Estenose Pilórica em Cachorro: Vômito Crónico e Diagnóstico Ultrassonográfico
A estenose pilórica em cães é o estreitamento da saída do estômago (piloro) que impede o esvaziamento gástrico normal — causando vômito projectile crônico sem sangue e progressivo. Pode ser congênita (raças braquicefálicas) ou adquirida (hipertrofia muscular em adultos). Diagnóstico por ultrassom ou contraste baritado. Tratamento cirúrgico: piloromiotomia ou piloroplastia.
O Buldogue Inglês de 4 meses chegou emaciado e desidratado. Desde as 6 semanas vomitava toda refeição sólida — em jato, 45-60 minutos depois de comer. Sempre sem bile. Sempre com o alimento quase intacto.
Ultrassom: piloro com parede muscular de 12 mm (normal: < 7 mm). Estenose pilórica congênita.
Piloromiotomia: recuperação em 48 horas. Nunca mais vomitou a refeição.
O Piloro — A Válvula de Saída do Estômago
O piloro é um esfíncter muscular entre estômago e duodeno:
- Alimento entra no estômago → digestão começa
- Quando o quimo está pronto (pH, consistência): piloro abre
- Conteúdo passa ao duodeno → digestão continua
- Piloro fecha → ciclo repete
Na estenose: o piloro nunca abre suficientemente. O estômago enche — mas não esvazia.
Por Que o Vômito Não Tem Bile
Este é o detalhe diagnóstico mais importante:
| Tipo de vômito | Bile presente? | Origem | |---|---|---| | Estenose pilórica | Não | Estômago bloqueado | | Refluxo biliar/duodenal | Sim (amarelo-verde) | Duodeno → estômago | | GDV | Improdutivo | Estômago rodado | | IBD | Geralmente sim | Inflamação GI |
Sem bile = o material vomitado saiu apenas do estômago, nunca chegou ao duodeno. É a assinatura da obstrução ao nível do piloro.
O Ultrassom — Medindo o Músculo
A medida da parede muscular pilórica no ultrassom:
| Achado | Valor normal | Estenose | |---|---|---| | Espessura muscular | < 7 mm | > 7-8 mm | | Espessura total da parede | < 5-6 mm | > 6 mm | | Diâmetro do lúmen | > 3-4 mm | < 2 mm |
O ultrassom abdominal pode também avaliar motilidade — o piloro que se contrai mas não relaxa adequadamente é visível em tempo real.
Prognóstico
| Situação | Prognóstico | |---|---| | Estenose congênita filhote + piloromiotomia | Excelente — cura | | Hipertrofia adquirida adulto + cirurgia | Excelente | | Espasmo funcional + procinético | Bom | | Diagnóstico tardio com desnutrição grave | Moderado a bom com suporte |
Perguntas frequentes
O que é a estenose pilórica e por que causa vômito?+
O piloro é a válvula muscular que conecta o estômago ao duodeno — controla a saída do alimento digerido do estômago para o intestino delgado. Anatomia normal: o piloro contrai e relaxa ritmicamente; quando o alimento está suficientemente digerido e o duodeno está pronto, o piloro abre e permite a passagem; Estenose pilórica: o piloro está estreitado ou espessado — mecanicamente impede a saída do conteúdo gástrico; o estômago não consegue se esvaziar normalmente; o alimento acumula no estômago → distensão → vômito; Mecanismo do vômito: inicialmente: vômito de alimento não digerido 30-60 minutos após a refeição; progressão: vômito em jato (projectile) — força pela distensão; o vômito NÃO tem bile (saiu pelo piloro bloqueado — não reflui do duodeno); Tipos: Congênita: presente desde o nascimento — filhotes começam a vomitar quando introduzem alimento sólido; raças braquicefálicas predispostas (Buldogue Inglês, Boxer, Buldogue Francês); Adquirida: adultos — hipertrofia muscular progressiva do piloro; causa exata incerta; Basenji e Maltês citados como predispostos; hipertrofia mucosa pode ocorrer em qualquer raça; Estenose funcional: espasmo pilórico sem hipertrofia — responde a antiespasmódicos.
