Saúde

Dirofilariose em Cachorro (Verme do Coração): Sintomas e Prevenção

Dirofilariose é o verme do coração — transmitido por mosquito, vive nas artérias pulmonares e coração do cão. Fatal sem tratamento. Prevenção mensal é simples e eficaz.

26 de maio de 2026·5 min de leitura

A dirofilariose canina — popularmente chamada de "verme do coração" — é causada por Dirofilaria immitis, um nematódeo parasita que completa seu ciclo de vida nos vasos pulmonares e coração de cães, lobos, raposas e, ocasionalmente, humanos.

É uma das doenças parasitárias mais graves do cão: sem tratamento, é fatal. Com prevenção adequada, é completamente evitável.

Ciclo de vida

O ciclo da dirofilariose envolve obrigatoriamente um mosquito vetor:

  1. Cão infectado → mosquito: quando um mosquito pica um cão infectado, ingere microfilárias (larvas L1) circulantes no sangue
  2. Desenvolvimento no mosquito: as larvas evoluem de L1 → L2 → L3 (larva infectante) no interior do mosquito — leva 10-14 dias em temperatura ideal (acima de 27°C)
  3. Mosquito → novo cão: o mosquito infectado pica um novo cão e deposita larvas L3 na picada
  4. Migração e maturação no cão: as larvas migram pelo tecido subcutâneo → corrente sanguínea → artérias pulmonares. Em 6-7 meses, tornam-se vermes adultos sexualmente maduros
  5. Reprodução: fêmeas adultas produzem microfilárias que circulam no sangue — disponíveis para serem ingeridas por mosquitos, completando o ciclo

Temperatura é crítica: o desenvolvimento das larvas no mosquito exige temperatura acima de 14°C (idealmente 27°C). Regiões frias têm menor risco por isso.

Patologia: como os vermes causam doença

Os vermes adultos vivem principalmente nas artérias pulmonares e no ventrículo direito. A presença física dos vermes causa:

Dano vascular: inflamação das artérias pulmonares → espessamento da parede arterial → hipertensão pulmonar progressiva.

Sobrecarga cardíaca direita: o ventrículo direito precisa bombear contra uma resistência pulmonar aumentada → hipertrofia → falha cardíaca direita.

Síndrome da cava: em infecções maciças, os vermes se acumulam na veia cava e câmaras cardíacas direitas — emergência com hemólise, choque e morte rápida.

Estadiamento clínico (classes)

Classe I — Assintomático

Infecção presente no exame, cão sem sintomas clínicos. Achado incidental em triagem.

Classe II — Sintomas leves a moderados

Tosse leve, redução discreta da tolerância ao exercício, cansaço após atividade antes tolerada.

Classe III — Sintomas moderados a graves

Tosse persistente, dispneia, intolerância ao exercício marcada, perda de peso, distensão abdominal (ascite — falha cardíaca direita).

Classe IV — Síndrome da cava (emergência)

Massa de vermes na veia cava e coração direito. Sinais: fraqueza súbita, hemoglobinúria (urina escura — hemólise), colapso, choque. Sem intervenção imediata (remoção cirúrgica dos vermes) = fatal em 24-72h.

Diagnóstico

Teste de antígeno

O padrão-ouro para triagem. Detecta proteínas secretadas por fêmeas adultas de D. immitis — altamente sensível e específico. Disponível como teste rápido in-house (snap test).

Limitação: falso-negativo em infecções apenas com machos (sem fêmeas adultas) — raro.

Pesquisa de microfilárias

Esfregaço de sangue ou Knott modificado — visualiza microfilárias ao microscópio. Positivo indica infecção ativa com fêmeas produtoras.

Microfilárias não detectadas: ~20% dos cães infectados são "amicrofilarêmicos" (sem microfilárias detectáveis) — o teste de antígeno detecta esses casos.

Ecocardiograma

Visualiza vermes adultos nas artérias pulmonares e coração (aparecem como linhas hiperecogênicas). Avalia o grau de comprometimento cardíaco e pulmonar.

Radiografia de tórax

Avalia dilatação das artérias pulmonares, tamanho cardíaco, presença de doença pulmonar associada.

Tratamento

Protocolo americano (AHS — American Heartworm Society)

O único adulticida aprovado é a melarsomina (Immiticide) — injeção intramuscular profunda na musculatura lombar.

