Peritonite em Cachorro: Inflamação do Peritônio — Emergência Abdominal
Peritonite é a inflamação do peritônio — emergência abdominal com risco de morte. Principal causa: perfuração intestinal ou gástrica por corpo estranho, DVG, ou intussuscepção. Sinais: dor abdominal grave, abdome em tábua, sepse. Cirurgia e UTI intensiva são necessárias.
A peritonite é uma das emergências abdominais mais devastadoras em medicina veterinária. Quando o conteúdo intestinal — repleto de bilhões de bactérias — contamina a cavidade peritoneal, a resposta inflamatória e séptica que se segue pode matar o animal em horas. A velocidade de diagnóstico e de intervenção cirúrgica é o determinante mais importante da sobrevivência.
O peritônio não é apenas uma membrana passiva — tem extensa capacidade imunológica e vascular. Mas quando sobrecarregado com contaminação maciça, essa resposta se torna destrutiva — ativação generalizada de citocinas, sepse, coagulação intravascular e falência orgânica múltipla.
O Peritônio e Suas Funções
O peritônio é a membrana serosa que reveste a cavidade abdominal (peritônio parietal) e cobre a superfície externa dos órgãos abdominais (peritônio visceral). Tem:
- Extensa vascularização e linfáticos: grande superfície de absorção
- Células imunológicas: mastócitos, macrófagos, mesotélio — primeira linha de defesa contra infecção
- Produção de líquido peritoneal: pequena quantidade de fluido que lubrifica os órgãos
A grande superfície é uma faca de dois gumes: permite absorção de mediadores inflamatórios e bactérias para a circulação muito rapidamente — a peritonite se torna sepse sistêmica em horas.
Causas
Perfuração Gastrointestinal
A causa mais frequente:
Corpo estranho gastrointestinal: quando não passa espontaneamente ou não é removido cirurgicamente, pode erodir e perfurar a parede intestinal ou gástrica. Ossos, brinquedos, fios, palitos — itens variados. A perfuração libera conteúdo intestinal contaminado.
Intussuscepção não tratada: a necrose do segmento intestinal invaginado progride para perfuração.
Neoplasia intestinal: tumores em estágio avançado podem ulcerar e perfurar.
Enterite hemorrágica grave (parvovirose): a mucosa intestinal devastada pela parvovirose pode perfurar em casos extremos.
Doença Ulcerativa Gastroduodenal: úlceras por AINEs, stress, mastocitoma (histamina), hipoadrenocorticismo.
DVG (Dilatação-Vólvulo Gástrico)
Ruptura gástrica como complicação do DVG não tratado — a necrose isquêmica da parede gástrica avança até a perfuração.
Ruptura Biliar
Ruptura de vesícula biliar ou ducto biliar: trauma, neoplasia, mucocele biliar que excede a capacidade de contenção. Peritonite biliar — a bile é altamente irritante e pode ser séptica (colelitíase infectada) ou estéril.
Ruptura de Bexiga ou Ureter
Peritonite urinária (uroabdome): a urina na cavidade abdominal causa inflamação química progressiva que se torna séptica com o tempo.
Deiscência Cirúrgica
Complicação pós-operatória: deiscência (abertura) de anastomose intestinal ou de sutura gástrica — conteúdo digestivo extravasado. Apresenta-se tipicamente em 3-7 dias pós-operatório.
Trauma Penetrante
Lesão por mordida: perfura a parede abdominal e pode lesar órgãos diretamente, ou introduzir bactérias na cavidade.
Lesão por objeto pontiagudo: feridas por estaca, arame, etc.
Pancreatite Grave
Pancreatite necrotizante grave: enzimas pancreáticas ativadas extravasam e causam peritonite química e inflamatória.
