Saúde

Olho de Cereja em Cachorro: Prolapso da Glândula Nictitante — Tratamento

Olho de cereja é o prolapso da glândula da terceira pálpebra (membrana nictitante) — massa avermelhada no canto interno do olho. Afeta principalmente raças braquicefálicas e Cocker Spaniels. Tratamento é cirúrgico — reposicionamento, nunca remoção da glândula.

27 de maio de 2026·5 min de leitura

O olho de cereja — prolapso da glândula da membrana nictitante — é uma das condições oftalmológicas mais reconhecíveis e frequentes em cães de certas raças. A massa avermelhada e arredondada que aparece no canto interno do olho (canto medial) é imediatamente notada pelos tutores — e frequentemente gera alarme.

A boa notícia é que o tratamento é bem estabelecido e eficaz. A má notícia é que o tratamento incorreto (remoção da glândula) ainda é realizado por alguns veterinários, com consequências graves a longo prazo para o olho do cão.

A Membrana Nictitante e sua Glândula

A membrana nictitante (terceira pálpebra) é uma prega de conjuntiva localizada no canto medial (interno) do olho de todos os cães. Em condição normal, é parcialmente visível como uma membrana fina branco-rosada no canto do olho.

A glândula da nictitante: na base dessa membrana, existe uma glândula lacrimal — glândula da membrana nictitante (GMN) ou glândula de Harder. Essa glândula produz 30-50% do fluido lacrimal aquoso do olho.

O problema: em alguns cães, o tecido conjuntivo que ancora a glândula ao periósteo orbital é geneticamente fraco. Quando a glândula cresce durante o desenvolvimento ou quando há inflamação ou esforço, ela desloca-se para fora da fenda palpebral e aparece como uma massa rosada-avermelhada arredondada no canto do olho — o "olho de cereja".

Por que ocorre

Fraqueza do ligamento: predisposição genética — algumas raças têm tecido de suporte mais frouxo.

Hipertrofia da glândula: o crescimento da glândula durante o desenvolvimento (filhotes e adultos jovens) aumenta seu volume e pode superar a capacidade de ancoragem.

Inflamação local: qualquer inflamação na região pode enfraquecer o suporte.

A condição é mais frequente em filhotes e cães jovens (< 2 anos) — mas pode ocorrer em qualquer idade.

Raças Predispostas

Alta prevalência:

  • Bulldog Inglês (prevalência muito alta)
  • Pug
  • Shih Tzu

Prevalência moderada-alta:

  • Beagle
  • Cocker Spaniel Americano
  • Basset Hound
  • Lhasa Apso
  • Boston Terrier
  • Shar-Pei

Raças gigantes:

  • Newfoundland
  • São Bernardo

Bilateralidade: quando um olho é afetado, o risco no olho contralateral é de 40-60% nos próximos meses — especialmente em raças braquicefálicas.

Sinais Clínicos

O sinal principal: massa rosada a avermelhada, redonda, de superfície lisa, no canto medial do olho — emerge de baixo da pálpebra inferior ou da membrana nictitante.

Evolução sem tratamento:

  1. Exposição → ressecamento e edema da glândula → irritação progressiva
  2. Fricção contra a córnea → irritação corneana, blefarospasmo
  3. Epífora (lacrimejamento) — paradoxalmente, o olho lacrimeja mas com fluido de pior qualidade
  4. Inflamação crônica da glândula → fibrose e perda progressiva de função lacrimal
  5. Se não tratada por meses → ceratoconjuntivite seca irreversível

Sem tratamento, o risco de KCS é real — a glândula exposta perde função progressivamente.

Diagnóstico

Diagnóstico clínico — a aparência é característica e inequívoca.

Confirmação: exame sob iluminação adequada ou lâmpada de fenda confirma que é a glândula prolapsada (não um tumor, cisto ou papiloma conjuntival).

Teste de Schirmer antes da cirurgia: avalia a produção lacrimal pré-operatória — importante para comparação pós-operatória e para detectar KCS já presente.

Tratamento

Reposicionamento Cirúrgico — Único Tratamento Correto

A cirurgia visa recolocar a glândula em sua posição fisiológica e ancorá-la para prevenir recidiva.

Técnica Morgan Pocket (Pocket Flap): a técnica mais usada e de melhor prognóstico.

  • A conjuntiva ao redor da glândula é incisada criando uma "bolsa"
  • A glândula é reposicionada dentro da bolsa
  • A conjuntiva é suturada sobre ela, ancorando a glândula

Taxa de sucesso: 80-90% com técnica adequada.

Complicações possíveis:

  • Recidiva (10-20%) — especialmente em raças com predisposição muito alta
  • Edema pós-operatório
  • Deiscência de sutura

Se recidiva após pocket technique: cirurgia de revisão ou técnica de ancoragem ao periósteo orbital.

