Saúde

Dermatofitose em Cachorro: Micose da Pele (Tinea/Ringworm)

Dermatofitose (vulgo 'ringworm' ou micose) é a infecção fúngica mais frequente da pele em cães. Microsporum canis é o agente mais comum. Alopecia circular com escamas é o sinal típico. Zoonose — transmissível para humanos. Antifúngicos tópicos e sistêmicos são eficazes.

27 de maio de 2026·7 min de leitura

A dermatofitose — popularmente chamada "micose" ou, no jargão inglês, "ringworm" — é uma das infecções dermatológicas mais comuns e mais mal diagnosticadas em veterinária de pequenos animais. Mal diagnosticada porque a apresentação é variável, porque cães portadores assintomáticos existem, e porque a lesão "em anel" clássica frequentemente não aparece da forma textbook nos cães.

Mas há uma razão urgente para diagnosticar e tratar corretamente: é zoonose — e crianças em contato com cão com dermatofitose ativa têm risco real de contrair a micose.

Os Dermatófitos

Os dermatófitos são fungos filamentosos queratinofílicos — utilizam a queratina (proteína estrutural do pelo, pele e unhas) como substrato. São classificados em três grupos segundo o reservatório ecológico:

Zoofílicos (reservatório animal):

  • Microsporum canis — o mais importante em cães e gatos; reservatório principal é o gato (especialmente raças exóticas de pelos comprimidos: Persa, Himalaio, Exótico Shorthair); transmissão cão-gato e animal-humano
  • Trichophyton mentagrophytes var. mentagrophytes — roedores (hamster, rato, porquinho-da-índia) são reservatórios; menos comum em cães

Geofílicos (reservatório solo):

  • Microsporum gypseum — em cães que escavam e têm contato com solo; lesões frequentemente no focinho e patas
  • Trichophyton terrestre

Antropofílicos (reservatório humano):

  • Trichophyton rubrum, T. tonsurans — causam tinea pedis, tinea unguium em humanos; raramente infectam cães

Fatores de Risco

Imunossupressão: cão com hiperadrenocorticismo, em tratamento com corticosteroides ou imunossupressores, ou com doenças imunomediadas têm risco aumentado de dermatofitose.

Filhotes: sistema imunológico imaturo — mais suscetíveis.

Raças de pelo comprido e denso: dificulta a penetração de antifúngicos tópicos e favorece a manutenção de esporos.

Contato com gatos: M. canis tem reservatório felino — gato portador assintomático pode infectar cão repetidamente. Em caso de recidivas de dermatofitose no cão, investigar o gato da casa.

Ambiente fechado e úmido: esporos de dermatófitos sobrevivem meses a mais de 1 ano no ambiente — carpetes, sofás, escovas, camas.

Formas Clínicas

Dermatofitose Localizada (Mais Comum)

  • Alopecia circular: 1-5 focos de perda de pelo, formato circular a irregular
  • Localização preferencial: face (foção, ao redor dos olhos), orelhas, patas, membros anteriores
  • Pelo nas bordas: quebradiço, parte com facilidade ao toque
  • Escamas: cinzas ou brancas na superfície da pele nas áreas alopécicas
  • Pele: levemente eritematosa ou de aparência normal
  • Prurido: leve a ausente (contraste com sarna sarcoptica, que é intensa)

Dermatofitose Multifocal

Múltiplas lesões em diferentes regiões do corpo — sugere disseminação por autoinoculação (lambedura) ou menor resistência imunológica.

Dermatofitose Generalizada

Em filhotes ou imunodeprimidos: lesões extensas cobrindo grande área do corpo. Frequentemente associada a imunodeficiência subjacente.

Sicose Fúngica (Kerion)

Forma inflamatória nodular — nódulo ou placa eritematosa, com pústulas e crostas, frequentemente no focinho. Reação inflamatória intensa. Pode ser confundido com piodermite.

Onicose Fúngica

Infecção das unhas — unhas quebradiças, deformadas, com descamação ao redor do leito ungueal. Difícil de tratar — requer tratamento sistêmico prolongado.

Portadores Assintomáticos

Cães (e gatos) podem ser portadores de M. canis sem lesões visíveis — especialmente gatos de pelo comprido. São fonte de contaminação ambiental e de outros animais/humanos.

A cultura fúngica de pelo (escovação da pelagem com escovas estéreis e cultivo em DTM) identifica portadores.

Diagnóstico

Lâmpada de Wood

Triagem rápida, não confirmatória.

M. canis (apenas esse espécie) fluoresce com luz UV de 365 nm (lâmpada de Wood) — coloração verde-maçã nas hifas no pelo infectado.

Sensibilidade: 50-70% (metade dos casos positivos não fluoresce).

