Erliquiose Canina: Sintomas, Tratamento e Prevenção
Erliquiose é transmitida pelo carrapato marrom e pode causar anemia grave, hemorragia e morte. Saiba identificar os sintomas, tratar com doxiciclina e prevenir com antipulgas.
A erliquiose canina é uma das doenças transmitidas por carrapatos mais prevalentes no Brasil — e uma das mais subestimadas pelos tutores. O carrapato marrom (Rhipicephalus sanguineus) é o vetor, e qualquer cão que tenha contato com carrapatos está em risco.
O que torna a erliquiose especialmente traiçoeira é a fase subclínica — o cão parece normal por meses enquanto a bactéria se multiplica silenciosamente.
O agente
Ehrlichia canis — bactéria intracelular obrigatória que infecta principalmente monócitos e macrófagos (células do sistema imune). Causa imunosupressão e inflamação sistêmica.
Distribuição no Brasil: presente em todo o território nacional onde há carrapato marrom — que é praticamente em todo o país.
Transmissão
- Carrapato infectado com E. canis fixa no cão
- Durante a alimentação (mínimo 24-48 horas), a bactéria migra da glândula salivar do carrapato para a corrente sanguínea do cão
- A bactéria se multiplica dentro das células do sangue
Não é transmitida:
- De cão para cão diretamente
- De cão para humano (embora humanos possam pegar erliquiose de carrapato, a espécie é E. chaffeensis — diferente)
- Pelo ambiente sem o carrapato como vetor
As três fases da erliquiose
Fase Aguda (1-4 semanas após infecção)
Sintomas surgem 1-3 semanas após a picada:
- Febre: 39,5-41°C
- Letargia e prostração
- Anorexia — perda de apetite
- Linfonodos aumentados (pescoço, axilas, virilha)
- Secreção ocular e nasal
- Trombocitopenia: queda de plaquetas — principal achado hematológico. Causa petéquias (pontinhos vermelhos) nas gengivas e pele, sangramento mais fácil ao se machucar
- Hepatomegalia e esplenomegalia (fígado e baço aumentados)
Muitos tutores não reconhecem a fase aguda como urgência — o cão fica "molinho" e "sem apetite" por alguns dias e parece melhorar. Mas a melhora aparente é a entrada na fase subclínica.
Fase Subclínica (meses a anos)
O cão parece normal — come, bebe, brinca. Mas:
- E. canis persiste nos tecidos (baço principalmente)
- Trombocitopenia moderada persiste
- O sistema imune está comprometido
Esta fase pode durar meses a anos sem sintomas perceptíveis. Descoberta frequentemente por acaso em hemograma de rotina (plaquetas baixas).
Fase Crônica (graves)
Desenvolvimento de sintomas graves — nem todos os cães chegam aqui, mas é a fase mais perigosa:
- Pancitopenia: queda severa de hemácias, leucócitos e plaquetas
- Anemia grave: gengiva muito pálida ou branca, fraqueza intensa, taquicardia
- Hemorragias espontâneas: sangramento pelo nariz (epistaxe), sangue nas fezes e urina, sangramento nas gengivas sem trauma
- Edema dos membros: especialmente posteriores
- Caquexia: perda de peso extrema, músculo visível
- Problemas neurológicos: ataxia, convulsões (raro, por hemorragia cerebral)
Fase crônica = emergência veterinária. Sem tratamento, pode ser fatal por hemorragia interna ou infecções oportunistas.
Diagnóstico
Hemograma: queda de plaquetas (trombocitopenia) é o achado mais consistente e precoce. Anemia e leucopenia em fases mais avançadas.
Sorologia (RIFI ou ELISA): detecção de anticorpos anti-Ehrlichia. Pode ser negativa nas primeiras semanas (janela imunológica) — repetir em 3-4 semanas se suspeita forte.
PCR: detecção do DNA da bactéria — mais sensível na fase aguda antes da resposta imune. Padrão-ouro para diagnóstico precoce.
Exame parasitológico: presença de mórulas (inclusões intracelulares) no esfregaço de sangue — visível em microscopia, mas baixa sensibilidade.
Bioquímica: pode mostrar alterações hepáticas, hipoalbuminemia.
Urinálise: proteinúria possível.
Tratamento
Doxiciclina: o tratamento de escolha
Dose: 5-10 mg/kg a cada 12h ou 10 mg/kg a cada 24h por via oral.
Duração: mínimo 28 dias (4 semanas). Alguns especialistas recomendam 6-8 semanas em casos crônicos.
Resposta: melhora da febre e apetite em 24-72 horas. Trombocitopenia melhora em 1-2 semanas. Erradicação completa da bactéria requer o curso completo — não interromper mesmo com melhora.
