Fratura Óssea em Cachorro: Tipos, Diagnóstico e Tratamento Cirúrgico
Fratura óssea é emergência ortopédica comum em cães — atropelamentos, quedas e mordidas são as principais causas. Tratamento é geralmente cirúrgico: pinos, placas e fixadores externos. Diagnóstico por radiografia. Recuperação leva 6-12 semanas com fisioterapia.
A fratura óssea é uma das emergências ortopédicas mais frequentes na clínica veterinária. A principal causa em cães urbanos é o atropelamento — seguido por quedas de altura (especialmente em raças pequenas), mordidas de cães maiores e acidentes domésticos. Em cães de campo, trauma por arma de fogo ou colisão com objetos também é documentado.
A abordagem correta começa no momento do trauma — um membro fraturado mal manipulado pode se tornar fratura aberta (com comprometimento da pele e maior risco de infecção) e piorar significativamente o prognóstico.
Primeiro Atendimento — O que Fazer
No Local do Trauma
Prioridade 1 — Segurança: cão com dor intensa pode morder qualquer pessoa, incluindo o tutor. Proteger mãos e rosto.
Prioridade 2 — Verificar estado geral: respiração, nível de consciência, sangramento ativo. Fratura é sério, mas hemorragia e choque são mais urgentes.
Prioridade 3 — Imobilização mínima:
- NÃO tentar reposicionar o membro fraturado
- NÃO palpar o local tentando sentir "se está quebrado"
- Envolver o membro em pano ou toalha para suporte mínimo
- Transportar em superfície rígida (tábua, caixa) se possível
- Evitar movimento desnecessário
Prioridade 4 — Veterinário imediato. Fratura suspeita = emergência.
Fraturas Abertas
Se o osso está exposto ou há ferida próxima ao local da fratura:
- Cobrir a ferida com pano limpo úmido ou compressa estéril se disponível
- NÃO tentar limpar ou fechar a ferida
- Tempo até o veterinário é crítico — risco de infecção óssea (osteomielite) aumenta a cada hora
Diagnóstico
Exame Físico
Achados ortopédicos: claudicação de apoio zero (não apoia), deformidade angular do membro, edema, dor focal à palpação, instabilidade ao exame.
Sempre avaliar: estado neurológico (fratura de pelve pode comprometer nervo isquiático; fraturas vertebrais causam paralisia), estado cardiovascular (choque por dor ou perda sanguínea), lesões associadas (pneumotórax em atropelados, laceração de órgão).
Radiografia
Padrão diagnóstico. Dois planos ortogonais (latero-lateral + ventrodorsal ou crânio-caudal) do membro afetado — sempre incluindo a articulação acima e abaixo da fratura.
O que a radiografia revela:
- Localização da fratura (diáfise, metáfise, epífise, articular)
- Padrão da fratura
- Número de fragmentos
- Alinhamento
- Qualidade óssea (osteoporose, lesão subjacente)
Classificação das Fraturas
Por Localização
Diafisária: porção central do osso — a mais comum.
Metafisária: próxima à epífise (porção final do osso).
Epifisária: na extremidade do osso — frequentemente articular.
Articular: envolve a superfície articular — tratamento cirúrgico obrigatório e reconstrução anatômica precisa.
Placa de crescimento (Salter-Harris): em filhotes jovens — envolve a fise (placa de crescimento). Classificada de I a V. Tipos III, IV e V têm prognóstico mais reservado para crescimento normal do membro.
Por Padrão
| Padrão | Descrição | |---|---| | Transversa | Perpendicular ao eixo do osso — estável após redução | | Oblíqua curta | < 45° de angulação | | Oblíqua longa | > 45° de angulação — maior instabilidade | | Espiral | Torção — fratura longa, frequentemente estável | | Cominutiva | Múltiplos fragmentos — desafiadora cirurgicamente | | Segmentar | Dois segmentos de fratura separados por fragmento intermediário | | Greenstick | Incompleta — apenas um lado do osso rompe; exclusiva de filhotes |
Por Integridade da Pele
Fechada: pele íntegra sobre o foco de fratura. Melhor prognóstico.
Aberta (exposta): comunicação com exterior — pele rompida, osso visível ou exposto ao ambiente. Risco grave de osteomielite; tratamento emergencial e antibioticoterapia imediata.
