Cistite em Cachorro: Infecção Urinária — Causas, Sintomas e Tratamento
Cistite é a inflamação da bexiga em cães — a forma mais comum é a infecção bacteriana (ITU). Sinais: urina frequente, sangue na urina, lambedura da genitália. Fêmeas são mais afetadas. Tratamento com antibiótico específico por cultura e antibiograma.
A cistite — inflamação da bexiga — é uma das condições urológicas mais frequentes em cães, especialmente em fêmeas. A forma bacteriana é a mais comum, mas não é a única: urólitos (cálculos), tumores de bexiga e causas idiopáticas também se manifestam com os mesmos sinais de pollaquiúria, hematúria e disúria.
A distinção entre as causas é fundamental — tratar cistite bacteriana sem cultura e antibiograma é cada vez mais problemático em um contexto de resistência bacteriana crescente.
Tipos de Cistite
Infecciosa — ITU Bacteriana
A mais comum. Bactérias ascendem pela uretra e colonizam a mucosa da bexiga.
Agentes mais frequentes:
- Escherichia coli: 40-50% dos casos — a mais prevalente
- Staphylococcus spp.: 15-20%
- Proteus mirabilis: 10-15% — produz urease, alcaliniza a urina, favorece estruvita
- Klebsiella pneumoniae, Pseudomonas aeruginosa, Enterococcus: em menor proporção
Fatores predisponentes:
- Sexo feminino: uretra curta e larga facilita ascensão bacteriana
- Fêmeas idosas com esfíncter uretral hipotônico
- Doença de Cushing (hiperadrenocorticismo): imunocompressão relativa + urina diluída favorece crescimento bacteriano
- Diabetes mellitus: glicosúria favorece proliferação bacteriana
- Urólitos: os cálculos lesam a mucosa vesical e criam nicho para biofilme bacteriano
- Incontinência urinária: urina estagnada favorece infecção
- Cateterização urinária prévia (ITU nosocomial)
Cistite Estéril (Não Bacteriana)
Urólitos: cálculos de estruvita, oxalato de cálcio, urato, cistina irritam a mucosa e causam sinais de cistite sem infecção bacteriana primária (embora a infecção possa ser secundária).
Tumor de bexiga: o carcinoma de células de transição (CCT) — principal tumor de bexiga canino — frequentemente se apresenta como cistite refratária. Raças predispostas: Beagle, Scottish Terrier, Shetland Sheepdog, West Highland White Terrier.
Cistite por polipose ou pólipo: menos comum, pode causar hematúria significativa.
Cistite idiopática: causa não identificada — menos descrita em cães que em gatos.
Sinais Clínicos
Pollaquiúria: micções muito frequentes — o cão pede para sair muitas vezes, urina pouco em cada vez. Em casa: pode urinar em locais inadequados por urgência.
Hematúria: urina avermelhada ou rósea — mais visível ao final da micção (hematúria terminal), sugerindo origem vesical. Hematúria a partir do início da micção sugere fonte renal ou uretral.
Disúria: dificuldade ou dor ao urinar — o cão faz força, posiciona-se para urinar mas elimina pouco, pode gemer.
Lambedura da genitália: cão frequentemente lambe o prepúcio ou a vulva.
Urina com odor forte: cheiro amoniacal marcante — por crescimento bacteriano.
Febre, letargia, inapetência: sinais de infecção ascendente (pielonefrite) ou sepse — atenção especial a esses sinais, indicam maior gravidade.
Atenção: cão que tenta urinar repetidamente sem conseguir + agitação + abdome distendido = obstrução urinária — emergência. Diferente de cistite (o cão urina, mesmo que pouco).
