Hipoadrenocorticismo em Cachorro (Doença de Addison): Guia Completo
Hipoadrenocorticismo (Doença de Addison) é a deficiência de corticosteroides e/ou mineralocorticoides. É o 'grande imitador' — causa crises episódicas de fraqueza e vômito que melhoram espontaneamente. Crise addisoniana é emergência fatal. Tratamento com reposição hormonal é eficaz.
O hipoadrenocorticismo — Doença de Addison — é a insuficiência da glândula adrenal em produzir corticosteroides e/ou mineralocorticoides em quantidade adequada. É conhecida como o "grande imitador" da medicina veterinária por sua capacidade de simular praticamente qualquer doença, especialmente condições gastrointestinais.
Paradoxalmente, após o diagnóstico — que pode ser demorado — é uma das doenças mais tratáveis. Cães com Addison bem controlada vivem com qualidade de vida excelente e expectativa de vida normal.
Fisiologia Adrenal
As glândulas adrenais, localizadas acima dos rins, produzem dois tipos de hormônios essenciais:
Glicocorticoides (cortisol): hormônios do estresse — regulam o metabolismo de glicose, a resposta inflamatória e imunológica, e a capacidade de resposta a estressores físicos e emocionais. Sem cortisol, qualquer estresse (infecção, viagem, susto) pode desencadear crise.
Mineralocorticoides (aldosterona): regulam o equilíbrio eletrolítico — principalmente sódio e potássio. Sem aldosterona, o sódio é excretado e o potássio se acumula → hipercalemia grave → bradiarritmias cardíacas → colapso.
Tipos de Hipoadrenocorticismo
Hipoadrenocorticismo Primário (Típico)
Destruição da glândula adrenal → deficiência de ambos os hormônios (cortisol E aldosterona).
Causa: imunomediada na maioria dos casos (ataque autoimune às adrenais — análogo à doença de Addison humana). Raramente: hemorragia, tumor metastático, granuloma.
Eletrolitos: hipercalemia (K+ elevado) + hiponatremia (Na+ baixo) — relação Na:K < 27 é sugestiva de hipoadrenocorticismo primário.
Hipoadrenocorticismo Atípico
Deficiência apenas de glicocorticoides (cortisol) sem deficiência de mineralocorticoides — eletrolitos normais.
Causa: hipoadrenocorticismo atípico ou hipoadrenocorticismo secundário (deficiência de ACTH — hormônio hipofisário que estimula as adrenais; pode ocorrer após retirada abrupta de corticosteroides crônicos).
Diagnóstico mais difícil: sem a hipercalemia típica, o diagnóstico depende do teste de estimulação com ACTH.
Raças Predispostas
Maior prevalência:
- Standard Poodle (muito alta — raça de maior predisposição documentada)
- Bearded Collie
- Portuguese Water Dog
- Rottweiler
- Nova Scotia Duck Tolling Retriever
Prevalência moderada:
- Labrador Retriever
- West Highland White Terrier
- Great Dane
Características demográficas: fêmeas são mais afetadas (60-70% dos casos); jovens a meia-idade (4-7 anos em média), mas pode ocorrer em qualquer idade.
Apresentação Clínica
Forma Crônica — "O Grande Imitador"
Sinais episódicos que melhoram espontaneamente:
- Episódios de fraqueza ou colapso (desencadeados por estresse)
- Vômito e diarreia (às vezes com sangue)
- Anorexia e perda de peso
- Letargia e intolerância ao exercício
- Poliúria e polidipsia (especialmente na forma atípica)
O padrão é "waxing and waning": o cão parece doente por 1-3 dias, melhora aparentemente, fica bem por semanas ou meses, e a crise repete. Esse padrão episódico e recorrente deve sempre levantar a suspeita de Addison.
Crise Addisoniana — Emergência
Descompensada por estressor (infecção, cirurgia, estresse ambiental intenso):
- Colapso e prostração extrema
- Vômito e diarreia profusos
- Desidratação grave
- Hipotermia (temperatura < 37°C)
- Bradicardia — sinal crucial: cão em choque deveria ter taquicardia; bradicardia em cão colapsado → hipercalemia → Addison até prova em contrário
- Hipoglicemia (em alguns casos)
- Dor abdominal
Sem tratamento emergencial, colapso cardiovascular e morte em horas.
Diagnóstico
Eletrolitos Séricos — Triagem
Hipercalemia (K+ > 6,5 mEq/L) + hiponatremia (Na+ < 135 mEq/L): fortemente sugestivo de hipoadrenocorticismo primário.
Relação Na:K < 27: muito sensível (95%) para hipoadrenocorticismo primário. Valores entre 27-35 são limítrofes.
Armadilha: hipoadrenocorticismo atípico tem eletrolitos normais — e pode ser a forma inicial do hipoadrenocorticismo primário antes da destruição completa da zona glomerulosa.
Outros Achados Laboratoriais
- Eosinofilia e linfocitose: incomuns em cão doente (que normalmente tem linfopenia por estresse). Presença de eosinófilos em cão severamente doente é sugestiva de Addison ("ausência de leucograma de estresse")
- Hipoglicemia: em alguns casos
- Azotemia pré-renal: desidratação → creatinina e ureia elevadas (confunde com doença renal)
- Hipoalbuminemia, hipocolesterolemia
Teste de Estimulação com ACTH — Diagnóstico Definitivo
O teste de referência:
- Colher amostra de sangue basal para cortisol
- Administrar ACTH sintético (cosintropina ou tetracosactida) IV
- Colher nova amostra 1 hora após
Resultado em hipoadrenocorticismo: cortisol basal baixo E cortisol pós-ACTH baixo (< 2 μg/dL) — a glândula não responde ao estímulo.
