Saúde

Displasia de Cotovelo em Cachorro: Causas, Sinais e Tratamento

Displasia de cotovelo é a principal causa de claudicação do membro dianteiro em raças grandes. Entenda as quatro condições que a compõem, diagnóstico e tratamento.

26 de maio de 2026·5 min de leitura

Displasia de cotovelo é um dos problemas ortopédicos mais comuns em cães de raças grandes — e uma das principais causas de sofrimento crônico ignorado, porque o cão muitas vezes "manca pouco" e o tutor não percebe a extensão do problema.

O que é a articulação do cotovelo

O cotovelo canino é formado pela articulação de três ossos: úmero, rádio e ulna. Para funcionar corretamente, esses três ossos precisam crescer em sincronia durante o desenvolvimento.

Quando o crescimento é assíncrono — um osso cresce mais rápido que o outro — surgem pontos de pressão e tensão anormal dentro da articulação. Esse estresse mecânico causa fragmentação de cartilagem ou osso, inflamação crônica e artrose progressiva.

As quatro condições da displasia de cotovelo

1. Fragmentação do Processo Coronóide Medial (FCP)

A condição mais comum. O processo coronóide medial (projeção óssea na ulna) fragmenta parcialmente ou totalmente, gerando fragmentos dentro da articulação.

Por que ocorre: incongruência entre rádio e ulna — pressão excessiva sobre o processo coronóide.

Diagnóstico: tomografia computadorizada (TC) é mais sensível que radiografia para detectar fragmentos coronóides.

Tratamento: artroscopia (cirurgia minimamente invasiva) para remover os fragmentos + tratamento da artrose resultante.

2. Processo Ancôneo Não Unido (UAP)

O processo ancôneo (projeção da ulna na parte posterior do cotovelo) normalmente funde ao restante do osso entre 16-20 semanas de vida. Quando não fusiona, forma um fragmento livre.

Raças mais afetadas: Pastor Alemão tem predisposição genética específica para UAP.

Diagnóstico: radiografia (geralmente visível) + TC para avaliação completa.

Tratamento:

  • Fixação cirúrgica do processo com parafuso (se detectado precocemente, antes de 5-6 meses)
  • Remoção do fragmento se já existe artrose estabelecida
  • Osteotomia ulnar para corrigir a incongruência em alguns casos

3. Osteocondrite Dissecante (OCD) do Úmero

Falha na ossificação da cartilagem articular do úmero — forma uma "lascas" de cartilagem que pode se soltar dentro da articulação.

Localização: face medial (interna) da cabeça do úmero.

Diagnóstico: radiografia + TC ou artroscopia.

Tratamento: artroscopia para remover o fragmento de cartilagem + curetagem do leito para estimular formação de fibrocartilagem.

4. Incongruência Articular

Assimetria no comprimento de rádio e ulna — cria pressão anormal distribuída de forma irregular dentro da articulação.

Diagnóstico: TC com medidas precisas.

Tratamento: osteotomia (corte cirúrgico do osso) para corrigir o comprimento relativo.

Sinais clínicos

Idade de início: geralmente 5-12 meses (filhote em crescimento), mas pode ser diagnosticada em cães adultos não avaliados na fase de filhote.

Claudicação: o sinal mais comum. Pode ser:

  • Sutil (o cão "poupa" levemente a pata, não é claudicação dramática)
  • Pior após repouso, melhora um pouco ao aquecer
  • Piora após exercício intenso
  • Pode afetar os dois cotovelos (bilateral — em Labradores, displasia bilateral é frequente)

Posição do cotovelo: cotovelo girado para fora durante a marcha ou ao descansar (compensação para reduzir pressão no ponto doloroso).

Atrofia muscular: músculo do membro afetado pode reduzir por desuso.

Rigidez matinal: o cão levanta devagar e com dificuldade após dormir.

Diagnóstico

Exame físico: manipulação do cotovelo — extensão, flexão, palpação de pontos dolorosos, avaliação de crepitação (rangido articular).

Radiografia: necessária para avaliação inicial. Pode detectar fragmentos maiores, sinais de artrose, UAP. Limitação: fragmentos pequenos (especialmente FCP) podem não ser visíveis.

Tomografia Computadorizada (TC): padrão-ouro para displasia de cotovelo — detecta fragmentos que a radiografia não mostra, avalia incongruência articular com precisão.

Artroscopia diagnóstica: introdução de câmera na articulação — permite ver diretamente a cartilagem e os fragmentos. Frequentemente é ao mesmo tempo diagnóstica e terapêutica.

