Saúde

Hipertensão Arterial em Cachorro: Pressão Alta Canina — Causas e Tratamento

Hipertensão arterial sistêmica em cães é quase sempre secundária a doença de base — insuficiência renal crônica, hiperadrenocorticismo e feocromocitoma são as causas mais comuns. Causa danos silenciosos a rins, olhos, coração e cérebro. Tratamento com amlodipina.

27 de maio de 2026·6 min de leitura

A hipertensão arterial sistêmica (HAS) em cães é, paradoxalmente, mais parecida com a versão silenciosa e grave da pressão alta humana do que muitos tutores imaginam. A diferença é que, em cães, a pressão alta raramente é primária — quase sempre é consequência de outra doença que, se não tratada, usa a hipertensão como "segundo golpe" nos rins, olhos, coração e cérebro.

O descolamento de retina hipertensivo — com cegueira súbita — é frequentemente o primeiro sinal que leva o tutor ao veterinário. Nesse ponto, já houve meses de dano silencioso.

Por que a Hipertensão Causa Dano

A pressão arterial elevada cria estresse mecânico excessivo sobre os vasos sanguíneos — as paredes vasculares se espessam e fibrosam progressivamente, e ocorrem microlesões que, ao longo do tempo, comprometem os órgãos altamente vascularizados:

  • Rim: o glomérulo (filtro renal) é altamente sensível à pressão — hipertensão glomerular acelera a progressão da IRC
  • Retina: os pequenos vasos retinianos se rompem ou o fluido vaza (edema) → descolamento de retina
  • Coração: o ventrículo esquerdo trabalha contra pressão maior → hipertrofia → arritmia → insuficiência
  • Cérebro: microhemorragias e edema por ruptura da barreira hematoencefálica

Causas

Insuficiência Renal Crônica (IRC) — A Mais Frequente

60-80% dos cães com IRC têm HAS. O mecanismo é multifatorial:

  • Ativação do Sistema Renina-Angiotensina-Aldosterona (SRAA): o rim isquêmico secreta renina → angiotensina II → vasoconstrição + retenção de sódio
  • Retenção de sódio e água → aumento do volume intravascular → elevação da pressão

A hipertensão, por sua vez, acelera a progressão da IRC — círculo vicioso fundamental.

Hiperadrenocorticismo (Cushing)

50-80% dos cães com Cushing têm HAS. O cortisol em excesso:

  • Aumenta a sensibilidade dos vasos às catecolaminas
  • Favorece retenção de sódio (efeito mineralocorticoide fraco do cortisol)
  • Inibe a vasodilatação mediada pela PGE2

Feocromocitoma

Tumor da medula adrenal — secreta adrenalina e noradrenalina em excesso. Causa:

  • Crises hipertensivas episódicas: pressão pode ultrapassar 250-300 mmHg em crises
  • Sinais: colapso episódico, taquicardia, dispneia, hemorragia ocular súbita
  • Diagnóstico: catecolaminas urinárias, ultrassom de adrenal (massa)

Hipotireoidismo

Resistência periférica aumentada por acúmulo de mucopolissacarídeos nas paredes vasculares. HAS é frequentemente leve-moderada.

Diabetes Mellitus

Lesão vascular por glicosilação não enzimática e inflamação vascular → hipertensão.

Hipertensão Primária (Essencial)

Incomum em cães — diagnóstico por exclusão rigoroso após descarte de todas as causas secundárias. Mais descrita em Greyhounds (pressão basal fisiologicamente mais alta que outras raças).

Medição da Pressão Arterial

Técnica Correta

Equipamento:

  • Doppler: método mais confiável para pressão sistólica em cães — especialmente em raças de menor porte. O som do fluxo sanguíneo retornando ao membro indica a pressão sistólica.
  • Oscilometria (automático): menos confiável em cães pequenos, mais usado em grandes — mede sistólica, diastólica e média.

Protocolo para medição confiável:

  1. Ambiente tranquilo, sem outros animais ou ruídos
  2. Cão em posição lateral (deitado) ou sentado — decúbito lateral é o mais reprodutível
  3. Adaptação: 5-10 minutos antes de iniciar as medições
  4. Manguito adequado ao membro (largura = 40% da circunferência do membro)
  5. Localização: membro torácico (rádio) ou caudal (coclea ou cauda)
  6. Mínimo 5-7 medições consecutivas — descartar a primeira, calcular média das restantes

Efeito do jaleco branco: a excitação ou o medo no ambiente hospitalar eleva falsamente a pressão — até 20-30 mmHg acima do valor real. Por isso o protocolo de adaptação é fundamental.

