção: o cão coloca a pata "virada" no dorso e não a corrige?
  • Reflexos miotáticos (patelar, tibial cranial)
  • Reflexo perineal
  • Tônus anal e vesical
  • Localizar o segmento medular afetado (lesão cranial a L4 → paresia espástica; caudal a L4 → paresia flácida)

Imagem — O Padrão-Ouro

Ressonância Magnética (RM):

  • Identifica localização exata e extensão do disco extrudado
  • Avalia a medula (edema, mielomalacia)
  • Padrão-ouro para planejamento cirúrgico
  • Crescentemente disponível em clínicas de referência no Brasil

TC (Tomografia Computadorizada):

  • Excelente para identificar calcificações do disco extrudado
  • Menos sensível para avaliar lesão medular
  • Mais disponível que RM

Mielografia:

  • Injeção de contraste intratecal; visualiza a compressão
  • Cada vez mais substituída pela RM/TC

Radiografia:

  • Mostra calcificações discais e estreitamento do espaço intervertebral
  • Não visualiza o canal espinhal diretamente
  • Triagem inicial para identificar discos calcificados

Tratamento

Tratamento Conservador (Graus 1-2)

Repouso estrito em gaiola: 4-6 semanas — o mais importante e mais difícil de cumprir. Absolutamente sem correr, pular, subir escadas ou socializar livremente. O repouso permite a cicatrização do anel e a resolução da inflamação medular.

Anti-inflamatório: meloxicam 0,1 mg/kg/dia VO por 5-7 dias (AINEs — NÃO combinar com corticosteroides).

Analgesia: gabapentina (10-20 mg/kg 2-3x/dia), tramadol (5 mg/kg 3x/dia) — para cães com dor intensa.

Relaxante muscular: metocarbamol se espasmo muscular intenso.

Fisioterapia (após fase aguda): massagem, movimentação passiva, hidroterapia — acelera a recuperação.

Falha do conservador: se o cão piora ou não melhora em 7-10 dias → cirurgia.

Tratamento Cirúrgico

Indicação: grau 3-5, ou grau 1-2 que não melhora ou piora com conservador.

Técnicas:

Hemilaminectomia: remoção de parte do arco vertebral de um lado → acesso ao canal espinhal → remoção do material discal extrudado.

Minihemilaminectomia / slot ventral (cervical): para IVDD cervical.

Fenestração: remoção do núcleo do disco sem abrir o canal — indicada para prevenção de recidiva, não para tratamento da extrusão ativa.

Timing cirúrgico:

  • Grau 4: dentro de 12-24 horas idealmente
  • Grau 5: emergência — < 24-48h de ausência de dor profunda. Cada hora conta.

Prognóstico cirúrgico:

  • Graus 1-3: recuperação em 4-8 semanas na maioria
  • Grau 4: 80-90% de recuperação
  • Grau 5 com dor profunda ausente há < 48h: 50-60% de recuperação
  • Grau 5 com dor profunda ausente há > 48h: < 30% de recuperação (mielomalacia progressiva)

Mielomalacia Progressiva Ascendente

A complicação mais temida.

Em casos de lesão medular grave (especialmente grau 5 tardio), a necrose medular pode se propagar cranialmente de forma progressiva — a mielomalacia ascendente.

Sinais: progressão rápida da paralisia para os membros torácicos; perda da sensibilidade em dermátomos progressivamente mais craniais; paralisia respiratória eventual.

Não é tratável — é indicação de eutanásia quando diagnosticada.

Pós-Operatório e Reabilitação

Cuidados essenciais pós-IVDD:

Bexiga: cães com paraplegia frequentemente têm retenção urinária — necessita de esvaziamento manual (compressão da bexiga) ou cateterismo 3-4x/dia até que o controle vesical retorne.

Escaras: cão não ambulatório precisa de superfície acolchoada e mudança de posição frequente.

Fisioterapia intensa:

  • Início em 24-48h pós-cirurgia
  • Estimulação elétrica neuromuscular
  • Hidroterapia (esteira aquática ou piscina)
  • Movimentação passiva dos membros
  • Estimulação proprioceptiva

Andador para cão: suporte com roda/andador para membros pélvicos — permite movimento enquanto a recuperação ocorre, mantém a musculatura ativa e a qualidade de vida.

Duração da recuperação: semanas a meses — depende do grau inicial. Cães em grau 2-3 geralmente recuperam a deambulação em 2-4 semanas. Grau 4 pode levar 6-12 semanas. Grau 5 com recuperação: meses.

