Saúde

Hepatite Crônica em Cachorro: Doença Hepática Progressiva

A Hepatite Crônica é inflamação persistente do fígado que leva à fibrose e cirrose progressiva. Cocker Spaniel, Dobermann e Labrador têm formas genéticas específicas. Pode ser silenciosa por meses. Ascite, icterícia e encefalopatia são sinais tardios. Biópsia hepática é necessária para o diagnóstico definitivo.

27 de maio de 2026·7 min de leitura

A hepatite crônica é uma das doenças silenciosas mais importantes da medicina veterinária. O fígado tem enorme reserva funcional — o cão pode perder 70% dos hepatócitos antes de mostrar qualquer sinal clínico. Enquanto isso, meses ou anos de inflamação substituem o parênquima por fibrose irreversível.

A janela de oportunidade para tratamento eficaz é essa fase silenciosa — quando a ALT está elevada no exame de rotina mas o cão está "bem". Esse achado laboratorial incidental, frequentemente desconsiderado, é a oportunidade de diagnóstico precoce que muda o prognóstico.

O Fígado e Sua Reserva Funcional

O fígado canino tem capacidade de regeneração excepcional e reserva funcional ampla:

  • Até 20-30% de hepatócitos destruídos: sem sinais clínicos, ALT elevada pode ser o único achado
  • Até 50-60%: sinais inespecíficos leves (letargia, PU/PD), ALT e FA elevadas
  • Acima de 70-80%: sinais clínicos evidentes, complicações da insuficiência hepática

Essa reserva é a razão pela qual a hepatite crônica é diagnosticada tardiamente — quando o dono traz o cão "porque parece bem mas a barriga ficou inchada", frequentemente a cirrose já está estabelecida.

Mecanismo da Lesão Crônica

A hepatite crônica é um ciclo vicioso:

  1. Agressão inicial (toxina, infecção, imunomediada, acúmulo de cobre)
  2. Inflamação: neutrófilos e linfócitos infiltram o parênquima
  3. Necrose hepatocelular: hepatócitos morrem
  4. Ativação de células estreladas (de Ito): células perisinusoidais ativadas pela inflamação produzem colágeno → fibrose
  5. Fibrose periportal e centrilobular: conecta os espaços porta → formação de nódulos regenerativos rodeados de fibrose → cirrose
  6. Complicações: hipertensão portal, shunts portossistêmicos adquiridos, insuficiência hepática

O que perpetua o ciclo é a persistência do fator agressivo. Se removido precocemente, a fibrose pode se reverter parcialmente. Na cirrose estabelecida, a fibrose é irreversível.

Causas

Acúmulo de Cobre — Causa Mais Importante em Raças Predispostas

Bedlington Terrier:

  • Mutação no gene COMMD1 (autossômica recessiva) — defeito no transporte de cobre para a bile
  • Cobre acumula nos lisossomos dos hepatócitos → estresse oxidativo → necrose e inflamação
  • Teste genético disponível: N/N (normal), N/m (portador), m/m (afetado)
  • Animais afetados não devem ser usados para reprodução

Cocker Spaniel Inglês e Americano:

  • Hepatite associada ao cobre — mecanismo semelhante, gene ainda não completamente mapeado

Labrador Retriever:

  • Acúmulo de cobre documentado — fator genético em investigação

West Highland White Terrier:

  • Acúmulo de cobre + hipóxia mitocondrial — mecanismo complexo

Dalmatian, Dobermann: acúmulo de cobre documentado em menor escala

Dobermann Pinscher — Hepatite Crônica Idiopática

Forma específica de hepatite crônica em Dobermanns — predomina em fêmeas, adultos de meia-idade a idosos.

Causa não completamente elucidada — componente imunomediado e genético provável.

Alta prevalência na raça: estudos indicam que > 30% dos Dobermanns desenvolvem hepatite crônica ao longo da vida.

Achados histopatológicos: hepatite interface (inflamação periportal), pontes fibróticas, necroses hepatocelulares.

