Diabetes Insipidus em Cachorro: Sede Excessiva e Urina Diluída — Diagnóstico
O diabetes insipidus é deficiência ou resistência ao ADH (vasopressina) — causa sede e urina excessiva com urina muito diluída. Diferente do diabetes mellitus (sem açúcar elevado). Teste de privação de água diferencia as causas. Tratamento com desmopressina nasal ou oral.
A maioria dos tutores que ouve "diabetes" pensa em açúcar no sangue, insulina, dieta especial. Quando o veterinário diz que o cão tem "diabetes insipidus", a confusão é quase universal.
A ligação é apenas histórica — a palavra "diabetes" vem do grego "sifão", descrevendo a passagem excessiva de urina. Mas o mecanismo é completamente diferente, e entender essa diferença é fundamental para tratar adequadamente o paciente.
O Hormônio Antidiurético (ADH)
O Que é o ADH e Como Funciona
O ADH (hormônio antidiurético), também chamado de vasopressina ou arginina-vasopressina (AVP), é produzido pelo hipotálamo e armazenado e liberado pela neurohipófise (hipófise posterior).
Função: o ADH é o regulador central da retenção de água pelos rins.
Quando o sangue está muito concentrado (osmolalidade plasmática elevada) ou quando a pressão arterial cai:
- Osmorreceptores no hipotálamo detectam a alteração
- ADH é liberado na corrente sanguínea
- ADH chega aos túbulos coletores dos rins
- Receptores V2 nos túbulos coletores respondem ao ADH
- Aquaporinas (canais de água) são inseridas na membrana celular
- Água é reabsorvida do filtrado urinário → urina se concentra → menos volume de urina
Quando o ADH está ausente ou ineficaz:
- Os túbulos coletores permanecem impermeáveis à água
- O filtrado glomerular não é concentrado
- Grandes volumes de urina diluída são eliminados
- O organismo perde água → o sangue fica mais concentrado → sede intensa
Resultado: polidipsia compensatória — o cão bebe água compulsivamente para compensar a perda urinária.
Tipos de Diabetes Insipidus
DI Central (Neurohipofisário)
Causa: produção insuficiente de ADH pela neurohipófise.
Subcategorias:
DI central idiopático (primário):
- A causa mais comum de DI central em cães
- Destruição dos neurônios produtores de ADH sem causa identificável
- Pode haver processo autoimune subclínico
DI central secundário (adquirido):
- Neoplasia hipofisária ou hipotalâmica (craniofaringioma, tumor hipofisário)
- Trauma craniano — lesão da haste hipofisária
- Infecção do SNC (encefalite)
- Anomalia congênita (raro)
Raças com predisposição reportada:
- Miniature Schnauzer (DI central idiopático)
- Pastor Alemão
- Golden Retriever
DI Nefrogênico
Causa: produção normal de ADH, mas os rins não respondem ao hormônio.
DI nefrogênico congênito (primário):
- Mutação nos receptores V2 ou nas aquaporinas
- Extremamente raro em cães
- Manifesta desde filhote
DI nefrogênico adquirido (secundário — muito mais comum):
- Hipercalcemia (cálcio elevado inibe a resposta renal ao ADH) — neoplasias, hiperparatireoidismo
- Hiperadrenocorticismo (Cushing) — cortisol cronicamente elevado interfere com o ADH
- Pielonefrite crônica — destruição dos túbulos coletores
- Piometra — toxinas bacterianas
- Doença renal medular — destruição do gradiente de concentração
- Hipopotassemia (potássio baixo)
- Medicamentos: corticosteroides, griseofulvina, lítio
Polidipsia Psicogênica
Tecnicamente não é DI — mas faz diagnóstico diferencial.
Mecanismo inverso: o cão bebe água em excesso (por causa comportamental, estresse ou ansiedade) → sobrecarga hídrica → osmolalidade plasmática cai → ADH suprimido → urina diluída.
Diagnóstico diferencial: no teste de privação de água, o cão com polidipsia psicogênica consegue concentrar a urina gradualmente (porque seus rins e sua neurohipófise estão normais).
Diagnóstico
Confirmar Poliúria-Polidipsia
Critérios:
- Ingestão de água > 100 mL/kg/dia (normal: 40-60 mL/kg/dia)
- Produção de urina > 50 mL/kg/dia
- Densidade urinária < 1,006 em amostra de manhã (em jejum hídrico)
Como medir: o tutor pode medir quanto o cão bebe em 24 horas com uma vasilha graduada. A urina diluída (quase transparente, sem cheiro marcante) é visível.
Excluir Causas Comuns de PU/PD
Antes de investigar DI, excluir:
| Causa | Exame diagnóstico | |---|---| | Diabetes mellitus | Glicemia, glicosúria | | Insuficiência renal crônica | Ureia, creatinina, SDMA | | Hiperadrenocorticismo (Cushing) | Teste de supressão com dexametasona, ACTH estimulation test | | Hipoadrenocorticismo | Sódio, potássio, teste ACTH | | Hipercalcemia | Cálcio sérico | | Pielonefrite | Urinálise + cultura, ultrassonografia renal | | Piometra | Ultrassonografia, hemograma | | Hipopotassemia | Potássio sérico |
O DI é diagnóstico de exclusão — as causas acima são muito mais comuns.