O que NÃO fazer: Excisão da Glândula

A remoção da glândula é contraindicada. Consequências:

  1. Produção lacrimal reduzida em 30-50%
  2. Ceratoconjuntivite seca (KCS): em 30-50% dos cães operados pela excisão — o olho seco progressivo exige uso de ciclosporina colírio por toda a vida
  3. Sem reversibilidade: glândula removida não regenera

Caso o veterinário proponha a remoção: questione, busque segunda opinião, exija a técnica de reposicionamento. A excisão é procedimento tecnicamente mais fácil e rápido — mas é terapeuticamente inferior e prejudicial ao olho.

Cuidados Pré e Pós-Operatórios

Pré-operatório: colírio antibiótico e/ou anti-inflamatório para reduzir a inflamação da glândula antes da cirurgia — facilita a manipulação.

Pós-operatório:

  • Colar elizabetano obrigatório por 7-10 dias
  • Colírio antibiótico 3x/dia por 5-7 dias
  • Colírio anti-inflamatório (cetorolac ou prednisolona tópica) por 5-7 dias
  • Repouso relativo — evitar atrito no olho
  • Revisão em 7-10 dias para retirada de pontos (se não absorvíveis)

Monitoramento após cirurgia: observar se a glândula volta a prolapsár (recidiva) e se o teste de Schirmer permanece normal.

Ambos os Olhos — Intervenção Profilática

Dado o risco de 40-60% de prolapso no olho contralateral em raças predispostas, muitos oftalmologistas veterinários discutem com o tutor a intervenção profilática no olho "saudável" durante a mesma anestesia.

Argumento a favor: previne o segundo prolapso antes de ocorrer, com cirurgia tecnicamente mais simples (sem inflamação) e menor risco de complicação.

Argumento contra: operar olho assintomático tem risco inerente.

A decisão deve ser feita caso a caso, considerando a raça, a faixa etária e a avaliação do olho contralateral.

Prognóstico

Com reposicionamento correto, o prognóstico é excelente:

  • A maioria dos cães mantém produção lacrimal normal
  • Qualidade de vida e função visual preservadas
  • Necessidade de monitoramento periódico do Schirmer

A intervenção precoce — antes que a glândula perca função por exposição prolongada — é fundamental para o melhor resultado.

Perguntas frequentes

O que é olho de cereja em cachorro?+

Olho de cereja (ou 'cherry eye') é o prolapso da glândula lacrimal da membrana nictitante (terceira pálpebra). Todos os cães têm uma terceira pálpebra no canto interno do olho — uma prega de conjuntiva com uma glândula lacrimal na base. Em alguns cães, o tecido conjuntivo que ancora a glândula ao osso orbital é fraco — a glândula sai de sua posição normal e aparece como uma massa avermelhada redonda no canto interno do olho, parecendo uma cereja pequena. Não é tumor nem cisto — é a própria glândula deslocada. Causa irritação e ressecamento ocular progressivos.

Olho de cereja em cachorro passa sozinho?+

Raramente e não é recomendado esperar. Prolapsos pequenos e recentes podem ocasionalmente se reposicionar espontaneamente — principalmente em filhotes muito jovens. Mas em poucos dias a semanas, a glândula prolapsada fica edemaciada, ressecada e inflamada — o que torna o reposicionamento cirúrgico progressivamente mais difícil e aumenta o risco de ceratoconjuntivite seca permanente. Tentativas de recolocar a glândula manualmente (pressão com cotonete) podem funcionar temporariamente mas raramente resolvem definitivamente. A indicação cirúrgica é desde o diagnóstico.

O tratamento do olho de cereja é tirar a glândula?+

NÃO — a remoção (excisão) da glândula é o tratamento INCORRETO e obsoleto. A glândula da membrana nictitante produz 30-50% de todo o fluido lacrimal do olho. Removida, o cão fica com produção lacrimal permanentemente reduzida, levando a ceratoconjuntivite seca (KCS/olho seco) que requer tratamento por toda a vida. O tratamento correto é o reposicionamento cirúrgico — técnica 'pocket flap' (bolsa) ou 'Morgan pocket technique' — que recoloca e ancora a glândula em sua posição normal sem removê-la. Exija de seu veterinário que seja feito o reposicionamento, não a excisão.

Quais raças têm mais olho de cereja?+

Raças mais afetadas pelo prolapso da glândula nictitante: Bulldog Inglês e Americano (muito alta prevalência), Pug, Beagle, Cocker Spaniel, Basset Hound, Shih Tzu, Lhasa Apso, Boston Terrier, Shar-Pei. Raças gigantes como Newfoundland e São Bernardo também têm prevalência elevada. Quase sempre acomete um olho primeiro — o olho contralateral tem 40-60% de chance de prolapsár também nos meses seguintes, especialmente em raças braquicefálicas. Quando um olho é operado, o veterinário frequentemente discute a intervenção profilática no outro.