Classificação (ACVIM 2019)

| Categoria | PAS (mmHg) | Risco de lesão em órgão-alvo | |---|---|---| | Normotenso | < 140 | Mínimo | | Risco leve (borderline) | 140-159 | Baixo | | Risco moderado | 160-179 | Moderado | | Risco alto | 180-199 | Alto | | Risco severo | ≥ 200 | Iminente |

Hipertensão confirmada: duas ou mais medições em dias diferentes ≥ 160 mmHg, com protocolo correto.

Avaliação de Lesão em Órgão-Alvo

Todo cão com HAS deve ter avaliação de:

Olhos:

  • Fundoscopia: hemorragia retiniana, edema, descolamento
  • Tonometria: glaucoma secundário (menos frequente)

Rins:

  • Urinálise: proteinúria (relação proteína/creatinina urinária — RPCU > 0,5 é anormal)
  • Ureia, creatinina, SDMA: função renal

Coração:

  • Ecocardiograma: hipertrofia ventricular esquerda (espessamento da parede do VE)
  • Radiografia de tórax: cardiomegalia, edema pulmonar

Sistema nervoso:

  • Avaliação neurológica: déficits, convulsões
  • TC/RM se sinais neurológicos presentes

Tratamento

Tratar a Causa de Base

Passo mais importante.

  • IRC: manejo renal (dieta, hidratação, ERAs) — frequentemente normaliza ou reduz a pressão
  • Cushing: trilostano — frequentemente normaliza a pressão após 1-3 meses de tratamento
  • Hipotireoidismo: levotiroxina — normaliza em semanas
  • Feocromocitoma: cirurgia de adrenalectomia após estabilização com fenoxibenzamina

Anti-hipertensivos

Quando iniciar: HAS confirmada ≥ 160 mmHg, ou ≥ 140 mmHg com lesão em órgão-alvo documentada.

Amlodipina (Bloqueador de Canal de Cálcio)

Primeira linha para hipertensão canina.

Dose: 0,1-0,5 mg/kg/dia VO — iniciar com dose baixa, titular conforme resposta.

Mecanismo: relaxamento da musculatura lisa vascular → vasodilatação → redução da resistência periférica → queda da pressão.

Eficácia: reduz a pressão em 20-40 mmHg na maioria dos casos.

Tolerância: excelente — efeitos adversos raros (edema de membros em doses altas).

Inibidores da ECA (IECA) — Enalapril, Benazepril

Especialmente indicados em HAS com proteinúria e IRC.

Mecanismo: inibição da ECA → menos angiotensina II → vasodilatação + redução da retenção de sódio. Adicionalmente: reduzem a pressão intraglomerular — nefroprotetor independentemente do efeito sistêmico.

Dose: enalapril 0,5 mg/kg 1-2x/dia; benazepril 0,25-0,5 mg/kg 1x/dia.

Frequentemente combinados com amlodipina para casos de HAS moderada a grave.

Telmisartan (ARB — Bloqueador do Receptor de Angiotensina)

Alternativa ou adição aos IECAs — bloqueia o receptor da angiotensina II diretamente.

Dose: 1 mg/kg/dia VO.

Vantagem sobre IECA: sem efeito de "escape da bradicinina" — tolerância mais duradoura.

Manejo de Emergência Hipertensiva

PAS ≥ 180-200 mmHg com sinais neurológicos, oculares ou cardíacos:

  • Amlodipina oral imediatamente (dose inicial mais alta)
  • Ambiente tranquilo, mínimo estímulo
  • Nitroprussiato de sódio IV: 1-5 μg/kg/min — para crises severas, requer monitoramento intensivo
  • Atenolol: útil quando taquicardia significativa associada

Meta: redução gradual — não normalizar a pressão abruptamente (risco de hipoperfusão).

Monitoramento

Pressão arterial: repetir em 1-2 semanas após início do tratamento, depois mensalmente, depois a cada 3 meses quando estável.

