Hipertensão Sistêmica em Cachorro: Pressão Alta Canina
A hipertensão sistêmica (pressão arterial elevada) em cães é quase sempre secundária — doença renal crônica (causa mais comum), hiperadrenocorticismo, hipotireoidismo, feocromocitoma. Pressão >160 mmHg sistólica já é hipertensão; >180 mmHg causa dano a órgãos-alvo (retina, rim, coração, cérebro). Tratamento de primeira linha: amlodipina. Diagnóstico requer múltiplas aferições.
O Shih Tzu de 11 anos com doença renal crônica em acompanhamento chegou com o tutor em pânico: "Acordou cego esta manhã."
Pupilas dilatadas, sem resposta ao estímulo de luz. Fundoscopia: hemorragias sub-retinianas bilaterais extensas, início de descolamento.
Pressão arterial: 218/142 mmHg (sistólica/diastólica). Crise hipertensiva.
Amlodipina 0,2 mg/kg imediato. Internação. Pressão em 24h: 156 mmHg. Revisão em 72h: fundoscopia mostrando resolução parcial das hemorragias.
A retina estava parcialmente descolada — mas a visão retornou parcialmente em duas semanas.
Por Que Cães Desenvolvem Hipertensão
Ao contrário de humanos (onde >90% é primária/essencial), em cães a hipertensão é quase sempre secundária:
| Causa | Mecanismo | Frequência | |---|---|---| | Doença renal crônica | Sistema renina-angiotensina-aldosterona | Mais comum | | Hiperadrenocorticismo (Cushing) | Excesso de cortisol → retenção de sódio | Frequente | | Feocromocitoma | Catecolaminas → vasoconstrição | Incomum | | Hipotireoidismo | Múltiplos mecanismos | Controverso |
Os Valores e o Risco
| PA Sistólica | Classificação | Risco de lesão | |---|---|---| | < 140 mmHg | Normal | Nenhum | | 140-159 mmHg | Pré-hipertensão | Baixo | | 160-179 mmHg | Hipertensão | Moderado | | ≥ 180 mmHg | Grave | Alto — órgão-alvo em risco | | ≥ 200 mmHg | Crise | Emergência |
Órgãos-Alvo em Risco
A hipertensão não controlada lesiona progressivamente:
- Retina — cegueira súbita é o sinal mais dramático e frequentemente o que leva ao diagnóstico
- Rins — acelera a progressão da DRC (círculo vicioso)
- Coração — hipertrofia ventricular esquerda
- Cérebro — encefalopatia, acidente vascular
O "Efeito Jaleco Branco"
A pressão em clínica pode estar falsamente elevada pela ansiedade:
- Protocolo ACVIM: 5-7 medições após 5-10 min de aclimatação em sala tranquila
- Descartar a primeira leitura
- Média das demais = valor real
Tratamento
Amlodipina (bloqueador de canal de cálcio) — primeira linha em cães:
- 0,2 mg/kg/dia VO (dose inicial)
- Início de ação: 1-2h após administração oral
- Bem tolerada em cães
- IECA complementa especialmente se proteinúria associada (DRC)
Perguntas frequentes
O que é hipertensão sistêmica em cães e quais são as causas?+
A hipertensão sistêmica em cães é definida como pressão arterial sistólica persistentemente acima de 160 mmHg. Em cães, a hipertensão é quase sempre SECUNDÁRIA — causada por outra doença subjacente. Causas mais comuns: Doença renal crônica (DRC): a causa mais frequente; a DRC compromete o sistema renina-angiotensina-aldosterona → pressão aumenta; 60-80% dos cães com DRC avançada têm hipertensão; Hiperadrenocorticismo (Síndrome de Cushing): excesso de cortisol → efeitos mineralocorticoides → retenção de sódio e água → hipertensão; Hipotireoidismo: controverso como causa isolada mas associado; Feocromocitoma: tumor da medula adrenal → secreção de catecolaminas → hipertensão paroxística ou persistente; Diabetes mellitus: associada a hipertensão por vários mecanismos; Hiperaldosteronismo primário: tumor da zona glomerulosa adrenal → excesso de aldosterona → raro em cães. Hipertensão primária (essencial): rara em cães — diferente de humanos onde é a forma mais comum; a maioria dos casos caninos tem causa identificável. Consequências do não-tratamento: Hipertensão → lesão de 'órgãos-alvo': Olhos: retinopatia hipertensiva, descolamento de retina, cegueira súbita — SINAL DE ALERTA mais evidente ao tutor; Rins: aceleração da progressão da DRC — círculo vicioso; Coração: hipertrofia ventricular esquerda; Cérebro: encefalopatia hipertensiva, acidente vascular cerebral.