Fisiopatologia
Fase 1 — Inflamação local (primeiras horas):
- Bactérias e toxinas ativam macrófagos e mastócitos peritoneais
- Liberação de IL-1, IL-6, TNF-α, prostaglandinas
- Vasodilatação e aumento de permeabilidade local → edema peritoneal
- Acúmulo de líquido inflamatório na cavidade (exsudato)
Fase 2 — SIRS (Síndrome de Resposta Inflamatória Sistêmica — horas):
- Mediadores inflamatórios atingem a circulação sistêmica
- Febre alta, taquicardia, taquipneia
- Translocalização bacteriana para corrente sanguínea → bacteremia
Fase 3 — Choque Séptico (horas a dias):
- Hipotensão por vasodilatação periférica
- Disfunção miocárdica
- Coagulação Intravascular Disseminada (CIVD)
- Falência de órgãos (rim, fígado, pulmão, coração) → Síndrome de Disfunção Orgânica Múltipla (MODS)
Sinais Clínicos
Fase Inicial
- Dor abdominal intensa: o cão adota postura de oração (cotovelos no chão, posterior elevado), reluta em se mover, vocaliza à palpação
- Abdome em tábua (muscle guarding): contração voluntária dos músculos abdominais por dor — ao palpar, parece uma tábua de madeira
- Vômito: com frequência bilioso
- Inapetência completa
- Febre: temperatura > 39,5°C
Fase de SIRS
- Mucosas hiperêmicas (vermelho brilhante): vasodilatação da fase inicial de SIRS
- Tempo de reenchimento capilar (TRC) diminuído: < 1 segundo
- Taquicardia: FC > 150 bpm
- Taquipneia
- Hiperdipsia (beber muita água)
Fase de Choque Séptico
- Mucosas pálidas, brancas ou cinzas: choque descompensado
- TRC prolongado: > 2 segundos
- Pulso fraco
- Hipotermia: temperatura < 37°C (sinal muito grave)
- Prostração total, semi-inconsciência
- Icterícia (peritonite biliar)
- Hipoglicemia: < 60 mg/dL (sinal de prognóstico grave)
Diagnóstico
Exame Físico e Histórico
A suspeita clínica baseia-se na combinação: dor abdominal severa + postura de oração + abdome rígido + prostração em cão que pode ter tido exposição a corpo estranho ou DVG.
Hemograma
- Leucocitose extrema com desvio à esquerda: neutrófilos aumentados + metamielócitos, bastonetes
- Leucopenia: em sepse grave, o consumo pode superar a produção
- Anemia em casos de longa duração
Bioquímica
- Albumina baixa (< 2,0 g/dL): extravasamento proteico para o peritônio e catabolismo
- Glicose baixa: consumo bacteriano e insuficiência hepática
- Lactato elevado (> 2,5 mmol/L): indicador de hipoperfusão tecidual — prognóstico grave
- BUN, creatinina elevados: insuficiência renal por hipoperfusão
Ultrassonografia Abdominal (FAST + completo)
- Líquido livre: acúmulo de exsudato
- Identificação da causa: perfuração, massa, corpo estranho
- Espessamento intestinal com edema de parede
- Pneumoperitônio: gás livre na cavidade = perfuração confirmada (também visível na RX)
Radiografia Abdominal
- Pneumoperitônio: gás livre entre os órgãos (sombra em meia-lua sob o diafragma) = perfuração
- Íleo paralítico: alças intestinais imóveis e distendidas
- Opacidade abdominal aumentada (efusão)
Abdominocentese
Punção da cavidade abdominal — colheita do líquido para:
- Análise: cor (amarelo = efusão; marrom/esverdeado/fedorento = conteúdo intestinal = peritonite séptica), odor
- Citologia: neutrófilos degenerados com bactérias intracelulares = peritonite séptica
- Cultura e antibiograma
Diagnóstico de peritonite séptica: glucose do líquido peritoneal < glucose sanguínea (as bactérias consomem a glucose do líquido).
Tratamento
Estabilização Pré-Cirúrgica
Acesso venoso: cateter 18G em veia jugular (mais calibrosa) ou dois cateteres periféricos.
Fluidoterapia:
- Cristalóides: 20-30 mL/kg IV em bolus (NaCl 0,9% ou Ringer Lactato)
- Colóides: Hetastarch 5 mL/kg — manutenção da pressão oncótica
- Meta: pressão arterial sistólica > 90 mmHg, TRC < 2 segundos
Antibióticos IV imediatos:
- Ampicilina-sulbactam (20-22 mg/kg IV 3x/dia) + metronidazol (15 mg/kg IV 2x/dia)
- OU enrofloxacino (5-10 mg/kg IV 1x/dia) + amoxicilina-clavulanato
Analgesia: metadona 0,3-0,5 mg/kg IV, fentanila em CRI se disponível.
Tempo até a cirurgia: minimizar — cada hora de contaminação séptica piora o prognóstico. A estabilização é para tornar o animal cirúrgico, não para resolver a peritonite.
Cirurgia
Laparotomia exploratória pela linha média ventral:
- Coleta de exsudato para cultura antes de qualquer manipulação
- Exploração sistemática de todos os órgãos: estômago, duodeno, jejuno, íleo, cólon, baço, fígado, pâncreas, rins, bexiga
- Identificação e correção da causa: sutura de perfuração, enterectomia de segmento necrosado + anastomose, colecistectomia, cistorrafia
- Lavagem peritoneal: infusão de 300-500 mL/kg de NaCl 0,9% morno → aspiração → repetir até o fluido sair límpido (pode exigir 3-10 litros ou mais)
- Drenagem: dreno de Penrose ou dreno de sucção fechada para drenagem pós-op de até 48-72 horas
Lavagem peritoneal aberta: em contaminação maciça — deixar o abdome aberto por 12-24 horas com ciclo de lavagem adicional. Técnica de alta complexidade reservada para centros especializados.
