Doença Valvar Mitral em Cachorro (DMVM): Sintomas e Tratamento
Degeneração da valva mitral (DMVM) é a doença cardíaca mais comum em cães — especialmente em raças pequenas. Cavalier King Charles é o mais afetado. Aprenda a identificar e tratar.
A Degeneração Mixomatosa da Valva Mitral (DMVM) é a doença cardíaca mais comum em cães — responde por 75-80% de todos os casos de cardiopatia canina. É uma condição progressiva que, se detectada e tratada corretamente, permite anos de qualidade de vida.
Anatomia: como a valva mitral funciona
O coração tem 4 câmaras: 2 átrios (câmaras superiores de recepção) e 2 ventrículos (câmaras inferiores de bombeamento). A valva mitral fica entre o átrio esquerdo e o ventrículo esquerdo — abre para deixar o sangue entrar no ventrículo e fecha para impedir que o sangue retorne ao átrio durante a contração.
Na DMVM, os folhetos (as "portas" da válvula) espessam e deformam por processo degenerativo — mix de mucopolissacarídeos se acumula no tecido. A válvula passa a fechar mal.
Progressão da DMVM
Estágio A — Risco sem doença
Raças predispostas sem sinais de doença cardíaca ainda.
Conduta: rastreamento periódico por auscultação cardíaca.
Estágio B1 — Regurgitação leve sem dilatação
Sopro cardíaco detectado, valva regurgitando, mas coração ainda em tamanho normal.
Conduta: monitoramento periódico (a cada 6-12 meses); sem medicação na maioria dos casos.
Estágio B2 — Regurgitação com dilatação cardíaca
Sopro + aumento das câmaras cardíacas ao ecocardiograma, mas cão ainda sem sintomas.
Conduta: o estudo EPIC (2016) demonstrou que pimobendan em B2 com critérios específicos retarda a progressão para insuficiência cardíaca em média 15 meses — tratamento medicamentoso iniciado.
Estágio C — Insuficiência cardíaca ativa
Cão apresenta sintomas — tosse, dispneia, redução do exercício.
Conduta: tratamento completo com múltiplos medicamentos.
Estágio D — Insuficiência cardíaca refratária
Sintomas que não respondem adequadamente ao tratamento padrão — ajuste de protocolo.
Sintomas
Fase B (sem sintomas): o único sinal é o sopro cardíaco detectado pelo veterinário na auscultação rotineira.
Fase C (insuficiência cardíaca ativa):
- Tosse: especialmente à noite, ao deitar, após exercício — edema pulmonar irrita as vias aéreas
- Dispneia: respiração acelerada em repouso (> 30 respirações/min é preocupante), dificuldade para respirar
- Intolerância ao exercício: cansa com atividades antes toleradas, para para descansar
- Síncope: desmaios, especialmente durante excitação ou exercício — por arritmia ou queda do débito cardíaco
- Letargia e perda de apetite
- Distensão abdominal (ascite — insuficiência do lado direito associada)
Sinal de alerta crítico — frequência respiratória em repouso: tutores de cães com DMVM devem monitorar a frequência respiratória em repouso (FR em repouso). Cão saudável: < 30 respirações/minuto em repouso dormindo. FR ≥ 30 em repouso = provável início de edema pulmonar — veterinário urgente.
Como medir a FR: conte as respirações por 15 segundos e multiplique por 4. Fazer quando o cão está dormindo, sem agitação. Aplicativos de monitoramento cardíaco (CardioMD, por exemplo) auxiliam no registro diário.
Diagnóstico
Auscultação cardíaca
O sopro sistólico mitral é o sinal inicial — sopro classicamente audível no ápice cardíaco esquerdo.
Graduação do sopro (I a VI):
- Grau I: muito leve, difícil de detectar
- Grau II: leve, facilmente audível
- Grau III: moderado
- Grau IV: alto
- Grau V: muito alto, frêmito palpável no tórax
- Grau VI: extremamente alto, audível sem estetoscópio
Importante: o grau do sopro não tem correlação direta com o estágio da doença.
Ecocardiograma
O exame diagnóstico principal: visualiza a valva mitral (espessura, prolapso, movimento), grau de regurgitação (Doppler), tamanho das câmaras cardíacas (LVIDDN), função sistólica.
Decisão terapêutica: a decisão de iniciar pimobendan em B2 depende dos critérios ecocardiográficos específicos do estudo EPIC.
Radiografia de Tórax
Avalia o tamanho cardíaco (índice vertebral cardíaco — VHS) e presença de edema pulmonar.
NT-proBNP e Troponina I
Biomarcadores cardíacos — elevados na DMVM avançada. Úteis para triagem e monitoramento.
