Saúde

Hiperplasia Prostática e Prostatite em Cachorro: Causas e Tratamento

Hiperplasia prostática benigna é quase universal em machos não castrados acima de 5 anos. Causa dificuldade para defecar e urina com sangue. Castração é o tratamento definitivo. Prostatite é infecção bacteriana grave que exige antibioticoterapia.

27 de maio de 2026·5 min de leitura

A doença prostática é uma das condições mais comuns em cães machos não castrados acima de 5 anos. A glândula prostática canina, localizada ao redor da uretra na entrada da pelve, é hormônio-dependente — e o aumento contínuo da exposição aos andrógenos ao longo da vida resulta em alterações progressivas em praticamente todos os machos inteiros.

Anatomia e Função

A próstata canina circunda a uretra pélvica — diferente da próstata humana, que circunda apenas parte da uretra. Essa posição anatômica explica por que o aumento prostático afeta tanto a função urinária quanto a defecação (o cólon passa acima da próstata).

Função: produzir fluido prostático que compõe parte do sêmen e protege os espermatozoides.

Doenças Prostáticas

Hiperplasia Prostática Benigna (HPB)

A condição mais comum. Praticamente universal em machos inteiros acima de 6 anos — estimativas apontam que 80% dos cães acima de 5 anos e mais de 95% acima de 9 anos têm algum grau de HPB.

Mecanismo: aumento de sensibilidade dos receptores de andrógenos + conversão periférica de testosterona em diidrotestosterona (DHT, mais potente) → proliferação das células estromais e epiteliais da próstata → aumento progressivo e simétrico do órgão.

Evolução: lenta e progressiva — começa como hiperplasia simples, pode progredir para HPB com cistos intraglandulares, que formam ambiente favorável para infecção (prostatite) e metaplasia escamosa.

Sinais:

  • Tenesmo — dificuldade para defecar por compressão do cólon (fezes achatadas, esforço defecatório sem dor sistêmica)
  • Hematúria — sangue na urina por fragilidade vascular prostática; ou hemo-esperma — sangue no ejaculado
  • Gotejamento de sangue pelo pênis — independente da micção (sangue prostático)
  • Caminhada rígida dos membros posteriores — postura de cavaleiro

O cão permanece bem clinicamente — sem febre, sem prostração, sem dor sistêmica. Os sinais são progressivos mas o animal mantém qualidade de vida.

Prostatite

Infecção bacteriana da glândula prostática. Muito favorecida pela HPB (cistos e isquemia criam microambiente favorável à colonização).

Agentes mais comuns:

  • Escherichia coli (mais frequente)
  • Staphylococcus
  • Streptococcus
  • Klebsiella
  • Proteus mirabilis
  • Brucella canis — causa importante; zoonose — transmissível a humanos pela manipulação de secreções

Prostatite Aguda

Emergência veterinária. Instalação rápida com:

  • Febre alta (> 39,5°C)
  • Prostração intensa
  • Vômito e anorexia
  • Dor abdominal à palpação da próstata
  • Rigidez de membros posteriores
  • Pode evoluir para sepse — emergência sistêmica

Tratamento: hospitalização + antibioticoterapia IV (fluoroquinolonas ou combinação) + suporte intensivo. Drenagem cirúrgica se houver abscesso.

Prostatite Crônica

Curso insidioso — sinais discretos ou ausentes:

  • Infertilidade
  • Gotejamento intermitente de sangue ou secreção pelo pênis
  • Corrimento uretral
  • Episódios recorrentes de hematúria
  • Pode ser descoberta apenas no exame de rotina ou por urocultura positiva

Cistos Prostáticos

Cistos intraprostáticos: formam-se dentro da glândula — frequentemente na HPB avançada. Podem infectar (abscessos prostáticos).

Cistos paraprostáticos: fora da glândula, podem ser muito grandes, comprimem órgãos vizinhos.

Tratamento: castração (involução parcial dos cistos intraprostáticos) + marsupialização ou drenagem cirúrgica dos cistos maiores.

Neoplasia Prostática

O câncer de próstata é incomum em cães mas altamente maligno — diferente da próstata humana. O adenocarcinoma prostático canino:

  • Não é dependente de andrógenos — ocorre em cães castrados também
  • Metastatiza precocemente (linfonodos, pulmão, osso)
  • Prognóstico muito reservado

Associação com castração: estudos controversos sugerem que cães castrados têm risco igual ou maior de adenocarcinoma prostático (mas menor de HPB, prostatite e cistos).

Diagnóstico

Exame Retal

Palpação da próstata pelo reto — avalia tamanho, simetria, consistência e dor. HPB: aumento simétrico e firme. Abscesso/neoplasia: assimetria, consistência anormal.

Ultrassonografia Prostática

Exame de imagem de escolha. Avalia tamanho, ecogenicidade, presença de cistos, assimetria e invasão de estruturas adjacentes. HPB: aumento simétrico com ecogenicidade aumentada.

Líquido Prostático (Fração III do ejaculado ou lavado prostático)

Coleta de fluido prostático → citologia e cultura. Na prostatite: células inflamatórias e bactérias.

Radiografia Abdominal

Avalia o tamanho da próstata e deslocamento de outras estruturas.