Pós-Operatório Intensivo
Monitoramento (cada 2-4 horas):
- Pressão arterial
- Frequência cardíaca e respiratória
- Temperatura
- Glucose (alvo 80-160 mg/dL)
- Débito urinário (alvo > 1 mL/kg/h)
- Lactato
Antibióticos IV: mínimo 5-7 dias; ajuste pelo antibiograma.
Nutrição: enteral precoce (24-48h pós-op) — mesmo via sonda nasoesofágica. Jejum prolongado perpetua o catabolismo e compromete a cicatrização.
Controle da dor: essencial — analgesia adequada melhora a motilidade intestinal e reduz o catabolismo por stress.
Prognóstico
| Apresentação | Mortalidade Estimada | |---|---| | Peritonite séptica, diagnóstico precoce (< 6h) | 30-40% | | Peritonite séptica, diagnóstico tardio ou choque | 50-70% | | Peritonite biliar estéril | 20-30% | | Uroabdome (urina) | 15-25% com tratamento | | Com MODS estabelecida | > 80% |
Fatores de mau prognóstico:
- Lactato > 4 mmol/L pré-cirúrgico
- Hipoglicemia (< 60 mg/dL)
- Hipotermia (< 37°C)
- Hipoalbuminemia grave (< 1,5 g/dL)
- Deiscência de anastomose como causa
A peritonite é prova de que na medicina veterinária emergencial, minutos fazem diferença de vida ou morte.
Perguntas frequentes
O que é peritonite em cachorro?+
Peritonite é a inflamação do peritônio — a membrana que reveste a cavidade abdominal e cobre os órgãos abdominais. Quando material séptico (bactérias do intestino, bile, urina) ou estéril (sangue, líquido pancreático) é extravasado para a cavidade peritoneal, ocorre inflamação intensa que rapidamente evolui para infecção sistêmica (sepse) e choque séptico. É uma das emergências mais graves da medicina veterinária. As causas mais comuns: perfuração intestinal (corpo estranho, intussuscepção não tratada, neoplasia), ruptura gástrica (Dilatação-Vólvulo Gástrico — DVG), ruptura de abscesso (prostático, hepático), enterotomia ou anastomose com deiscência pós-cirúrgica, trauma abdominal penetrante.
Quais os sinais de peritonite em cachorro?+
Dor abdominal intensa: o cão adota postura de oração (cotovelos no chão, posterior elevado), vocaliza à manipulação do abdome, relutante a se mover. Abdome em tábua (guarding): contração voluntária da musculatura abdominal por dor — ao palpar o abdome, parece rígido. Depressão e prostração extremas. Febre alta ou hipotermia (nos casos avançados com choque). Vômito e inapetência. Peritonite séptica avançada: mucosas congestionadas (avermelhadas) na fase de SIRS → evolui para mucosas pálidas ou cinzas no choque. Taquicardia severa. Em peritonite biliar (bile no peritônio): icterícia (mucosas amareladas). Em peritonite urinária (ruptura de bexiga): uremia.
Como tratar peritonite em cachorro?+
Peritonite é emergência cirúrgica — sem cirurgia, a mortalidade se aproxima de 100%. Tratamento pré-cirúrgico (estabilização do choque): acesso venoso calibroso + fluidoterapia agressiva (cristalóides + colóides); antibióticos IV de amplo espectro imediatamente (ampicilina-sulbactam + metronidazol, ou enrofloxacino + amoxicilina-clavulanato); analgesia (metadona, fentanila); oxigenioterapia. Cirurgia: laparotomia exploratória, identificação e correção da causa (sutura de perfuração, ressecção de intestino necrosado, esplenectomia), lavagem peritoneal extensiva com solução salina morna (até o líquido sair limpo), drenagem peritoneal. Pós-operatório: UTI intensiva — monitaramento contínuo, antibióticos IV por 5-7 dias mínimo, nutrição parenteral ou enteral precoce. Taxa de mortalidade com tratamento completo: 30-50%.
Peritonite séptica tem cura em cachorro?+
É possível sobreviver, mas a peritonite séptica tem mortalidade alta — 30-50% mesmo com tratamento máximo, chegando a 70-80% quando a apresentação é tardia ou o cão já está em choque séptico avançado. Os fatores de pior prognóstico são: tempo prolongado até o atendimento, choque séptico estabelecido, hipoglicemia (< 60 mg/dL), hipotermia (< 37°C) e hipoalbuminemia grave. Os fatores de melhor prognóstico são: peritonite estéril (bile ou urina sem infecção bacteriana), diagnóstico e cirurgia nas primeiras 4-6 horas, cão jovem e previamente saudável. A UTI pós-operatória é fundamental — a maioria dos óbitos ocorre nas primeiras 48-72 horas pós-cirurgia por síndrome de disfunção orgânica múltipla (MODS).
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