Saúde

Doença Valvular Mitral em Cachorro: A Causa Mais Comum de Insuficiência Cardíaca

A doença mixomatosa da valva mitral (MMVD) é a cardiopatia adquirida mais frequente em cães — afeta 10% de todos os cães e até 90% dos Cavalier King Charles Spaniels acima de 10 anos. Degeneração mixomatosa dos folhetos valvulares → regurgitação → insuficiência cardíaca congestiva. Diagnóstico: ecocardiograma. Tratamento com pimobendan + enalapril + furosemida nos estágios avançados.

29 de maio de 2026·2 min de leitura

O Cavalier King Charles Spaniel de 8 anos chegou para consulta de rotina. Tutor sem queixas — o cão come, passeia, brinca normalmente.

Auscultação: sopro sistólico 4/6 no ápex esquerdo.

Ecocardiograma: degeneração mixomatosa dos folhetos mitrais, regurgitação moderada-grave, átrio esquerdo discretamente dilatado (LA:Ao 1,5), VHS 11,8 vértebras.

Estágio B2 pelos critérios ACVIM 2019. Início do pimobendan. Reavaliação em 6 meses.

Esse é o caso mais comum da cardiologia veterinária.

Por Que a Valva Mitral Falha

A degeneração mixomatosa é um processo de envelhecimento acelerado geneticamente:

  1. Tecido dos folhetos acumula depósitos glicosaminoglicanos (degeneração mixomatosa)
  2. Folhetos espessam, ficam irregulares, com nodulações
  3. Não fecham completamente durante a sístole
  4. Resultado: regurgitação — sangue reflui do ventrículo para o átrio

Com o tempo:

  • Átrio esquerdo dilata (para acomodar o volume extra)
  • Ventrículo dilata (maior pré-carga)
  • Quando os mecanismos compensatórios falham: edema pulmonar

Os Estágios ACVIM 2019 — Guia de Tratamento

| Estágio | O que significa | Tratamento | |---|---|---| | A | Em risco (raça) — sem doença | Rastreamento | | B1 | Sopro + sem cardiomegalia | Sem medicação | | B2 | Sopro + cardiomegalia (ecocardiograma) | Pimobendan inicia | | C | ICC — sintomático | Pimobendan + furosemida + IECA | | D | ICC refratária | Protocolo adicional |

O Estudo EPIC (2016) demonstrou: iniciar pimobendan em B2 atrasa a descompensação para ICC em ~15 meses em média — um resultado clinicamente enorme.

Por Que o Cavalier King Charles é Exceção

| Raça | Prevalência MMVD > 10 anos | Início típico | |---|---|---| | CKCS | ~90-95% | 5-7 anos | | Dachshund | Alta | 8-10 anos | | Yorkshire Terrier | Moderada | 9-11 anos | | Outras pequenas | Moderada | 10-12 anos | | Raças grandes | Baixa | (CMD é mais comum) |

O CKCS tem o Cavalier Health Protocol: certificação cardíaca dos pais é o mínimo exigível por compradores responsáveis.

Tratamento em ICC (Estágio C)

| Medicamento | Função | Dose típica | |---|---|---| | Pimobendan | Inotrópico + vasodilatador | 0,25-0,3 mg/kg 2×/dia | | Furosemida | Diurético de alça | 0,5-2 mg/kg 2-3×/dia | | Enalapril/Benazepril | IECA — vasodilatação | 0,5 mg/kg 2×/dia | | Espironolactona | Poupador de potássio | 1-2 mg/kg/dia (em D) |

Monitoramento obrigatório: eletrólitos (furosemida causa hipopotassemia) e função renal (IECA).

Perguntas frequentes

O que é a doença mixomatosa da valva mitral (MMVD) e quais raças são afetadas?+

A doença mixomatosa da valva mitral (MMVD, do inglês Myxomatous Mitral Valve Disease) é a cardiopatia adquirida mais comum em cães — responsável por 75-80% dos casos de insuficiência cardíaca canina. O que acontece: os folhetos (cúspides) da valva mitral, que separa átrio esquerdo do ventrículo esquerdo, sofrem degeneração mixomatosa progressiva; o tecido degenerado fica espessado, irregular e com nodulações (lesões de Arantius); os folhetos não fecham adequadamente durante a sístole → regurgitação de sangue do ventrículo para o átrio esquerdo; progressão: regurgitação → sobrecarga de volume → dilatação do átrio e ventrículo esquerdo → eventual descompensação → insuficiência cardíaca congestiva esquerda (edema pulmonar). Raças afetadas: TODAS as raças podem ser afetadas — mas prevalência varia muito; Cavalier King Charles Spaniel: prevalência enormemente elevada — quase todos os Cavaliers >10 anos têm a doença; base genética identificada; seleção adversa histórica; CKCS apresenta a doença ~5 anos antes que outras raças; Dachshund: alta prevalência; Cocker Spaniel; Yorkshire Terrier; Shih Tzu; Pinscher Miniatura; Maltese; Poodle Miniatura; raças grandes: menos afetadas mas cardiomiopatia dilatada é mais comum; fatores de risco: idade (a doença piora com o envelhecimento), raça, peso, sexo (machos ligeiramente mais afetados).

