Saúde

Cistite em Cachorro: Infecção Urinária — Causas, Sintomas e Tratamento

Cistite é a inflamação da bexiga em cães — a forma mais comum é a infecção bacteriana (ITU). Sinais: urina frequente, sangue na urina, lambedura da genitália. Fêmeas são mais afetadas. Tratamento com antibiótico específico por cultura e antibiograma.

27 de maio de 2026·6 min de leitura

A cistite — inflamação da bexiga — é uma das condições urológicas mais frequentes em cães, especialmente em fêmeas. A forma bacteriana é a mais comum, mas não é a única: urólitos (cálculos), tumores de bexiga e causas idiopáticas também se manifestam com os mesmos sinais de pollaquiúria, hematúria e disúria.

A distinção entre as causas é fundamental — tratar cistite bacteriana sem cultura e antibiograma é cada vez mais problemático em um contexto de resistência bacteriana crescente.

Tipos de Cistite

Infecciosa — ITU Bacteriana

A mais comum. Bactérias ascendem pela uretra e colonizam a mucosa da bexiga.

Agentes mais frequentes:

  • Escherichia coli: 40-50% dos casos — a mais prevalente
  • Staphylococcus spp.: 15-20%
  • Proteus mirabilis: 10-15% — produz urease, alcaliniza a urina, favorece estruvita
  • Klebsiella pneumoniae, Pseudomonas aeruginosa, Enterococcus: em menor proporção

Fatores predisponentes:

  • Sexo feminino: uretra curta e larga facilita ascensão bacteriana
  • Fêmeas idosas com esfíncter uretral hipotônico
  • Doença de Cushing (hiperadrenocorticismo): imunocompressão relativa + urina diluída favorece crescimento bacteriano
  • Diabetes mellitus: glicosúria favorece proliferação bacteriana
  • Urólitos: os cálculos lesam a mucosa vesical e criam nicho para biofilme bacteriano
  • Incontinência urinária: urina estagnada favorece infecção
  • Cateterização urinária prévia (ITU nosocomial)

Cistite Estéril (Não Bacteriana)

Urólitos: cálculos de estruvita, oxalato de cálcio, urato, cistina irritam a mucosa e causam sinais de cistite sem infecção bacteriana primária (embora a infecção possa ser secundária).

Tumor de bexiga: o carcinoma de células de transição (CCT) — principal tumor de bexiga canino — frequentemente se apresenta como cistite refratária. Raças predispostas: Beagle, Scottish Terrier, Shetland Sheepdog, West Highland White Terrier.

Cistite por polipose ou pólipo: menos comum, pode causar hematúria significativa.

Cistite idiopática: causa não identificada — menos descrita em cães que em gatos.

Sinais Clínicos

Pollaquiúria: micções muito frequentes — o cão pede para sair muitas vezes, urina pouco em cada vez. Em casa: pode urinar em locais inadequados por urgência.

Hematúria: urina avermelhada ou rósea — mais visível ao final da micção (hematúria terminal), sugerindo origem vesical. Hematúria a partir do início da micção sugere fonte renal ou uretral.

Disúria: dificuldade ou dor ao urinar — o cão faz força, posiciona-se para urinar mas elimina pouco, pode gemer.

Lambedura da genitália: cão frequentemente lambe o prepúcio ou a vulva.

Urina com odor forte: cheiro amoniacal marcante — por crescimento bacteriano.

Febre, letargia, inapetência: sinais de infecção ascendente (pielonefrite) ou sepse — atenção especial a esses sinais, indicam maior gravidade.

Atenção: cão que tenta urinar repetidamente sem conseguir + agitação + abdome distendido = obstrução urinária — emergência. Diferente de cistite (o cão urina, mesmo que pouco).