Cortisol basal: cortisol < 2 μg/dL basal tem alta sensibilidade para excluir hipoadrenocorticismo se normal.
Ultrassonografia Adrenal
Adrenais pequenas — atrofia bilateral sugere doença primária imunomediada. Adrenais normais ou grandes sugerem causa secundária.
Tratamento
Crise Addisoniana — Emergência
Fluidoterapia IV agressiva: soro fisiológico (NaCl 0,9%) — repõe sódio e dilui o potássio. Volume generoso — o cão está em choque hipovolêmico.
Glicocorticoides IV: dexametasona (0,1-0,2 mg/kg IV) — não interfere no teste de ACTH se feito antes. Corrige a deficiência de cortisol.
Monitoramento cardíaco: hipercalemia grave causa bradiarritmias — ECG e gluconato de cálcio IV se necessário.
Glicose IV: se hipoglicemia.
Após estabilização: transição para tratamento oral.
Tratamento Crônico
Mineralocorticoides:
DOCP (Desoxicorticosterona Pivalato — Percorten-V): injeção subcutânea a cada 25-28 dias. Controla os eletrolitos. Sem atividade glicocorticoide — prednisolona deve ser adicionada.
Fludrocortisona (Florinef): comprimido diário. Tem atividade tanto mineralocorticoide quanto glicocorticoide (fraca) — pode ser suficiente como monoterapia em alguns cães, mas muitos precisam de prednisolona adicional.
Glicocorticoides:
Prednisolona: 0,1-0,2 mg/kg/dia (dose fisiológica — não imunossupressora). Repõe o cortisol basal necessário.
Dose de estresse: em situações de estresse intenso (cirurgia, infecção, viagem, muda), a dose de prednisolona deve ser dobrada ou triplicada por 2-3 dias. Cão com Addison sem ajuste de dose em estresse → crise addisoniana.
O tutor precisa saber: aumentar a dose de prednisolona antes de qualquer situação estressante previsível. Sempre informar o veterinário antes de qualquer procedimento.
Monitoramento
- Eletrolitos séricos (Na e K) a cada 1-3 meses no início → a cada 6 meses quando estabilizado
- Ajuste da dose de DOCP baseado nos eletrolitos — não no peso do cão
- Cortisol endógeno (opcional — avaliar supressão)
Prognóstico
Com tratamento adequado, o prognóstico do hipoadrenocorticismo é excelente. Cães com Addison controlada têm:
- Qualidade de vida normal
- Expectativa de vida normal
- Necessidade de monitoramento regular e disciplina com a medicação
A única exceção são formas atípicas que evoluem para hipoadrenocorticismo primário — monitoramento de eletrolitos detecta essa evolução.
A mortalidade está associada à crise addisoniana não diagnosticada — o diagnóstico correto é o passo crítico.
Perguntas frequentes
O que é doença de Addison em cachorro?+
A doença de Addison (hipoadrenocorticismo) é a deficiência de produção de hormônios pela glândula adrenal. As adrenais produzem dois tipos de hormônios essenciais: corticosteroides (cortisol — resposta ao estresse, metabolismo, imunidade) e mineralocorticoides (aldosterona — equilíbrio de sódio e potássio). Na doença de Addison típica (hipoadrenocorticismo primário), a glândula adrenal é destruída — geralmente por ataque imunomediado. O resultado é deficiência de ambos os hormônios. Na forma atípica, apenas o cortisol falta. A 'crise addisoniana' — descompensação aguda por estresse — é emergência que pode ser fatal em horas sem tratamento.
Por que a doença de Addison é chamada de 'grande imitador'?+
Porque seus sinais são inespecíficos e episódicos — imitam praticamente qualquer doença gastrointestinal, renal ou neurológica. Os tutores frequentemente relatam episódios de fraqueza, vômito, diarreia e prostração que melhoram espontaneamente em 1-2 dias ('crise que passa sozinha'). Esses episódios repetem-se a cada semanas ou meses, piorando progressivamente. Exames básicos podem ser normais ou levemente alterados entre as crises. O diagnóstico só é feito quando a hipercalemia (potássio elevado) é detectada no hemograma de rotina, ou quando a crise addisoniana leva o cão ao pronto-socorro em estado grave. Médio de 3 anos entre o início dos sintomas e o diagnóstico em alguns estudos.
Quais são os sinais da crise addisoniana em cachorro?+
Crise addisoniana (descompensação aguda): fraqueza extrema, colapso, prostração total; vômito e diarreia profusos; dor abdominal; hipotermia (temperatura < 37°C); bradicardia paradoxal (o cão em choque deveria ter taquicardia — mas a hipercalemia deprime o coração); mucosas pálidas; hipoglicemia (em alguns casos). É emergência absoluta — sem tratamento de urgência, o cão morre em horas. Qualquer cão com colapso + bradicardia + episódios anteriores de fraqueza episódica deve ter Addison no diagnóstico diferencial.
Doença de Addison em cachorro tem cura?+
Não tem cura — a glândula adrenal foi destruída e não se regenera. Mas é a doença endócrina com melhor resposta ao tratamento: com reposição hormonal adequada, cães com Addison têm qualidade de vida excelente e expectativa de vida normal. Tratamento: mineralocorticoides — desoxicorticosterona (DOCP/Percorten — injeção subcutânea mensal) ou fludrocortisona (comprimido diário); corticosteroides — prednisolona em baixa dose diária (especialmente importante em momentos de estresse). É tratamento por toda a vida, mas muito bem tolerado pela maioria dos cães.
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