Demodicose em Cachorro (Sarna Demodécica): Sintomas e Tratamento
Demodicose é a sarna causada pelo ácaro Demodex — vive normalmente na pele mas causa doença quando o sistema imune falha. Manchas sem pelo no filhote são o sinal mais comum. Tratamento eficaz com isoxazolinas.
A demodicose — popularmente chamada de "sarna demodécica" — é causada pelo ácaro Demodex canis, um habitante normal da pele canina. Pequenas quantidades desse ácaro vivem nos folículos pilosos de praticamente todos os cães saudáveis, sem causar problemas. A doença ocorre quando o sistema imune falha em manter a população de ácaros sob controle.
Diferente da sarna sarcóptica (causada por Sarcoptes scabiei, altamente contagiosa e zoonótica), a demodicose não é contagiosa para humanos nem para outros cães adultos saudáveis.
O ácaro Demodex canis
Demodex canis é um ácaro microscópico (0,25 mm de comprimento) — só visível ao microscópio. Vive dentro dos folículos pilosos e glândulas sebáceas, alimentando-se de secreções sebáceas e células epiteliais.
A transmissão de D. canis ocorre da mãe para os filhotes nas primeiras horas de vida, por contato físico durante a amamentação — é quando os ácaros se estabelecem nos folículos. Filhotes criados em isolamento desde o nascimento são livres de Demodex.
Por que só cães com imunodeficiência desenvolvem demodicose? Em cães com imunidade celular íntegra, os linfócitos T suprimem ativamente a multiplicação excessiva dos ácaros. Quando essa supressão falha — imaturo nos filhotes, comprometido em adultos — os ácaros se multiplicam sem controle.
Formas clínicas
Demodicose Localizada
- 2-6 manchas de alopecia focal, com diâmetro < 2,5 cm
- Locais frequentes: focinho, ao redor dos olhos, patas
- Frequentemente sem prurido ou com prurido leve
- Pele pode apresentar descamação, foliculite leve
- Resolução espontânea em 6-8 semanas em 90% dos casos em filhotes jovens
Demodicose Generalizada
- Mais de 5 lesões ou área extensa acometida
- Pode envolver corpo inteiro (pododermatite demodécica = patas)
- Infecções bacterianas secundárias frequentes (piodermia profunda) — prurido, pus, crostas
- Linfadenopatia (linfonodos aumentados) em casos graves
- Pode haver sinais sistêmicos em casos muito graves
Por idade de início
Demodicose Juvenil (< 18 meses): relacionada à imaturidade imunológica. A maioria resolve com tratamento — prognóstico bom.
Demodicose Adulta (> 4 anos, sem histórico prévio): sempre investigar causa imunossupressora. Doenças que causam demodicose adulta: hiperadrenocorticismo (Cushing), hipotireoidismo, neoplasia, uso de corticosteroides, leishmaniose. Tratar a causa de base é fundamental.
Diagnóstico
Raspado de pele
Exame principal. O veterinário realiza raspado profundo da pele até obter pequena quantidade de sangue (garantindo que os folículos sejam alcançados) e examina ao microscópio.
O que procura: ácaros Demodex em todas as fases de vida (ovos, larvas, ninfas, adultos). Encontrar principalmente formas imaturas (larvas/ninfas) indica multiplicação ativa — colônia em expansão.
Densidades:
- Alguns ácaros em pele normal: sem significado
- Muitos ácaros com formas jovens predominantes: demodicose ativa
Tricograma
Exame de pelos arrancados da lesão — pode visualizar ácaros no folículo ao microscópio. Menos invasivo que o raspado, mas menos sensível.
Biópsia de pele
Em casos resistentes ou atípicos — histopatologia confirma e avalia o grau de inflamação folicular.
Tratamento
Isoxazolinas — tratamento de primeira linha atual
As isoxazolinas (inibidoras de canais de cloreto glutamato-gated e GABA-gated em invertebrados) revolucionaram o tratamento da demodicose. São os antiparasitários sistêmicos orais mais eficazes disponíveis.
Afoxolaner (NexGard): administração mensal. Estudos mostram >95% de eficácia na demodicose generalizada após 2-4 doses.
Fluralaner (Bravecto): administração trimestral (12 semanas). Eficácia similar ao afoxolaner.
Sarolaner (Simparic): administração mensal.
Lotilaner (Credelio): administração mensal.
Duração do tratamento: continuar até 2 raspados negativos com intervalo de 4 semanas. Geralmente 3-6 meses de tratamento total.
Aviso em raças MDR1: raças com mutação MDR1/ABCB1 (Collie, Shetland Sheepdog, Australian Shepherd, etc.) têm maior sensibilidade a alguns antiparasitários. Isoxazolinas em doses terapêuticas são geralmente seguras, mas confirmar com veterinário especialista.