Especificidade: moderada — outros materiais (restos de sabão, escamas epidérmicas, algumas bactérias) podem fluoresc falsamente.

Uso correto: iluminar o pelo em sala escura; positivo é fluorescência verde-brilhante nas hastes dos pelos, não na pele.

Exame Microscópico Direto

Pelos arrancados (das bordas da lesão) + KOH 10-20% em lâmina → aquecimento → observação ao microscópio.

Positivo: hifas artroconídios (esporos) em torno da haste do pelo — aparência de "mosaico" ao redor do pelo.

Limitação: requer experiência do observador — falsos negativos comuns.

Cultura Fúngica — Diagnóstico Definitivo

DTM (Dermatophyte Test Medium): meio seletivo com indicador de pH.

  • Dermatófitos: colônia branca + mudança do meio de amarelo para vermelho (alcalinização por metabólitos) em 7-14 dias
  • Contaminantes saprófitas: podem crescer mas não mudam a cor (ou mudam depois)

Identificação da espécie: morfologia macroscópica e microscópica das colônias (macro e microconídios).

Exame de triagem de portadores: toothbrush technique — escovar toda a pelagem com escova de dentes esterilizada por 1-2 minutos e cultivar a escova no DTM.

Biópsia de Pele

Para casos atípicos ou refratários — histopatologia com coloração PAS (ácido periódico de Schiff) identifica estruturas fúngicas no pelo e folículo.

Tratamento

Princípio Fundamental: Tópico + Sistêmico

Antifúngico tópico isolado não é suficiente para casos estabelecidos — esporos e hifas penetram nos folículos pilosos abaixo da superfície da pele, inacessíveis ao tópico.

Antifúngico sistêmico isolado pode ser eficaz, mas mais lento.

Combinação: reduz o tempo de tratamento e a contaminação ambiental.

Terapia Tópica

Shampoo de miconazol 2% + clorhexidina 2% (ou enilconazol 0,2%):

  • Frequência: 2-3x/semana em todo o corpo (não apenas nas lesões — esporos estão por toda a pelagem)
  • Técnica: molhar completamente a pelagem, aplicar shampoo, deixar em contato por 5-10 minutos, enxaguar completamente
  • Duração: até 2-4 semanas após resolução clínica e cultura negativa

Loção tópica (miconazol, clotrimazol, terbinafina): aplicar nas lesões visíveis 2x/dia — adjuvante ao shampoo corporal.

Tricotomia (raspar o pelo): controversa — pode distribuir esporos pelo ambiente; em casos graves ou de pelo muito longo, pode facilitar o contato do antifúngico com a pele.

Terapia Sistêmica

Itraconazol — Primeira escolha:

  • Dose: 5 mg/kg/dia VO — com alimento (melhora a absorção)
  • Protocolo alternativo: 5 mg/kg/dia por 1 semana, depois 1 semana de intervalo (protocolo pulso) — mesma eficácia, menos custo
  • Duração: 6-8 semanas mínimo; continuar até cultura negativa
  • Efeitos colaterais: hepatotoxicidade rara; monitorar ALT se tratamento longo

Fluconazol:

  • Dose: 5-10 mg/kg/dia VO
  • Alternativa ao itraconazol; menos lipofílico, menor penetração nos folículos

Terbinafina:

  • Dose: 30-40 mg/kg/dia VO
  • Boa atividade contra M. canis; opção válida

Griseofulvina (histórico):

  • Fungistático; mais efeitos colaterais (mielossupressão, teratogênico — contraindicado em gestantes); supersedado pelo itraconazol na maioria dos casos

Descontaminação Ambiental

Fundamental para evitar reinfecção:

  • Vacuumar carpetes, sofás, camas do cão — esporos aderem às fibras; descartar o saco do aspirador imediatamente
  • Hipoclorito de sódio 1:10 (água sanitária) — mata esporos em superfícies não porosas (azulejos, plástico); não usar em superfícies que possam deteriorar
  • Lavagem a quente (> 60°C) de roupas de cama, coleiras de tecido, brinquedos laváveis
  • Escovas e pentes: descartar ou desinfectar com hipoclorito; esporos aderem bem às cerdas

Monitoramento da Cura

Cultura fúngica seriada:

  • Primeira cultura de controle: 4 semanas após início do tratamento
  • Cura: 2 culturas negativas consecutivas com intervalo de 2 semanas

NÃO interromper o tratamento pela melhora clínica — lesões podem parecer curadas clinicamente enquanto esporos viáveis ainda existem na pelagem.

