Saúde

Doença de Von Willebrand em Cachorro: A Distúrbio de Coagulação Mais Comum

A doença de Von Willebrand é o distúrbio hereditário de coagulação mais comum em cães — deficiência do fator vWF causa sangramento prolongado. Doberman é a raça mais afetada. Diagnóstico por dosagem de antígeno. Tratamento com desmopressina e crioprecipitado.

27 de maio de 2026·7 min de leitura

A doença de Von Willebrand (DVW) é o distúrbio hereditário de coagulação mais prevalente em cães — e um dos mais subestimados. Diferentemente da hemofilia (que afeta quase exclusivamente machos e é bem conhecida), a DVW afeta machos e fêmeas igualmente, está presente em dezenas de raças, e frequentemente só é descoberta quando o cão sangra de forma inesperada durante uma cirurgia de rotina como castração.

O nome vem do médico finlandês Erik von Willebrand, que descreveu a condição em humanos em 1926. Em cães, a prevalência é surpreendentemente alta em certas raças — no Doberman Pinscher, estima-se que 50-70% dos indivíduos sejam afetados em algum grau.

A Proteína — Fator de Von Willebrand

O Fator de Von Willebrand (vWF) é uma glicoproteína produzida principalmente pelas células endoteliais e pelos megacariócitos (células que produzem plaquetas). Tem duas funções críticas na hemostasia primária:

1. Adesão plaquetária: quando um vaso sanguíneo se rompe, o endotélio expõe o colágeno subendotelial. O vWF funciona como uma "ponte" — liga o colágeno às plaquetas (através do receptor GPIb), permitindo que as plaquetas se adiram e formem o tampão hemostático inicial.

2. Proteção do Fator VIII: o vWF carrega o Fator VIII na circulação e o protege da degradação proteolítica. Sem vWF, os níveis de Fator VIII caem secundariamente.

Sem vWF funcional suficiente, o tampão plaquetário não se forma adequadamente — qualquer lesão vascular resulta em sangramento mais prolongado que o normal.

Tipos de Doença de Von Willebrand

Tipo 1 — Deficiência Quantitativa Parcial

Forma mais comum. O cão produz vWF, mas em quantidade reduzida. A qualidade da proteína é normal.

Raças: Doberman Pinscher (principal), Golden Retriever, German Shepherd, Pembroke Welsh Corgi.

Gravidade: variável — cães com níveis entre 35-50% do normal podem ter sangramento apenas após cirurgia ou trauma. Cães com <35% têm sangramento mais evidente.

Transmissão: autossômica — afeta machos e fêmeas igualmente.

Tipo 2 — Deficiência Qualitativa

O cão produz quantidade razoável de vWF, mas a proteína tem estrutura anormal — especialmente faltam os multímeros de alto peso molecular, que são os mais funcionais.

Raças: German Wirehaired Pointer, German Shorthaired Pointer.

Gravidade: moderada a grave — sangramento significativo apesar de níveis de vWF aparentemente não tão baixos.

Tipo 3 — Deficiência Quantitativa Total

Forma mais grave. Ausência quase completa de vWF.

Raças: Scottish Terrier, Kooikerhondje, Chesapeake Bay Retriever, Shetland Sheepdog.

Gravidade: severa — sangramento espontâneo, hemartroses (sangramento em articulações), sangramento em mucosas sem trauma. Risco de vida.

Transmissão: autossômica recessiva — cão afetado é homozigoto; portadores (heterozigotos) geralmente não sangram mas transmitem.

Raças Afetadas

| Raça | Tipo | Prevalência | |---|---|---| | Doberman Pinscher | Tipo 1 | 50-70% (portadores + afetados) | | Pembroke Welsh Corgi | Tipo 1 | Alta | | Scottish Terrier | Tipo 3 | Alta | | Shetland Sheepdog | Tipo 1 e 3 | Moderada-alta | | Golden Retriever | Tipo 1 | Moderada | | German Shepherd | Tipo 1 | Moderada | | Miniature Schnauzer | Tipo 1 | Moderada | | Kooikerhondje | Tipo 3 | Alta | | German Wirehaired/Shorthaired Pointer | Tipo 2 | Alta | | Standard Poodle | Tipo 1 | Moderada |

Sinais Clínicos

O sinal cardinal é sangramento prolongado ou excessivo em relação ao trauma:

Sangramentos espontâneos:

  • Epistaxe (hemorragia nasal) — frequentemente bilateral, difícil de controlar
  • Sangramento gengival — ao comer ou sem causa aparente
  • Hematúria (sangue na urina) — pode aparecer como urina rosada ou vermelha
  • Melena (fezes escuras por sangue digerido)
  • Sangramento vaginal fora do cio