Tratamento

Cirúrgico (preferencial)

Indicação: presença de fragmentos dentro da articulação, sinais clínicos significativos, filhotes com UAP precocemente diagnosticado.

Artroscopia: acesso minimamente invasivo à articulação — remoção de fragmentos, lavagem articular, avaliação da cartilagem. Recuperação mais rápida que cirurgia aberta.

Artrotomia: abertura cirúrgica da articulação — para casos mais complexos ou sem acesso a artroscópio.

Prognóstico cirúrgico: melhor quando realizado precocemente (antes de artrose estabelecida). Cirurgia remove a causa da dor mas não reverte a artrose já formada.

Conservador

Indicação: cães com artrose estabelecida onde a cirurgia não muda o prognóstico; tutores que não podem realizar cirurgia.

  • Anti-inflamatórios (AINEs) nos períodos de dor
  • Controle rigoroso de peso — cada quilo reduz significativamente a carga na articulação
  • Fisioterapia: fortalecimento muscular, hidroterapia (natação — excelente para articulações)
  • Suplementos: ômega-3, condroitina/glucosamina (evidência moderada de benefício)
  • Modificação de exercício: exercício regular de baixo impacto é melhor que sedentarismo

Prevenção

Seleção genética: a medida mais eficaz. A displasia de cotovelo tem herdabilidade estimada de 40-75%. Comprar de criadores que:

  • Testam os reprodutores por radiografia e TC antes de cruzar
  • Têm laudos OFA (Orthopedic Foundation for Animals) para cotovelo e quadril
  • Não cruzam animais afetados

Controle de crescimento em filhotes: em raças de risco, crescimento acelerado por dieta hipercalórica aumenta o risco. Dieta específica para filhote de raça grande (não ração genérica para filhotes).

Não sobrepeso na fase de filhote: o excesso de peso durante o crescimento aumenta a pressão nas articulações em desenvolvimento.

O manejo crônico da artrose

Mesmo com cirurgia bem-sucedida, a artrose já estabelecida é permanente. O objetivo é manter qualidade de vida:

  • Exercício moderado e regular — a articulação precisa de movimento para nutrição da cartilagem, mas sem impacto excessivo
  • Natação: melhor exercício para cão com artrose — sem impacto, trabalho muscular completo
  • Controle de peso: o mais importante fator modificável
  • Anti-inflamatórios: conforme necessário, sob supervisão veterinária (não automedicar)
  • Fisioterapia: sessões regulares mantêm amplitude de movimento e massa muscular
  • Monitoramento veterinário regular: avaliação da progressão e ajuste do tratamento

Perguntas frequentes

O que é displasia de cotovelo em cachorro?+

Displasia de cotovelo não é uma única doença — é um conjunto de condições que afetam o desenvolvimento da articulação do cotovelo: Processo Ancôneo Não Unido (UAP), Fragmentação do Processo Coronóide Medial (FCP), Osteocondrite Dissecante do Úmero (OCD) e Incongruência Articular. Todas resultam em desenvolvimento anormal da articulação, causando dor, inflamação crônica e artrose progressiva. É a principal causa de claudicação do membro anterior em cães de raças grandes.

Quais raças têm mais displasia de cotovelo?+

As raças com maior incidência documentada são: Labrador Retriever (uma das mais afetadas), Golden Retriever, Rottweiler, Bernês da Montanha, Pastor Alemão, Chow Chow, Mastim Inglês e Newfoundland. Em geral, raças grandes e gigantes têm maior risco. A displasia de cotovelo tem componente genético forte — filhotes de pais afetados têm risco significativamente maior.

Como identificar displasia de cotovelo em filhote?+

Os sinais geralmente aparecem entre 5-12 meses de idade: mancar do membro anterior (claudicação que pode ser sutil — o cão 'poupa' a pata), relutância em exercitar ou subir escadas, cotovelo ligeiramente girado para fora durante a marcha, rigidez ao levantar após descanso. O filhote que manca do membro dianteiro deve ser avaliado por veterinário — diagnóstico precoce permite intervenção cirúrgica com melhor prognóstico.

Displasia de cotovelo tem cura?+

Não há cura definitiva — a articulação não volta ao normal. O objetivo do tratamento (cirúrgico ou conservador) é remover fragmentos que causam dor, retardar a progressão da artrose e manter qualidade de vida. Cirurgia precoce tem melhor prognóstico — remove os fragmentos antes que causem mais dano à cartilagem. Após a cirurgia ou com tratamento conservador, o cão necessita de manejo crônico da artrose: controle de peso, fisioterapia, anti-inflamatórios conforme necessário.