Toxinas e Fármacos

  • Carprofen, diclofenac, sulfonamidas: hepatotoxicidade idiossincrásica rara mas documentada
  • Fenobarbital: hepatotoxicidade dose-dependente em uso crônico — monitorar função hepática a cada 6 meses em cães em fenobarbital
  • Cetoconazol, azatioprina: hepatotóxicos em doses altas
  • Aflatoxinas (alimentos contaminados por Aspergillus flavus): hepatite aguda grave a crônica

Infecciosas

  • Adenovírus Canino Tipo 1 (CAV-1): hepatite infecciosa aguda pode evoluir para hepatite crônica em alguns sobreviventes
  • Leptospirose crônica: persistência de Leptospira nos túbulos renais e eventualmente hepática
  • Leishmaniose: infiltrado inflamatório hepático por Leishmania — hepatomegalia e hepatite em cães com calazar

Imunomediada

Hepatite imunomediada (ou hepatite linfocítica) — infiltrado de linfócitos T na interface hepatoportal.

Resposta imune anormal contra antígenos hepáticos ou cruzada com outros tecidos.

Idiopática

Causa não identificada mesmo após investigação completa (~ 30-40% dos casos de hepatite crônica canina).

Sinais Clínicos

Fase Compensada (Meses a Anos de Evolução)

Frequentemente assintomática. Sinais inespecíficos quando presentes:

  • Letargia leve — o tutor nota que o cão está "menos animado"
  • Inapetência intermitente — alguns dias come menos
  • Poliúria/Polidipsia (PU/PD): comprometimento da capacidade de concentração urinária
  • Vômito ocasional
  • Perda de peso gradual — perda de massa muscular

O achado que leva ao diagnóstico precoce: ALT e/ou FA elevadas em exame de sangue de rotina.

Fase Descompensada — Sinais de Insuficiência Hepática

Ascite: o sinal mais visível — barriga progressivamente mais inchada. Resulta de hipertensão portal (obstrução ao fluxo venoso portal pelo fígado cirrótico) + hipoalbuminemia (fígado não produz albumina suficiente).

Icterícia: mucosas (gengivas, esclerótica), pele e urina amareladas — acúmulo de bilirrubina não conjugada e conjugada.

Encefalopatia hepática: episódios de desorientação, andar em círculos, apatia profunda, convulsões — amônia e outros toxinas inibem o SNC. Especialmente pós-prandial.

Hemorragias: petéquias, equimoses, hemorragias nas mucosas — déficit de fatores de coagulação hepáticos (fibrinogênio, protrombina, fatores II, VII, IX, X).

Úlceras gastrointestinais: hipertensão portal → hipertensão na mucosa gástrica e intestinal → úlceras.

Diagnóstico

Bioquímica Sérica

ALT (alanina aminotransferase): enzima intracelular dos hepatócitos. Elevação = lesão hepatocelular ativa.

FA (fosfatase alcalina): elevação por colestase ou indução por corticosteroides/fenobarbital.

GGT: específica para lesão de vias biliares.

Albumina: reduzida em insuficiência hepática avançada.

BUN (ureia): reduzida em cirrose (fígado não converte amônia em ureia).

Coagulação: TP e TTPA prolongados.

Ácidos Biliares Pós-Prandiais

Elevados mesmo em fase compensada — um dos testes mais sensíveis de disfunção hepatocelular.

Ultrassonografia Hepática

  • Fígado aumentado (hepatomegalia) em fase inicial
  • Fígado pequeno e nodular (cirrose avançada)
  • Hiperecogenicidade (fibrose, acúmulo de gordura ou cobre)
  • Ascite: líquido livre na cavidade abdominal
  • Vasos portais anômalos (shunts adquiridos)

Biópsia Hepática — O Diagnóstico Definitivo

Indispensável para:

  • Classificar o tipo histológico
  • Avaliar o grau de fibrose (estadiamento)
  • Identificar acúmulo de cobre (coloração rodanina)
  • Orientar o tratamento específico

Técnicas:

  • Biópsia por agulha ecoguiada (tru-cut) — minimamente invasiva; amostra pequena
  • Biópsia laparoscópica — amostra maior; melhor para estadiamento
  • Biópsia cirúrgica (laparotomia) — máxima amostra; maior morbidade

Pré-biópsia: avaliar coagulação (TP, TTPA, plaquetas) — a hepatopatia grave compromete a coagulação.

