Saúde

Insuficiência Exócrina do Pâncreas em Cachorro (EPI): Sintomas e Tratamento

A Insuficiência Exócrina do Pâncreas (EPI) é a falta de enzimas digestivas — causa diarreia crônica, perda de peso e fezes esbranquiçadas e oleosas apesar de apetite voraz. Pastor Alemão é a raça mais afetada. Tratamento com suplementação enzimática é eficaz.

27 de maio de 2026·5 min de leitura

A Insuficiência Exócrina do Pâncreas (EPI — Exocrine Pancreatic Insufficiency) é a deficiência de produção de enzimas digestivas pelo pâncreas exócrino. Sem essas enzimas — lipase (digestão de gordura), protease (digestão de proteína) e amilase (digestão de carboidrato) — os alimentos não são digeridos e absorvidos adequadamente, causando má-absorção progressiva e perda de peso grave.

É uma das condições mais subdiagnosticadas — muitos cães chegam ao diagnóstico com perda grave de peso, após meses de tratamentos inadequados para "diarreia crônica" sem investigação da causa.

O Pâncreas Exócrino e sua Função

O pâncreas tem duas funções distintas:

Pâncreas endócrino (ilhotas de Langerhans): produz insulina e glucagon — regula a glicemia. Essa função é preservada na EPI.

Pâncreas exócrino (células acinares): produz enzimas digestivas liberadas no duodeno. Quando essas células são destruídas ou atrofiadas, ocorre EPI.

O pâncreas tem enorme reserva funcional — mais de 90% das células acinares precisam ser destruídas para que os sinais de má-absorção apareçam. Por isso, a EPI pode desenvolver-se silenciosamente por anos antes dos sinais clínicos.

Causas

Atrofia Acinar Pancreática (AAP) — Principal causa em Pastores Alemães

Causa genética — mutação autossômica recessiva que causa atrofia progressiva das células acinares. O tecido exócrino é substituído por gordura e tecido fibroso.

O Pastor Alemão com AAP geralmente desenvolve EPI antes dos 4 anos — pode ser tão jovem quanto 1-2 anos.

Raças afetadas: Pastor Alemão (muito alta prevalência), Rough Collie, Eurasier.

Pancreatite Crônica — Principal causa em outras raças

Episódios repetidos de pancreatite (aguda ou subclínica) destroem progressivamente o parênquima exócrino. Qualquer raça pode ser afetada.

Cães de raças diferentes do Pastor Alemão com EPI tendem a ser mais velhos e a ter histórico (nem sempre reconhecido) de episódios gastrointestinais recorrentes.

Outras causas

  • Tumor pancreático obstrutivo (raro)
  • Hipoplasia pancreática congênita (extremamente rara)

Sinais Clínicos

O Quadro Clássico

Polifagia com perda de peso: o cão come vorazmente — às vezes come o dobro do normal — mas continua perdendo peso. Isso ocorre porque os nutrientes passam pelo intestino sem ser absorvidos. É um dos sinais mais intrigantes para os tutores.

Fezes anormais: volumosas, de coloração amarelo-clara a esbranquiçada, às vezes oleosas ou brilhantes (esteatorreia — gordura não digerida), pastosas a liquefeitas, fétidas.

Coprofagia e pica: o cão come as próprias fezes, grama, terra — comportamento de busca de nutrientes em resposta à desnutrição.

Pelo em mau estado: seco, opaco, sem brilho — deficiência de ácidos graxos essenciais.

Flatulência: fermentação dos nutrientes não absorvidos pelas bactérias intestinais.

Sem a EPI ser suspeita

Muitos desses cães são tratados por meses com anti-diarreicos, antibióticos e mudanças de dieta sem melhora — o diagnóstico correto é essencial.

Diagnóstico

TLI Sérica (Trypsinogen-Like Immunoreactivity)

O teste de referência para EPI canina.

Mede a concentração de tripsinogênio (precursor da tripsina) no sangue — reflete a função acinar pancreática.

Jejum de 12 horas obrigatório antes do exame.

Interpretação:

  • TLI normal: 5-35 μg/L
  • TLI < 2,5 μg/L: diagnóstico de EPI confirmado
  • TLI 2,5-5 μg/L: área cinza — repetir após 4 semanas

Sensibilidade e especificidade: > 95% para EPI canina — é o teste mais preciso disponível.

Outros Exames

Cobalamina (vitamina B12) e Folato sérico:

  • Cobalamina baixa: quase universal na EPI — a má-absorção compromete a absorção de B12 no íleo. Deficiência de B12 por si só piora o quadro clínico.
  • Folato elevado: supercrescimento bacteriano intestinal (as bactérias produzem folato)
  • Folato baixo + cobalamina baixa: sugere DII associada

Ultrassonografia abdominal: pâncreas pequeno ou difuso — inespecífico.

Hemograma e bioquímica: geralmente normais ou com hipoalbuminemia leve.

Tratamento

Suplementação Enzimática — Base do Tratamento

Enzimas pancreáticas em pó: adicionadas às refeições e misturadas à comida.

Produtos disponíveis:

  • Viokase, Pancrezyme (formulações veterinárias)
  • Pâncreas bovino/suíno liofilizado em pó (farmácias de manipulação — mais acessível no Brasil)

Dose inicial: 1-2 colheres de chá (pó) por refeição → ajuste baseado na resposta das fezes.