Teste de Privação de Água (Water Deprivation Test)
Propósito: confirmar que o rim não consegue concentrar a urina e diferenciar DI central de DI nefrogênico de polidipsia psicogênica.
Como é feito:
- Pesagem do cão — baseline
- Retirada do acesso à água
- Coleta de urina e pesagem a cada 1-2 horas
- Monitorização do estado de hidratação e peso
- O teste continua até: densidade urinária > 1,025 (resposta normal), ou perda de peso > 5% (parar para evitar desidratação grave), ou densidade urinária plana por 3 medições consecutivas (sem concentração = confirma DI)
Atenção: o teste de privação de água deve ser feito sob supervisão veterinária — um cão com DI verdadeiro pode desidratar rapidamente se o teste for prolongado sem monitorização.
Teste de Resposta à Desmopressina
Após confirmar incapacidade de concentrar a urina:
Administrar desmopressina: 2-4 mcg intranasal (no saco conjuntival) ou 1-2 mcg SC.
Monitorizar a densidade urinária nas 4-8 horas seguintes:
- DI central: densidade sobe para > 1,015 — os rins respondem à desmopressina exógena (porque o problema era só a falta do ADH endógeno)
- DI nefrogênico: densidade não sobe significativamente — os rins não respondem ao ADH mesmo quando dado
- Polidipsia psicogênica: resposta variável mas geralmente parcial
Imagem
RM do cérebro: indicada em DI central para avaliar massa hipofisária/hipotalâmica.
O "bright spot" da neurohipófise (sinal hiperintenso na hipófise posterior em T1) normalmente visível na RM está ausente em cães com DI central — sinal de depleção do ADH armazenado.
Tratamento
DI Central — Desmopressina (DDAVP)
Desmopressina é o análogo sintético do ADH com meia-vida mais longa e sem efeitos vasopressores significativos.
Formas de administração em cães:
Intranasal/Conjuntival:
- Solução 0,01% (10 mcg/mL): 1-4 gotas no saco conjuntival (mucosa da conjuntiva absorve bem) ou narinas
- Frequência: 2x/dia (a cada 12 horas)
- É a via mais prática e econômica no Brasil
Subcutâneo:
- 0,5-2 mcg SC a cada 12-24 horas
- Para casos graves ou intolerância à via nasal
Comprimidos (desmopressina VO):
- Disponíveis em humana (Minirin®) — mas a biodisponibilidade oral em cães é muito menor que em humanos
- Doses maiores necessárias → custo elevado
Monitorização:
- O objetivo é reduzir a poliúria para níveis aceitáveis — não necessariamente normalizar completamente
- Ajustar a dose e frequência conforme a resposta clínica (volume de água ingerida)
- Não restringir o acesso à água — o cão com DI não tratado ou subadequadamente tratado precisa da água para se manter hidratado
Custos e acesso no Brasil: a desmopressina (Minirin® nasal) está disponível em farmácias humanas — o custo pode ser significativo para manutenção crônica.
DI Nefrogênico Congênito
Sem tratamento específico disponível. Manejo:
- Acesso irrestrito à água (essencial)
- Dieta com baixo sódio (reduz a carga osmolar → menos solutos para excretar → menos água necessária)
- Tiazídicos (hidroclorotiazida 2,5-5 mg/kg VO 2x/dia): paradoxalmente reduzem a poliúria ao induzir leve depleção de sódio, que ativa mecanismos compensatórios de retenção de sódio (e água) no néfron proximal
DI Nefrogênico Adquirido
Tratar a causa subjacente:
- Hipercalcemia: tratar a neoplasia, hiperparatireoidismo
- Cushing: trilostano ou mitotano
- Pielonefrite: antibioticoterapia prolongada
A resolução da causa frequentemente leva à resolução do DI nefrogênico.
DI Central por Neoplasia
Se RM confirma massa hipofisária ou hipotalâmica:
- Radioterapia: pode reduzir a massa e melhorar a produção de ADH
- Desmopressina como suporte
Prognóstico
| Tipo | Prognóstico | |---|---| | DI central idiopático | Bom com desmopressina crônica | | DI central por neoplasia | Depende da extensão e tratabilidade da massa | | DI nefrogênico adquirido — causa tratada | Excelente após resolução da causa | | DI nefrogênico congênito | Manejo de vida inteira; qualidade de vida boa com acesso à água |
A complicação mais perigosa do DI: hipernatremia (sódio muito elevado) por desidratação — ocorre quando o acesso à água é restrito ou quando o cão não consegue beber adequadamente (doença grave, cirurgia, anestesia).