Tratamento
Princípios da Osteossíntese
O objetivo da cirurgia é:
- Redução: realinhar os fragmentos na posição anatômica correta
- Fixação: estabilizar a fratura durante a consolidação
- Mobilidade precoce: permitir uso do membro o mais cedo possível
Métodos de Fixação
Pino Intramedular (IM)
Pino de aço inserido dentro do canal medular do osso ao longo do eixo.
Vantagens: simples, baixo custo relativo, eficaz para fraturas diafisárias simples (transversas, oblíquas curtas).
Limitações: não neutraliza rotação — frequentemente combinado com cerclagem (arame) em fraturas oblíquas, ou com pino Steinmann externo.
Indicações: fraturas de úmero, fêmur, tíbia diafisárias simples.
Placa e Parafusos (Osteossíntese com Placa)
Placa metálica fixada ao osso com parafusos corticais e/ou bloqueados (locking).
Vantagens: fixação mais rígida, controle de rotação e angulação, permite mobilidade precoce.
Tipos:
- Placa compressão dinâmica (DCP): placa convencional
- Placa bloqueada (LCP): parafusos se travam à placa — mais estável em osso osteopênico ou fragmentos pequenos
- Placa de ponte: para fraturas cominutivas — não toca todos os fragmentos, serve como suporte externo
Indicações: fraturas cominutivas, fraturas articulares, fraturas onde controle rotacional é crítico (radio/ulna, tíbia).
Fixador Externo (FE)
Sistema de pinos transfixantes percutâneos (atravessam pele e osso) conectados a barra(s) externa(s) fora do membro.
Vantagens: sem implante dentro do foco de fratura (vantagem em fraturas abertas infectadas ou contaminadas), permite acesso ao local cirúrgico, ajustável pós-op.
Desvantagens: manutenção necessária (higienização dos pinos), risco de afrouxamento dos pinos.
Indicações: fraturas abertas, fraturas com comprometimento de partes moles, fraturas distais onde placa é difícil, fraturas pediátricas.
Fios de Kirchner + Cerclagem
Para fraturas específicas — fragmentos pequenos, fraturas de falanges, fraturas em cães muito pequenos.
Fraturas Articulares
Exigem reconstrução anatômica precisa — qualquer incongruência articular causa osteoartrite secundária acelerada.
TC (tomografia computadorizada) pré-cirúrgica é frequentemente indicada para planejar a reconstrução em fraturas articulares complexas.
Fixação: pinos e fios de Kirchner, parafusos de esponjosa, placas específicas para a articulação.
Tratamento Conservador
Limitado a:
- Fraturas de falanges distais (em alguns casos)
- Algumas fraturas incompletas em filhotes muito jovens
- Fraturas de escápula sem comprometimento da glenoide
- Cão de porte muito pequeno com fratura simples e proprietário com limitação financeira grave
Método: tala ou enfaixamento (Robert Jones modificado para imobilização) — funcionam melhor abaixo do cotovelo/joelho (controle de rádio/ulna distal e tíbia/fíbula distal).
Limitação: cão não coopera com imobilização prolongada; a musculatura traciona os fragmentos; taxas de complicação maiores que cirurgia para a maioria das localizações.
Cuidados Pós-Operatórios
Período Imediato (Semanas 1-2)
- Confinamento absoluto: quarto pequeno ou canil — sem pulos, escadas ou corrida
- Colar elizabetano: para prevenir automutilação da ferida cirúrgica e afrouxamento de implantes
- Analgesia: anti-inflamatórios + opioides/tramadol conforme prescrito
- Antibioticoterapia: especialmente em fraturas abertas
- Monitoramento da ferida: rubor, secreção, odor — sinais de infecção cirúrgica
Período de Reabilitação (Semanas 3-8)
- Fisioterapia: exercícios passivos de amplitude de movimento desde a 2ª-3ª semana
- Hidroterapia: natação ou esteira aquática (quando disponível) — mobilidade sem carga
- Aumento gradual de atividade: caminhadas curtas em coleira, aumentando progressivamente
Retorno Radiográfico
- Radiografia de controle em 4-6 semanas para avaliar consolidação
- Retorno à atividade plena somente após confirmação radiográfica de consolidação (calo ósseo maduro)
Complicações
Osteomielite: infecção óssea — mais comum em fraturas abertas. Exige antibioticoterapia prolongada (6-8 semanas) e, frequentemente, remoção de implantes contaminados.