Como se manifesta a MMVD e quais são os estágios da doença?+

A MMVD é classificada em estágios pela American College of Veterinary Internal Medicine (ACVIM Consensus Guidelines 2019). Estágio A: cão em risco de doença (raça predisposta) mas sem evidência de doença estrutural; Cavalier e Dachshund jovens; sem sintomas, sem sopro; Estágio B: doença estrutural presente (sopro) mas sem sintomas (assintomático): B1: sopro presente, sem alterações cardíacas significativas no ECO; B2: sopro + cardiomegalia significativa ao ECO (rácio vertebral cardíaco VHS aumentado) E/OU dilatação do átrio esquerdo: indicação para iniciar pimobendan; Estágio C: insuficiência cardíaca congestiva (ICC) — sintomático: C (agudo/emergência): edema pulmonar agudo — dispneia grave, ortopneia, tosse com espuma rósea; C (crônico/estável): em tratamento, estabilizado; Estágio D: ICC refratária ao tratamento convencional. Sinais clínicos por estágio: Estágio B: sopro descoberto na consulta de rotina; proprietário não percebe nada; Estágio C inicial: tosse noturna, intolerância ao exercício, respiração acelerada; Estágio C grave: dispneia grave em repouso, ortopneia (não consegue deitar), cianose; Sopro: grau 1-6 (na escala de 1 a 6); sopro de regurgitação mitral: sistólico, de maior intensidade no ápex esquerdo.

Como diagnosticar e tratar a MMVD em cães?+

Diagnóstico: Exame físico: auscultação — sopro sistólico no ápex esquerdo; frequência cardíaca, ritmo; Radiografia torácica: cardiomegalia, congestão pulmonar, edema; Ecocardiograma: o exame definitivo; avalia: regurgitação mitral (Doppler); dimensões do átrio e ventrículo esquerdo; fração de ejeção; VHS (Vertebral Heart Score); confirma grau da doença e indica o estágio; ECG: identifica arritmias associadas; BNP/NT-proBNP: biomarcador cardíaco — útil para monitoramento. Tratamento por estágio (baseado no ACVIM Consensus 2019): Estágio A: sem medicação; rastreamento periódico recomendado; Estágio B1: sem medicação; ecocardiograma anual; Estágio B2 (cardiomegalia + dilatação átrio esquerdo): Pimobendan 0,25-0,3 mg/kg 2×/dia: reduz em 15 meses o tempo para descompensação (Estudo EPIC, 2016); Estágio C: Pimobendan + Furosemida (0,5-2 mg/kg 2-3×/dia) + IECA (enalapril ou benazepril 0,5 mg/kg 2×/dia); em emergência (edema agudo): furosemida IV/IM alta dose + oxigenioterapia + pimobendan; Estágio D: adicionar espironolactona + hidralazina ou amlodipina; Monitoramento: radiografia torácica a cada 3-6 meses para avaliar cardiomegalia e edema; eletrólitos se furosemida (risco de hipopotassemia); função renal.

O Cavalier King Charles Spaniel tem programa de breeding para MMVD?+

Sim — o CKCS tem o programa de saúde cardíaca mais estruturado de qualquer raça para MMVD. O Protocolo Cavalier de Breeding (Cavalier Health Protocol): recomendação internacional para minimizar MMVD na raça; os pais devem: ter pelo menos 2,5 anos (fêmea) e 2,5 anos (macho); ser livres de sopro cardíaco detectável por veterinário cardiologista certificado; pai e mãe sem sopro = prole tem menor prevalência e início mais tardio da doença; O problema histórico do Cavalier: seleção histórica para show priorizou aparência — genes de MMVD provavelmente se espalharam junto; base genética pequena aumentou prevalência; estudos genômicos identificaram variantes associadas; situação atual: raça ainda com prevalência muito alta mas protocolo de breeding ajuda; compradores devem EXIGIR certificação cardíaca dos pais; Monitoramento de CKCS: auscultação anual a partir de 1-2 anos; ecocardiograma anual a partir de 4-5 anos; iniciar pimobendan em B2 — seguir ACVIM 2019; Prognóstico: com tratamento adequado em B2: mediana de sobrevivência >4 anos desde diagnóstico de B2; em C estabilizado: 1-3 anos adicionais dependendo da progressão.