Saúde

Hiperadrenocorticismo em Cachorro (Síndrome de Cushing): Sintomas e Tratamento

Síndrome de Cushing é excesso de cortisol — causa barriga aumentada, pelos caindo e muita sede. Acomete principalmente cães de meia-idade a idosos. Diagnóstico e tratamento explicados.

26 de maio de 2026·6 min de leitura

A Síndrome de Cushing — nome formal: hiperadrenocorticismo (HAC) — é uma das endocrinopatias mais comuns em cães. Resulta de excesso crônico de cortisol, o principal glicocorticoide produzido pelas glândulas adrenais. É uma doença de instalação lenta, frequentemente diagnosticada tarde porque os sinais iniciais são confundidos com envelhecimento normal.

O eixo hipotálamo-hipófise-adrenal

O cortisol é controlado por um eixo hormonal:

  1. Hipotálamo libera CRH (hormônio liberador de corticotrofina)
  2. Hipófise responde liberando ACTH (hormônio adrenocorticotrófico)
  3. Glândulas adrenais (uma de cada lado dos rins) respondem ao ACTH produzindo cortisol
  4. O cortisol no sangue inibe hipotálamo e hipófise — mecanismo de feedback negativo

Na Síndrome de Cushing, esse eixo perde regulação e o cortisol fica cronicamente elevado.

Tipos de Cushing

Pituitário-dependente (PDH — Pituitary-Dependent Hyperadrenocorticism)

85-90% dos casos — tumor (geralmente microadenoma benigno) na hipófise produz ACTH em excesso, estimulando as adrenais a produzirem cortisol cronicamente.

  • Ambas as glândulas adrenais ficam aumentadas (hiperplasia bilateral)
  • Maioria dos tumores hipofisários são pequenos e benignos
  • Raças predispostas: Poodle, Dachshund, Yorkshire Terrier, Beagle, Boston Terrier, Boxer

Adrenal-dependente (ADH — Adrenal-Dependent Hyperadrenocorticism)

10-15% dos casos — tumor na glândula adrenal (adenoma ou adenocarcinoma) produz cortisol autonomamente, independente do ACTH.

  • Uma adrenal está aumentada (tumor); a outra fica atrofiada (suprimida pelo excesso de cortisol)
  • Adenocarcinoma (maligno) tem prognóstico mais reservado
  • Raças grandes são mais afetadas pelo Cushing adrenal que pelo pituitário

Iatrogênico

Induzido por uso prolongado de corticosteroides exógenos (prednisona, prednisolona, dexametasona) — o organismo se comporta como se estivesse com excesso de cortisol porque está. Melhora com redução gradual do corticoide.

Sinais clínicos

O Cushing se instala lentamente — os sinais evoluem ao longo de meses a anos:

Os 3 sinais cardinais:

  • Poliúria/Polidipsia: urina muito e bebe muito — o cortisol interfere no efeito do ADH (hormônio antidiurético) nos rins
  • Polifagia: apetite voraz — cortisol estimula o apetite
  • Barriga pendular ("pot belly"): redistribuição de gordura abdominal + fraqueza da musculatura abdominal

Sinais dermatológicos:

  • Alopecia simétrica bilateral: pelos caem progressivamente, principalmente no tronco — abdome e flancos ficam sem pelo enquanto membros e cabeça mantêm (padrão simétrico característico)
  • Pele fina e frágil: o cortisol inibe síntese de colágeno
  • Hiperpigmentação: manchas escuras na pele
  • Calcinose cutis: depósitos de cálcio na pele — lesões esbranquiçadas e endurecidas, especialmente no dorso e pescoço (sinal mais específico do Cushing canino)
  • Comedões: pelos encravados

Sinais musculoesqueléticos:

  • Fraqueza muscular (miopatia): dificuldade de subir escadas, pular em superfícies, levantar
  • Atrofia muscular: especialmente musculatura temporal (face) e dos membros

Outros sinais:

  • Letargia — o cão fica menos ativo
  • Hepatomegalia: fígado aumentado (infiltração gordurosa induzida por cortisol) — pode ser palpável
  • Anestro em fêmeas — ciclos irregulares ou ausentes
  • Atrofia testicular em machos

Diagnóstico

Suspeita clínica

Cão de meia-idade a idoso (média 8-10 anos) com a combinação de: poliúria/polidipsia + barriga pendular + alopecia simétrica.