Função renal: creatinina, SDMA após ajuste de dose de IECA (podem elevar transitoriamente a creatinina por redução da pressão glomerular — elevação > 30% indica dose muito alta).

Proteinúria: RPCU — meta < 0,5 com tratamento.

Fundoscopia: reavaliação após tratamento — a retina pode recuperar parcialmente após redução da pressão.

Prognóstico

HAS com causa tratável (Cushing, hipotireoidismo): excelente — pressão frequentemente normaliza com tratamento da causa.

HAS associada à IRC: bom com controle — mas IRC progride independentemente; a hipertensão controlada retarda a progressão.

Descolamento de retina hipertensivo: a visão pode recuperar parcialmente se o tratamento for iniciado nas primeiras 12-24 horas. Descolamento prolongado → cegueira permanente por 60-70% dos casos.

Feocromocitoma: reservado — tumores frequentemente malignos e com risco de ruptura e hemorragia.

Perguntas frequentes

O que causa hipertensão em cachorro?+

A hipertensão arterial sistêmica (HAS) em cães é quase sempre secundária — resultado de outra doença de base. As causas mais comuns: Insuficiência Renal Crônica (IRC): a causa mais frequente — o rim doente ativa o eixo renina-angiotensina-aldosterona, retém sódio e água, elevando a pressão. 60-80% dos cães com IRC têm HAS. Hiperadrenocorticismo (Doença de Cushing): excesso de cortisol aumenta a sensibilidade vascular às catecolaminas e favorece retenção hídrica — 50-80% dos cães com Cushing têm HAS. Feocromocitoma: tumor da medula adrenal que secreta catecolaminas (adrenalina, noradrenalina) em excesso — causa crises hipertensivas graves. Hipotireoidismo: resistência periférica aumentada. Diabetes mellitus. Hipertensão primária (essencial): incomum em cães (diferente dos humanos) — diagnóstico por exclusão.

Como saber se meu cachorro tem pressão alta?+

A hipertensão em cães é frequentemente assintomática até causar lesão em órgão-alvo — por isso é chamada de 'assassino silencioso'. Sinais que podem surgir: Oculares: cegueira súbita (por descolamento de retina hipertensivo — emergência), hemorragia intraocular (hifema), edema de retina. Neurológicos: convulsões, desorientação, ataxia, pressão na cabeça — por hemorragia ou edema cerebral. Cardíacos: sopro novo (HVE — hipertrofia ventricular esquerda), arritmia. Renais: piora de função renal (proteinúria aumentada). O diagnóstico é feito pela medição da pressão arterial — Doppler ou oscilometria em ambiente tranquilo, após período de adaptação.

Qual a pressão normal de cachorro?+

Valores de referência para pressão arterial sistólica (PAS) em cães: Normal: < 140 mmHg. Risco leve: 140-159 mmHg. Risco moderado: 160-179 mmHg. Risco grave: 180-199 mmHg. Risco severo: ≥ 200 mmHg. Classificação da ACVIM (2019): Borderline: 140-159 mmHg sem evidência de lesão em órgão-alvo; Hipertensão: ≥ 160 mmHg; Hipertensão grave (Stage 3): ≥ 180 mmHg — risco iminente de cegueira e AVC. A medição deve ser feita com o cão em repouso, após 5-10 minutos de adaptação — medições em cão agitado ou com medo são imprecisas (efeito do jaleco branco).

Qual o tratamento da hipertensão em cachorro?+

Tratamento da causa de base: tratar a IRC, Cushing ou hipotireoidismo é o passo mais importante — controlar a doença de base frequentemente normaliza a pressão. Anti-hipertensivos: Amlodipina (bloqueador de canal de cálcio): primeira linha para hipertensão canina — 0,1-0,5 mg/kg/dia VO. Excelente tolerância. Inibidores da ECA (enalapril, benazepril): especialmente úteis em hipertensão associada à IRC com proteinúria — reduzem a pressão glomerular e a proteinúria além do efeito sistêmico. Frequentemente combinados com amlodipina em casos moderados-graves. Telmisartan (ARB): bloqueador do receptor de angiotensina — alternativa ou combinação com IECA. Emergência hipertensiva (PAS > 200 mmHg com sinais neurológicos ou oculares): atenolol IM, nitroprussiato de sódio IV, amlodipina oral iniciada imediatamente.