Dosagem de Cobre Hepático

Se histopatologia mostra acúmulo de cobre (coloração rodanina positiva): quantificar por espectrofotometria de absorção atômica:

  • Normal: < 400 ppm de peso seco
  • Hepatopatia por cobre: > 1.000-2.000 ppm

Tratamento

Identificar e Remover a Causa

Fármaco hepatotóxico: suspender imediatamente.

Acúmulo de cobre:

  • Dieta com baixo teor de cobre: evitar fígado, rins, mariscos (altíssimos em cobre); dietas comerciais hepáticas (Hill's l/d, Royal Canin Hepatic)
  • Penicilamina (10-15 mg/kg VO 2x/dia em jejum): quelante de cobre; efeitos colaterais (vômito — dar com alimento pequeno)
  • Zinco (acetato de zinco, 100 mg/dia): interfere com a absorção intestinal de cobre via metalotioneína

Leptospirose/Adenovírus: tratamento específico.

Leishmaniose: tratar com alopurinol ± miltefosina.

Imunossupressão (Causa Imunomediada ou Dobermann)

Prednisolona: 1-2 mg/kg/dia inicialmente → redução gradual ao longo de meses.

Azatioprina: 1,5-2 mg/kg/dia como poupador de esteroide.

Monitorar: hemograma quinzenal no início (azatioprina pode causar mielossupressão).

Hepatoprotetores Adjuvantes

SAMe (S-adenosilmetionina):

  • 20-40 mg/kg/dia VO em jejum
  • Precursor de glutationa (antioxidante hepático principal)
  • Efeito antifibrótico e hepatoprotetor — evidência crescente em veterinária

Silimarina (Cardo-mariano — Silybum marianum):

  • 50-200 mg/dia VO
  • Hepatoprotetor, antioxidante, anti-inflamatório
  • Efeito antifibrótico modesto
  • Formulação com Silybin-fosfatidilcolina tem melhor absorção

Colchicina:

  • 0,03 mg/kg/dia VO
  • Inibe a síntese de colágeno — antifibrótico
  • Evidência limitada em cães; usado em casos com fibrose avançada

Ácidos graxos ômega-3:

  • Efeito anti-inflamatório hepático

Manejo das Complicações

Ascite:

  • Espironolactona 2 mg/kg/dia (diurético poupador de K+)
  • Furosemida 1-2 mg/kg/dia se ascite refratária — cautela com depleção de volume
  • Paracentese terapêutica em ascite volumosa com dispneia

Encefalopatia hepática:

  • Lactulose 0,5-1 mL/kg 2-3x/dia
  • Antibióticos intestinais (amoxicilina, metronidazol) — redução de bactérias produtoras de amônia
  • Dieta restrita em proteína de alta qualidade

Coagulopatia:

  • Plasma fresco congelado (PFC) em hemorragias agudas
  • Vitamina K1 (1-5 mg/kg SC) se coagulopatia secundária a colestase

Úlceras gastrointestinais:

  • Omeprazol 0,7-1 mg/kg/dia VO
  • Sucralfato 500-1.000 mg VO 3x/dia (protetor de mucosa)

Prognóstico

Hepatite crônica detectada precocemente (fase compensada, ALT elevada sem sintomas):

  • Causa identificada e tratável: prognóstico bom com tratamento
  • Fibrose leve: reversibilidade possível

Hepatite crônica em fase descompensada (ascite, icterícia, encefalopatia):

  • Prognóstico reservado — cirrose estabelecida é pouco reversível
  • Tratamento prolonga e melhora a qualidade de vida, mas raramente cura

Acúmulo de cobre em Bedlington: com triagem genética e tratamento precoce, prognóstico excelente — o dano pode ser prevenido.

Dobermann com hepatite crônica: prognóstico variável; forma progressiva na maioria dos casos; sobrevivência de 1-3 anos com tratamento de suporte.

A mensagem-chave: fazer o hemograma e a bioquímica de rotina anualmente em cães adultos e com maior frequência em raças predispostas — a ALT elevada isolada, no cão assintomático, é o diagnóstico precoce que muda o prognóstico.

