Displasia de Cotovelo em Cachorro: Causas, Sinais e Tratamento
Displasia de cotovelo é a principal causa de claudicação do membro dianteiro em raças grandes. Entenda as quatro condições que a compõem, diagnóstico e tratamento.
Displasia de cotovelo é um dos problemas ortopédicos mais comuns em cães de raças grandes — e uma das principais causas de sofrimento crônico ignorado, porque o cão muitas vezes "manca pouco" e o tutor não percebe a extensão do problema.
O que é a articulação do cotovelo
O cotovelo canino é formado pela articulação de três ossos: úmero, rádio e ulna. Para funcionar corretamente, esses três ossos precisam crescer em sincronia durante o desenvolvimento.
Quando o crescimento é assíncrono — um osso cresce mais rápido que o outro — surgem pontos de pressão e tensão anormal dentro da articulação. Esse estresse mecânico causa fragmentação de cartilagem ou osso, inflamação crônica e artrose progressiva.
As quatro condições da displasia de cotovelo
1. Fragmentação do Processo Coronóide Medial (FCP)
A condição mais comum. O processo coronóide medial (projeção óssea na ulna) fragmenta parcialmente ou totalmente, gerando fragmentos dentro da articulação.
Por que ocorre: incongruência entre rádio e ulna — pressão excessiva sobre o processo coronóide.
Diagnóstico: tomografia computadorizada (TC) é mais sensível que radiografia para detectar fragmentos coronóides.
Tratamento: artroscopia (cirurgia minimamente invasiva) para remover os fragmentos + tratamento da artrose resultante.
2. Processo Ancôneo Não Unido (UAP)
O processo ancôneo (projeção da ulna na parte posterior do cotovelo) normalmente funde ao restante do osso entre 16-20 semanas de vida. Quando não fusiona, forma um fragmento livre.
Raças mais afetadas: Pastor Alemão tem predisposição genética específica para UAP.
Diagnóstico: radiografia (geralmente visível) + TC para avaliação completa.
Tratamento:
- Fixação cirúrgica do processo com parafuso (se detectado precocemente, antes de 5-6 meses)
- Remoção do fragmento se já existe artrose estabelecida
- Osteotomia ulnar para corrigir a incongruência em alguns casos
3. Osteocondrite Dissecante (OCD) do Úmero
Falha na ossificação da cartilagem articular do úmero — forma uma "lascas" de cartilagem que pode se soltar dentro da articulação.
Localização: face medial (interna) da cabeça do úmero.
Diagnóstico: radiografia + TC ou artroscopia.
Tratamento: artroscopia para remover o fragmento de cartilagem + curetagem do leito para estimular formação de fibrocartilagem.
4. Incongruência Articular
Assimetria no comprimento de rádio e ulna — cria pressão anormal distribuída de forma irregular dentro da articulação.
Diagnóstico: TC com medidas precisas.
Tratamento: osteotomia (corte cirúrgico do osso) para corrigir o comprimento relativo.
Sinais clínicos
Idade de início: geralmente 5-12 meses (filhote em crescimento), mas pode ser diagnosticada em cães adultos não avaliados na fase de filhote.
Claudicação: o sinal mais comum. Pode ser:
- Sutil (o cão "poupa" levemente a pata, não é claudicação dramática)
- Pior após repouso, melhora um pouco ao aquecer
- Piora após exercício intenso
- Pode afetar os dois cotovelos (bilateral — em Labradores, displasia bilateral é frequente)
Posição do cotovelo: cotovelo girado para fora durante a marcha ou ao descansar (compensação para reduzir pressão no ponto doloroso).
Atrofia muscular: músculo do membro afetado pode reduzir por desuso.
Rigidez matinal: o cão levanta devagar e com dificuldade após dormir.
Diagnóstico
Exame físico: manipulação do cotovelo — extensão, flexão, palpação de pontos dolorosos, avaliação de crepitação (rangido articular).
Radiografia: necessária para avaliação inicial. Pode detectar fragmentos maiores, sinais de artrose, UAP. Limitação: fragmentos pequenos (especialmente FCP) podem não ser visíveis.
Tomografia Computadorizada (TC): padrão-ouro para displasia de cotovelo — detecta fragmentos que a radiografia não mostra, avalia incongruência articular com precisão.
Artroscopia diagnóstica: introdução de câmera na articulação — permite ver diretamente a cartilagem e os fragmentos. Frequentemente é ao mesmo tempo diagnóstica e terapêutica.
