Saúde

Diabetes Insipidus em Cachorro: Sede Excessiva e Urina Diluída — Diagnóstico

O diabetes insipidus é deficiência ou resistência ao ADH (vasopressina) — causa sede e urina excessiva com urina muito diluída. Diferente do diabetes mellitus (sem açúcar elevado). Teste de privação de água diferencia as causas. Tratamento com desmopressina nasal ou oral.

27 de maio de 2026·7 min de leitura

A maioria dos tutores que ouve "diabetes" pensa em açúcar no sangue, insulina, dieta especial. Quando o veterinário diz que o cão tem "diabetes insipidus", a confusão é quase universal.

A ligação é apenas histórica — a palavra "diabetes" vem do grego "sifão", descrevendo a passagem excessiva de urina. Mas o mecanismo é completamente diferente, e entender essa diferença é fundamental para tratar adequadamente o paciente.

O Hormônio Antidiurético (ADH)

O Que é o ADH e Como Funciona

O ADH (hormônio antidiurético), também chamado de vasopressina ou arginina-vasopressina (AVP), é produzido pelo hipotálamo e armazenado e liberado pela neurohipófise (hipófise posterior).

Função: o ADH é o regulador central da retenção de água pelos rins.

Quando o sangue está muito concentrado (osmolalidade plasmática elevada) ou quando a pressão arterial cai:

  1. Osmorreceptores no hipotálamo detectam a alteração
  2. ADH é liberado na corrente sanguínea
  3. ADH chega aos túbulos coletores dos rins
  4. Receptores V2 nos túbulos coletores respondem ao ADH
  5. Aquaporinas (canais de água) são inseridas na membrana celular
  6. Água é reabsorvida do filtrado urinário → urina se concentra → menos volume de urina

Quando o ADH está ausente ou ineficaz:

  • Os túbulos coletores permanecem impermeáveis à água
  • O filtrado glomerular não é concentrado
  • Grandes volumes de urina diluída são eliminados
  • O organismo perde água → o sangue fica mais concentrado → sede intensa

Resultado: polidipsia compensatória — o cão bebe água compulsivamente para compensar a perda urinária.

Tipos de Diabetes Insipidus

DI Central (Neurohipofisário)

Causa: produção insuficiente de ADH pela neurohipófise.

Subcategorias:

DI central idiopático (primário):

  • A causa mais comum de DI central em cães
  • Destruição dos neurônios produtores de ADH sem causa identificável
  • Pode haver processo autoimune subclínico

DI central secundário (adquirido):

  • Neoplasia hipofisária ou hipotalâmica (craniofaringioma, tumor hipofisário)
  • Trauma craniano — lesão da haste hipofisária
  • Infecção do SNC (encefalite)
  • Anomalia congênita (raro)

Raças com predisposição reportada:

  • Miniature Schnauzer (DI central idiopático)
  • Pastor Alemão
  • Golden Retriever

DI Nefrogênico

Causa: produção normal de ADH, mas os rins não respondem ao hormônio.

DI nefrogênico congênito (primário):

  • Mutação nos receptores V2 ou nas aquaporinas
  • Extremamente raro em cães
  • Manifesta desde filhote

DI nefrogênico adquirido (secundário — muito mais comum):

  • Hipercalcemia (cálcio elevado inibe a resposta renal ao ADH) — neoplasias, hiperparatireoidismo
  • Hiperadrenocorticismo (Cushing) — cortisol cronicamente elevado interfere com o ADH
  • Pielonefrite crônica — destruição dos túbulos coletores
  • Piometra — toxinas bacterianas
  • Doença renal medular — destruição do gradiente de concentração
  • Hipopotassemia (potássio baixo)
  • Medicamentos: corticosteroides, griseofulvina, lítio

Polidipsia Psicogênica

Tecnicamente não é DI — mas faz diagnóstico diferencial.

Mecanismo inverso: o cão bebe água em excesso (por causa comportamental, estresse ou ansiedade) → sobrecarga hídrica → osmolalidade plasmática cai → ADH suprimido → urina diluída.

Diagnóstico diferencial: no teste de privação de água, o cão com polidipsia psicogênica consegue concentrar a urina gradualmente (porque seus rins e sua neurohipófise estão normais).

Diagnóstico

Confirmar Poliúria-Polidipsia

Critérios:

  • Ingestão de água > 100 mL/kg/dia (normal: 40-60 mL/kg/dia)
  • Produção de urina > 50 mL/kg/dia
  • Densidade urinária < 1,006 em amostra de manhã (em jejum hídrico)

Como medir: o tutor pode medir quanto o cão bebe em 24 horas com uma vasilha graduada. A urina diluída (quase transparente, sem cheiro marcante) é visível.