Biópsia Prostática

Para diagnóstico definitivo de neoplasia ou quando há dúvida após exames de imagem.

Brucella canis

Teste sorológico obrigatório em qualquer cão com prostatite — e em reprodutores rotineiramente. A brucelose canina é zoonose — manipulação de secreções de cão infectado pode transmitir a doença ao humano.

Tratamento

HPB — Castração

O tratamento definitivo e mais eficaz. A remoção dos testículos elimina a principal fonte de andrógenos — a próstata começa a regredir em 3-5 dias e atinge tamanho normal em 4-8 semanas.

Alívio dos sintomas (tenesmo, hematúria) ocorre rapidamente após a cirurgia.

HPB — Alternativas à Castração (para reprodutores)

Finasterida: inibidor da enzima 5-alfa-redutase que converte testosterona em DHT — reduz o tamanho prostático em 40-50% em 16 semanas. A eficácia dura enquanto o medicamento é administrado. Efeito reversível — a próstata volta a crescer após suspensão. Efeito mínimo sobre a qualidade do sêmen.

Implante de deslorelina (Suprelorin): análogo de GnRH de liberação lenta — suprime a produção de LH e testosterona por 6-12 meses. Causa atrofia testicular temporária e infertilidade temporária. Eficaz para reduzir a próstata. Após expirar o implante, a função testicular retorna gradualmente.

Osaterone (não disponível no Brasil): antiandrogênico — reduz próstata eficazmente.

Prostatite Aguda — Emergência

Hospitalização: suporte intensivo, fluidoterapia IV.

Antibioticoterapia IV: fluoroquinolonas (enrofloxacina, marbofloxacina) — excelente penetração no tecido prostático, mesmo quando não há inflamação (a barreira sangue-próstata é superada pelas fluoroquinolonas).

Duração mínima: 4-6 semanas de antibiótico — a próstata tem barreira que impede penetração de muitos antibióticos e dificulta a erradicação.

Castração após estabilização: depois da fase aguda controlada — elimina a causa predisponente (HPB).

Prostatite Crônica

Antibioticoterapia oral prolongada (baseada em cultura e antibiograma) + castração.

Brucella canis

Sem cura garantida — tratamento com doxiciclina + estreptomicina por 4-6 semanas reduz mas pode não eliminar a infecção. Castração obrigatória (macho e fêmea). Cão positivo para Brucella: manejar com cuidado (luvas, evitar contato com secreções genitais). Notificar o veterinário sobre o risco zoonótico.

Prevenção

A castração eletiva antes dos 5 anos previne praticamente toda a doença prostática não neoplásica (HPB, prostatite, cistos). Para machos não destinados à reprodução, a castração é a medida preventiva mais eficaz.

Perguntas frequentes

Quais os sinais de problema na próstata em cachorro?+

Sinais de doença prostática em cães: tenesmo (dificuldade para defecar — fezes achatadas ou em fita, esforço defecatório); urina com sangue (hematúria) ou gotejamento de sangue pelo pênis independente da micção; caminhada com membros posteriores rígidos (postura de 'cavaleiro'); dor abdominal posterior; urina com mau cheiro. Na prostatite aguda: febre, prostração, vômito, dor intensa à palpação abdominal. Na hiperplasia benigna, os sinais são gradualmente progressivos e o cão permanece bem clinicamente; na prostatite aguda, o cão fica gravemente doente de forma súbita.

Hiperplasia prostática em cachorro tem cura?+

Sim — castração é o tratamento definitivo e muito eficaz. A próstata começa a regredir em dias após a castração e atinge tamanho normal em 4-8 semanas. Quase todos os machos não castrados acima de 5-6 anos têm algum grau de hiperplasia prostática benigna — é dependente de testosterona. Alternativa à castração: finasterida (inibidor da 5-alfa-redutase) ou análogos de GnRH (deslorelina — implante que suprime a produção de testosterona temporariamente). Mas a castração é o tratamento definitivo mais eficaz e evita recidiva.

Prostatite em cachorro é grave?+

Prostatite aguda é emergência — infecção bacteriana grave da próstata que causa febre alta, prostração, vômito, dor intensa e sepse. Sem tratamento: septicemia e morte. Requer antibioticoterapia intravenosa intensa e hospitalizacao. Prostatite crônica é mais insidiosa — sintomas discretos, pode ser assintomática. A próstata hiperplásica (HPB) é especialmente suscetível a infecções bacterianas — o ambiente com cistos e áreas isquêmicas favorece a colonização. O agente mais comum é E. coli (mas Staphylococcus, Streptococcus, Klebsiella, Brucella também ocorrem — Brucella canis merece destaque pelo risco zoonótico).

Cão com próstata aumentada pode ter filhotes?+

HPB não impede a reprodução — muitos reprodutores agem normalmente. Mas outros problemas prostáticos que surgem em machos mais velhos podem afetar a qualidade do sêmen. Além disso, a castração resolve definitivamente a HPB mas elimina a fertilidade. Para reprodutores de alto valor genético, finasterida e implantes de deslorelina são alternativas temporárias que reduzem a próstata sem castração permanente — mas podem reduzir temporariamente a qualidade do sêmen. Abordar com o médico veterinário e com o responsável pela reprodução da raça.