Perguntas frequentes

O que é hepatite crônica em cachorro?+

Hepatite crônica é a inflamação persistente (> 4-6 semanas) do fígado, com infiltrado inflamatório, necrose hepatocelular e deposição de fibrose progressiva. É diferente da hepatite aguda (que resolve ou mata rapidamente): a hepatite crônica é lenta e insidiosa — meses a anos de inflamação subclínica vão destruindo o parênquima hepático e substituindo por cicatriz fibrosa. O estágio final é a cirrose: o fígado pequeno, nodular, com fibrose extensa e perda de hepatócitos funcionais. As causas são múltiplas: algumas raças têm formas familiares/genéticas específicas (acúmulo de cobre, defeitos metabólicos); outras causas incluem hepatites virais (adenovírus canino tipo 1), toxinas (antiinflamatórios, carprofen, fenobarbital), Leptospirose crônica, leishmaniose hepática e causas idiopáticas (imunomediadas).

Quais raças têm hepatite crônica hereditária?+

Várias raças têm formas genéticas específicas de hepatite crônica: Cocker Spaniel Inglês — hepatite associada ao acúmulo de cobre (doença de Bedlington × Cocker); Bedlington Terrier — hepatite por acúmulo de cobre (mutação no gene COMMD1, autossômica recessiva, teste genético disponível); Dobermann Pinscher — hepatite crônica idiopática de alta prevalência, especialmente fêmeas, causa genética não completamente elucidada; Labrador Retriever — hepatite por acúmulo de cobre; West Highland White Terrier — hepatite por acúmulo de cobre e doença hepática idiopática; Dálmata, Skye Terrier. O acúmulo de cobre (semelhante à doença de Wilson humana) é uma causa importante em várias dessas raças — o cobre acumula nos hepatócitos e causa lesão oxidativa progressiva.

Quais são os sinais de hepatite crônica em cachorro?+

A hepatite crônica é frequentemente assintomática por longo período — os cães compensam bem até perder > 70-80% da função hepática. Quando os sinais aparecem: fase compensada — letargia, inapetência intermitente, perda de peso gradual, poliúria/polidipsia (PU/PD), vômito ocasional, achatamento abdominal leve por organomegalia ou esplenomegalia; fase descompensada — ascite (barriga inchada por hipertensão portal e hipoalbuminemia), icterícia (mucosas e pele amareladas — acúmulo de bilirrubina), encefalopatia hepática (desorientação, convulsões — amônia afeta o cérebro), coagulopatia (sangramento — déficit de fatores de coagulação hepáticos), úlceras gastrointestinais por hipertensão portal. O achado laboratorial mais frequente que leva ao diagnóstico precoce: elevação persistente de ALT (alanina aminotransferase) e FA (fosfatase alcalina) no exame de rotina — antes de qualquer sinal clínico.

Como tratar hepatite crônica em cachorro?+

O tratamento depende da causa identificada na biópsia hepática. Para acúmulo de cobre: dieta com baixo teor de cobre (carnes órgão como fígado e rins são ricos em cobre — evitar; dietas comerciais hepáticas restritas em cobre); penicilamina (quelante de cobre, 10-15 mg/kg 2x/dia) — promove excreção de cobre urinário; zinco (200-500 mg/dia) reduz a absorção de cobre pelo intestino. Para causa imunomediada: prednisolona 1-2 mg/kg/dia com redução gradual; azatioprina 1,5-2 mg/kg/dia como poupador de esteroide. Hepatoprotetores adjuvantes: SAMe (S-adenosilmetionina, 20-40 mg/kg/dia) — restaura glutationa hepática e tem efeito antifibrótico; silimarina (cardo-mariano, 50-200 mg/dia) — hepatoprotetor com evidência moderada; colchicina (antifibrótico, 0,03 mg/kg/dia) — para casos com fibrose avançada. Manejo das complicações: espironolactona + furosemida para ascite; lactulose + dieta restrita em proteína para encefalopatia; protetores gástricos para úlceras. Prognóstico: variável — hepatite precoce com causa tratável tem bom prognóstico; cirrose estabelecida tem prognóstico ruim.