Excluir Causas Comuns de PU/PD

Antes de investigar DI, excluir:

| Causa | Exame diagnóstico | |---|---| | Diabetes mellitus | Glicemia, glicosúria | | Insuficiência renal crônica | Ureia, creatinina, SDMA | | Hiperadrenocorticismo (Cushing) | Teste de supressão com dexametasona, ACTH estimulation test | | Hipoadrenocorticismo | Sódio, potássio, teste ACTH | | Hipercalcemia | Cálcio sérico | | Pielonefrite | Urinálise + cultura, ultrassonografia renal | | Piometra | Ultrassonografia, hemograma | | Hipopotassemia | Potássio sérico |

O DI é diagnóstico de exclusão — as causas acima são muito mais comuns.

Teste de Privação de Água (Water Deprivation Test)

Propósito: confirmar que o rim não consegue concentrar a urina e diferenciar DI central de DI nefrogênico de polidipsia psicogênica.

Como é feito:

  1. Pesagem do cão — baseline
  2. Retirada do acesso à água
  3. Coleta de urina e pesagem a cada 1-2 horas
  4. Monitorização do estado de hidratação e peso
  5. O teste continua até: densidade urinária > 1,025 (resposta normal), ou perda de peso > 5% (parar para evitar desidratação grave), ou densidade urinária plana por 3 medições consecutivas (sem concentração = confirma DI)

Atenção: o teste de privação de água deve ser feito sob supervisão veterinária — um cão com DI verdadeiro pode desidratar rapidamente se o teste for prolongado sem monitorização.

Teste de Resposta à Desmopressina

Após confirmar incapacidade de concentrar a urina:

Administrar desmopressina: 2-4 mcg intranasal (no saco conjuntival) ou 1-2 mcg SC.

Monitorizar a densidade urinária nas 4-8 horas seguintes:

  • DI central: densidade sobe para > 1,015 — os rins respondem à desmopressina exógena (porque o problema era só a falta do ADH endógeno)
  • DI nefrogênico: densidade não sobe significativamente — os rins não respondem ao ADH mesmo quando dado
  • Polidipsia psicogênica: resposta variável mas geralmente parcial

Imagem

RM do cérebro: indicada em DI central para avaliar massa hipofisária/hipotalâmica.

O "bright spot" da neurohipófise (sinal hiperintenso na hipófise posterior em T1) normalmente visível na RM está ausente em cães com DI central — sinal de depleção do ADH armazenado.

Tratamento

DI Central — Desmopressina (DDAVP)

Desmopressina é o análogo sintético do ADH com meia-vida mais longa e sem efeitos vasopressores significativos.

Formas de administração em cães:

Intranasal/Conjuntival:

  • Solução 0,01% (10 mcg/mL): 1-4 gotas no saco conjuntival (mucosa da conjuntiva absorve bem) ou narinas
  • Frequência: 2x/dia (a cada 12 horas)
  • É a via mais prática e econômica no Brasil

Subcutâneo:

  • 0,5-2 mcg SC a cada 12-24 horas
  • Para casos graves ou intolerância à via nasal

Comprimidos (desmopressina VO):

  • Disponíveis em humana (Minirin®) — mas a biodisponibilidade oral em cães é muito menor que em humanos
  • Doses maiores necessárias → custo elevado

Monitorização:

  • O objetivo é reduzir a poliúria para níveis aceitáveis — não necessariamente normalizar completamente
  • Ajustar a dose e frequência conforme a resposta clínica (volume de água ingerida)
  • Não restringir o acesso à água — o cão com DI não tratado ou subadequadamente tratado precisa da água para se manter hidratado

Custos e acesso no Brasil: a desmopressina (Minirin® nasal) está disponível em farmácias humanas — o custo pode ser significativo para manutenção crônica.

DI Nefrogênico Congênito

Sem tratamento específico disponível. Manejo:

  • Acesso irrestrito à água (essencial)
  • Dieta com baixo sódio (reduz a carga osmolar → menos solutos para excretar → menos água necessária)
  • Tiazídicos (hidroclorotiazida 2,5-5 mg/kg VO 2x/dia): paradoxalmente reduzem a poliúria ao induzir leve depleção de sódio, que ativa mecanismos compensatórios de retenção de sódio (e água) no néfron proximal

DI Nefrogênico Adquirido

Tratar a causa subjacente:

  • Hipercalcemia: tratar a neoplasia, hiperparatireoidismo
  • Cushing: trilostano ou mitotano
  • Pielonefrite: antibioticoterapia prolongada

A resolução da causa frequentemente leva à resolução do DI nefrogênico.

DI Central por Neoplasia

Se RM confirma massa hipofisária ou hipotalâmica:

  • Radioterapia: pode reduzir a massa e melhorar a produção de ADH
  • Desmopressina como suporte

Prognóstico

| Tipo | Prognóstico | |---|---| | DI central idiopático | Bom com desmopressina crônica | | DI central por neoplasia | Depende da extensão e tratabilidade da massa | | DI nefrogênico adquirido — causa tratada | Excelente após resolução da causa | | DI nefrogênico congênito | Manejo de vida inteira; qualidade de vida boa com acesso à água |

A complicação mais perigosa do DI: hipernatremia (sódio muito elevado) por desidratação — ocorre quando o acesso à água é restrito ou quando o cão não consegue beber adequadamente (doença grave, cirurgia, anestesia).

