Leucemia em Cachorro: Tipos, Sintomas e Tratamento da Leucemia Canina
Leucemia canina é neoplasia das células sanguíneas — leucemia linfocítica crônica (LLC), leucemia linfocítica aguda (LLA) e leucemia mieloide. LLC tem melhor prognóstico; LLA e leucemia mieloide são agressivas. Diagnóstico por hemograma e imunofenotipagem.
A leucemia canina — neoplasia das células hematopoiéticas que se origina na medula óssea e invade a circulação sanguínea — é menos frequente que o linfoma em cães, mas clinicamente significativa. Sua compreensão requer distinguir entre formas com prognósticos drasticamente diferentes: a leucemia linfocítica crônica, que pode ser gerenciada por anos, e as leucemias agudas, que são emergências oncológicas.
A descoberta frequentemente acontece de forma acidental: um hemograma de rotina revela linfocitose inexplicável, e investigação subsequente confirma o diagnóstico.
Hematopoiese e Leucemias — Conceitos Básicos
Todas as células do sangue se originam de células-tronco na medula óssea (hematopoiese). As leucemias surgem quando uma dessas células progenitoras sofre mutação maligna e se prolifera de forma descontrolada.
Linhagem linfocítica: origina linfócitos B e T → leucemia linfocítica crônica (LLC) e leucemia linfocítica aguda (LLA)
Linhagem mieloide: origina neutrófilos, monócitos, eritrócitos, plaquetas, eosinófilos, basófilos → leucemias mieloides (LMA, LMC)
Leucemia vs. Linfoma:
- Linfoma: neoplasia de linfonodos e tecido linfoide sólido (mediastino, baço, trato GI) — apresenta como massas palpáveis
- Leucemia: neoplasia da medula óssea com células malignas em circulação — apresenta como alteração no hemograma
- Sobreposição: linfoma de alto grau pode ter fase leucêmica (células circulantes); LLC pode ter envolvimento de linfonodos
Classificação das Leucemias Caninas
Leucemia Linfocítica Crônica (LLC)
A leucemia canina mais comum e de melhor prognóstico.
Célula de origem: linfócito maduro (geralmente linfócito B, mais raramente T).
Evolução: lenta — os linfócitos malignos se acumulam gradualmente ao longo de meses a anos. Frequentemente, o cão está assintomático quando diagnosticado.
Hemograma: linfocitose moderada a marcada (frequentemente 10.000-100.000 linfócitos/μL; normal < 4.000/μL). Os linfócitos têm morfologia madura — difícil distinguir de inflamação crônica apenas pelo hemograma.
Diagnóstico diferencial: linfocitose por doença de Addison (hipoadrenocorticismo), ehrlichiose crônica, reação linfocitária. A imunofenotipagem e o mielograma são essenciais.
Imunofenotipagem:
- B-LLC: CD21+, CD79a+, CD20+ — melhor prognóstico
- T-LLC: CD3+, CD8+ frequente — prognóstico ligeiramente mais reservado
Tratamento:
- Clorambucil: 2 mg/m² a cada 48h ou 20 mg/m² uma vez a cada 2 semanas (pulso)
- Prednisolona: 1-2 mg/kg/dia
- Protocolo simples e bem tolerado — quimioterapia oral em casa
Prognóstico: sobrevivência mediana de 12-36 meses; muitos cães vivem mais de 3-4 anos com qualidade de vida excelente.
Quando iniciar tratamento: há debate — LLC assintomática com linfocitose moderada pode ser monitorada antes de iniciar quimioterapia (estratégia "watch and wait" em casos estáveis). Tratamento iniciado quando: sinais clínicos presentes, anemia ou trombocitopenia por infiltração medular, linfocitose muito marcada (> 60.000/μL).
Leucemia Linfocítica Aguda (LLA)
Emergência oncológica. Instalação rápida, progressão agressiva.
Célula de origem: blasto linfocítico — célula precursora imatura.
Hemograma: grande quantidade de blastos (linfócitos imaturos, grandes, com nucléolo proeminente) em circulação. Anemia e trombocitopenia são frequentes por comprometimento medular.
Sinais clínicos: instalação aguda de letargia profunda, inapetência, febre, vômito, diarreia, mucosas pálidas, petéquias.
Diagnóstico diferencial: linfoma em fase leucêmica (morfologia semelhante — exige imunofenotipagem e correlação clínica), leucemia mieloide aguda.
