Saúde

Erliquiose Canina: Sintomas, Tratamento e Prevenção

Erliquiose é transmitida pelo carrapato marrom e pode causar anemia grave, hemorragia e morte. Saiba identificar os sintomas, tratar com doxiciclina e prevenir com antipulgas.

26 de maio de 2026·5 min de leitura

A erliquiose canina é uma das doenças transmitidas por carrapatos mais prevalentes no Brasil — e uma das mais subestimadas pelos tutores. O carrapato marrom (Rhipicephalus sanguineus) é o vetor, e qualquer cão que tenha contato com carrapatos está em risco.

O que torna a erliquiose especialmente traiçoeira é a fase subclínica — o cão parece normal por meses enquanto a bactéria se multiplica silenciosamente.

O agente

Ehrlichia canis — bactéria intracelular obrigatória que infecta principalmente monócitos e macrófagos (células do sistema imune). Causa imunosupressão e inflamação sistêmica.

Distribuição no Brasil: presente em todo o território nacional onde há carrapato marrom — que é praticamente em todo o país.

Transmissão

  1. Carrapato infectado com E. canis fixa no cão
  2. Durante a alimentação (mínimo 24-48 horas), a bactéria migra da glândula salivar do carrapato para a corrente sanguínea do cão
  3. A bactéria se multiplica dentro das células do sangue

Não é transmitida:

  • De cão para cão diretamente
  • De cão para humano (embora humanos possam pegar erliquiose de carrapato, a espécie é E. chaffeensis — diferente)
  • Pelo ambiente sem o carrapato como vetor

As três fases da erliquiose

Fase Aguda (1-4 semanas após infecção)

Sintomas surgem 1-3 semanas após a picada:

  • Febre: 39,5-41°C
  • Letargia e prostração
  • Anorexia — perda de apetite
  • Linfonodos aumentados (pescoço, axilas, virilha)
  • Secreção ocular e nasal
  • Trombocitopenia: queda de plaquetas — principal achado hematológico. Causa petéquias (pontinhos vermelhos) nas gengivas e pele, sangramento mais fácil ao se machucar
  • Hepatomegalia e esplenomegalia (fígado e baço aumentados)

Muitos tutores não reconhecem a fase aguda como urgência — o cão fica "molinho" e "sem apetite" por alguns dias e parece melhorar. Mas a melhora aparente é a entrada na fase subclínica.

Fase Subclínica (meses a anos)

O cão parece normal — come, bebe, brinca. Mas:

  • E. canis persiste nos tecidos (baço principalmente)
  • Trombocitopenia moderada persiste
  • O sistema imune está comprometido

Esta fase pode durar meses a anos sem sintomas perceptíveis. Descoberta frequentemente por acaso em hemograma de rotina (plaquetas baixas).

Fase Crônica (graves)

Desenvolvimento de sintomas graves — nem todos os cães chegam aqui, mas é a fase mais perigosa:

  • Pancitopenia: queda severa de hemácias, leucócitos e plaquetas
  • Anemia grave: gengiva muito pálida ou branca, fraqueza intensa, taquicardia
  • Hemorragias espontâneas: sangramento pelo nariz (epistaxe), sangue nas fezes e urina, sangramento nas gengivas sem trauma
  • Edema dos membros: especialmente posteriores
  • Caquexia: perda de peso extrema, músculo visível
  • Problemas neurológicos: ataxia, convulsões (raro, por hemorragia cerebral)

Fase crônica = emergência veterinária. Sem tratamento, pode ser fatal por hemorragia interna ou infecções oportunistas.

Diagnóstico

Hemograma: queda de plaquetas (trombocitopenia) é o achado mais consistente e precoce. Anemia e leucopenia em fases mais avançadas.

Sorologia (RIFI ou ELISA): detecção de anticorpos anti-Ehrlichia. Pode ser negativa nas primeiras semanas (janela imunológica) — repetir em 3-4 semanas se suspeita forte.

PCR: detecção do DNA da bactéria — mais sensível na fase aguda antes da resposta imune. Padrão-ouro para diagnóstico precoce.

Exame parasitológico: presença de mórulas (inclusões intracelulares) no esfregaço de sangue — visível em microscopia, mas baixa sensibilidade.

Bioquímica: pode mostrar alterações hepáticas, hipoalbuminemia.

Urinálise: proteinúria possível.

Tratamento

Doxiciclina: o tratamento de escolha

Dose: 5-10 mg/kg a cada 12h ou 10 mg/kg a cada 24h por via oral.

Duração: mínimo 28 dias (4 semanas). Alguns especialistas recomendam 6-8 semanas em casos crônicos.

Resposta: melhora da febre e apetite em 24-72 horas. Trombocitopenia melhora em 1-2 semanas. Erradicação completa da bactéria requer o curso completo — não interromper mesmo com melhora.

