Dermatofitose em Cachorro: Micose da Pele (Tinea/Ringworm)
Dermatofitose (vulgo 'ringworm' ou micose) é a infecção fúngica mais frequente da pele em cães. Microsporum canis é o agente mais comum. Alopecia circular com escamas é o sinal típico. Zoonose — transmissível para humanos. Antifúngicos tópicos e sistêmicos são eficazes.
A dermatofitose — popularmente chamada "micose" ou, no jargão inglês, "ringworm" — é uma das infecções dermatológicas mais comuns e mais mal diagnosticadas em veterinária de pequenos animais. Mal diagnosticada porque a apresentação é variável, porque cães portadores assintomáticos existem, e porque a lesão "em anel" clássica frequentemente não aparece da forma textbook nos cães.
Mas há uma razão urgente para diagnosticar e tratar corretamente: é zoonose — e crianças em contato com cão com dermatofitose ativa têm risco real de contrair a micose.
Os Dermatófitos
Os dermatófitos são fungos filamentosos queratinofílicos — utilizam a queratina (proteína estrutural do pelo, pele e unhas) como substrato. São classificados em três grupos segundo o reservatório ecológico:
Zoofílicos (reservatório animal):
- Microsporum canis — o mais importante em cães e gatos; reservatório principal é o gato (especialmente raças exóticas de pelos comprimidos: Persa, Himalaio, Exótico Shorthair); transmissão cão-gato e animal-humano
- Trichophyton mentagrophytes var. mentagrophytes — roedores (hamster, rato, porquinho-da-índia) são reservatórios; menos comum em cães
Geofílicos (reservatório solo):
- Microsporum gypseum — em cães que escavam e têm contato com solo; lesões frequentemente no focinho e patas
- Trichophyton terrestre
Antropofílicos (reservatório humano):
- Trichophyton rubrum, T. tonsurans — causam tinea pedis, tinea unguium em humanos; raramente infectam cães
Fatores de Risco
Imunossupressão: cão com hiperadrenocorticismo, em tratamento com corticosteroides ou imunossupressores, ou com doenças imunomediadas têm risco aumentado de dermatofitose.
Filhotes: sistema imunológico imaturo — mais suscetíveis.
Raças de pelo comprido e denso: dificulta a penetração de antifúngicos tópicos e favorece a manutenção de esporos.
Contato com gatos: M. canis tem reservatório felino — gato portador assintomático pode infectar cão repetidamente. Em caso de recidivas de dermatofitose no cão, investigar o gato da casa.
Ambiente fechado e úmido: esporos de dermatófitos sobrevivem meses a mais de 1 ano no ambiente — carpetes, sofás, escovas, camas.
Formas Clínicas
Dermatofitose Localizada (Mais Comum)
- Alopecia circular: 1-5 focos de perda de pelo, formato circular a irregular
- Localização preferencial: face (foção, ao redor dos olhos), orelhas, patas, membros anteriores
- Pelo nas bordas: quebradiço, parte com facilidade ao toque
- Escamas: cinzas ou brancas na superfície da pele nas áreas alopécicas
- Pele: levemente eritematosa ou de aparência normal
- Prurido: leve a ausente (contraste com sarna sarcoptica, que é intensa)
Dermatofitose Multifocal
Múltiplas lesões em diferentes regiões do corpo — sugere disseminação por autoinoculação (lambedura) ou menor resistência imunológica.
Dermatofitose Generalizada
Em filhotes ou imunodeprimidos: lesões extensas cobrindo grande área do corpo. Frequentemente associada a imunodeficiência subjacente.
Sicose Fúngica (Kerion)
Forma inflamatória nodular — nódulo ou placa eritematosa, com pústulas e crostas, frequentemente no focinho. Reação inflamatória intensa. Pode ser confundido com piodermite.
Onicose Fúngica
Infecção das unhas — unhas quebradiças, deformadas, com descamação ao redor do leito ungueal. Difícil de tratar — requer tratamento sistêmico prolongado.
Portadores Assintomáticos
Cães (e gatos) podem ser portadores de M. canis sem lesões visíveis — especialmente gatos de pelo comprido. São fonte de contaminação ambiental e de outros animais/humanos.
A cultura fúngica de pelo (escovação da pelagem com escovas estéreis e cultivo em DTM) identifica portadores.
Diagnóstico
Lâmpada de Wood
Triagem rápida, não confirmatória.
M. canis (apenas esse espécie) fluoresce com luz UV de 365 nm (lâmpada de Wood) — coloração verde-maçã nas hifas no pelo infectado.
Sensibilidade: 50-70% (metade dos casos positivos não fluoresce).
Especificidade: moderada — outros materiais (restos de sabão, escamas epidérmicas, algumas bactérias) podem fluoresc falsamente.
