Saúde

Doença Valvar Mitral em Cachorro (DMVM): Sintomas e Tratamento

Degeneração da valva mitral (DMVM) é a doença cardíaca mais comum em cães — especialmente em raças pequenas. Cavalier King Charles é o mais afetado. Aprenda a identificar e tratar.

26 de maio de 2026·5 min de leitura

A Degeneração Mixomatosa da Valva Mitral (DMVM) é a doença cardíaca mais comum em cães — responde por 75-80% de todos os casos de cardiopatia canina. É uma condição progressiva que, se detectada e tratada corretamente, permite anos de qualidade de vida.

Anatomia: como a valva mitral funciona

O coração tem 4 câmaras: 2 átrios (câmaras superiores de recepção) e 2 ventrículos (câmaras inferiores de bombeamento). A valva mitral fica entre o átrio esquerdo e o ventrículo esquerdo — abre para deixar o sangue entrar no ventrículo e fecha para impedir que o sangue retorne ao átrio durante a contração.

Na DMVM, os folhetos (as "portas" da válvula) espessam e deformam por processo degenerativo — mix de mucopolissacarídeos se acumula no tecido. A válvula passa a fechar mal.

Progressão da DMVM

Estágio A — Risco sem doença

Raças predispostas sem sinais de doença cardíaca ainda.

Conduta: rastreamento periódico por auscultação cardíaca.

Estágio B1 — Regurgitação leve sem dilatação

Sopro cardíaco detectado, valva regurgitando, mas coração ainda em tamanho normal.

Conduta: monitoramento periódico (a cada 6-12 meses); sem medicação na maioria dos casos.

Estágio B2 — Regurgitação com dilatação cardíaca

Sopro + aumento das câmaras cardíacas ao ecocardiograma, mas cão ainda sem sintomas.

Conduta: o estudo EPIC (2016) demonstrou que pimobendan em B2 com critérios específicos retarda a progressão para insuficiência cardíaca em média 15 meses — tratamento medicamentoso iniciado.

Estágio C — Insuficiência cardíaca ativa

Cão apresenta sintomas — tosse, dispneia, redução do exercício.

Conduta: tratamento completo com múltiplos medicamentos.

Estágio D — Insuficiência cardíaca refratária

Sintomas que não respondem adequadamente ao tratamento padrão — ajuste de protocolo.

Sintomas

Fase B (sem sintomas): o único sinal é o sopro cardíaco detectado pelo veterinário na auscultação rotineira.

Fase C (insuficiência cardíaca ativa):

  • Tosse: especialmente à noite, ao deitar, após exercício — edema pulmonar irrita as vias aéreas
  • Dispneia: respiração acelerada em repouso (> 30 respirações/min é preocupante), dificuldade para respirar
  • Intolerância ao exercício: cansa com atividades antes toleradas, para para descansar
  • Síncope: desmaios, especialmente durante excitação ou exercício — por arritmia ou queda do débito cardíaco
  • Letargia e perda de apetite
  • Distensão abdominal (ascite — insuficiência do lado direito associada)

Sinal de alerta crítico — frequência respiratória em repouso: tutores de cães com DMVM devem monitorar a frequência respiratória em repouso (FR em repouso). Cão saudável: < 30 respirações/minuto em repouso dormindo. FR ≥ 30 em repouso = provável início de edema pulmonar — veterinário urgente.

Como medir a FR: conte as respirações por 15 segundos e multiplique por 4. Fazer quando o cão está dormindo, sem agitação. Aplicativos de monitoramento cardíaco (CardioMD, por exemplo) auxiliam no registro diário.

Diagnóstico

Auscultação cardíaca

O sopro sistólico mitral é o sinal inicial — sopro classicamente audível no ápice cardíaco esquerdo.

Graduação do sopro (I a VI):

  • Grau I: muito leve, difícil de detectar
  • Grau II: leve, facilmente audível
  • Grau III: moderado
  • Grau IV: alto
  • Grau V: muito alto, frêmito palpável no tórax
  • Grau VI: extremamente alto, audível sem estetoscópio

Importante: o grau do sopro não tem correlação direta com o estágio da doença.

Ecocardiograma

O exame diagnóstico principal: visualiza a valva mitral (espessura, prolapso, movimento), grau de regurgitação (Doppler), tamanho das câmaras cardíacas (LVIDDN), função sistólica.

Decisão terapêutica: a decisão de iniciar pimobendan em B2 depende dos critérios ecocardiográficos específicos do estudo EPIC.

Radiografia de Tórax

Avalia o tamanho cardíaco (índice vertebral cardíaco — VHS) e presença de edema pulmonar.

NT-proBNP e Troponina I

Biomarcadores cardíacos — elevados na DMVM avançada. Úteis para triagem e monitoramento.