Um cão com DI que perde o acesso à água durante uma internação ou cirurgia pode desenvolver hipernatremia grave rapidamente — é essencial informar qualquer profissional que cuide do animal sobre o diagnóstico.
O diabetes insipidus é uma das condições em que o diagnóstico correto faz toda a diferença: identificado e tratado, o cão tem excelente qualidade de vida com desmopressina. Confundido com doença renal ou simplesmente deixado sem diagnóstico, o cão vive com sede constante e micção excessiva indefinidamente.
Perguntas frequentes
O que é diabetes insipidus em cachorro? É o mesmo que diabetes?+
Não — são condições completamente diferentes apesar do nome. O diabetes mellitus (o 'diabetes' popular) envolve deficiência de insulina → hiperglicemia (açúcar alto no sangue) → glicose na urina que arrasta água, causando poliúria. O diabetes insipidus envolve deficiência ou resistência ao ADH (hormônio antidiurético, também chamado vasopressina) → os rins não conseguem concentrar a urina → urina muito diluída em grandes volumes. O 'insipidus' (do latim 'sem sabor') refere-se à urina sem sabor — historicamente diferenciado do diabetes mellitus ('com sabor' — a glicosúria tornava a urina adocicada). Existem dois tipos de diabetes insipidus: DI central — deficiência de produção de ADH pela neurohipófise (hipófise posterior); DI nefrogênico — produção normal de ADH mas os rins não respondem ao hormônio. Ambos causam polidipsia (sede excessiva) e poliúria (urina em grande volume muito diluída).
Quais são os sinais de diabetes insipidus em cachorro?+
Os sinais são dominados por dois sintomas: polidipsia (beber água em quantidade anormal) e poliúria (urinar muito e com frequência). Polidipsia: o cão bebe litros de água por dia — tutores descrevem que 'a vasilha de água esvazia em horas', 'o cachorro vai à vasilha constantemente'; a ingestão de água pode ser 3-10x a quantidade normal (> 100 mL/kg/dia em casos graves). Poliúria: micção frequente, volume por micção elevado, urina muito clara (quase transparente, sem cor) — densidade urinária muito baixa (< 1,006 em vez do normal de 1,020-1,045); acidentes dentro de casa (incontinência funcional — o cão não consegue segurar pela quantidade produzida). O cão está alerta, com boa condição geral — diferente de doenças crônicas como insuficiência renal que apresentam apatia e perda de peso. O diabetes insipidus 'puro' não causa perda de peso, glicosúria ou hiperglicemia — o exame de sangue pode ser normal ou mostrar apenas urina diluída nos exames básicos.
Como é feito o diagnóstico de diabetes insipidus em cachorro?+
O diagnóstico envolve etapas sequenciais. Passo 1 — Confirmar poliúria-polidipsia (PU/PD): medir a ingestão de água de 24 horas (> 100 mL/kg/dia é anormal); densidade urinária na amostra de manhã (em jejum hídrico) < 1,006 sugere DI ou polidipsia psicogênica. Passo 2 — Excluir causas comuns de PU/PD: exames de sangue (glicemia, ureia, creatinina, cálcio, cortisol) e urina (glicosúria, sedimento); excluir diabetes mellitus, insuficiência renal, hipoadrenocorticismo, hipercalcemia, pielonefrite, piometra, hiperadrenocorticismo — são as causas mais frequentes de PU/PD e são mais comuns que o DI. Passo 3 — Teste de privação de água (Water Deprivation Test): confirma incapacidade de concentrar urina e diferencia DI central de nefrogênico de polidipsia psicogênica; realizado sob supervisão veterinária com monitorização do peso e estado de hidratação. Passo 4 — Teste de resposta à desmopressina: DDAVP intranasal ou SC → se a densidade urinária sobe para > 1,015: DI central confirmado; se não há resposta: DI nefrogênico.
Como tratar diabetes insipidus em cachorro?+
O tratamento depende do tipo. DI central (deficiência de ADH): desmopressina (DDAVP) — análogo sintético do ADH. Administrada por via nasal (1-4 gotas no saco conjuntival ou narinas, 2x/dia) ou por via oral (comprimidos, mas menos absorção nos cães); reduz a poliúria em 50-90% dos casos; necessária por toda a vida; o animal deve ter acesso irrestrito à água — a restrição hídrica sem desmopressina pode causar desidratação grave. DI nefrogênico adquirido (mais comum que o idiopático): tratar a causa subjacente — hipercalcemia, hiperadrenocorticismo, pielonefrite; tiazídicos (hidroclorotiazida 2,5-5 mg/kg VO 2x/dia) reduzem o débito urinário paradoxalmente nos casos nefrogênicos. DI nefrogênico congênito (raro): sem tratamento curativo; tiazídicos e dieta com baixo sódio e proteínas para reduzir a carga osmolar. DI central por neoplasia hipofisária: dependendo da extensão, radioterapia pode ser considerada.
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