Saúde

Encefalite em Cachorro: Tipos, Sintomas e Tratamento

Encefalite é a inflamação do cérebro — pode ser infecciosa (vírus, bactéria, fungo, protozoário) ou imunomediada (MEG, NME, NLE). Convulsões, mudança de comportamento e déficits neurológicos são os sinais. Diagnóstico por líquor e MRI. Tratamento depende da causa.

27 de maio de 2026·5 min de leitura

Encefalite é a inflamação do parênquima encefálico — tecido do cérebro. É uma das condições neurológicas mais graves em cães, com progressão frequentemente rápida e prognóstico variável dependendo da causa. Em muitos casos, distinguir entre as diferentes causas de encefalite requer investigação neurológica especializada — incluindo análise do líquor cefalorraquidiano (LCR) e, idealmente, ressonância magnética (MRI).

Causas de Encefalite

Infecciosas

Viral:

  • Cinomose (Canine Distemper Virus — CDV): a mais comum em cães não vacinados; desmielinização progressiva; 'mastigação de chiclete' (mioclonia) e 'olho de cão mioide' são sinais clássicos
  • Raiva: zoonose obrigatoriamente fatal; alterações comportamentais radicais e paralisia ascendente
  • Herpesvírus canino: filhotes neonatos principalmente

Bacteriana:

  • Geralmente secundária a bacteremia ou por extensão de otite interna, sinusite, discospondilite
  • Agentes: E. coli, Staphylococcus, Streptococcus, anaeróbios

Fúngica:

  • Criptococose (Cryptococcus neoformans): a mais comum no Brasil — especialmente em regiões tropicais; meningite e encefalite granulomatosa; associada a imunossupressão
  • Blastomicose, histoplasmose (menor prevalência no Brasil)

Protozoária:

  • Toxoplasmose (Toxoplasma gondii): mais em cães imunossuprimidos; polirradiculoneurite e encefalomielite
  • Neosporose (Neospora caninum): causa clássica de polirradiculoneurite em filhotes — paralisia ascendente progressiva dos membros posteriores

Parasitária:

  • Angiostrongilose (Angiostrongylus vasorum): larvas migram pelo SNC; hemorrágico; mais frequente em regiões da Costa Rica, Europa, África
  • Dirofilariose aberrante: em raros casos, D. immitis migra para o SNC

Imunomediadas (Encefalites Inflamatórias Não Infecciosas)

Representam um grupo de doenças em que o sistema imune ataca o SNC sem causa infecciosa identificável. São as encefalites mais comuns em raças específicas.

Meningoencefalite Granulomatosa (MEG):

  • A mais frequente das encefalites imunomediadas caninas
  • Afeta principalmente raças pequenas: Poodle (especialmente Toy e Miniatura), Maltês, Shih Tzu, Yorkshire Terrier, Boston Terrier
  • Fêmeas de meia-idade são mais afetadas
  • Formação de granulomas no SNC — lesões multifocais ou focais
  • Forma multifocal (progressão rápida) vs. focal (mais lenta)

Meningoencefalite Necrotizante (NME — "Doença de Pug"):

  • Necrose focal severa do córtex cerebral + meninges
  • Afeta principalmente Pug, mas também Maltês, Papillon, Chihuahua
  • Progressão rápida — prognóstico geralmente pior que MEG

Leucoencefalopatia Necrotizante (NLE):

  • Necrose da substância branca
  • Raças afetadas: Yorkshire Terrier principalmente
  • Progressão variável

Poli/Meningoencefalite Eosinofílica:

  • Eosinófilos no LCR — associada a parasitas ou idiopática
  • Golden Retriever, Labrador Retriever

Sinais Clínicos

Os sinais refletem a localização e extensão das lesões no SNC:

Córtex Cerebral

  • Convulsões — o sinal mais frequente; podem ser o único sinal inicial
  • Alterações comportamentais — desorientação, mudança de personalidade, agressividade de início agudo
  • Déficits visuais — cegueira cortical (pupilas respondem à luz mas o cão não enxerga)
  • Head pressing (pressiona a cabeça contra a parede ou objetos)
  • Andar em círculos

Cerebelo/Tronco Encefálico

  • Ataxia cerebelar — andar "bêbado", hipermetria
  • Vestibular: inclinação da cabeça, nistagmo, queda para o lado
  • Disfagia e megaesôfago (tronco encefálico)
  • Paresia/paralisia de pares cranianos — face assimétrica, dificuldade de piscar

Medula Espinhal (Meningomielite)

  • Fraqueza ou paralisia dos membros
  • Dor vertebral à palpação
  • Disfunção urinária/fecal

Diagnóstico

Diagnóstico Neurológico

O exame neurológico localiza a lesão no SNC — fundamental para direcionar os exames de imagem e a suspeita etiológica.

Ressonância Magnética (MRI)

O exame de imagem de escolha para o SNC. Identifica lesões inflamatórias, focos de necrose, edema e extensão das lesões. Não diferencia definitivamente as causas mas orienta fortemente.

Tomografia (TC) é menos sensível para parênquima cerebral mas detecta lesões grandes e hemorragias.

Análise do Líquor Cefalorraquidiano (LCR)

Coleta por punção lombar ou cisterna magna (sob anestesia).