Prevenção em Raças Predispostas

  • Manter peso ideal — a obesidade aumenta a carga nos discos
  • Rampas em vez de escadas e saltos (sofá, cama)
  • Evitar saltos repetitivos de altura — brincadeiras muito agitadas com saltos em Dachshunds jovens
  • Exame radiográfico anual para identificar discos calcificados (em clínicas especializadas)
  • Fenestração profilática (controversa) em Dachshunds com múltiplos discos calcificados identificados

A mensagem mais crítica: cão que acorda sem mover os membros traseiros = emergência veterinária agora. Não esperar para ver. Não esperar pelo dia seguinte. O tempo de cirurgia conta em horas.

Perguntas frequentes

O que é prolapso de disco intervertebral em cachorro?+

O Prolapso de Disco Intervertebral (IVDD — Intervertebral Disc Disease) é a compressão da medula espinhal ou das raízes nervosas espinhais pelo material do disco intervertebral extrudado ou protruído. O disco intervertebral é o 'amortecedor' entre as vértebras — composto por um núcleo pulposo gelatinoso envolto pelo anel fibroso. Com a degeneração discal (que ocorre precocemente em raças condrodistróficas como o Dachshund), o material do disco pode se calcificar e ser extrudado de forma aguda para dentro do canal espinhal (Tipo I — Hansen) ou o anel fibroso pode abaulhar para o canal sem ruptura (Tipo II — Hansen, mais lento). A compressão da medula espinhal causa desde dor até paralisia progressiva, dependendo da localização (toracolombares são as mais comuns — T11-L2) e da velocidade/intensidade da compressão.

Dachshund tem hérnia de disco com frequência?+

Sim — o Dachshund é a raça com maior prevalência de IVDD no mundo. O risco é estimado em 19-24% ao longo da vida. A razão: o Dachshund é condrodistrófico — a condrodistrofia é uma mutação genética (FGF4 retrogene) que causa membros curtos e, como efeito colateral, metaplasia condroide precoce dos núcleos pulposos. Em vez de manter-se gelatinoso até os 5-7 anos (como em raças não-condrodistróficas), o núcleo pulposo do Dachshund começa a calcificar ainda jovem (1-2 anos) — tornando-o quebradiço e propenso à extrusão aguda. A predisposição é herdada — filhotes de pais com IVDD têm risco aumentado. Outras raças condrodistróficas com risco alto: Beagle, Cocker Spaniel, Shih Tzu, Basset Hound, Pekingês, French Bulldog. Raças não-condrodistróficas de grande porte (Labrador, Golden, German Shepherd) podem ter IVDD tipo II — mais lenta e geralmente em cães mais velhos.

Quais são os sinais de hérnia de disco em cachorro?+

Os sinais dependem da localização (cervical ou toracolombar) e do grau de compressão. Grau 1 (dor): o cão manifesta dor — vocaliza ao ser pegado, recusa saltar, postura arqueada ('cifose'), pescoço rígido ou cabeça baixa; sem déficit neurológico; prognóstico excelente. Grau 2 (paresia com locomoção preservada): fraqueza dos membros, andar instável e bamboleante (ataxia), tropeça; o cão ainda anda; prognóstico bom. Grau 3 (paresia grave com dificuldade de andar): membros fracos mas ainda move; pode arrastar o(s) membro(s); prognóstico bom com tratamento adequado. Grau 4 (paraplegia sem dor profunda preservada): o cão não se levanta, não anda, mas ainda sente dor profunda (ao beliscar a pata, retira a pata ou vocaliza); prognóstico favorável com cirurgia urgente. Grau 5 (paraplegia com perda de dor profunda): não levanta, não anda, NÃO sente dor profunda; prognóstico reservado; cirurgia em < 24-48h é crítica. IVDD cervical: dor no pescoço, tetraparesia.

IVDD precisa de cirurgia ou pode ser tratado com repouso?+

Depende do grau neurológico. Grau 1 (só dor, sem déficit): tratamento conservador — repouso estrito em gaiola por 4-6 semanas + anti-inflamatórios + analgesia. 80-90% recuperam sem cirurgia. Grau 2-3 (paresia leve a moderada, ainda andando): tratamento conservador é opção, mas com risco de progressão; cirurgia (hemilaminectomia ou fenestração) tem recuperação mais rápida e mais consistente. Grau 4 (paraplegia COM dor profunda): cirurgia descompressiva urgente — quanto mais rápido, melhor o prognóstico. Grau 5 (paraplegia SEM dor profunda): cirurgia emergencial — a janela de oportunidade é < 24-48h de ausência de dor profunda; após 48h sem dor profunda, a medula sofre lesão irreversível (mielomalacia progressiva) e o prognóstico para a recuperação torna-se muito desfavorável. Repouso sem cirurgia em graus 4-5 raramente resulta em recuperação — a compressão medular continua causando dano progressivo. A cirurgia (hemilaminectomia, minihemilaminectomia) remove a compressão e permite a recuperação neurológica.