Diagnóstico
Urinálise (Exame de Urina)
Primeiro exame. Inclui:
Análise física:
- Cor: amarelo a âmbar normal; avermelhado (hematúria), turvo (piúria)
- Turbidez: urina turva sugere piúria (pus) ou bacteriúria
- Odor: amoniacal forte em ITU
Análise química (dipstick):
- pH: urina ácida (< 6,5) em cães normais; alcalina (> 7,0) em infecção por Proteus (produtor de urease)
- Proteínas: podem estar elevadas por hematúria ou infecção
- Glicose: positiva em diabetes
- Leucócitos, nitritos: indicativos de ITU (menos sensíveis em cães que em humanos)
Análise microscópica do sedimento:
- Leucócitos (piúria): > 5 leucócitos/campo de alto poder em amostra por cistocentese é anormal
- Eritrócitos: hematúria microscópica ou macroscópica
- Bactérias: bastonetes ou cocos em amostra bem preservada
- Cristais: estruvita, oxalato de cálcio — presença indica risco de urólitos
- Células epiteliais atípicas: suspeita de neoplasia (CCT)
Urinocultura e Antibiograma
Padrão ouro para ITU bacteriana.
Coleta de urina:
- Cistocentese (punção percutânea direta da bexiga com agulha): método preferencial — amostra sem contaminação uretral. Realizado com ultrassom guiado.
- Cateterismo: segunda opção — risco de contaminação e trauma uretral
- Jato livre: NÃO adequado para cultura — contaminação uretral e ambiental inevitável
Resultado:
- Identificação do agente
- Sensibilidade a antibióticos (CIM — concentração inibitória mínima)
- Guia a escolha do antibiótico específico
Ultrassonografia Abdominal
Visualiza:
- Espessura da parede vesical (espessamento focal = suspeita de tumor)
- Urólitos (imagens hiperecogênicas com sombra acústica)
- Rins (pielonefrite, hidronefrose)
- Próstata em machos (prostatite, hiperplasia)
Radiografia Abdominal
Detecta urólitos radiodensos (oxalato de cálcio, fosfato de cálcio): visíveis na radiografia simples. Estruvita e urato podem ser radiolucentes — exigem contraste ou ultrassom.
Cistoscopia
Em casos selecionados — visualização direta da mucosa vesical, biópsia de lesão suspeita de neoplasia.
Tratamento
Antibioticoterapia Dirigida por Cultura
O padrão de ouro.
Duração:
- ITU não complicada (sem alteração estrutural, sem doença subjacente): 7-14 dias
- ITU complicada (associada a urólitos, doença de Cushing, anomalia anatômica, obstrução): 4-6 semanas
- Pielonefrite: 4-6 semanas com antibiótico com boa penetração renal
Antibióticos de primeira linha (enquanto aguarda a cultura):
- Amoxicilina-clavulanato: 12,5-25 mg/kg 2-3x/dia — cobertura de amplo espectro, incluindo produtores de betalactamase
- Cefalexina: 20-25 mg/kg 2-3x/dia — cefalosporina de 1ª geração
- Trimetoprim-sulfametoxazol: 15-30 mg/kg 2x/dia — boa penetração na urina
Ajuste após cultura: trocar para antibiótico específico com menor espectro quando possível.
Fluoroquinolonas (enrofloxacino, marbofloxacino): excelente penetração renal e urinária — reservar para pielonefrite confirmada, resistência documentada ou casos complicados. Uso indiscriminado favorece emergência de resistência em E. coli.
Tratamento da Causa Subjacente
Urólitos: dieta específica para dissolução (estruvita em alguns casos) ou remoção cirúrgica/endoscópica + antibioticoterapia.
Doença de Cushing: tratamento do hiperadrenocorticismo com trilostano.
Diabetes mellitus: controle glicêmico.
Incontinência urinária: fenilpropanolamina ou estriol tópico.
Tumor de bexiga (CCT): piroxicam (AINE) tem atividade contra CCT canino; quimioterapia; ressecção cirúrgica se localizado.
Medidas de Suporte
Hidratação: cão bem hidratado urina mais — dilui e elimina as bactérias.
Acidificação urinária: raramente indicada — a cultura e a identidade do agente orientam melhor.
Cranberry: evidência fraca em cães; pode reduzir aderência de E. coli à mucosa; não substitui antibiótico.