Tratamento:
- VCPA: vincristina + ciclofosfamida + doxorrubicina + prednisolona (protocolo similar ao CHOP para linfoma de alto grau)
- Taxa de remissão: 40-60%
- Sobrevivência mediana: 2-4 meses mesmo com tratamento
Prognóstico: reservado — muito pior que LLC. A LLA canina equivale à LLA humana em agressividade.
Leucemia Mieloide Crônica (LMC) e Aguda (LMA)
Raras em cães — muito menos frequentes que as leucemias linfocíticas.
LMC: proliferação de células mieloides maduras (neutrófilos, monócitos, eosinófilos). Hemograma: neutrofilia marcada com desvio à esquerda e ausência de toxicidade (diferente da infecção). Diagnóstico diferencial com resposta inflamatória grave é desafiador.
LMA: proliferação de blastos mieloides — análoga à LLA em termos de gravidade. Sinais: pancitopenia (anemia, trombocitopenia, neutropenia) por comprometimento medular. Prognóstico grave — resposta ao tratamento muito limitada.
Subtipos de LMA (classificação FAB adaptada para cães):
- M1/M2: leucemia mieloblástica
- M3: leucemia promielocítica
- M4: leucemia mielomonocítica (mais comum na série mieloide canina)
- M5: leucemia monocítica
- M6: eritroleucemia
- M7: leucemia megacarioblástica
Diagnóstico Detalhado
Hemograma com Esfregaço
Primeiro e mais importante exame. O esfregaço sanguíneo é fundamental — a morfologia das células circulantes orienta o diagnóstico.
Contagem de leucócitos:
- LLC: 15.000-100.000+/μL (predominância de linfócitos maduros)
- LLA: variável — pode haver leucocitose com blastos ou leucopenia paradoxal
- LMA: leucocitose com blastos mieloides ou citopenias
Nota: nem toda leucemia causa leucocitose — leucemia "aleucêmica" com medula comprometida pode ter contagem de leucócitos normal ou baixa.
Imunofenotipagem por Citometria de Fluxo
Padrão ouro para classificação. As células são marcadas com anticorpos específicos para diferentes antígenos de superfície:
- Marcadores de linhagem linfoide: CD3 (T), CD79a (B), CD20 (B), CD21 (B)
- Marcadores de maturidade: CD34 (precursor), CD45 (pan-leucocitário)
- Marcadores de linhagem mieloide: CD11b, CD14, CD18
Resultado: determina exatamente o subtipo — B-LLC, T-LLC, LLA de precursor B, LLA de precursor T, LMA.
Prognóstico: B-LLC tem melhor prognóstico que T-LLC; LLA de precursor T tem pior prognóstico que de precursor B.
Mielograma (Aspirado de Medula Óssea)
Coleta de células da medula óssea por aspiração (geralmente do esterno ou da cabeça do fêmur sob sedação):
- Avalia a proporção de células malignas na medula
- LLC medular: > 30% de linfócitos na medula
- Confirma diagnóstico em casos com hemograma não conclusivo
Biópsia de medula (trépano): fornece informação sobre arquitetura medular — indicada quando o aspirado é inconclusivo.
Bioquímica e Ultrassonografia
Bioquímica: avalia função hepática e renal (metástase hepática; mieloma — proteína total e albumina). LDH elevada pode ser marcador de neoplasia de alta proliferação.
Ultrassonografia abdominal: esplenomegalia (quase universal nas leucemias), hepatomegalia, linfadenomegalia.
Tratamento
LLC — Protocolo Padrão
Clorambucil:
- 2-4 mg/m² VO a cada 48h (protocolo contínuo), OU
- 20 mg/m² VO uma vez a cada 2 semanas (protocolo de pulso)
Prednisolona: 1-2 mg/kg/dia por 4 semanas, reduzida gradualmente.
Monitoramento: hemograma a cada 4-6 semanas para avaliar resposta (redução da linfocitose) e toxicidade hematológica.
Resistência ou recidiva: clorambucil + ciclofosfamida, ou lomustina (CCNU), ou rituximab-like (anti-CD20 ainda em investigação).
LLA e LMA — Protocolos de Alta Intensidade
Similar ao tratamento de linfoma de alto grau — protocolos CHOP ou VCPA:
- Vincristina: 0,5-0,7 mg/m² IV semana 1, 3
- Ciclofosfamida: 200-250 mg/m² IV semana 2
- Doxorrubicina: 25-30 mg/m² IV semana 1
- Prednisolona: 1-2 mg/kg/dia por 4 semanas
A toxicidade é maior — monitoramento rigoroso com hemograma semanal.