Um cão com DI que perde o acesso à água durante uma internação ou cirurgia pode desenvolver hipernatremia grave rapidamente — é essencial informar qualquer profissional que cuide do animal sobre o diagnóstico.

O diabetes insipidus é uma das condições em que o diagnóstico correto faz toda a diferença: identificado e tratado, o cão tem excelente qualidade de vida com desmopressina. Confundido com doença renal ou simplesmente deixado sem diagnóstico, o cão vive com sede constante e micção excessiva indefinidamente.

Perguntas frequentes

O que é diabetes insipidus em cachorro? É o mesmo que diabetes?+

Não — são condições completamente diferentes apesar do nome. O diabetes mellitus (o 'diabetes' popular) envolve deficiência de insulina → hiperglicemia (açúcar alto no sangue) → glicose na urina que arrasta água, causando poliúria. O diabetes insipidus envolve deficiência ou resistência ao ADH (hormônio antidiurético, também chamado vasopressina) → os rins não conseguem concentrar a urina → urina muito diluída em grandes volumes. O 'insipidus' (do latim 'sem sabor') refere-se à urina sem sabor — historicamente diferenciado do diabetes mellitus ('com sabor' — a glicosúria tornava a urina adocicada). Existem dois tipos de diabetes insipidus: DI central — deficiência de produção de ADH pela neurohipófise (hipófise posterior); DI nefrogênico — produção normal de ADH mas os rins não respondem ao hormônio. Ambos causam polidipsia (sede excessiva) e poliúria (urina em grande volume muito diluída).

Quais são os sinais de diabetes insipidus em cachorro?+

Os sinais são dominados por dois sintomas: polidipsia (beber água em quantidade anormal) e poliúria (urinar muito e com frequência). Polidipsia: o cão bebe litros de água por dia — tutores descrevem que 'a vasilha de água esvazia em horas', 'o cachorro vai à vasilha constantemente'; a ingestão de água pode ser 3-10x a quantidade normal (> 100 mL/kg/dia em casos graves). Poliúria: micção frequente, volume por micção elevado, urina muito clara (quase transparente, sem cor) — densidade urinária muito baixa (< 1,006 em vez do normal de 1,020-1,045); acidentes dentro de casa (incontinência funcional — o cão não consegue segurar pela quantidade produzida). O cão está alerta, com boa condição geral — diferente de doenças crônicas como insuficiência renal que apresentam apatia e perda de peso. O diabetes insipidus 'puro' não causa perda de peso, glicosúria ou hiperglicemia — o exame de sangue pode ser normal ou mostrar apenas urina diluída nos exames básicos.

Como é feito o diagnóstico de diabetes insipidus em cachorro?+

O diagnóstico envolve etapas sequenciais. Passo 1 — Confirmar poliúria-polidipsia (PU/PD): medir a ingestão de água de 24 horas (> 100 mL/kg/dia é anormal); densidade urinária na amostra de manhã (em jejum hídrico) < 1,006 sugere DI ou polidipsia psicogênica. Passo 2 — Excluir causas comuns de PU/PD: exames de sangue (glicemia, ureia, creatinina, cálcio, cortisol) e urina (glicosúria, sedimento); excluir diabetes mellitus, insuficiência renal, hipoadrenocorticismo, hipercalcemia, pielonefrite, piometra, hiperadrenocorticismo — são as causas mais frequentes de PU/PD e são mais comuns que o DI. Passo 3 — Teste de privação de água (Water Deprivation Test): confirma incapacidade de concentrar urina e diferencia DI central de nefrogênico de polidipsia psicogênica; realizado sob supervisão veterinária com monitorização do peso e estado de hidratação. Passo 4 — Teste de resposta à desmopressina: DDAVP intranasal ou SC → se a densidade urinária sobe para > 1,015: DI central confirmado; se não há resposta: DI nefrogênico.

Como tratar diabetes insipidus em cachorro?+

O tratamento depende do tipo. DI central (deficiência de ADH): desmopressina (DDAVP) — análogo sintético do ADH. Administrada por via nasal (1-4 gotas no saco conjuntival ou narinas, 2x/dia) ou por via oral (comprimidos, mas menos absorção nos cães); reduz a poliúria em 50-90% dos casos; necessária por toda a vida; o animal deve ter acesso irrestrito à água — a restrição hídrica sem desmopressina pode causar desidratação grave. DI nefrogênico adquirido (mais comum que o idiopático): tratar a causa subjacente — hipercalcemia, hiperadrenocorticismo, pielonefrite; tiazídicos (hidroclorotiazida 2,5-5 mg/kg VO 2x/dia) reduzem o débito urinário paradoxalmente nos casos nefrogênicos. DI nefrogênico congênito (raro): sem tratamento curativo; tiazídicos e dieta com baixo sódio e proteínas para reduzir a carga osmolar. DI central por neoplasia hipofisária: dependendo da extensão, radioterapia pode ser considerada.