Efeitos colaterais: doxiciclina pode causar irritação gástrica — dar com alimento. Fotossensibilidade (evite exposição solar intensa durante o tratamento).

Crianças e gestantes: doxiciclina é contraindicada — mas isso é para uso humano; para o cão, é o tratamento correto.

Suporte

  • Transfusão de sangue: em casos de anemia grave (hematócrito < 15%)
  • Transfusão de plasma: em casos de hemorragia ativa (repor fatores de coagulação)
  • Antieméticos: se vômito está impedindo absorção da medicação
  • Corticoides: em doses imunossupressoras apenas se houver componente imunomediado (controversial — geralmente evitado na fase inicial)

Monitoramento

Repetir hemograma após 4 semanas de tratamento para confirmar recuperação das plaquetas e ausência de anemia.

Em casos crônicos: acompanhamento mais frequente e exames de função hepática (doxiciclina pode ser hepatotóxica em tratamentos longos).

Prevenção

Antipulgas e carrapaticidas

O mais eficaz:

  • Comprimidos (sistêmicos): Bravecto (fluralaner — 3 meses), NexGard (afoxolaner — mensal), Credelio (lotilaner — mensal). Matam o carrapato ao se alimentar — antes das 24-48h necessárias para transmissão
  • Coleira: Seresto (imidacloprid + flumetrina) — proteção por 8 meses
  • Spot-on e spray: efficácia variável; alguns não matam rápido o suficiente

A frequência de uso deve ser rigorosa — janelas sem proteção são oportunidades de infecção.

Inspeção e remoção de carrapatos

Mesmo com antipulga, inspecione o cão após passeios em áreas verdes:

  • Orelhas, pescoço, virilha, entre os dedos, cauda — locais preferidos
  • Remova com pinça de ponta fina, tração reta e firme sem torcer
  • Nunca use álcool, vaselina ou fósforo — aumentam o risco de transmissão

Controle ambiental

Carrapatos no quintal são fonte contínua de reinfestação — acaricidas ambientais periódicos e corte de gramado reduzem a população.

Diferença de babesiose

Erliquiose e babesiose são frequentemente confundidas (ambas transmitidas por carrapato):

| | Erliquiose | Babesiose | |---|---|---| | Agente | Ehrlichia canis (bactéria) | Babesia canis (protozoário) | | Vetor | Carrapato marrom | Carrapato marrom ou estrela | | Afeta | Glóbulos brancos (monócitos) | Glóbulos vermelhos | | Diagnóstico | Sorologia, PCR | Esfregaço, PCR | | Tratamento | Doxiciclina | Dipropionato de imidocarb |

Podem ocorrer simultaneamente (coinfecção) — não incomum.

Perguntas frequentes

Quais são os sintomas de erliquiose em cachorro?+

A erliquiose tem três fases. Fase aguda (1-4 semanas): febre, letargia, perda de apetite, linfonodos aumentados, secreção ocular e nasal, trombocitopenia (plaquetas baixas — petéquias na pele e gengiva). Fase subclínica (meses a anos): o cão parece normal mas a bactéria persiste. Fase crônica (mais grave): anemia grave, hemorragias espontâneas (sangramento pelo nariz, fezes com sangue, sangramento nas gengivas), perda de peso extrema, edema dos membros. A fase crônica é potencialmente fatal.

Erliquiose canina tem cura?+

Sim — quando diagnosticada na fase aguda e tratada corretamente com doxiciclina por 4-6 semanas, o prognóstico é excelente. A maioria dos cães se recupera completamente. Na fase crônica, o tratamento é mais prolongado e o prognóstico é mais reservado — pode haver sequelas permanentes. Diagnóstico e tratamento precoces fazem toda a diferença — cão com suspeita de erliquiose não deve 'esperar para ver'.

Como cachorro pega erliquiose?+

Erliquiose é transmitida pela picada do carrapato marrom (Rhipicephalus sanguineus) infectado com a bactéria Ehrlichia canis. O carrapato precisa estar fixado por pelo menos 24-48 horas para transmitir a bactéria. Não é transmitida diretamente de cão para cão, nem de cão para humano (embora humanos possam pegar erliquiose de carrapatos, a espécie que afeta humanos é diferente). Controle de carrapatos é a principal prevenção.

Como prevenir erliquiose em cachorro?+

Prevenção eficaz: antipulgas e carrapaticida de longa duração (coleira Seresto, comprimidos como Bravecto, NexGard, Credelio — todos eficazes contra carrapatos). O produto precisa matar o carrapato antes de 24-48 horas para prevenir a transmissão. Além disso: inspeção do cão após passeios em áreas verdes, remoção imediata de carrapatos encontrados (com pinça, tração direta — nunca álcool ou fósforo), e controle de carrapatos no ambiente (quintal, canil).