Saúde

Doença Hepática em Cachorro: Sintomas, Causas e Tratamento

O fígado do cão tem enorme capacidade de regeneração — sintomas só aparecem quando 70-80% da função está comprometida. Icterícia, vômito e barriga aumentada são sinais de alerta. Diagnóstico precoce salva vidas.

26 de maio de 2026·5 min de leitura

O fígado é o órgão mais multifuncional do corpo — realiza mais de 500 funções conhecidas: metabolismo de proteínas, gorduras e carboidratos; produção de bile para digestão; detoxificação de substâncias; síntese de fatores de coagulação; armazenamento de glicogênio, vitaminas e ferro; metabolismo de medicamentos.

Sua enorme capacidade de reserva é ao mesmo tempo vantagem e desvantagem: o cão pode perder 70-80% da função hepática antes de apresentar sintomas clínicos evidentes — o que significa que quando os sinais aparecem, a doença frequentemente já está avançada.

Funções hepáticas — o que falha na doença

Metabolismo proteico: o fígado produz albumina (proteína sérica mais abundante — responsável pela pressão oncótica que mantém fluido dentro dos vasos). Quando a albumina cai (hipoalbuminemia), o fluido vaza para o abdome (ascite) e tecidos (edema).

Detoxificação de amônia: amônia produzida pela fermentação de proteínas no intestino chega ao fígado pela veia porta e é convertida em ureia. Quando o fígado falha, a amônia se acumula no sangue → encefalopatia hepática.

Produção de bile: a bile é necessária para absorção de gorduras e vitaminas lipossolúveis (A, D, E, K). A vitamina K deficiente → coagulopatia (sangramento).

Ativação hormonal: o fígado ativa e desativa hormônios. Na doença hepática, aldosterona se acumula → retenção de sódio e água → piora da ascite.

Causas de doença hepática

Hepatite Infecciosa Canina (Adenovírus tipo 1 — CAV-1)

Doença viral grave — vacinação (vacina V10 inclui CAV-2, que promove imunidade cruzada) protege efetivamente. Em cão não vacinado: hepatite aguda grave, potencialmente fatal.

Leptospirose

Bactéria Leptospira interrogans — além de doença renal (mais comum), pode causar hepatite aguda com icterícia intensa. Vacinação disponível.

Toxinas e Medicamentos

Xylitol: adoçante artificial extremamente tóxico para cães — provoca hipoglicemia grave e falha hepática fulminante em doses relativamente baixas.

Paracetamol/Acetaminofeno: causa necrose hepática em cães.

Ibuprofeno: hepatotoxicidade além de ulceração gastrointestinal.

Aflatoxinas: fungos Aspergillus produzem aflatoxinas em grãos armazenados inadequadamente — contaminação de ração pode causar hepatite tóxica em surtos.

Corticosteroides: uso crônico causa hepatopatia esteroidaI (acúmulo de glicogênio nos hepatócitos) — geralmente reversível com redução/suspensão do corticoide.

Fenobarbital: antiepilético hepatotóxico com uso crônico — monitoramento de função hepática obrigatório a cada 6 meses.

Acúmulo de Cobre

Distúrbio hereditário em algumas raças — o fígado acumula cobre progressivamente (incapacidade de excretar o cobre pela bile).

Raças afetadas: Bedlington Terrier (mutação genética — 60-70% da raça; teste genético disponível), Labrador Retriever, Cocker Spaniel Americano, Dobermann.

Tratamento: quelantes de cobre (D-penicilamina, trientina) + dieta com baixo teor de cobre.

Shunt Portossistêmico (Porto-Hepático)

Comunicação anormal entre a veia porta e a circulação sistêmica — o sangue "desvia" do fígado sem ser detoxificado.

Congênito: comum em Yorkshire Terrier, Maltês, raças pequenas. Sintomas em filhotes: retardo de crescimento, letargia pós-prandial, convulsões, desorientação.

Adquirido: em cães adultos com hipertensão portal por doença hepática crônica.

Tratamento: cirúrgico (ligadura do shunt) em casos congênitos — excelente resultado quando feito precocemente.

Neoplasia Hepática

Carcinoma hepatocelular — tumor primário do fígado, geralmente em lóbulo único, pode ser ressecável cirurgicamente.

Metástase hepática — neoplasias de outros órgãos (baço, pâncreas, intestino) frequentemente metastizam para o fígado.

Hepatite Crônica Idiopática

Inflamação hepática progressiva sem causa identificada em exames convencionais — biópsia necessária. O Dobermann Pinscher tem prevalência particularmente alta.

Diagnóstico

Exames de sangue (perfil bioquímico)

Enzimas hepáticas:

  • ALT (TGP): enzima citoplasmática — elevada por dano a hepatócitos (necrose ou inflamação). Específica para hepatócito canino.
  • AST (TGO): presente em fígado e músculo — menos específica.
  • FA (Fosfatase Alcalina): elevada em colestase (bile não flui), hepatopatia esteroidal, doença óssea. Cães têm FA muito sensível — pequenas elevações comuns.
  • GGT: marcador de colestase e doença biliar.