Protocolo recomendado (3 doses):

  1. Doxiciclina 10 mg/kg 2x/dia por 4 semanas — elimina Wolbachia (bactéria simbiótica que potencializa a patogenicidade do D. immitis)
  2. Preventivo macrocíclico (ivermectina ou milbemicina) — mata microfilárias e larvas em desenvolvimento
  3. Melarsomina: 1ª injeção (dia 60 do protocolo) + 2ª e 3ª injeções com 24h de intervalo (dia 90)
  4. Restrição de exercício: 6-8 semanas após cada série de injeções — vermes mortos são reabsorvidos progressivamente; exercício durante esse período pode causar tromboembolismo fatal

Restrição de exercício é crítica: os vermes mortos fragmentam-se e podem embolizar artérias pulmonares. O exercício aumenta o débito cardíaco e a pressão arterial pulmonar — aumenta o risco de tromboembolismo. Cão em tratamento: repouso quase absoluto (passeios curtos para necessidades fisiológicas apenas).

Classes III e IV

Estabilização com corticoides e diuréticos antes do adulticida. Classe IV: remoção mecânica dos vermes da veia cava/coração direito antes de qualquer outro tratamento.

Prevenção

A prevenção é a melhor e mais simples estratégia. Medicamentos preventivos mensais são altamente eficazes — taxa de proteção >99%.

Mecanismo: os preventivos agem eliminando larvas L3/L4 — as que foram transmitidas nas últimas 30-45 dias antes da dose. Não atuam nos vermes adultos. Por isso, administração mensal regular é fundamental.

Principais preventivos disponíveis no Brasil:

| Produto | Princípio ativo | Via | |---|---|---| | Heartgard Plus | Ivermectina + Pirantel | Oral | | Revolution | Selamectina | Tópico | | Simparic Trio | Sarolaner + Moxidectina + Pirantel | Oral | | Nexgard Spectra | Afoxolaner + Milbemicina | Oral | | Milbemax | Milbemicina + Praziquantel | Oral |

ATENÇÃO antes de iniciar preventivo em cão adulto: realizar teste de antígeno. Cão com infecção ativa e alta microfilaremia pode ter reação alérgica grave à morte rápida das microfilárias pelo preventivo.

Raças com MDR1/ABCB1: Collie, Shetland Sheepdog, Australian Shepherd e outras raças com mutação MDR1 têm sensibilidade aumentada à ivermectina em doses altas — os preventivos usam doses muito baixas e geralmente são seguros, mas confirmar com veterinário.

Dirofilariose e humanos

D. immitis pode infectar humanos — por picada de mosquito infectado. Nos humanos, os vermes geralmente não completam o desenvolvimento (não atingem o estágio adulto reprodutivo), mas causam nódulos pulmonares ou cutâneos que podem ser confundidos com tumores. Não é transmitida diretamente do cão ao humano.

Perguntas frequentes

O que é o verme do coração em cachorro?+

O 'verme do coração' é Dirofilaria immitis — um nematódeo (verme redondo) que vive nas artérias pulmonares e no coração direito do cão. Os vermes adultos podem atingir 15-30 cm de comprimento. Uma infecção grave pode ter dezenas a centenas de vermes. Os vermes causam inflamação progressiva dos vasos pulmonares, hipertensão pulmonar, falha cardíaca direita e morte. A transmissão é exclusivamente por picada de mosquito — principalmente Aedes e Culex — não há transmissão direta de cão para cão.

Dirofilariose tem no Brasil?+

Sim — a dirofilariose é endêmica no Brasil, com prevalência variável por região. É mais prevalente em regiões costeiras tropicais e subtropicais: Nordeste (Bahia, Pernambuco, Ceará, Maranhão), Sudeste costeiro (especialmente São Paulo litoral, Rio de Janeiro), e Norte (Pará, Amazonas). Regiões com alta densidade de mosquitos e clima quente/úmido têm maior risco. Estimativas indicam que milhões de cães no Brasil estão expostos — a prevalência varia de 5% a mais de 50% em regiões costeiras endêmicas.

Como prevenir dirofilariose em cachorro?+

A prevenção é simples e muito eficaz — medicamentos preventivos mensais. Opções disponíveis no Brasil: ivermectina (componente em vários produtos como Heartgard, Revolution, Simparic Trio); milbemicina oxima; selamectina. A prevenção age matando as larvas L3/L4 antes de se desenvolverem em vermes adultos. IMPORTANTE: antes de iniciar preventivo, cão adulto não tratado deve ser testado para infecção ativa — administrar ivermectina em cão com alta carga de microfilárias pode causar reação anafilática grave.

Cachorro com verme do coração tem cura?+

Sim, mas o tratamento é complexo, caro e arriscado. O tratamento adulticida (que mata os vermes adultos) usa moxidectina/doxiciclina combinadas, seguidas de melarsomina (único adulticida aprovado, injetável, aplicado em série de injeções no músculo lombar). Durante o tratamento, o cão deve ter restrição de exercício rigorosa por 6-8 semanas — vermes mortos podem embolizar vasos pulmonares causando tromboembolismo potencialmente fatal se o coração for sobrecarregado com exercício. Detecção e prevenção antes da infecção é sempre preferível ao tratamento.