Diagnóstico

Urinálise (Exame de Urina)

Primeiro exame. Inclui:

Análise física:

  • Cor: amarelo a âmbar normal; avermelhado (hematúria), turvo (piúria)
  • Turbidez: urina turva sugere piúria (pus) ou bacteriúria
  • Odor: amoniacal forte em ITU

Análise química (dipstick):

  • pH: urina ácida (< 6,5) em cães normais; alcalina (> 7,0) em infecção por Proteus (produtor de urease)
  • Proteínas: podem estar elevadas por hematúria ou infecção
  • Glicose: positiva em diabetes
  • Leucócitos, nitritos: indicativos de ITU (menos sensíveis em cães que em humanos)

Análise microscópica do sedimento:

  • Leucócitos (piúria): > 5 leucócitos/campo de alto poder em amostra por cistocentese é anormal
  • Eritrócitos: hematúria microscópica ou macroscópica
  • Bactérias: bastonetes ou cocos em amostra bem preservada
  • Cristais: estruvita, oxalato de cálcio — presença indica risco de urólitos
  • Células epiteliais atípicas: suspeita de neoplasia (CCT)

Urinocultura e Antibiograma

Padrão ouro para ITU bacteriana.

Coleta de urina:

  • Cistocentese (punção percutânea direta da bexiga com agulha): método preferencial — amostra sem contaminação uretral. Realizado com ultrassom guiado.
  • Cateterismo: segunda opção — risco de contaminação e trauma uretral
  • Jato livre: NÃO adequado para cultura — contaminação uretral e ambiental inevitável

Resultado:

  • Identificação do agente
  • Sensibilidade a antibióticos (CIM — concentração inibitória mínima)
  • Guia a escolha do antibiótico específico

Ultrassonografia Abdominal

Visualiza:

  • Espessura da parede vesical (espessamento focal = suspeita de tumor)
  • Urólitos (imagens hiperecogênicas com sombra acústica)
  • Rins (pielonefrite, hidronefrose)
  • Próstata em machos (prostatite, hiperplasia)

Radiografia Abdominal

Detecta urólitos radiodensos (oxalato de cálcio, fosfato de cálcio): visíveis na radiografia simples. Estruvita e urato podem ser radiolucentes — exigem contraste ou ultrassom.

Cistoscopia

Em casos selecionados — visualização direta da mucosa vesical, biópsia de lesão suspeita de neoplasia.

Tratamento

Antibioticoterapia Dirigida por Cultura

O padrão de ouro.

Duração:

  • ITU não complicada (sem alteração estrutural, sem doença subjacente): 7-14 dias
  • ITU complicada (associada a urólitos, doença de Cushing, anomalia anatômica, obstrução): 4-6 semanas
  • Pielonefrite: 4-6 semanas com antibiótico com boa penetração renal

Antibióticos de primeira linha (enquanto aguarda a cultura):

  • Amoxicilina-clavulanato: 12,5-25 mg/kg 2-3x/dia — cobertura de amplo espectro, incluindo produtores de betalactamase
  • Cefalexina: 20-25 mg/kg 2-3x/dia — cefalosporina de 1ª geração
  • Trimetoprim-sulfametoxazol: 15-30 mg/kg 2x/dia — boa penetração na urina

Ajuste após cultura: trocar para antibiótico específico com menor espectro quando possível.

Fluoroquinolonas (enrofloxacino, marbofloxacino): excelente penetração renal e urinária — reservar para pielonefrite confirmada, resistência documentada ou casos complicados. Uso indiscriminado favorece emergência de resistência em E. coli.

Tratamento da Causa Subjacente

Urólitos: dieta específica para dissolução (estruvita em alguns casos) ou remoção cirúrgica/endoscópica + antibioticoterapia.

Doença de Cushing: tratamento do hiperadrenocorticismo com trilostano.

Diabetes mellitus: controle glicêmico.

Incontinência urinária: fenilpropanolamina ou estriol tópico.

Tumor de bexiga (CCT): piroxicam (AINE) tem atividade contra CCT canino; quimioterapia; ressecção cirúrgica se localizado.

Medidas de Suporte

Hidratação: cão bem hidratado urina mais — dilui e elimina as bactérias.

Acidificação urinária: raramente indicada — a cultura e a identidade do agente orientam melhor.