Não união (pseudoartrose): o osso não consolida — mais comum quando há movimento excessivo no foco, infecção, ou aporte sanguíneo comprometido. Requer nova cirurgia (enxerto ósseo + nova fixação).
União viciosa: consolidação em posição não anatômica — angulação ou rotação residual. Pode causar claudicação permanente ou artrose secundária.
Síndrome compartimental: raramente — aumento da pressão no compartimento muscular por edema — emergência cirúrgica.
Afrouxamento de implante: especialmente em cão com atividade excessiva antes da consolidação.
Prognóstico
Com fixação cirúrgica adequada e cuidados pós-operatórios rigorosos:
- A maioria das fraturas em cães jovens e adultos consolida completamente
- Retorno à função normal é esperado para fraturas simples
- Fraturas articulares têm risco de artrose residual mesmo com tratamento excelente
- Fraturas de placa de crescimento em filhotes: risco de deformidade angular no crescimento — monitoramento até o fechamento das fises
A variável mais importante não é o tipo de fratura — é a velocidade de atendimento e a qualidade da fixação cirúrgica.
Perguntas frequentes
Como saber se o cachorro quebrou o osso?+
Sinais sugestivos de fratura: claudicação grave ou incapacidade total de apoiar o membro; deformidade visível do membro (angulação anormal, encurtamento); crepitação (som ou sensação de 'estalar' ao palpar — NÃO testar deliberadamente); dor intensa à palpação; edema e hematoma local; em fraturas abertas, fragmento ósseo visível através da pele ou ferida exposta. Após atropelamento ou trauma significativo, qualquer claudicação deve ser considerada fratura até prova em contrário. Não movimentar o membro suspeito — imobilização mínima (pano envolto, caixa de transporte) e veterinário imediato.
Fratura em cachorro tem cura sem cirurgia?+
Depende do tipo de fratura e do membro afetado. Fraturas de membros quase sempre requerem cirurgia em cães — diferentemente de humanos, os cães não cooperam com imobilização prolongada, continuam apoiando o membro, e as forças musculares sobre o fragmento ósseo tornam a redução fechada (sem cirurgia) muito instável. Exceções — casos onde tratamento conservador pode ser considerado: fraturas de ossos pequenos (falanges, metacarpos) em membros distais em alguns casos; fraturas incompletas (greenstick) em filhotes muito jovens; algumas fraturas da escápula. Fraturas de fêmur, úmero, rádio/ulna e tíbia em cães de médio e grande porte quase sempre requerem fixação cirúrgica. O veterinário ortopedista avaliará radiograficamente.
Qual a recuperação de cachorro com fratura?+
Recuperação típica de fratura de membro com fixação cirúrgica adequada: 6-12 semanas para consolidação óssea radiográfica, dependendo da localização e do tamanho do cão (cães pequenos consolidam mais rápido). Durante a recuperação: repouso absoluto nas primeiras 2-4 semanas (confinamento em canil ou quarto pequeno); fisioterapia ativa a partir da 2ª-3ª semana pós-op; restrição de exercício até 8-12 semanas ou até radiografia confirmar consolidação; colar elizabetano obrigatório para evitar automutilação do local cirúrgico. Filhotes têm recuperação mais rápida (4-6 semanas); cães idosos e raças condrodistróficas podem ser mais lentos.
Quanto custa cirurgia de fratura em cachorro?+
O custo varia enormemente dependendo do tipo de fratura, do método de fixação, da região do país e do nível de complexidade. Fixação com pino intramedular (mais simples): pode partir de R$1.500-3.000. Placa e parafusos (osteossíntese com placa): R$3.000-8.000 ou mais. Fixador externo: R$2.000-6.000. Cirurgias complexas (fraturas articulares, fraturas cominutivas) ou em centros especializados de ortopedia veterinária: podem superar R$10.000-15.000. Seguro de saúde para pets que cobre ortopedia é altamente recomendado para cães ativos ou de raças de grande porte.
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