Tratamento

Estágio B2

Pimobendan (Vetmedin): inotrópico positivo e vasodilatador — melhora a função cardíaca, retarda a dilatação progressiva. Critérios do estudo EPIC para início: LVIDDN ≥ 1,7 e/ou VHS > 10,5.

Estágio C — Insuficiência Cardíaca

Pimobendan: manutenção.

Furosemida: diurético de alça — remove o fluido acumulado nos pulmões (edema). Dose ajustada conforme FR em repouso.

IECA (Enalapril ou Benazepril): vasodilatador que reduz a carga sobre o coração.

Espironolactona: diurético poupador de potássio + efeito antialdosterônico cardíaco.

Torasemida: diurético alternativo em casos refratários à furosemida.

Monitoramento em casa: FR em repouso diária — ajuste da furosemida conforme a FR.

Estágio D — Refratário

Ajuste de doses + possível adição de hidroclorotiazida ou outra classe diurética. Internação para estabilização em crises agudas.

Cavalier King Charles Spaniel e DMVM

O Cavalier merece menção especial — é a raça com maior predisposição hereditária à DMVM. Estima-se que:

  • 50% dos Cavaliers têm sopro aos 5 anos
  • Quase 100% têm sopro aos 10 anos

Protocolo de rastreamento para criadores: o Cavalier Health Protocol internacional recomenda que reprodutores sejam avaliados por cardiologista antes da criação — sopro detectado antes de 2,5 anos (macho) ou 2 anos (fêmea) deve excluir o animal da reprodução para reduzir a prevalência hereditária.

Cirurgia

Reparo valvar mitral cirúrgico — disponível em centros especializados (principalmente Japão, Estados Unidos e alguns países europeus). Corrige a valva defeituosa cirurgicamente.

No Brasil: disponível em centros de referência em cardiologia veterinária — custo elevado, indicação seletiva. Resultados excelentes quando realizado em centros experientes.

Prognóstico

  • Estágio B com pimobendan: sobrevida aumentada em média 15 meses antes da insuficiência cardíaca
  • Estágio C com tratamento completo: sobrevida mediana 12-18 meses
  • Cavaliers em B2 podem viver anos bem controlados
  • Monitoramento da FR em repouso é o preditor mais prático de descompensação em casa

Perguntas frequentes

O que é doença valvar mitral em cachorro?+

A valva mitral é a válvula entre o átrio esquerdo e o ventrículo esquerdo — controla o fluxo de sangue em uma direção. Na degeneração mixomatosa da valva mitral (DMVM), os folhetos da válvula enespessam e deformam ao longo dos anos, passando a vedar mal. O sangue reflui para o átrio (regurgitação mitral). O coração tenta compensar aumentando o tamanho das câmaras. Com o tempo, a compensação falha e instala-se insuficiência cardíaca (edema pulmonar). É a doença cardíaca mais comum em cães — representa 75-80% de todos os casos de doença cardíaca canina.

Que raças têm mais risco de doença da valva mitral?+

A DMVM afeta predominantemente raças pequenas: Cavalier King Charles Spaniel (predisposição genética extrema — quase todos desenvolvem a doença até os 10 anos); Poodle Miniatura/Toy; Maltês; Chihuahua; Dachshund; Shih Tzu; Pinscher Miniatura; Yorkshire Terrier; Cocker Spaniel; Pomerânia. Raças grandes podem desenvolver DMVM, mas são muito mais afetadas pela Cardiomiopatia Dilatada (DCM). No Cavalier, a doença é tão prevalente que protocolos de rastreamento cardíaco específico foram desenvolvidos.

Cão com doença valvar mitral pode ter qualidade de vida?+

Sim — especialmente com diagnóstico precoce. A fase pré-clínica (sem sintomas) com DMVM pode durar anos. O estudo EPIC demonstrou que pimobendan em cães com dilatação cardíaca significativa mas sem insuficiência cardíaca ativa retardou o início da insuficiência cardíaca em média 15 meses. Cães em fase de insuficiência cardíaca tratados adequadamente têm sobrevida mediana de 12-18 meses. Qualidade de vida com tratamento é boa — o cão pode manter atividade moderada e bem-estar.

Sopro cardíaco em cachorro é sempre doença da valva mitral?+

Não — sopro cardíaco é sinal (um som anormal), não diagnóstico. Causas de sopro em cães: DMVM (mais comum); cardiomiopatia; anomalias congênitas (Ductus Arteriosus Persistente, Estenose Pulmonar, Estenose Aórtica); anemia grave; hipertensão. O grau do sopro (I a VI) indica a intensidade, não necessariamente a gravidade da doença subjacente. Todo sopro cardíaco requer avaliação ecocardiográfica para diagnóstico definitivo da causa.