Uso correto: iluminar o pelo em sala escura; positivo é fluorescência verde-brilhante nas hastes dos pelos, não na pele.
Exame Microscópico Direto
Pelos arrancados (das bordas da lesão) + KOH 10-20% em lâmina → aquecimento → observação ao microscópio.
Positivo: hifas artroconídios (esporos) em torno da haste do pelo — aparência de "mosaico" ao redor do pelo.
Limitação: requer experiência do observador — falsos negativos comuns.
Cultura Fúngica — Diagnóstico Definitivo
DTM (Dermatophyte Test Medium): meio seletivo com indicador de pH.
- Dermatófitos: colônia branca + mudança do meio de amarelo para vermelho (alcalinização por metabólitos) em 7-14 dias
- Contaminantes saprófitas: podem crescer mas não mudam a cor (ou mudam depois)
Identificação da espécie: morfologia macroscópica e microscópica das colônias (macro e microconídios).
Exame de triagem de portadores: toothbrush technique — escovar toda a pelagem com escova de dentes esterilizada por 1-2 minutos e cultivar a escova no DTM.
Biópsia de Pele
Para casos atípicos ou refratários — histopatologia com coloração PAS (ácido periódico de Schiff) identifica estruturas fúngicas no pelo e folículo.
Tratamento
Princípio Fundamental: Tópico + Sistêmico
Antifúngico tópico isolado não é suficiente para casos estabelecidos — esporos e hifas penetram nos folículos pilosos abaixo da superfície da pele, inacessíveis ao tópico.
Antifúngico sistêmico isolado pode ser eficaz, mas mais lento.
Combinação: reduz o tempo de tratamento e a contaminação ambiental.
Terapia Tópica
Shampoo de miconazol 2% + clorhexidina 2% (ou enilconazol 0,2%):
- Frequência: 2-3x/semana em todo o corpo (não apenas nas lesões — esporos estão por toda a pelagem)
- Técnica: molhar completamente a pelagem, aplicar shampoo, deixar em contato por 5-10 minutos, enxaguar completamente
- Duração: até 2-4 semanas após resolução clínica e cultura negativa
Loção tópica (miconazol, clotrimazol, terbinafina): aplicar nas lesões visíveis 2x/dia — adjuvante ao shampoo corporal.
Tricotomia (raspar o pelo): controversa — pode distribuir esporos pelo ambiente; em casos graves ou de pelo muito longo, pode facilitar o contato do antifúngico com a pele.
Terapia Sistêmica
Itraconazol — Primeira escolha:
- Dose: 5 mg/kg/dia VO — com alimento (melhora a absorção)
- Protocolo alternativo: 5 mg/kg/dia por 1 semana, depois 1 semana de intervalo (protocolo pulso) — mesma eficácia, menos custo
- Duração: 6-8 semanas mínimo; continuar até cultura negativa
- Efeitos colaterais: hepatotoxicidade rara; monitorar ALT se tratamento longo
Fluconazol:
- Dose: 5-10 mg/kg/dia VO
- Alternativa ao itraconazol; menos lipofílico, menor penetração nos folículos
Terbinafina:
- Dose: 30-40 mg/kg/dia VO
- Boa atividade contra M. canis; opção válida
Griseofulvina (histórico):
- Fungistático; mais efeitos colaterais (mielossupressão, teratogênico — contraindicado em gestantes); supersedado pelo itraconazol na maioria dos casos
Descontaminação Ambiental
Fundamental para evitar reinfecção:
- Vacuumar carpetes, sofás, camas do cão — esporos aderem às fibras; descartar o saco do aspirador imediatamente
- Hipoclorito de sódio 1:10 (água sanitária) — mata esporos em superfícies não porosas (azulejos, plástico); não usar em superfícies que possam deteriorar
- Lavagem a quente (> 60°C) de roupas de cama, coleiras de tecido, brinquedos laváveis
- Escovas e pentes: descartar ou desinfectar com hipoclorito; esporos aderem bem às cerdas
Monitoramento da Cura
Cultura fúngica seriada:
- Primeira cultura de controle: 4 semanas após início do tratamento
- Cura: 2 culturas negativas consecutivas com intervalo de 2 semanas
NÃO interromper o tratamento pela melhora clínica — lesões podem parecer curadas clinicamente enquanto esporos viáveis ainda existem na pelagem.