Como diagnosticar hipertensão em cães?+
Diagnóstico: a mensuração da pressão arterial em cães requer cuidados específicos. Valores de referência (ACVIM 2019): < 140 mmHg sistólica: normal; 140-159 mmHg: pré-hipertensão (risco baixo); 160-179 mmHg: hipertensão — risco moderado; ≥ 180 mmHg: hipertensão grave — risco alto de lesão de órgão-alvo; ≥ 200 mmHg: crise hipertensiva. Método de aferição: Doppler (método de referência em cães): ultrassom Doppler na artéria palmar ou metatarsal; mais confiável em cães pequenos; Oscilométrico: automático; útil em cães maiores e calmos; pode subestimar em cães agitados. O 'efeito jaleco branco': pressão pode ser falsamente elevada pela ansiedade na clínica; o ACVIM recomenda: 5-7 medições consecutivas após período de aclimatação (5-10 min em sala quieta); descartar a primeira leitura; usar a média das demais; Avaliação diagnóstica complementar: hemograma e bioquímica sérica; T4 total (hipotireoidismo); cortisol/ACTH (Cushing); urianálise e relação proteína:creatinina urinária (DRC/proteinúria); ultrassom abdominal (adrenais, rins); ecocardiograma (hipertrofia ventricular).
Como tratar a hipertensão sistêmica em cães?+
Tratamento: o objetivo primário é tratar a causa subjacente E controlar a pressão com medicação específica. Tratamento da causa: DRC: otimizar manejo renal (dieta, hidratação, IECA); Cushing: mitotana, trilostano; Hipotireoidismo: levotiroxina — a pressão pode normalizar com tratamento; Feocromocitoma: fenoxibenzamina antes da cirurgia; cirurgia de adrenalectomia. Medicação anti-hipertensiva: Amlodipina (bloqueador de canal de cálcio): PRIMEIRA LINHA em cães com pressão ≥ 160 mmHg; dose: 0,1-0,4 mg/kg/dia VO (geralmente 0,2 mg/kg); inicia com dose baixa, titula até controle; excelente tolerabilidade em cães; atua na musculatura lisa vascular — vasodilatação arterial; IECA (enalapril, benazepril): indicados especialmente quando há proteinúria renal; reduzem pressão glomerular e proteinúria; segunda linha em hipertensão pura; complemento à amlodipina; Espironolactona: útil em hiperaldosteronismo. Metas de tratamento: reduzir PA abaixo de 140 mmHg sistólica se possível; acompanhamento: reaferição da PA 1-2 semanas após início/ajuste de medicação; monitorar eletrólitos e função renal com IECA; retinopatia hipertensiva: monitorar com fundoscopia.
Cegueira súbita em cão pode ser hipertensão? Qual é a emergência?+
Sim — cegueira súbita é uma das manifestações mais dramáticas da hipertensão grave em cães. Retinopatia hipertensiva: Pressão ≥ 180-200 mmHg causa: vasoconstricção e espasmo das artérias retinianas; hemorragia sub-retiniana; descolamento de retina bilateral; cegueira súbita; Apresentação típica: cão que estava normal acorda sem enxergar; pupilas dilatadas e não responsivas à luz (ou midríase bilateral); desorientação, bate em objetos; sem trauma, sem causa óbvia; tutor: 'não enxerga mais'; Diagnóstico de emergência: fundoscopia: hemorragias em chama, vasos tortuosos, descolamento de retina; aferição de pressão arterial: ≥ 180-200 mmHg confirma; Tratamento de emergência: reduzir pressão gradualmente — não abruptamente (risco de hipoperfusão cerebral); amlodipina PO (início de ação 1-2 horas); internação se PA > 200 mmHg; se retina ainda não completamente descolada: redução de PA pode reverter parte da cegueira; Prognóstico visual: descolamento de retina bilateral completo + hipertensão grave: prognóstico visual reservado; tratamento dentro de 24-48h do início dos sinais: chance real de recuperação parcial ou total da visão.
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