Como se manifesta a estenose pilórica e como diferenciá-la de outras causas de vômito?+
Sinais clínicos: o padrão clássico da estenose pilórica tem características que permitem suspeita diagnóstica clínica. Sinais típicos: vômito de alimento semi-digerido ou intacto 30-120 minutos após a refeição; vômito sem bile (não amarelo-esverdeado) — diferente de refluxo biliar; progressão para vômito projectile com força; emagrecimento progressivo por incapacidade de absorver nutrientes; apetite conservado — o cão come mas vomita; desidratação e alcalose metabólica nos casos graves (perde HCl com o vômito gástrico); Em filhotes (congênita): início quando a dieta muda para sólido (3-8 semanas); crescimento inadequado; Diagnóstico diferencial: dilatação-volvo gástrico (GDV): emergência absoluta — vômito improdutivo, abdômen distendido, colapso; corpo estranho gástrico: vômito sem padrão pós-prandial definido — radiografia diagnóstica; doença inflamatória intestinal (IBD): vômito com bile, perda de proteínas; gastrite: vômito intermitente, responde a dieta; mega-esôfago: regurgitação (diferente de vômito — sem esforço, sem bile, alimento sem digerir mas do esôfago, não do estômago).
Como diagnosticar e tratar a estenose pilórica?+
Diagnóstico: a estenose pilórica pode ser diagnosticada por métodos de imagem. Ultrassonografia abdominal: exame de escolha para estenose pilórica; mede a espessura da parede do piloro: espessura muscular > 7-8 mm sugere hipertrofia; pode identificar motilidade reduzida do piloro em tempo real; avalia esvaziamento gástrico; Série baritada (contraste): administração de bário VO; radiografias sequenciais: o bário 'mapeia' o piloro; estenose: estreitamento visível do lúmen pilórico; esvaziamento retardado; Endoscopia: visibiliza o piloro diretamente; pode diferenciar hipertrofia muscular de lesão mucosa ou massa; Tratamento: Médico (estenose funcional/espasmo): metoclopramida ou cisaprida: procinéticos — aumentam a motilidade do piloro; antiácidos: se há gastrite associada; útil em casos leves ou quando aguardando cirurgia; Cirúrgico (definitivo para hipertrofia): Piloromiotomia de Fredet-Ramstedt: incisão longitudinal no músculo pilórico sem penetrar a mucosa — divide o músculo espessado; Piloroplastia de Y-U ou Heineke-Mikulicz: redesenho do piloro para ampliar o lúmen; o acesso pode ser aberto ou laparoscópico; Prognóstico: excelente com cirurgia — recuperação geralmente completa.
Por que raças braquicefálicas têm predisposição à estenose pilórica?+
Raças braquicefálicas têm predisposição a estenose pilórica congênita pela conformação anatômica geral — mas a relação exata não é completamente compreendida. Raças mais comumente afetadas: Buldogue Inglês, Buldogue Francês, Boxer: maior frequência de estenose congênita; Basenji e Maltês: citados na forma adquirida de adultos; Boston Terrier, Poodle Miniatura: também reportados; Hipótese conformacional: a compressão abdominal dos braquicefálicos pode afetar a conformação do piloro; o achado de mais problemas GI em braquicefálicos (esôfago anormal, refluxo) pode ter componente de conformação total; Síndrome braquicefálica e GI: animais com BOAS grave frequentemente têm problemas gastrointestinais associados: aerofagia (engolir ar pela respiração laboriosa → distensão gástrica); refluxo esofágico; esvaziamento gástrico retardado; em braquicefálicos com vômito crônico: investigar tanto o componente respiratório (BOAS) quanto o GI (piloro, refluxo); a correção cirúrgica da BOAS frequentemente melhora também os sinais GI.
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