Zoonose — Medidas de Proteção
Durante o tratamento do cão:
- Luvas ao manipular o cão e ao aplicar antifúngicos
- Lavar mãos após contato
- Não deixar o cão compartilhar cama ou sofá com pessoas do grupo de risco (crianças < 12 anos, imunodeprimidos, gestantes)
- Examinar a pele de todas as pessoas da casa — qualquer lesão circular em humano = dermatologista imediatamente
Tratamento do humano infectado:
- Tópico: clotrimazol, miconazol, terbinafina creme 2x/dia por 2-4 semanas
- Sistêmico (tinea capitis ou tinea extensa): itraconazol ou terbinafina oral (conforme prescrição médica)
Prognóstico
Com tratamento adequado e descontaminação ambiental: cura em 6-10 semanas na maioria dos casos.
Recidivas são comuns quando:
- Tratamento interrompido precocemente
- Descontaminação ambiental inadequada
- Gato portador assintomático não tratado
- Imunossupressão subjacente não controlada
Portadores gatos: o gato da casa deve ser examinado (cultura) e tratado se positivo. A dermatofitose do cão com recidiva frequente praticamente sempre tem um gato portador como fonte de reinfecção.
Perguntas frequentes
O que é dermatofitose em cachorro?+
Dermatofitose é a infecção fúngica da pele, pelos e unhas causada por dermatófitos — fungos queratinofílicos que utilizam a queratina do pelo, da pele e das unhas como substrato nutritivo. O nome popular em inglês, 'ringworm', é um equívoco histórico — não há verme, é um fungo. No Brasil, o termo comum é 'micose'. Os principais agentes em cães: Microsporum canis (mais comum — ~70% dos casos; reservatório felino importante), Trichophyton mentagrophytes e Microsporum gypseum (de origem telúrica/solo). A lesão clássica é a alopecia (queda de pelo) em padrão circular ou irregular, com escamas, crostas e inflamação variável. É zoonose importante — humanos, especialmente crianças e imunodeprimidos, podem contrair dermatofitose de cães infectados.
Como identificar dermatofitose em cachorro?+
O sinal mais característico: áreas de alopecia (perda de pelo) com bordas bem delimitadas, frequentemente circulares ou irregulares, com escamas cinzas/brancas na superfície. O pelo nas bordas da lesão está quebradiço — se puxado suavemente, sai com facilidade. A pele pode estar levemente avermelhada ou normal. Prurido: variável — frequentemente ausente ou leve (diferente da sarna, que é muito pruriginosa). Em cães de pelo comprido, a lesão pode ser menos óbvia — focos de pelo quebradiço e escamas distribuídos de forma irregular. Lesões frequentes: face, orelhas, patas e membros. Dermatofitose generalizada: filhotes, idosos ou imunodeprimidos podem ter lesões extensas. Unhas: onicose fúngica — unhas quebradiças, deformadas, com descamação. Portadores assintomáticos: gatos (especialmente Persa e raças exóticas) podem ser portadores de M. canis sem lesões visíveis e transmitir para cães e humanos do domicílio.
Dermatofitose em cachorro passa para humanos?+
Sim — é zoonose. A dermatofitose é uma das principais doenças transmissíveis de animais de estimação para humanos (especialmente crianças). No humano, M. canis e T. mentagrophytes de origem animal causam: tinea corporis (corpo) — lesão circular, avermelhada, com bordas elevadas e centro mais claro; tinea capitis (couro cabeludo) — alopecia com escamas em crianças; tinea barbae (barba em adultos). Grupos de maior risco: crianças (pela maior frequência de contato com animais e imaturidade imunológica), idosos, imunodeprimidos (HIV, quimioterapia, corticoterapia crônica). Medidas de proteção: luvas ao manipular cão com suspeita; higiene das mãos após contato; não compartilhar cama com cão em tratamento; higienizar ambiente e objetos do cão (escovas, camas).
Como tratar dermatofitose em cachorro?+
Tratamento combinado tópico + sistêmico é mais eficaz que cada um isoladamente. Antifúngico tópico: shampoo de miconazol 2% + clorhexidina 2%, aplicado 2x/semana em todo o corpo (não apenas nas lesões visíveis — sporos microscópicos cobrem a pelagem toda); enxaguar após 10 minutos de contato; continuar por 2-4 semanas após resolução clínica. Antifúngico sistêmico: itraconazol 5 mg/kg/dia VO por 6-8 semanas (mais eficaz e menos hepatotóxico que cetoconazol); fluconazol 5-10 mg/kg/dia como alternativa; griseofulvina (muito usada historicamente, mas mais efeitos colaterais); terbinafina 30-40 mg/kg/dia. Descontaminação ambiental: vacuumar e desinfectar o ambiente (hipoclorito de sódio 1:10 dilutido mata esporos em superfícies não porosas); lavar roupas de cama e acessórios. Cultura fúngica: confirma a cura (cultura negativa em 2 amostras consecutivas com intervalo de 2 semanas). Não interromper o tratamento antes da cultura negativa — recidivas são frequentes em tratamentos curtos.
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