Zoonose — Medidas de Proteção

Durante o tratamento do cão:

  • Luvas ao manipular o cão e ao aplicar antifúngicos
  • Lavar mãos após contato
  • Não deixar o cão compartilhar cama ou sofá com pessoas do grupo de risco (crianças < 12 anos, imunodeprimidos, gestantes)
  • Examinar a pele de todas as pessoas da casa — qualquer lesão circular em humano = dermatologista imediatamente

Tratamento do humano infectado:

  • Tópico: clotrimazol, miconazol, terbinafina creme 2x/dia por 2-4 semanas
  • Sistêmico (tinea capitis ou tinea extensa): itraconazol ou terbinafina oral (conforme prescrição médica)

Prognóstico

Com tratamento adequado e descontaminação ambiental: cura em 6-10 semanas na maioria dos casos.

Recidivas são comuns quando:

  • Tratamento interrompido precocemente
  • Descontaminação ambiental inadequada
  • Gato portador assintomático não tratado
  • Imunossupressão subjacente não controlada

Portadores gatos: o gato da casa deve ser examinado (cultura) e tratado se positivo. A dermatofitose do cão com recidiva frequente praticamente sempre tem um gato portador como fonte de reinfecção.

Perguntas frequentes

O que é dermatofitose em cachorro?+

Dermatofitose é a infecção fúngica da pele, pelos e unhas causada por dermatófitos — fungos queratinofílicos que utilizam a queratina do pelo, da pele e das unhas como substrato nutritivo. O nome popular em inglês, 'ringworm', é um equívoco histórico — não há verme, é um fungo. No Brasil, o termo comum é 'micose'. Os principais agentes em cães: Microsporum canis (mais comum — ~70% dos casos; reservatório felino importante), Trichophyton mentagrophytes e Microsporum gypseum (de origem telúrica/solo). A lesão clássica é a alopecia (queda de pelo) em padrão circular ou irregular, com escamas, crostas e inflamação variável. É zoonose importante — humanos, especialmente crianças e imunodeprimidos, podem contrair dermatofitose de cães infectados.

Como identificar dermatofitose em cachorro?+

O sinal mais característico: áreas de alopecia (perda de pelo) com bordas bem delimitadas, frequentemente circulares ou irregulares, com escamas cinzas/brancas na superfície. O pelo nas bordas da lesão está quebradiço — se puxado suavemente, sai com facilidade. A pele pode estar levemente avermelhada ou normal. Prurido: variável — frequentemente ausente ou leve (diferente da sarna, que é muito pruriginosa). Em cães de pelo comprido, a lesão pode ser menos óbvia — focos de pelo quebradiço e escamas distribuídos de forma irregular. Lesões frequentes: face, orelhas, patas e membros. Dermatofitose generalizada: filhotes, idosos ou imunodeprimidos podem ter lesões extensas. Unhas: onicose fúngica — unhas quebradiças, deformadas, com descamação. Portadores assintomáticos: gatos (especialmente Persa e raças exóticas) podem ser portadores de M. canis sem lesões visíveis e transmitir para cães e humanos do domicílio.

Dermatofitose em cachorro passa para humanos?+

Sim — é zoonose. A dermatofitose é uma das principais doenças transmissíveis de animais de estimação para humanos (especialmente crianças). No humano, M. canis e T. mentagrophytes de origem animal causam: tinea corporis (corpo) — lesão circular, avermelhada, com bordas elevadas e centro mais claro; tinea capitis (couro cabeludo) — alopecia com escamas em crianças; tinea barbae (barba em adultos). Grupos de maior risco: crianças (pela maior frequência de contato com animais e imaturidade imunológica), idosos, imunodeprimidos (HIV, quimioterapia, corticoterapia crônica). Medidas de proteção: luvas ao manipular cão com suspeita; higiene das mãos após contato; não compartilhar cama com cão em tratamento; higienizar ambiente e objetos do cão (escovas, camas).

Como tratar dermatofitose em cachorro?+

Tratamento combinado tópico + sistêmico é mais eficaz que cada um isoladamente. Antifúngico tópico: shampoo de miconazol 2% + clorhexidina 2%, aplicado 2x/semana em todo o corpo (não apenas nas lesões visíveis — sporos microscópicos cobrem a pelagem toda); enxaguar após 10 minutos de contato; continuar por 2-4 semanas após resolução clínica. Antifúngico sistêmico: itraconazol 5 mg/kg/dia VO por 6-8 semanas (mais eficaz e menos hepatotóxico que cetoconazol); fluconazol 5-10 mg/kg/dia como alternativa; griseofulvina (muito usada historicamente, mas mais efeitos colaterais); terbinafina 30-40 mg/kg/dia. Descontaminação ambiental: vacuumar e desinfectar o ambiente (hipoclorito de sódio 1:10 dilutido mata esporos em superfícies não porosas); lavar roupas de cama e acessórios. Cultura fúngica: confirma a cura (cultura negativa em 2 amostras consecutivas com intervalo de 2 semanas). Não interromper o tratamento antes da cultura negativa — recidivas são frequentes em tratamentos curtos.