Saúde

Discopatia em Cachorro (IVDD): Sintomas, Diagnóstico e Tratamento

Discopatia intervertebral (IVDD) causa desde dor nas costas até paralisia em cães. Dachshunds são os mais afetados. Aprenda a reconhecer os sinais e quando a cirurgia é urgente.

26 de maio de 2026·5 min de leitura

A doença do disco intervertebral (IVDD — Intervertebral Disc Disease) é uma das emergências neurológicas mais comuns na medicina veterinária canina. Vai do espasmo doloroso que passa em dias ao cão completamente paralisado que precisa de cirurgia nas próximas horas.

A maioria dos tutores não sabe que aquele cão que "caminhou diferente esta manhã" pode estar em urgência neurológica.

O que é o disco intervertebral

Entre cada vértebra da coluna existe um disco intervertebral — estrutura com núcleo gelatinoso (nucleus pulposus) e anel fibroso externo. Funciona como amortecedor entre as vértebras.

Quando o disco se degenera e hernia — o material do disco comprime a medula espinhal. A medula é o cabo de comunicação entre o cérebro e os membros: compressão suficiente interrompe os sinais nervosos.

Tipos de IVDD

Hansen Tipo I — Herniação aguda (raças condrodistróficas)

O disco degenera precocemente e pode hernicar de forma explosiva — o núcleo gelatinoso se calcifica e é extrudado rapidamente para o canal vertebral.

Ocorre em: Dachshund, Beagle, Cocker Spaniel, Shih Tzu, Lhasa Apso, Poodle, Pekingês, Basset Hound.

Características: início súbito, cão pode passar de normal a paralisado em horas; afeta cães jovens a adultos (2-8 anos).

Hansen Tipo II — Herniação crônica (raças não condrodistróficas)

O anel fibroso abomba progressivamente para dentro do canal — compressão gradual e crônica.

Ocorre em: raças grandes — Labrador, Pastor Alemão, Rottweiler, Dobermann.

Características: progressão lenta ao longo de meses; afeta cães mais velhos (7-12 anos).

Regiões mais afetadas

Coluna toracolombar (costas): a mais comum — 85% dos casos de IVDD. Causa sinais nos membros traseiros e/ou na bexiga/intestino.

Coluna cervical (pescoço): 15% dos casos. Causa dor no pescoço, fraqueza nos quatro membros (tetraparesia) em casos graves.

Classificação neurológica (Graus I-V)

Esta classificação define o tratamento e o prognóstico:

| Grau | Sinais | Prognóstico | Tratamento | |---|---|---|---| | I | Dor apenas — sem déficit neurológico | Excelente | Conservador | | II | Ataxia (andar instável), fraqueza leve | Bom | Conservador ou cirurgia | | III | Paresia (fraqueza grave), não sustenta peso | Bom com cirurgia rápida | Cirurgia recomendada | | IV | Paralisia, sem controle de bexiga/intestino, com sensibilidade | Razoável com cirurgia imediata | Cirurgia urgente | | V | Paralisia + ausência de sensibilidade profunda | Reservado — urgência máxima | Cirurgia emergência |

A sensibilidade profunda é o parâmetro crítico: o veterinário belisca o dedo do cão com pressão — a resposta (vocalizaçao, virar a cabeça) indica que a medula ainda transmite sinal. Perda da sensibilidade profunda = lesão medular grave.

Diagnóstico

Exame neurológico

O veterinário avalia:

  • Postura e marcha
  • Propriocepção (se o cão percebe quando a pata está virada)
  • Reflexos medulares
  • Sensibilidade superficial e profunda
  • Tônus anal e da bexiga

O grau neurológico é determinado antes do diagnóstico por imagem.

Radiografia

Visualiza as vértebras e pode mostrar espaços intervertebrais estreitados ou discos calcificados — útil para triagem, mas não visualiza a medula ou o disco em si diretamente.

Mielografia

Contraste injetado no espaço subaracnoideo visualiza a compressão medular indiretamente — técnica mais antiga, ainda usada quando RM não está disponível.

Tomografia Computadorizada (TC)

Exame de escolha para IVDD: visualiza discos calcificados, extensão da herniação, localização exata da compressão. Rápido — cão geralmente não precisa de sedação profunda para TC.

Ressonância Magnética (RM)

Padrão-ouro: visualiza a medula diretamente, edema, hemorragia, lesões de tecido mole. Mais disponível em centros especializados.

Tratamento

Tratamento conservador (Graus I e II selecionados)

Indicado para: dor isolada sem déficit neurológico, ou fraqueza mínima com primeiro episódio.