Controle do Tratamento
Urinocultura de controle:
- 5-7 dias após o término do antibiótico
- Confirma a erradicação da infecção
- Essencial em casos complicados e recorrentes
ITU recorrente (> 3 episódios/ano ou não resolução):
- Investigação de causa subjacente (ultrassom, radiografia, glicemia, cortisol)
- Cultura em cada episódio — a bactéria pode mudar
- Considerar profilaxia com dose baixa de antibiótico em casos selecionados
Prevenção
Higiene: limpeza da área genital em fêmeas predispostas.
Hidratação adequada: cão que bebe bastante urina com mais frequência — menor tempo de contato de bactérias com a mucosa.
Higiene pós-procedimento: após sondagem urinária, antibiótico profilático pode ser indicado.
Controle de doenças predisponentes: controlar Cushing, diabetes e incontinência reduz a frequência de ITU.
Prognóstico
ITU não complicada com antibiótico correto: excelente — resolução em 7-14 dias.
ITU recorrente sem causa subjacente identificada: bom, mas exige investigação e protocolo específico.
ITU associada a tumor de bexiga: reservado — o CCT canino tem prognóstico desfavorável mesmo com tratamento.
Perguntas frequentes
O que é cistite em cachorro?+
Cistite é a inflamação da bexiga urinária — pode ser infecciosa (bacteriana, mais comum) ou não infecciosa (cristais, cálculos, tumor de bexiga, cistite idiopática). A infecção do trato urinário (ITU) bacteriana é a forma mais prevalente: bactérias — principalmente Escherichia coli, Staphylococcus e Proteus — colonizam a bexiga via ascensão pela uretra. Fêmeas são mais afetadas que machos: a uretra feminina é mais curta e mais larga, facilitando a entrada de bactérias. Estimativas indicam que 14% das cadelas terão ao menos uma ITU ao longo da vida.
Quais os sinais de cistite em cachorro?+
Pollaquiúria: urinação frequente com volume pequeno a cada vez — o cão pede para sair com muita frequência, urina em gotícolas. Hematúria: sangue na urina — urina cor rosada a vermelha, especialmente ao final da micção. Disúria: dificuldade ou dor ao urinar — cão faz força e geme. Lambedura excessiva da genitália. Acidentes em casa (cão treinado começa a urinar dentro). Urina com odor forte ou diferente do habitual. Febre e prostração são sinais de que a infecção pode ter ascendido aos rins (pielonefrite) — quadro mais grave. Cão que não consegue urinar = emergência (obstrução urinária — diferente de cistite).
Cistite em cachorro passa sozinha?+
Infecções urinárias bacterianas raramente resolvem espontaneamente — a bactéria coloniza a mucosa vesical e não é eliminada sem antibioticoterapia. Sem tratamento, a infecção pode ascender para os rins (pielonefrite), especialmente em fêmeas. A cistite idiopática não infecciosa pode resolver espontaneamente, mas a diferenciação de cistite bacteriana exige urinálise e urinocultura. O antibiótico empírico sem cultura é cada vez mais desencorajado — a resistência bacteriana cresce e a cultura direciona o tratamento correto. Nunca auto-medicar.
Qual o antibiótico para cistite em cachorro?+
O antibiótico ideal é definido pela urinocultura e antibiograma — cultura de urina colhida por cistocentese (punção direta da bexiga) ou cateterismo. Empiricamente (enquanto aguarda a cultura): amoxicilina-clavulanato, cefalexina ou trimetoprim-sulfametoxazol são opções de primeira linha para ITU não complicada. Duração: 7-14 dias para ITU não complicada; 4-6 semanas para ITU recorrente ou associada a doença subjacente (urólitos, anomalia anatômica). Urinocultura de controle 5-7 dias após o término do antibiótico confirma a erradicação. Fluoroquinolonas (enrofloxacino) devem ser reservadas para casos com justificativa — uso indiscriminado favorece resistência.
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