Paralisia Laríngea em Cachorro: Obstrução Respiratória por Falha do Nervo Laríngeo
Paralisia Laríngea é a falha do nervo laríngeo recorrente — as cartilagens aritenoideias não abrem adequadamente durante a inspiração, criando obstrução. Labrador Retriever idoso é o paciente típico. Voz rouca, estridor e intolerância ao calor são os sinais. Cirurgia é eficaz.
A Paralisia Laríngea é uma das condições respiratórias mais frequentes em Labradores idosos — e uma das que mais afeta a qualidade de vida de forma insidiosa, muitas vezes atribuída pelo tutor ao "envelhecimento normal" do cão, até que uma crise aguda de sufocação revela a gravidade do problema.
A boa notícia: a cirurgia é altamente eficaz e a maioria dos cães opera-dos tem melhora dramática e imediata da qualidade de vida.
Anatomia e Função da Laringe
A laringe é a estrutura cartilaginosa na entrada da traqueia — controla a passagem de ar (respiração), protege as vias aéreas durante a deglutição e é responsável pela vocalização.
Componentes-chave:
- Epiglote: dobra sobre a laringe durante a deglutição
- Cartilagens aritenoideias: pares, articulam-se com a cartilagem cricoideia
- Cordas vocais: conectadas às aritenoideias
Processo normal de abdução:
- Na inspiração: o músculo cricoaritenóideo dorsal (CAD), inervado pelo nervo laríngeo recorrente, contrai → puxa as aritenoideias para longe da linha média → glote abre → ar entra
- Na expiração e repouso: a pressão do ar expirado e a elasticidade das cartilagens fecham a glote
Fisiopatologia
Denervação do músculo CAD:
Quando o nervo laríngeo recorrente falha (por axoniopatia, desmielinização ou trauma), o músculo CAD fica sem inervação e atrofia progressivamente.
Consequência:
- Aritenoideias ficam na posição de repouso (linha média) durante a inspiração
- Na inspiração, a pressão negativa intraluminal "aspira" as aritenoideias para dentro da glote
- A obstrução parcial gera fluxo turbulento → estridor inspiratório
- O esforço inspiratório aumentado + turbulência → calor → edema das mucosas → piora da obstrução (ciclo vicioso)
A paralisia é frequentemente assimétrica — bilateral em graus variáveis.
GOLPP — Geriatric Onset Laryngeal Paralysis and Polyneuropathy
A forma mais comum em cães é a GOLPP — muito mais que apenas paralisia laríngea:
É uma polineuropatia degenerativa progressiva que começa nos nervos mais longos e vai para os mais curtos.
O nervo laríngeo recorrente é o nervo periférico mais longo do cão (percorre do cérebro ao tórax e volta ao pescoço) → é o primeiro afetado.
Com a progressão (meses a anos):
- Fraqueza dos membros pélvicos (neuropatia motora distal)
- Atrofia muscular, especialmente temporal e masséter
- Regurgitação/disfagia (neuropatia esofágica)
- Outros déficits neurológicos periféricos
Labradores machos são a maioria dos pacientes de GOLPP. A razão genética/familiar não está completamente elucidada — mas linhas familiares com alta incidência são documentadas.
Causas de Paralisia Laríngea
Idiopática/GOLPP
Maioria dos casos em Labradores, Goldens e raças grandes idosas.
Congênita
- Bouvier des Flandres: neuropatia laríngea hereditária autossômica dominante — sinais ao nascimento ou com 4-6 meses
- Husky Siberiano, Dalmatian, Rottweiler: congênita documentada
Hipotireoidismo
O hipotireoidismo pode causar neuropatia periférica, incluindo paralisia laríngea. O teste de T4 e TSH canino é parte do trabalho diagnóstico — e a suplementação de levotiroxina pode melhorar a paralisia em casos hipotireoideos.
Neoplasia
Massas cervicais ou mediastinais que comprimem o nervo laríngeo recorrente:
- Carcinoma de tireóide
- Linfadenopatia
- Timoma
- Carcinoma brônquico
Traumatismo Cervical
Cirurgia de tireóide, trauma externo ao pescoço — lesão direta do nervo.
Miastenia Gravis Focal
MG focal laríngea — raro mas descrito.