O que o LCR revela:

  • Pleocitose (aumento de células): neutrofílica (infecção bacteriana/fúngica), mononuclear (MEG, cinomose), eosinofílica (parasitas)
  • Proteínas elevadas: inflamação de qualquer causa
  • Fungos visíveis: criptococose (coloração tinta da China)
  • Culturas e sorologias no LCR

Exames Sorológicos

  • Sorologia para cinomose, neosporose, toxoplasmose, criptococose
  • Antígeno criptocócico (sérico e no LCR) — muito sensível
  • Análise de PCR no LCR para agentes virais

Hemograma e Bioquímica

Inespecífico para encefalite mas descarta condições metabólicas (hipoglicemia, uremia, insuficiência hepática — que mimetizam encefalite) e avalia condição geral.

Tratamento

Emergência — Crise Convulsiva

Diazepam ou midazolam IV: interromper crise ativa.

Controle da pressão intracraniana (se suspeita de edema): manitol IV, dexametasona (controverso em encefalite imunomediada).

Encefalite Infecciosa

Cinomose: sem tratamento antiviral específico — suporte sintomático, controle de convulsões. Prognóstico reservado.

Criptococose: fluconazol oral por meses a anos. Bom prognóstico se sem lesão neurológica extensa.

Neosporose/Toxoplasmose: clindamicina + trimetoprima-sulfa por semanas a meses. Resposta variável.

Bacteriana: antibióticos de amplo espectro com boa penetração no SNC (fluoroquinolonas, metronidazol, ampicilina) — determinados pela cultura se possível.

Encefalite Imunomediada (MEG, NME, NLE)

Imunossupressão: base do tratamento.

Prednisolona: 1-2 mg/kg/dia — primeira linha. Muitos cães respondem inicialmente.

Citarabina (Ara-C): quimioterápico imunossupressor com excelente penetração no SNC — usado em combinação com prednisolona, especialmente na MEG. Administrado por infusão IV a cada 4-8 semanas.

Lomustina (CCNU): alquilante — alternativa à citarabina em alguns protocolos.

Ciclosporina: inibidor de calcineurina — opção de manutenção.

Mofetil micofenolato: opção crescente em combinação.

Duração: por toda a vida com redução gradual das doses após controle.

Controle de Convulsões (Anticonvulsivante)

Independente da causa, se houver convulsões:

  • Fenobarbital: primeira linha em cães — eficaz, monitoramento de hepatotoxicidade
  • Levetiracetam (Keppra): menos hepatotóxico, usado em combinação ou como alternativa

Prognóstico

| Causa | Prognóstico | |---|---| | Criptococose (sem lesão extensa) | Bom com tratamento prolongado | | Neosporose (diagnóstico precoce) | Moderado | | Cinomose | Reservado a ruim | | MEG focal | Moderado — resposta ao tratamento variável | | MEG multifocal | Reservado — progressão frequente | | NME (Pug) | Reservado — progressão rápida típica | | NLE (Yorkshire) | Reservado |

A encefalite imunomediada raramente é curada — é controlada. O objetivo é manter qualidade de vida o maior tempo possível com doses mínimas de imunossupressores.

Perguntas frequentes

Quais os sinais de encefalite em cachorro?+

Sinais de encefalite em cães: convulsões (especialmente de início súbito em cão adulto sem histórico epiléptico); mudança de comportamento — desorientação, andar em círculos, pressão da cabeça contra a parede (head pressing), agressividade de início súbito; déficits neurológicos — fraqueza de membros, perda de equilíbrio, inclinação da cabeça; cegueira súbita; febre (em causas infecciosas). Os sinais aparecem rapidamente e progridem — encefalite deve ser considerada em qualquer cão com alterações neurológicas agudas ou subagudas sem causa óbvia.

O que é Meningoencefalite Granulomatosa (MEG) em cachorro?+

A Meningoencefalite Granulomatosa (MEG) é a forma mais comum de encefalite imunomediada em cães — o sistema imune ataca o sistema nervoso central por razões desconhecidas. Afeta principalmente raças pequenas (Poodle, Maltês, Shih Tzu, Yorkshire Terrier, Boston Terrier). Apresenta-se como doença progressiva multifocal (afeta múltiplas regiões do SNC simultaneamente) com convulsões, déficits neurológicos e sinais cerebelares. É distinta de outras encefalites imunomediadas como NME (Necroses Meningoencefalite — Pug) e NLE (Leucoencefalopatia Necrotizante — Yorkshire Terrier). O diagnóstico definitivo é por biópsia ou presuntivo por exclusão.

Cinomose pode causar encefalite em cachorro?+

Sim — a encefalite por cinomose (Canine Distemper Virus) é uma das formas mais graves e mais comuns de encefalite infecciosa em cães não vacinados. O vírus da cinomose tem tropismo pelo sistema nervoso — causa desmielinização e inflamação progressiva. Pode se manifestar semanas a meses após os sinais sistêmicos (febre, secreção ocular e nasal, pneumonia) ou de forma isolada sem sinais sistêmicos evidentes ('forma nervosa da cinomose'). O 'olho de cão mioide' (mastigação involuntária rítmica — 'mastigação de chiclete') e a mioclonia são sinais clássicos da encefalite por cinomose. Vacinação é a prevenção definitiva.

Encefalite em cachorro tem cura?+

Depende da causa. Encefalite infecciosa por agentes tratáveis (certos protozoários com pontuação sugestiva, algumas bactérias): tratável com antibióticos ou antiprotozoários específicos, com bom prognóstico se diagnosticada cedo. Encefalite por cinomose: prognóstico reservado — o vírus causa dano neurológico muitas vezes irreversível. Encefalite imunomediada (MEG, NME, NLE): não tem cura — é controlada com imunossupressão (prednisolona + citarabina ou lomustina). Muitos cães vivem meses a anos com qualidade de vida com tratamento contínuo; outros deterioram mesmo com tratamento. O diagnóstico precoce é fundamental para o prognóstico.