Parâmetros de função hepática:

  • Albumina: reduzida em doença hepática grave (mas também em perda proteica intestinal/renal)
  • Bilirrubina: elevada em icterícia (destruição de hemácias, colestase, falha hepatocelular)
  • Ácidos biliares: pré e pós-prandial — exame funcional — detecta insuficiência hepática e shunts antes de elevação de enzimas

Ultrassonografia abdominal

Avalia tamanho, ecogenicidade e arquitetura do fígado; identifica massas, cálculos biliares, dilatação biliar, ascite, shunts.

Biópsia hepática

Frequentemente necessária para diagnóstico definitivo — tipo de hepatite, grau de fibrose, identificação de acúmulo de cobre. Pode ser ecoguiada (percutânea) ou cirúrgica (laparoscopia ou laparotomia).

Medição de cobre hepático

Quantificação em amostra de biópsia — diagnóstico de hepatopatia por cobre.

Tratamento

Específico da causa

  • Leptospirose: penicilina/doxiciclina
  • Hepatite imunomediada: prednisolona ± azatioprina
  • Acúmulo de cobre: quelantes de cobre + dieta
  • Shunt congênito: cirurgia
  • Toxina: retirada do agente tóxico + suporte

Suporte hepático

SAMe (S-adenosilmetionina): antioxidante que suporta a função hepática — precursor de glutationa.

Silimarina (cardo mariano): hepatoprotetor com efeito antioxidante e anti-inflamatório moderado.

Ácido ursodeoxicólico (Ursacol): fluidifica a bile — indicado em colestase.

Vitamina E: antioxidante — suporte em hepatite por acúmulo de cobre.

Dieta

Dieta hepática: proteína de alta qualidade e digestibilidade (para reduzir produção de amônia); menor teor de cobre; maior teor de zinco (compete com a absorção de cobre).

Controle da encefalopatia hepática

Lactulose oral — reduz absorção intestinal de amônia; antibiótico (metronidazol, rifaximina) para reduzir bactérias produtoras de amônia.

Ascite

Diuréticos (furosemida + espironolactona); paracentese abdominal em casos de desconforto grave.

Prognóstico

Depende fundamentalmente da causa e do estágio:

Bom: toxicidade aguda detectada precocemente, hepatite bacteriana tratada, shunt cirurgicamente corrigido em jovem.

Variável: hepatite crônica — depende do grau de fibrose (cirrose) e resposta ao tratamento.

Reservado: cirrose avançada (fibrose irreversível), neoplasia hepática múltipla.

Perguntas frequentes

Quais os sintomas de problema no fígado em cachorro?+

O fígado tem enorme capacidade de reserva — sintomas de doença hepática geralmente só aparecem quando 70-80% da função está comprometida. Sinais: icterícia (pele, gengivas e esclera dos olhos amareladas — sinal de doença hepática grave); ascite (barriga aumentada por acúmulo de líquido); vômito e diarreia; perda de apetite; perda de peso; letargia; poliúria/polidipsia (beber e urinar muito — o rim tenta compensar); encefalopatia hepática (desorientação, andar em círculos, convulsões — acúmulo de amônia no sangue por falha de processamento hepático). A combinação de vômito crônico + barriga distendida + icterícia indica doença hepática avançada.

Cachorro com fígado comprometido tem cura?+

Depende da causa e do estágio. O fígado tem capacidade de regeneração excepcional — se a causa for identificada e removida precocemente, a recuperação pode ser completa. Causas tratáveis: hepatite bacteriana (antibiótico), toxicidade por medicamento (retirar o agente), hepatite imunomediada (imunossupressores), shunt portossistêmico congênito em jovens (cirurgia). Causas com manejo crônico: doença hepática crônica progressiva (cirrose — sem cura, manejo sintomático), hepatite crônica em raças predispostas. Diagnóstico etiológico é fundamental — biópsia hepática frequentemente necessária para definir a causa e o prognóstico.

Qual raça tem mais problema de fígado?+

Raças com predisposição documentada a hepatopatias específicas: Bedlington Terrier (acúmulo de cobre — doença de acúmulo de cobre hepático hereditária, 60-70% da raça é afetada); Dobermann Pinscher (hepatite crônica ativa — prevalência alta); Labrador Retriever e Cocker Spaniel (hepatite por acúmulo de cobre); West Highland White Terrier (hepatopatia idiopática); Dal Mation, Basset Hound (shunt portossistêmico). Yorkshire Terrier tem alta prevalência de shunt portossistêmico (anastomose porto-sistêmica) — presente desde o nascimento, causa sintomas neurológicos e hepáticos em filhotes jovens.

O que causa doença no fígado de cachorro?+

Causas de doença hepática canina: infecções (hepatite infecciosa canina por adenovírus, leptospirose, toxoplasmose); toxinas (planta tóxica como xylitol — letal, ibuprofeno, paracetamol/acetaminofeno, aflatoxinas em ração contaminada); medicamentos (corticosteroides crônicos causam hepatopatia esteroidal — geralmente reversível; fenobarbital a longo prazo; antifúngicos como ketoconazol); doença metabólica (acúmulo de cobre — hereditário em algumas raças); shunt portossistêmico (congênito ou adquirido); neoplasia (carcinoma hepatocelular, linfossarcoma hepático); lipidose hepática (gatos são mais afetados, mas ocorre em cães obesos).