Amitraz (tópico) — segundo linha
Acaricida antigo, ainda eficaz mas com protocolo mais trabalhoso:
- Imersões do cão em solução de amitraz (0,025-0,05%) a cada 1-2 semanas
- Uso em ambiente bem ventilado — tóxico para humanos e gatos
- Efeitos adversos no cão: sedação, hipotermia, hipoglicemia
- Creme de amitraz (Ectodex) aplicado localmente em lesões limitadas
Com a disponibilidade das isoxazolinas, o amitraz ficou como segunda linha.
Ivermectina — protocolo antigo
Administração oral diária em dose crescente — eficaz mas protocolo longo e contraindicado em raças MDR1. Amplamente substituído pelas isoxazolinas.
Tratamento das infecções secundárias
A piodermia bacteriana secundária (comum na demodicose generalizada) exige tratamento antibiótico concomitante:
- Antibiótico sistêmico: amoxicilina-clavulanato, cefalexina ou fluoroquinolona
- Shampoo antisséptico: clorexidina 3-4% (2-3x/semana)
- Duração: até resolução clínica das lesões infectadas
Cuidados adicionais
Controle do prurido: se prurido intenso por infecção secundária, anti-inflamatório pode ser considerado. Corticosteroide deve ser evitado — imunossuprime e piora a demodicose.
Nutrição: garantir dieta de qualidade — cão desnutrido tem pior resposta imune.
Eliminar causas imunossupressoras em adultos: se possível, suspender corticosteroide ou tratar a doença de base (Cushing, hipotireoidismo).
Monitoramento
Raspado de pele a cada 4-6 semanas para avaliar a resposta:
- Redução de ácaros: boa resposta — manter tratamento
- Ausência de ácaros: continuar por mais 4 semanas (confirmação) — dois negativos consecutivos indicam cura
- Sem melhora: avaliar resistência ou causa imunossupressora subjacente não diagnosticada
Prevenção
Reprodução: cães com demodicose generalizada severa (especialmente aqueles que não respondem bem ao tratamento) não devem ser usados para reprodução — existe componente hereditário na susceptibilidade.
Corticosteroides: evitar uso desnecessário — especialmente em filhotes com histórico de demodicose.
Perguntas frequentes
O que é demodicose em cachorro?+
Demodicose (ou sarna demodécica) é doença de pele causada pela proliferação excessiva de ácaros Demodex canis, que normalmente vivem em pequenas quantidades nos folículos pilosos de cães saudáveis — são considerados parte da fauna normal da pele. Quando o sistema imune falha (imaturo em filhotes, suprimido em adultos), os ácaros se multiplicam sem controle, causando inflamação dos folículos, alopecia (perda de pelo) e secundariamente infecções bacterianas. Não é contagiosa para humanos (o Demodex canino é espécie-específico) nem para outros cães adultos saudáveis.
Demodicose de filhote tem cura?+
Sim — a forma localizada em filhotes jovens frequentemente resolve espontaneamente em 6-8 semanas, à medida que o sistema imune matura. Mesmo a forma generalizada em filhotes tem taxa de cura alta com tratamento adequado. O tratamento moderno com isoxazolinas (afoxolaner/Nexgard, fluralaner/Bravecto, sarolaner/Simparic) tem eficácia superior a 95% em estudos clínicos — simplificou enormemente o tratamento que antes exigia imersões em amitraz. Demodicose em adulto (início súbito acima de 4 anos) tem prognóstico mais reservado porque frequentemente há doença imunossupressora subjacente.
Demodicose passa para humano?+
Não — o Demodex canis é espécie-específico de cães. Humanos têm suas próprias espécies de Demodex (D. folliculorum e D. brevis) que vivem normalmente nos folículos da face — sem causar doença na maioria das pessoas. Os dois Demodex de humanos não se reproduzem em cães, e o D. canis não se reproduz em humanos. A demodicose canina não é zoonose — você não pode pegar do seu cão.
Manchas sem pelo no filhote — é sempre demodicose?+
Não necessariamente — diagnóstico diferencial importante. Manchas de alopecia focal em filhotes: demodicose (mais comum), tinha/dermatofitose (fungo), piodermia superficial (infecção bacteriana), trauma/fricção, alopecia por tração. A diferenciação requer raspado de pele pelo veterinário (confirma Demodex ao microscópio) ou cultura fúngica (para excluir tinha). Em filhote jovem com 1-3 manchas pequenas sem sintomas sistêmicos, a probabilidade de demodicose localizada é alta — mas o veterinário deve confirmar.
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