Sinais revelados por procedimentos:

  • Sangramento prolongado após corte de unhas que atingiu o quick
  • Sangramento excessivo durante cirurgia — castração, biópsia, extração dentária
  • Hematoma pós-injeção ou coleta de sangue

DVW Tipo 3 (grave):

  • Hemartroses (sangramento em articulações) — claudicação e articulações aumentadas
  • Hematomas subcutâneos espontâneos
  • Sangramento potencialmente fatal

O que NÃO ocorre típicamente (diferente da hemofilia):

  • Na DVW leve e moderada, o sangramento espontâneo severo é menos comum — o problema se manifesta principalmente em resposta a cirurgias ou traumas.

Diagnóstico

Dosagem de Antígeno vWF (vWF:Ag)

O exame confirmatório principal. Mede a quantidade de vWF circulante em relação ao padrão normal.

  • >70% do normal: geralmente não afetado
  • 50-70%: borderline / portador leve
  • 35-50%: DVW — risco de sangramento em cirurgias
  • <35%: DVW — risco de sangramento clínico significativo
  • <1%: DVW Tipo 3 — risco grave

Cuidados com o exame: o vWF é uma proteína de fase aguda — estresse, inflamação, exercício intenso e certos hormônios (estrogênio) podem elevar transitoriamente os níveis, mascarando DVW. O exame ideal é em cão em repouso e sem intercorrências.

Teste Genético

Disponível para as principais raças. Detecta a mutação no gene vWF:

  • Normal/Normal (N/N): não portador, não afetado
  • Normal/Afetado (N/vWD): portador — geralmente sem sangramento, mas transmite
  • Afetado/Afetado (vWD/vWD): afetado — apresentará DVW

O teste genético é definitivo e não sofre variação pelo estado de saúde do animal. É o método preferido para rastreamento de reprodutores.

Testes de Coagulação

| Exame | Resultado na DVW | |---|---| | Hemograma/contagem plaquetas | Normal (plaquetas em número normal) | | TP (tempo de protrombina) | Normal | | TTPA (tempo de tromboplastina) | Pode estar prolongado em DVW Tipo 3 | | Tempo de sangramento da mucosa bucal (TSMB) | Prolongado — teste funcional específico |

O hemograma normal não descarta DVW — a falha está na função das plaquetas (adesão), não no número.

Tratamento e Manejo

Não existe tratamento curativo — o manejo é situacional, especialmente perioperatório.

Desmopressina (DDAVP)

Mecanismo: hormônio sintético análogo à vasopressina — estimula a liberação de vWF armazenado nas células endoteliais (corpos de Weibel-Palade).

Eficaz em: DVW Tipo 1 — há vWF armazenado para liberar.

Não eficaz em: DVW Tipo 3 — não há vWF armazenado.

Dose: 1 μg/kg SC ou IV, 30 minutos antes do procedimento cirúrgico.

Duração do efeito: 1-2 horas — suficiente para procedimentos curtos. Não pode ser repetido imediatamente (esgota os estoques).

Crioprecipitado

Produto derivado do plasma com concentração alta de vWF, Fator VIII, fibronectina e fibrinogênio.

Indicações: sangramento agudo grave, DVW Tipo 2 e 3 perioperatório.

Vantagem: fornece vWF exógeno — eficaz independentemente do tipo de DVW.

Disponibilidade: nem sempre disponível — requer banco de sangue veterinário.

Plasma Fresco Congelado (PFC)

Alternativa ao crioprecipitado — contém vWF mas em menor concentração. Volumes maiores necessários para o mesmo efeito.

Transfusão de 6-10 mL/kg pode ajudar em emergências quando o crioprecipitado não está disponível.

Medidas Preventivas

Antes de qualquer cirurgia em raças de risco:

  • Testar o cão (vWF:Ag ou genético) antes de proceder
  • Comunicar o diagnóstico a todos os veterinários envolvidos
  • Ter crioprecipitado ou PFC disponível para procedimentos de maior risco
  • Desmopressina disponível para DVW Tipo 1

Medicamentos a evitar ou usar com cautela:

  • Ácido acetilsalicílico (AAS) — interfere na agregação plaquetária
  • Anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs) como meloxicam — têm efeito sobre plaquetas; usar com cautela, prefira alternativas quando possível
  • Heparina — não indicada
  • Sulfonamidas — podem deprimir a função de vWF

Controle de parasitas: prevenir infestação severa por pulgas/carrapatos que pode agravar anemia em cão com tendência a sangrar.