Efeitos colaterais: doxiciclina pode causar irritação gástrica — dar com alimento. Fotossensibilidade (evite exposição solar intensa durante o tratamento).
Crianças e gestantes: doxiciclina é contraindicada — mas isso é para uso humano; para o cão, é o tratamento correto.
Suporte
- Transfusão de sangue: em casos de anemia grave (hematócrito < 15%)
- Transfusão de plasma: em casos de hemorragia ativa (repor fatores de coagulação)
- Antieméticos: se vômito está impedindo absorção da medicação
- Corticoides: em doses imunossupressoras apenas se houver componente imunomediado (controversial — geralmente evitado na fase inicial)
Monitoramento
Repetir hemograma após 4 semanas de tratamento para confirmar recuperação das plaquetas e ausência de anemia.
Em casos crônicos: acompanhamento mais frequente e exames de função hepática (doxiciclina pode ser hepatotóxica em tratamentos longos).
Prevenção
Antipulgas e carrapaticidas
O mais eficaz:
- Comprimidos (sistêmicos): Bravecto (fluralaner — 3 meses), NexGard (afoxolaner — mensal), Credelio (lotilaner — mensal). Matam o carrapato ao se alimentar — antes das 24-48h necessárias para transmissão
- Coleira: Seresto (imidacloprid + flumetrina) — proteção por 8 meses
- Spot-on e spray: efficácia variável; alguns não matam rápido o suficiente
A frequência de uso deve ser rigorosa — janelas sem proteção são oportunidades de infecção.
Inspeção e remoção de carrapatos
Mesmo com antipulga, inspecione o cão após passeios em áreas verdes:
- Orelhas, pescoço, virilha, entre os dedos, cauda — locais preferidos
- Remova com pinça de ponta fina, tração reta e firme sem torcer
- Nunca use álcool, vaselina ou fósforo — aumentam o risco de transmissão
Controle ambiental
Carrapatos no quintal são fonte contínua de reinfestação — acaricidas ambientais periódicos e corte de gramado reduzem a população.
Diferença de babesiose
Erliquiose e babesiose são frequentemente confundidas (ambas transmitidas por carrapato):
| | Erliquiose | Babesiose | |---|---|---| | Agente | Ehrlichia canis (bactéria) | Babesia canis (protozoário) | | Vetor | Carrapato marrom | Carrapato marrom ou estrela | | Afeta | Glóbulos brancos (monócitos) | Glóbulos vermelhos | | Diagnóstico | Sorologia, PCR | Esfregaço, PCR | | Tratamento | Doxiciclina | Dipropionato de imidocarb |
Podem ocorrer simultaneamente (coinfecção) — não incomum.
Perguntas frequentes
Quais são os sintomas de erliquiose em cachorro?+
A erliquiose tem três fases. Fase aguda (1-4 semanas): febre, letargia, perda de apetite, linfonodos aumentados, secreção ocular e nasal, trombocitopenia (plaquetas baixas — petéquias na pele e gengiva). Fase subclínica (meses a anos): o cão parece normal mas a bactéria persiste. Fase crônica (mais grave): anemia grave, hemorragias espontâneas (sangramento pelo nariz, fezes com sangue, sangramento nas gengivas), perda de peso extrema, edema dos membros. A fase crônica é potencialmente fatal.
Erliquiose canina tem cura?+
Sim — quando diagnosticada na fase aguda e tratada corretamente com doxiciclina por 4-6 semanas, o prognóstico é excelente. A maioria dos cães se recupera completamente. Na fase crônica, o tratamento é mais prolongado e o prognóstico é mais reservado — pode haver sequelas permanentes. Diagnóstico e tratamento precoces fazem toda a diferença — cão com suspeita de erliquiose não deve 'esperar para ver'.
Como cachorro pega erliquiose?+
Erliquiose é transmitida pela picada do carrapato marrom (Rhipicephalus sanguineus) infectado com a bactéria Ehrlichia canis. O carrapato precisa estar fixado por pelo menos 24-48 horas para transmitir a bactéria. Não é transmitida diretamente de cão para cão, nem de cão para humano (embora humanos possam pegar erliquiose de carrapatos, a espécie que afeta humanos é diferente). Controle de carrapatos é a principal prevenção.
Como prevenir erliquiose em cachorro?+
Prevenção eficaz: antipulgas e carrapaticida de longa duração (coleira Seresto, comprimidos como Bravecto, NexGard, Credelio — todos eficazes contra carrapatos). O produto precisa matar o carrapato antes de 24-48 horas para prevenir a transmissão. Além disso: inspeção do cão após passeios em áreas verdes, remoção imediata de carrapatos encontrados (com pinça, tração direta — nunca álcool ou fósforo), e controle de carrapatos no ambiente (quintal, canil).
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