Protocolo:

  • Repouso absoluto: confinamento em área pequena por 4-6 semanas — sem escadas, sem pulos, sem sofá, sem brincadeiras. Este é o ponto mais importante e mais negligenciado
  • Anti-inflamatórios veterinários (corticoides ou AINEs, não os dois simultaneamente)
  • Analgésicos (gabapentina, tramadol conforme prescrição)
  • Fisioterapia após fase aguda (laserterapia, hidroterapia)

Taxa de sucesso: 80-90% em casos de Grau I puro.

Risco: cão que melhora com conservador rapidamente voltando às atividades normais — recidiva frequente. O repouso completo é parte do tratamento, não opcional.

Cirurgia (Graus III, IV, V — e Grau II recorrente)

Objetivo: remover o material discal que comprime a medula.

Técnicas principais:

  • Hemilaminectomia: remoção de parte da lâmina vertebral lateral para acessar e remover o material discal — técnica mais comum para toracolombar
  • Ventral Slot: acesso ventral — mais usada para cervical

Tempo é fator crítico:

  • Cirurgia < 24h de paralisia: prognóstico muito melhor
  • Grau V operado em < 24h: 50-60% de recuperação
  • Grau V operado após 48h: 10-25%

Pós-operatório: fisioterapia intensiva — hidroginástica, estimulação elétrica, exercícios de propriocepção, massagem.

Reabilitação

Independente do tratamento (conservador ou cirúrgico), a fisioterapia acelera a recuperação:

  • Esteira aquática (hidroterapia): reduz o peso sobre os membros, permite movimento precoce
  • Laserterapia: reduz inflamação e promove regeneração neural
  • TENS/NMES: estimulação elétrica dos músculos paralisados
  • Exercícios de propriocepção: ensinam o cérebro a "redescobrir" os membros

Cão em carrinho: cão paralisado pode ter qualidade de vida excelente com cadeira de rodas — para os que não recuperam a deambulação.

Prevenção em raças de risco

Dachshund e raças condrodistróficas:

  • Evitar saltos (sofá, cama) — rampas ou escadas caninas
  • Evitar escadas íngremes
  • Controle de peso — obesidade aumenta a carga sobre os discos
  • Coleira vs peitoral — peitoral evita tração no pescoço
  • Alguns criadores e veterinários recomendam fenobarbital para prevenir calcificação discal prematura (controverso — discutir com neurologista veterinário)

Cirurgia profilática de discos: técnica de fenestração preventiva dos discos mais propensos — realizada junto com castração em Dachshunds. Reduz (não elimina) o risco de herniação futura. Controversa, mas disponível em centros especializados.

Perguntas frequentes

Quais são os sinais de hérnia de disco em cachorro?+

Os sinais variam com a gravidade da compressão medular: dor nas costas ou pescoço — cão reluta em mover a cabeça, arqueamento das costas, grunhidos ao ser pego; fraqueza nos membros traseiros (ataxia) — andar 'bêbado', tropeçando; paralisia parcial ou total dos membros traseiros — cão arrasta as patas; perda do controle de bexiga e intestino (urina ou faz cocô sem perceber); perda de sensibilidade — não sente beliscão na pata. A progressão pode ser rápida — horas até dias. Sinais neurológicos moderados a graves = urgência veterinária.

Dachshund é mais propenso a hérnia de disco?+

Sim — o Dachshund (Salsicha) tem a maior prevalência de IVDD de todas as raças, seguido por Beagle, Cocker Spaniel, Shih Tzu, Lhasa Apso, Poodle e Pekingês. O motivo: raças condrodistróficas têm processo de envelhecimento acelerado do disco intervertebral (Hansen Tipo I). Os discos degeneram ainda jovens (2-5 anos) e podem hernicar bruscamente. Em Dachshund, o risco de IVDD ao longo da vida chega a 25-45% — 1 em cada 4 pode ter algum episódio.

Cachorro com hérnia de disco tem cura?+

Depende da gravidade e da velocidade do tratamento. Casos leves (só dor, sem déficit neurológico) têm excelente prognóstico com tratamento conservador — 80-90% de recuperação. Casos moderados (fraqueza, ataxia) respondem bem à cirurgia oportuna — 85-95% de recuperação. Casos graves (paralisia total mas com sensibilidade preservada) — cirurgia imediata: 60-80% de recuperação. Casos gravíssimos (paralisia + ausência completa de sensibilidade por mais de 48h) — cirurgia urgente mas prognóstico reservado: 25-50%. Velocidade de tratamento é o fator mais crítico.

Posso dar anti-inflamatório para cachorro com dor nas costas?+

Não sem prescrição veterinária. Anti-inflamatórios humanos (ibuprofeno, paracetamol, aspirina) são tóxicos para cães. Anti-inflamatórios veterinários (meloxicam, carprofen, grapiprant) precisam de avaliação antes do uso — em casos de compressão medular, o IVDD pode piorar rapidamente e mascarar a progressão com analgésico sem investigação é perigoso. O veterinário avalia a gravidade neurológica antes de prescrever. Repouso absoluto enquanto aguarda a consulta.