Cuidados de Suporte Essenciais
Transfusão de sangue: anemia severa (hematócrito < 20-25%) é indicação de transfusão antes de iniciar quimioterapia.
Antibioticoterapia profilática ou terapêutica: neutropenia induzida pela quimioterapia aumenta risco de sepse — amoxicilina-clavulanato profilática, antibioticoterapia IV em caso de febre neutropênica.
Anti-eméticos: ondansetron, maropitant — principalmente após doxorrubicina.
G-CSF (filgrastim): estimulador de colônias de granulócitos — recupera a neutropenia mais rapidamente em casos graves.
Prognóstico por Tipo
| Tipo | Taxa de Remissão | Sobrevivência Mediana | |---|---|---| | B-LLC | 70-80% | 24-36+ meses | | T-LLC | 60-70% | 12-18 meses | | LLA (B ou T) | 40-60% | 2-4 meses | | LMA | 20-40% | 1-3 meses |
A detecção precoce — antes do comprometimento grave da medula óssea — melhora significativamente o prognóstico em todos os tipos.
Perguntas frequentes
O que é leucemia em cachorro?+
Leucemia é câncer das células hematopoiéticas (produtoras de sangue) — células que se originam na medula óssea. Na leucemia, uma célula progenitora maligna se multiplica de forma descontrolada e inunda a circulação sanguínea. Pode ser: linfocítica (origina em linfócitos) ou mieloide (origina em neutrófilos, monócitos, eritrócitos ou plaquetas). A leucemia é diferente do linfoma: o linfoma é neoplasia dos linfonodos/tecido linfoide sólido; a leucemia é neoplasia da medula óssea com células circulantes em grande número. Algumas formas de linfoma podem se transformar em leucemia (leucemia-linfoma — fase leucêmica do linfoma de alto grau).
Quais os sintomas de leucemia em cachorro?+
Leucemia Linfocítica Crônica (LLC): frequentemente assintomática nas fases iniciais — descoberta por acaso no hemograma (linfocitose marcada). Com a progressão: letargia, inapetência, esplenomegalia (baço aumentado), hepatomegalia, linfadenomegalia. Leucemia Linfocítica Aguda (LLA): instalação rápida — letargia profunda, inapetência, vômito, diarreia, febre, mucosas pálidas (anemia). Muito leucocitose ou paradoxalmente leucopenia (medula não funciona). Leucemia Mieloide: sinais de falência de medula — anemia severa (mucosas brancas), sangramentos (trombocitopenia), infecções recorrentes (neutropenia). Esplenomegalia e hepatomegalia são comuns em todas as formas.
Leucemia em cachorro tem tratamento?+
Sim, com resultados variáveis conforme o tipo: LLC: clorambucil + prednisolona — protocolo de baixa intensidade, bem tolerado. Remissão em 60-80% dos casos; sobrevivência mediana de 2-3 anos. Muitos cães têm qualidade de vida excelente por longos períodos. LLA: vincristina + ciclofosfamida + doxorrubicina + prednisolona (similar ao linfoma de alto grau). Taxa de remissão mais baixa (40-60%), sobrevivência mediana de 2-6 meses mesmo com tratamento. Leucemia mieloide: quimioterapia intensiva, pobre resposta. Prognóstico reservado a grave. Cuidados de suporte: transfusões de sangue (anemia grave), antibióticos (neutropenia), anti-eméticos.
Como é diagnosticada a leucemia canina?+
Hemograma: principal exame — revela leucocitose marcada (contagem de leucócitos muito elevada, às vezes >100.000 células/μL), com predomínio de um tipo celular. Em LLC: linfócitos maduros de aspecto normal em grande número. Em LLA: blastos (células imaturas) em circulação. Esfregaço sanguíneo: avaliação morfológica das células — identifica o tipo celular. Imunofenotipagem (por citometria de fluxo ou imunohistoquímica): determina se é B-cell ou T-cell (linfocítica) ou mieloide — fundamental para prognóstico e tratamento. Mielograma (aspirado de medula óssea): confirma o diagnóstico e avalia o grau de comprometimento medular. Ultrassonografia abdominal: avalia esplenomegalia, hepatomegalia, linfonodos.
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