Pré-incubação: misturar as enzimas à ração 20-30 minutos antes de servir — resultados inconsistentes quanto ao benefício real, mas muitos especialistas recomendam.

Resposta: fezes normalizam em 1-2 semanas. Peso começa a ser recuperado em 2-4 semanas.

Custo-benefício: pâncreas bovino/suíno liofilizado é significativamente mais barato que produtos comerciais e tem eficácia similar.

Suplementação de Cobalamina (Vitamina B12)

Obrigatória quando B12 sérica está baixa — e estará baixa na quase totalidade dos cães com EPI.

Regime padrão: injeção subcutânea semanal de cobalamina por 6 semanas → mensal por 6 meses → dosagem para verificar se mantém normal.

Via oral tem absorção comprometida na EPI — a via parenteral (injeção) é mais eficaz.

Por que é importante: a deficiência de B12 causa lesão adicional ao intestino e piora a má-absorção — a suplementação melhora a resposta ao tratamento.

Controle do Supercrescimento Bacteriano Intestinal (SIBO)

O intestino dos cães com EPI frequentemente tem supercrescimento de bactérias — os nutrientes não absorvidos fermentam e sustentam proliferação bacteriana anormal.

Metronidazol ou tilosina por 4-6 semanas — melhora a resposta em cães que não respondem bem às enzimas isoladas.

Dieta

Dieta de alta digestibilidade, com teor moderado de gordura e fibra. Evitar excesso de fibra — fibras podem inibir as enzimas pancreáticas suplementadas.

Refeições menores e mais frequentes (2-3x ao dia) podem melhorar a absorção.

Dietas para EPI estão disponíveis (Hills i/d, Royal Canin GI) ou dieta caseira formulada por nutricionista.

Monitoramento

  • Peso corporal mensalmente até recuperação — depois a cada 3 meses
  • Avaliação das fezes — consistência e volume são os melhores indicadores clínicos de resposta
  • Cobalamina sérica após o ciclo inicial de suplementação
  • TLI não é útil para monitoramento (permanece baixa mesmo em resposta ao tratamento)

Prognóstico

Com tratamento adequado, o prognóstico da EPI é excelente para a qualidade de vida:

  • A maioria dos cães responde bem às enzimas em 1-2 semanas
  • Recuperação de peso em 1-3 meses
  • Pelo melhora em 2-4 meses
  • Tratamento por toda a vida — mas bem tolerado e relativamente simples

Cães que não respondem ao tratamento: suspeitar de DII concomitante (frequente — a EPI não tratada por longo período causa lesão intestinal), outras doenças de má-absorção, ou supercrescimento bacteriano não tratado.

Perguntas frequentes

Como saber se meu cachorro tem insuficiência do pâncreas (EPI)?+

Os sinais clássicos de EPI em cães: fezes volumosas, pastosas a moles, de coloração amarelada ou esbranquiçada, às vezes oleosas (esteatorreia — gordura não digerida nas fezes); apetite voraz (polifagia) — o cão come muito mas perde peso progressivamente; perda de peso grave apesar de comer normalmente ou mais; coprofagia (comer as próprias fezes) e pica (comer objetos incomuns) — comportamento de busca de nutrientes; pelo em mau estado, opaco, sem brilho. A combinação de cão que come muito, perde peso e tem diarreia crônica é quase diagnóstica de EPI.

EPI em cachorro tem cura?+

Não tem cura — é condição crônica que requer tratamento por toda a vida. A causa mais comum no Pastor Alemão é a Atrofia Acinar Pancreática (atrofia das células que produzem enzimas) — irreversível. Porém, com suplementação enzimática adequada (enzimas pancreáticas em pó adicionadas às refeições), a grande maioria dos cães responde muito bem: as fezes normalizam, o peso é recuperado e a qualidade de vida é excelente. O custo do tratamento é moderado — o cão precisa de enzimas pancreáticas a cada refeição por toda a vida.

Quais raças têm mais EPI?+

Pastor Alemão (a raça com maior prevalência de EPI no mundo — a atrofia acinar pancreática é autossômica recessiva na raça); Rough Collie; Eurasier. Em outras raças, EPI pode ser secundária a pancreatite crônica (destruição inflamatória do pâncreas exócrino — qualquer raça pode ser afetada). O Pastor Alemão geralmente desenvolve EPI antes dos 4 anos; cães de outras raças tendem a ter EPI mais tardia (secundária à pancreatite crônica).

Como é feito o tratamento da EPI em cachorro?+

Tratamento principal: suplementação de enzimas pancreáticas em pó (Viokase, Pancrezyme, ou preparações magistrais de pâncreas bovino/suíno liofilizado) adicionadas às refeições, misturadas na comida. A dose é ajustada individualmente. Suplementações adicionais frequentemente necessárias: cobalamina (vitamina B12) — deficiente em quase todos os cães com EPI (injetável SC semanalmente nas primeiras semanas → mensalmente); antibioticoterapia de curto prazo para controlar supercrescimento bacteriano intestinal (metronidazol, tilosina); dieta digestível moderada em fibras e gordura. Com tratamento adequado, as fezes normalizam em 1-2 semanas e o peso recupera em 1-2 meses.