Sinais Clínicos
Início Insidioso — Fase Leve
- Voz rouca: o latido muda de timbre — notado pelo tutor como "ficou com a voz diferente"
- Estridor leve: audível principalmente durante exercício intenso
- Intolerância leve ao calor: ofego mais excessivo que o habitual
Fase Moderada
- Estridor inspiratório claramente audível em repouso
- Intolerância significativa ao exercício: caminhadas curtas causam dispneia desproporcional
- Tosse pós-deglutição: aspiração de partículas alimentares ou líquido
- Intolerância ao calor: dias quentes causam angústia respiratória evidente
Crise Aguda — Emergência
Desencadeada por: exercício intenso, calor, excitação, anestesia, infecção respiratória:
- Angústia respiratória grave: movimentos respiratórios exagerados, uso de músculos acessórios
- Cianose: mucosas azuladas — hipoxemia grave
- Hipertermia: temperatura rectal > 40-41°C (calor gerado pelo esforço + comprometimento do ofego)
- Colapso
A crise de paralisia laríngea é emergência com risco de morte em minutos.
GOLPP Avançada
- Fraqueza progressiva dos membros pélvicos
- Atrofia muscular (temporal, masséter, músculos pélvicos)
- Regurgitação (comprometimento esofágico)
- Déficits proprioceptivos
Diagnóstico
Laringoscopia
O exame definidor.
Com o cão em anestesia superficial (profundidade leve — anestesia profunda inibe reflexamente o movimento das aritenoideias), observar a laringe diretamente:
- Normal: na inspiração, as aritenoideias se afastam simetricamente
- Paralisia leve: movimento reduzido unilateral ou bilateralmente
- Paralisia grave: aritenoideias imóveis na linha média, colabarão inspiratório (puxadas para dentro pelo fluxo de ar)
Importância da profundidade anestésica: anestesia leve com doxapram (1-2 mg/kg IV) pode ser usada para garantir movimentos inspiratórios evidentes.
Avaliação Neurológica Completa
- Déficits proprioceptivos nos membros pélvicos (GOLPP)
- Reflexo patelar, tibial cranial
- Força muscular, atrofia muscular
T4 Total + TSH Canino
Excluir hipotireoidismo em todo caso de paralisia laríngea adquirida.
Radiografia Cervical e Torácica
- Pesquisa de massa cervical ou mediastinal (neoplasia compressiva)
- Avaliação pulmonar (pneumonia aspirativa pré-existente)
Ultrassonografia Cervical
- Tireóide, linfonodos cervicais
- Glândulas salivares
ENMG (Eletroneuromiografia)
- Denervação dos músculos laríngeos e outros músculos periféricos
- Confirma polineuropatia no GOLPP
Tratamento
Emergência — Crise Aguda
- Oxigenioterapia: máscara com fluxo alto; fluxo de oxigênio pela narina
- Resfriamento: bolsa de gelo em pescoço e axilas, ventilação com pano molhado
- Sedação leve: acepromazina 0,01-0,02 mg/kg IV (reduz ansiedade sem depressão respiratória excessiva; NÃO usar butorfanol sozinho — deprime o drive respiratório)
- Dexametasona: 0,1-0,2 mg/kg IV — reduz edema laríngeo agudo (o único contexto em que corticoide IV em paralisia laríngea é indicado)
- Intubação: se cianose persistente ou deterioração — intubar para garantir via aérea
- Traqueostomia de emergência: se intubação impossível
Após estabilização: encaminhar para cirurgia.
Tratamento Cirúrgico — Laringoplastia (Tie-Back)
Unilateral arytenoid lateralization — o padrão-ouro.
Técnica:
- Acesso cervical lateral esquerdo
- Sutura de polipropileno (Prolene) fixada no processo muscular da aritenoide esquerda e na cartilagem cricoideia
- A sutura mantém a aritenoide em abdução permanente (~45° de abertura)
- Glote fica parcialmente aberta durante toda a respiração
Taxa de sucesso: 85-90% — melhora dramática e imediata da dispneia, da voz e da intolerância ao calor.
Por que unilateral (não bilateral)?
- Bilateral maximiza a abertura mas aumenta muito o risco de aspiração
- Unilateral abre suficientemente sem comprometer a proteção contra aspiração
Complicações:
- Pneumonia aspirativa (5-15%): a mais importante — a abertura permanente facilita a passagem de alimento para a traqueia; alimentação em posição elevada + alimentos de consistência adequada reduzem o risco
- Falha da sutura: raro com técnica adequada
- Serroma pós-operatório
Cuidados Pós-Operatórios
- Alimentação em posição elevada (cabeça acima do tronco) por 4-6 semanas
- Alimentos de consistência pastosa inicial
- Sem nadar ou banho (aspiração de água)
- Monitorar tosse/dispneia (sinais de aspiração)
- Restrição de exercício por 4-6 semanas
Tratamento do Hipotireoidismo
Se hipotireoidismo confirmado: levotiroxina 20-22 μg/kg 2x/dia. A resposta da paralisia laríngea ao tratamento do hipotireoidismo é variável — pode não ser completa se a neuropatia já está estabelecida.