Hemograma e bioquímica

Achados típicos — não diagnósticos, mas sugestivos:

  • Leucograma de estresse (neutrofilia, linfopenia, eosinopenia, monocitose)
  • Elevação de fosfatase alcalina (FA) — frequentemente muito elevada no Cushing canino
  • Elevação de ALT
  • Hiperlipidemia (colesterol e triglicerídeos elevados)

Urianálise

Urina diluída (densidade baixa) — o cortisol reduz a resposta renal ao ADH.

Testes hormonais específicos

Teste de estimulação com ACTH:

  • Mede o cortisol antes e 1 hora após administração de ACTH sintético
  • Cães com Cushing têm resposta exagerada ao ACTH
  • Sensibilidade ~80-85% para PDH; detecta bem o Cushing iatrogênico

Teste de supressão com dexametasona em dose baixa (TSDDB):

  • Mede o cortisol antes e 8 horas após administração de dexametasona em dose baixa
  • Cão normal: cortisol suprime — cão com Cushing: cortisol não suprime adequadamente
  • Sensibilidade ~95% — mais sensível que o ACTH para PDH
  • Simultaneamente: se houver supressão às 4h mas não às 8h — sugestivo de PDH (não de adrenal)

Razão cortisol:creatinina urinária (RCCU):

  • Triagem — alta sensibilidade, baixa especificidade (muitas causas de false-positive)
  • Útil para excluir Cushing (se negativo, Cushing é improvável)

Diferenciação PDH vs. Adrenal

Teste de supressão com dexametasona em dose alta:

  • PDH: suprime em dose alta (hipófise ainda responde ao feedback)
  • Adrenal: não suprime em nenhuma dose (autônomo)

Ultrassonografia abdominal:

  • Tamanho das adrenais — bilateral aumentado = PDH; unilateral aumentada, contralateral atrófica = adrenal-dependente
  • Identifica invasão vascular em adenocarcinoma maligno

Dosagem de ACTH endógeno:

  • PDH: ACTH normal a elevado
  • Adrenal: ACTH suprimido (o tumor produz cortisol autonomamente, suprimindo a hipófise)

Tratamento

Cushing Pituitário-Dependente

Trilostano (Vetoryl):

Inibidor da síntese de cortisol (inibe 3β-HSD, enzima na via de síntese dos esteroides). Atualmente o tratamento de primeira escolha na maioria dos países.

  • Administrado 1-2x/dia com comida
  • Dose ajustada por teste de estimulação com ACTH
  • Monitoramento: teste de ACTH após 10-14 dias de ajuste, depois a cada 3-6 meses
  • Efeito adverso principal: supressão excessiva → hipoadrenocorticismo (crise de Addison)

Sinais de supressão excessiva com trilostano (urgência veterinária):

  • Letargia súbita, vômito, diarreia, anorexia, fraqueza
  • Parar trilostano e ir ao veterinário imediatamente

Mitotano (Lysodren):

Adrenocorticolítico — destrói o córtex adrenal seletivamente. Mais antigo, ainda usado onde trilostano não está disponível ou em casos específicos.

  • Fase de indução: dose diária com comida por 5-10 dias (até resolução de poliúria/polifagia)
  • Fase de manutenção: dose semanal
  • Risco: supressão excessiva é mais difícil de reverter que com trilostano

Cushing Adrenal-Dependente

Adrenalectomia: cirurgia de remoção da adrenal afetada — pode ser curativa se o tumor for benigno e não metastático.