Cuidados do Dia a Dia

Para a maioria dos Tipo 1 leves, a vida é normal — o problema surge em situações de sangramento desafiador. Para DVW Tipo 3:

  • Evitar ambientes com risco de trauma
  • Identificação médica alertando sobre DVW
  • Veterinário de referência ciente do diagnóstico
  • Plano para emergências (onde há crioprecipitado disponível)

Reprodução e Genética

DVW Tipo 1 (Doberman e outras raças): herança autossômica com penetrância variável. Cruzamento N/N × N/N = filhotes todos não afetados. Cruzamento N/vWD × N/vWD = 25% afetados, 50% portadores, 25% normais.

DVW Tipo 3: herança autossômica recessiva. Criadores devem testar todos os reprodutores — cão afetado não deve ser usado para reprodução.

O teste genético de reprodutores é a principal ferramenta para reduzir a prevalência da doença nas raças afetadas. Criadores responsáveis exigem teste negativo (N/N) ou portador conhecidos em cruzamentos controlados.

Prognóstico

DVW Tipo 1 leve: excelente — vida normal com precauções perioperatórias.

DVW Tipo 1 moderado: bom — com manejo adequado e equipe veterinária informada.

DVW Tipo 3: reservado a grave — risco de sangramento fatal sem acesso a hemoderivados.

A chave é o diagnóstico pré-cirúrgico — cão diagnosticado em repouso, antes de uma emergência, tem tempo para planejamento adequado.

Perguntas frequentes

O que é a doença de Von Willebrand em cachorro?+

A doença de Von Willebrand (DVW) é o distúrbio hereditário de coagulação mais frequente em cães. É causada pela deficiência quantitativa ou qualitativa do Fator de Von Willebrand (vWF) — uma proteína que tem duas funções essenciais na coagulação: age como 'cola' que liga as plaquetas ao endotélio vascular lesado, e protege o Fator VIII da degradação. Sem vWF funcional suficiente, as plaquetas não conseguem se aderir adequadamente ao local de lesão, e o tampão plaquetário primário falha — o cão sangra mais do que deveria. É diferente da hemofilia: a hemofilia é ligada ao cromossomo X (quase exclusivamente machos), enquanto a DVW afeta machos e fêmeas igualmente e é autossômica.

Quais raças têm doença de Von Willebrand?+

A DVW é documentada em mais de 70 raças caninas, com prevalência muito variável. Doberman Pinscher: raça mais afetada — prevalência de 50-70% de portadores (a maioria com DVW Tipo 1, forma mais branda). Outras raças com alta prevalência: Pembroke Welsh Corgi, Scottish Terrier, Shetland Sheepdog, Golden Retriever, German Shepherd, Miniature Schnauzer, Standard Poodle. DVW Tipo 3 (forma mais grave, sem vWF): Scottish Terrier, Kooikerhondje, Chesapeake Bay Retriever. Teste genético disponível para as principais raças — criadores responsáveis testam todos os reprodutores.

Como saber se meu cachorro tem Von Willebrand?+

Suspeita clínica: sangramento espontâneo ou excessivo sem trauma significativo — epistaxe (hemorragia nasal), sangramento gengival, sangramento prolongado após corte de unhas, hematúria, melena, hemorragia vaginal entre cios. Sangramento excessivo durante ou após cirurgia (castração, procedimento dentário) pode revelar DVW não diagnosticada. Testes: dosagem do antígeno vWF (vWF:Ag) — percentual do nível normal; <50% = compatível com DVW; <35% = risco de sangramento clínico. O teste genético identifica o gene defeituoso (definitivo para raças com teste validado). Importante: o hemograma e a contagem de plaquetas são normais na DVW — a falha está na função plaquetária, não no número.

Qual o tratamento da doença de Von Willebrand em cachorro?+

Não existe tratamento curativo. Manejo: Desmopressina (DDAVP): hormônio sintético que libera vWF armazenado nas células endoteliais — útil para DVW Tipo 1 (há vWF, mas em quantidade reduzida); dose de 1 μg/kg SC 30 minutos antes de cirurgia. Crioprecipitado: produto do plasma que contém vWF concentrado — transfusão para sangramentos agudos ou períodos perioperatórios em DVW Tipo 2 e 3. Plasma fresco congelado (PFC): alternativa ao crioprecipitado quando não disponível — menos concentrado. Precauções: evitar medicamentos que prejudicam a função plaquetária (AAS, anti-inflamatórios não esteroidais como meloxicam se possível, ou usar com cautela). Para procedimentos cirúrgicos: informar sempre o veterinário sobre o diagnóstico.