Cranberry: evidência fraca em cães; pode reduzir aderência de E. coli à mucosa; não substitui antibiótico.

Controle do Tratamento

Urinocultura de controle:

  • 5-7 dias após o término do antibiótico
  • Confirma a erradicação da infecção
  • Essencial em casos complicados e recorrentes

ITU recorrente (> 3 episódios/ano ou não resolução):

  • Investigação de causa subjacente (ultrassom, radiografia, glicemia, cortisol)
  • Cultura em cada episódio — a bactéria pode mudar
  • Considerar profilaxia com dose baixa de antibiótico em casos selecionados

Prevenção

Higiene: limpeza da área genital em fêmeas predispostas.

Hidratação adequada: cão que bebe bastante urina com mais frequência — menor tempo de contato de bactérias com a mucosa.

Higiene pós-procedimento: após sondagem urinária, antibiótico profilático pode ser indicado.

Controle de doenças predisponentes: controlar Cushing, diabetes e incontinência reduz a frequência de ITU.

Prognóstico

ITU não complicada com antibiótico correto: excelente — resolução em 7-14 dias.

ITU recorrente sem causa subjacente identificada: bom, mas exige investigação e protocolo específico.

ITU associada a tumor de bexiga: reservado — o CCT canino tem prognóstico desfavorável mesmo com tratamento.

Perguntas frequentes

O que é cistite em cachorro?+

Cistite é a inflamação da bexiga urinária — pode ser infecciosa (bacteriana, mais comum) ou não infecciosa (cristais, cálculos, tumor de bexiga, cistite idiopática). A infecção do trato urinário (ITU) bacteriana é a forma mais prevalente: bactérias — principalmente Escherichia coli, Staphylococcus e Proteus — colonizam a bexiga via ascensão pela uretra. Fêmeas são mais afetadas que machos: a uretra feminina é mais curta e mais larga, facilitando a entrada de bactérias. Estimativas indicam que 14% das cadelas terão ao menos uma ITU ao longo da vida.

Quais os sinais de cistite em cachorro?+

Pollaquiúria: urinação frequente com volume pequeno a cada vez — o cão pede para sair com muita frequência, urina em gotícolas. Hematúria: sangue na urina — urina cor rosada a vermelha, especialmente ao final da micção. Disúria: dificuldade ou dor ao urinar — cão faz força e geme. Lambedura excessiva da genitália. Acidentes em casa (cão treinado começa a urinar dentro). Urina com odor forte ou diferente do habitual. Febre e prostração são sinais de que a infecção pode ter ascendido aos rins (pielonefrite) — quadro mais grave. Cão que não consegue urinar = emergência (obstrução urinária — diferente de cistite).

Cistite em cachorro passa sozinha?+

Infecções urinárias bacterianas raramente resolvem espontaneamente — a bactéria coloniza a mucosa vesical e não é eliminada sem antibioticoterapia. Sem tratamento, a infecção pode ascender para os rins (pielonefrite), especialmente em fêmeas. A cistite idiopática não infecciosa pode resolver espontaneamente, mas a diferenciação de cistite bacteriana exige urinálise e urinocultura. O antibiótico empírico sem cultura é cada vez mais desencorajado — a resistência bacteriana cresce e a cultura direciona o tratamento correto. Nunca auto-medicar.

Qual o antibiótico para cistite em cachorro?+

O antibiótico ideal é definido pela urinocultura e antibiograma — cultura de urina colhida por cistocentese (punção direta da bexiga) ou cateterismo. Empiricamente (enquanto aguarda a cultura): amoxicilina-clavulanato, cefalexina ou trimetoprim-sulfametoxazol são opções de primeira linha para ITU não complicada. Duração: 7-14 dias para ITU não complicada; 4-6 semanas para ITU recorrente ou associada a doença subjacente (urólitos, anomalia anatômica). Urinocultura de controle 5-7 dias após o término do antibiótico confirma a erradicação. Fluoroquinolonas (enrofloxacino) devem ser reservadas para casos com justificativa — uso indiscriminado favorece resistência.