Tratamento
Cirúrgico (preferencial)
Indicação: presença de fragmentos dentro da articulação, sinais clínicos significativos, filhotes com UAP precocemente diagnosticado.
Artroscopia: acesso minimamente invasivo à articulação — remoção de fragmentos, lavagem articular, avaliação da cartilagem. Recuperação mais rápida que cirurgia aberta.
Artrotomia: abertura cirúrgica da articulação — para casos mais complexos ou sem acesso a artroscópio.
Prognóstico cirúrgico: melhor quando realizado precocemente (antes de artrose estabelecida). Cirurgia remove a causa da dor mas não reverte a artrose já formada.
Conservador
Indicação: cães com artrose estabelecida onde a cirurgia não muda o prognóstico; tutores que não podem realizar cirurgia.
- Anti-inflamatórios (AINEs) nos períodos de dor
- Controle rigoroso de peso — cada quilo reduz significativamente a carga na articulação
- Fisioterapia: fortalecimento muscular, hidroterapia (natação — excelente para articulações)
- Suplementos: ômega-3, condroitina/glucosamina (evidência moderada de benefício)
- Modificação de exercício: exercício regular de baixo impacto é melhor que sedentarismo
Prevenção
Seleção genética: a medida mais eficaz. A displasia de cotovelo tem herdabilidade estimada de 40-75%. Comprar de criadores que:
- Testam os reprodutores por radiografia e TC antes de cruzar
- Têm laudos OFA (Orthopedic Foundation for Animals) para cotovelo e quadril
- Não cruzam animais afetados
Controle de crescimento em filhotes: em raças de risco, crescimento acelerado por dieta hipercalórica aumenta o risco. Dieta específica para filhote de raça grande (não ração genérica para filhotes).
Não sobrepeso na fase de filhote: o excesso de peso durante o crescimento aumenta a pressão nas articulações em desenvolvimento.
O manejo crônico da artrose
Mesmo com cirurgia bem-sucedida, a artrose já estabelecida é permanente. O objetivo é manter qualidade de vida:
- Exercício moderado e regular — a articulação precisa de movimento para nutrição da cartilagem, mas sem impacto excessivo
- Natação: melhor exercício para cão com artrose — sem impacto, trabalho muscular completo
- Controle de peso: o mais importante fator modificável
- Anti-inflamatórios: conforme necessário, sob supervisão veterinária (não automedicar)
- Fisioterapia: sessões regulares mantêm amplitude de movimento e massa muscular
- Monitoramento veterinário regular: avaliação da progressão e ajuste do tratamento
Perguntas frequentes
O que é displasia de cotovelo em cachorro?+
Displasia de cotovelo não é uma única doença — é um conjunto de condições que afetam o desenvolvimento da articulação do cotovelo: Processo Ancôneo Não Unido (UAP), Fragmentação do Processo Coronóide Medial (FCP), Osteocondrite Dissecante do Úmero (OCD) e Incongruência Articular. Todas resultam em desenvolvimento anormal da articulação, causando dor, inflamação crônica e artrose progressiva. É a principal causa de claudicação do membro anterior em cães de raças grandes.
Quais raças têm mais displasia de cotovelo?+
As raças com maior incidência documentada são: Labrador Retriever (uma das mais afetadas), Golden Retriever, Rottweiler, Bernês da Montanha, Pastor Alemão, Chow Chow, Mastim Inglês e Newfoundland. Em geral, raças grandes e gigantes têm maior risco. A displasia de cotovelo tem componente genético forte — filhotes de pais afetados têm risco significativamente maior.
Como identificar displasia de cotovelo em filhote?+
Os sinais geralmente aparecem entre 5-12 meses de idade: mancar do membro anterior (claudicação que pode ser sutil — o cão 'poupa' a pata), relutância em exercitar ou subir escadas, cotovelo ligeiramente girado para fora durante a marcha, rigidez ao levantar após descanso. O filhote que manca do membro dianteiro deve ser avaliado por veterinário — diagnóstico precoce permite intervenção cirúrgica com melhor prognóstico.
Displasia de cotovelo tem cura?+
Não há cura definitiva — a articulação não volta ao normal. O objetivo do tratamento (cirúrgico ou conservador) é remover fragmentos que causam dor, retardar a progressão da artrose e manter qualidade de vida. Cirurgia precoce tem melhor prognóstico — remove os fragmentos antes que causem mais dano à cartilagem. Após a cirurgia ou com tratamento conservador, o cão necessita de manejo crônico da artrose: controle de peso, fisioterapia, anti-inflamatórios conforme necessário.
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