  • Cirurgia de risco moderado-alto — pacientes com Cushing têm maior risco anestésico e cicatrização comprometida
  • Centro cirúrgico veterinário especializado
  • Trilostano pode ser usado enquanto se aguarda cirurgia ou se cirurgia não for viável

Cushing Iatrogênico

Nunca interromper o corticosteroide abruptamente — risco de crise de Addison (as adrenais atrofiaram). Redução gradual com desmame programado pelo veterinário.

Monitoramento

Cão em tratamento de Cushing precisa de monitoramento regular:

  • Teste de estimulação com ACTH para ajuste de dose
  • Pressão arterial (o Cushing frequentemente causa hipertensão)
  • Urinálise (infecções urinárias são comuns — imunossupressão pelo cortisol)
  • Ultrassonografia periódica (especialmente no PDH para monitorar o tumor hipofisário)

Prognóstico

PDH tratado com trilostano ou mitotano: sobrevida mediana 2-2,5 anos após diagnóstico — muitos cães vivem 3-4 anos com boa qualidade de vida.

Adrenal-dependente benigno com cirurgia: excelente — potencialmente curativo.

Adrenocarcinoma maligno: reservado — risco de metástase.

O Cushing não tratado deteriora progressivamente — infecções recorrentes, hipertensão, tromboembolismo. O tratamento, embora exija comprometimento do tutor com monitoramento, transforma a qualidade de vida do animal.

Perguntas frequentes

Como saber se meu cachorro tem Cushing?+

Os sinais mais característicos da Síndrome de Cushing (hiperadrenocorticismo) são: barriga distendida e caída ('barriga de sapo'), sede excessiva (polidipsia), urinação frequente e em grande volume (poliúria), apetite voraz (polifagia), pelos caindo e pelo fino sem crescimento (alopecia simétrica bilateral), pele fina e com manchas escuras (hiperpigmentação), fraqueza muscular — o cão tem dificuldade de subir em móveis. Esses sinais se desenvolvem lentamente ao longo de meses a anos, frequentemente confundidos com 'envelhecimento normal'. Veterinário com exames específicos (teste de estimulação com ACTH ou teste de supressão com dexametasona) confirma o diagnóstico.

O que causa a barriga grande no cachorro com Cushing?+

A barriga grande ('pot belly') no cachorro com Cushing tem duas causas simultâneas: redistribuição de gordura para o abdome (o cortisol excess provoca acúmulo de gordura visceral) e fraqueza dos músculos abdominais (o cortisol excess causa catabolismo muscular — os músculos da parede abdominal perdem tônus e o abdome 'cai'). O fígado frequentemente aumenta de tamanho (hepatomegalia) devido à infiltração gordurosa induzida pelo cortisol, contribuindo para a distensão. O resultado visual é uma barriga pendular característica.

Cushing em cachorro tem cura?+

Depende do tipo. O Cushing pituitário-dependente (85-90% dos casos — tumor na hipófise) não tem cura, mas é controlado com medicação oral (trilostano ou mitotano) por toda a vida — qualidade de vida excelente com controle adequado. O Cushing adrenal-dependente (10-15% — tumor na adrenal) pode ser curado com cirurgia de adrenalectomia se o tumor for benigno e não metastático. O Cushing iatrogênico (induzido por corticosteroide exógeno) melhora com redução gradual do corticosteroide — não pode ser interrompido abruptamente.

Cushing em cachorro é sério?+

Sim — sem tratamento, o Cushing progressivo causa complicações graves: infecções recorrentes do trato urinário (o cortisol imunossuprime), hipertensão, tromboembolismo pulmonar, neuropatia periférica, diabetes mellitus secundária. A mortalidade sem tratamento é significativa. Com diagnóstico e tratamento adequados, a maioria dos cães tem qualidade de vida boa por anos. A complicação mais grave do tratamento com mitotano é a supressão excessiva (hipoadrenocorticismo iatrogenico — crise de Addison) — monitoramento rigoroso é essencial.