Prognóstico
Pós-cirurgia sem pneumonia aspirativa: excelente qualidade de vida — a maioria dos Labradores operados volta a correr, nadar (com precauções) e tolerar o calor.
GOLPP: a cirurgia trata a paralisia laríngea, mas a polineuropatia subjacente progride — fraqueza dos membros pélvicos pode aumentar ao longo de 1-2 anos pós-cirurgia.
Paralisia laríngea por neoplasia: prognóstico determinado pela neoplasia primária.
Sem cirurgia: qualidade de vida progressivamente comprometida; crises agudas repetidas; risco de morte por sufocação ou hipertermia.
A mensagem central: não atribuir a rouquidão do Labrador velho ao envelhecimento. É diagnóstico, é tratável e a cirurgia pode dar anos a mais de vida com qualidade.
Perguntas frequentes
O que é paralisia laríngea em cachorro?+
Paralisia laríngea é a incapacidade das cartilagens aritenoideias de abrir adequadamente durante a inspiração — resultado da falha do nervo laríngeo recorrente (ramo do vago) que controla os músculos abdutores da laringe. Na inspiração normal, as aritenoideias se afastam, abrindo a glote para a passagem do ar. Na paralisia laríngea, ficam colabadas na linha média, criando obstrução progressiva — o cão inspira com grande esforço contra a obstrução, gerando o estridor inspiratório característico. O esforço respiratório aumenta a temperatura local, piora o edema das cartilagens, piora a obstrução — um ciclo que pode culminar em insuficiência respiratória e morte por calor (crise de paralisia laríngea). A forma mais comum em cães é a paralisia laríngea idiopática adquirida do Labrador Retriever idoso (GOLPP — Geriatric Onset Laryngeal Paralysis and Polyneuropathy).
Quais cães têm mais risco de paralisia laríngea?+
Labrador Retriever é a raça mais afetada — especialmente machos acima de 9-10 anos (paralisia laríngea geriátrica idiopática, GOLPP). A GOLPP é na verdade parte de uma polineuropatia generalizada que afeta principalmente o nervo laríngeo recorrente (mais longo do sistema nervoso periférico canino, portanto mais vulnerável), mas que progride para outros nervos com o tempo. Outras raças predispostas para paralisia laríngea adquirida: Golden Retriever, Setter Irlandês, Husky Siberiano. Paralisia laríngea congênita: Bouvier des Flandres (autossômica dominante), Dalmatian, Husky Siberiano, Rottweiler — sinais desde filhote. Causas adquiridas não-idiopáticas: traumatismo cervical, massa cervical ou mediastinal que comprime o nervo (neoplasia tireoidiana, linfadenopatia), hipotireoidismo.
Quais são os sinais de paralisia laríngea em cachorro?+
A evolução é geralmente insidiosa, meses a anos antes do diagnóstico: Voz alterada (latido rouco, rouquidão) — frequentemente o primeiro sinal percebido pelo tutor. Estridor inspiratório — barulho de sopro ou chiado na inspiração, especialmente durante exercício. Intolerância ao exercício — o cão cansa com muito mais facilidade que antes. Intolerância ao calor — o cão ofega excessivamente mesmo no calor moderado; a paralisia laríngea compromete o ofego (panting) que é o mecanismo de termorregulação do cão. Tosse ao deglutir — aspiração de alimento ou água pela glote comprometida. Crise aguda de insuficiência respiratória — desencadeada por exercício, calor, estresse ou anestesia: o cão entra em angústia respiratória grave, fica cianótico, pode colapsar. Essa é a emergência. Em GOLPP avançada: fraqueza dos membros pélvicos e atrofia muscular por extensão da polineuropatia.
Como tratar paralisia laríngea em cachorro?+
O tratamento definitivo é cirúrgico. Laringoplastia (unilateral arytenoid lateralization — 'tie-back'): técnica cirúrgica em que uma sutura permanente fixa uma aritenoide em posição abduzida (aberta) — abre parcialmente a glote e melhora dramaticamente o fluxo de ar. Resultado em 85-90% dos casos: melhora significativa da dispneia, da intolerância ao calor e da qualidade de vida. Risco principal da cirurgia: pneumonia aspirativa — a abertura permanente da glote aumenta o risco de aspiração de alimento/líquido para o pulmão (5-15% dos casos). Manejo da crise aguda (antes da cirurgia): resfriamento imediato (bolsa de gelo, ventilação), oxigenioterapia, dexametasona IV (reduz edema laríngeo — exceção ao uso de corticoide em emergência aguda, onde está indicado), sedação leve (acepromazina baixa dose), intubação orotraqueal se necessário. Manejo não-cirúrgico a longo prazo: possível mas apenas paliativo; evitar exercício, calor, estresse; sedação leve (acepromazina) em episódios.
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