Tratamento
Estágio B2
Pimobendan (Vetmedin): inotrópico positivo e vasodilatador — melhora a função cardíaca, retarda a dilatação progressiva. Critérios do estudo EPIC para início: LVIDDN ≥ 1,7 e/ou VHS > 10,5.
Estágio C — Insuficiência Cardíaca
Pimobendan: manutenção.
Furosemida: diurético de alça — remove o fluido acumulado nos pulmões (edema). Dose ajustada conforme FR em repouso.
IECA (Enalapril ou Benazepril): vasodilatador que reduz a carga sobre o coração.
Espironolactona: diurético poupador de potássio + efeito antialdosterônico cardíaco.
Torasemida: diurético alternativo em casos refratários à furosemida.
Monitoramento em casa: FR em repouso diária — ajuste da furosemida conforme a FR.
Estágio D — Refratário
Ajuste de doses + possível adição de hidroclorotiazida ou outra classe diurética. Internação para estabilização em crises agudas.
Cavalier King Charles Spaniel e DMVM
O Cavalier merece menção especial — é a raça com maior predisposição hereditária à DMVM. Estima-se que:
- 50% dos Cavaliers têm sopro aos 5 anos
- Quase 100% têm sopro aos 10 anos
Protocolo de rastreamento para criadores: o Cavalier Health Protocol internacional recomenda que reprodutores sejam avaliados por cardiologista antes da criação — sopro detectado antes de 2,5 anos (macho) ou 2 anos (fêmea) deve excluir o animal da reprodução para reduzir a prevalência hereditária.
Cirurgia
Reparo valvar mitral cirúrgico — disponível em centros especializados (principalmente Japão, Estados Unidos e alguns países europeus). Corrige a valva defeituosa cirurgicamente.
No Brasil: disponível em centros de referência em cardiologia veterinária — custo elevado, indicação seletiva. Resultados excelentes quando realizado em centros experientes.
Prognóstico
- Estágio B com pimobendan: sobrevida aumentada em média 15 meses antes da insuficiência cardíaca
- Estágio C com tratamento completo: sobrevida mediana 12-18 meses
- Cavaliers em B2 podem viver anos bem controlados
- Monitoramento da FR em repouso é o preditor mais prático de descompensação em casa
Perguntas frequentes
O que é doença valvar mitral em cachorro?+
A valva mitral é a válvula entre o átrio esquerdo e o ventrículo esquerdo — controla o fluxo de sangue em uma direção. Na degeneração mixomatosa da valva mitral (DMVM), os folhetos da válvula enespessam e deformam ao longo dos anos, passando a vedar mal. O sangue reflui para o átrio (regurgitação mitral). O coração tenta compensar aumentando o tamanho das câmaras. Com o tempo, a compensação falha e instala-se insuficiência cardíaca (edema pulmonar). É a doença cardíaca mais comum em cães — representa 75-80% de todos os casos de doença cardíaca canina.
Que raças têm mais risco de doença da valva mitral?+
A DMVM afeta predominantemente raças pequenas: Cavalier King Charles Spaniel (predisposição genética extrema — quase todos desenvolvem a doença até os 10 anos); Poodle Miniatura/Toy; Maltês; Chihuahua; Dachshund; Shih Tzu; Pinscher Miniatura; Yorkshire Terrier; Cocker Spaniel; Pomerânia. Raças grandes podem desenvolver DMVM, mas são muito mais afetadas pela Cardiomiopatia Dilatada (DCM). No Cavalier, a doença é tão prevalente que protocolos de rastreamento cardíaco específico foram desenvolvidos.
Cão com doença valvar mitral pode ter qualidade de vida?+
Sim — especialmente com diagnóstico precoce. A fase pré-clínica (sem sintomas) com DMVM pode durar anos. O estudo EPIC demonstrou que pimobendan em cães com dilatação cardíaca significativa mas sem insuficiência cardíaca ativa retardou o início da insuficiência cardíaca em média 15 meses. Cães em fase de insuficiência cardíaca tratados adequadamente têm sobrevida mediana de 12-18 meses. Qualidade de vida com tratamento é boa — o cão pode manter atividade moderada e bem-estar.
Sopro cardíaco em cachorro é sempre doença da valva mitral?+
Não — sopro cardíaco é sinal (um som anormal), não diagnóstico. Causas de sopro em cães: DMVM (mais comum); cardiomiopatia; anomalias congênitas (Ductus Arteriosus Persistente, Estenose Pulmonar, Estenose Aórtica); anemia grave; hipertensão. O grau do sopro (I a VI) indica a intensidade, não necessariamente a gravidade da doença subjacente. Todo sopro cardíaco requer avaliação ecocardiográfica para diagnóstico definitivo da causa.
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