Ceratoconjuntivite Seca em Cachorro: Olho Seco — Sintomas e Tratamento
Ceratoconjuntivite seca (KCS) é a deficiência de produção lacrimal em cães — causa olho seco, secreção espessa, irritação e dano à córnea. Muito comum em Bulldogs, Cocker Spaniels e Shih Tzus. Tratamento com ciclosporina colírio é eficaz.
A ceratoconjuntivite seca (KCS — keratoconjunctivitis sicca, ou simplesmente "olho seco") é a deficiência quantitativa ou qualitativa da produção lacrimal em cães. As lágrimas são essenciais para a saúde ocular — lubrificam, nutrem e protegem a córnea e a conjuntiva de infecções e danos mecânicos. Quando a produção lacrimal é insuficiente, o resultado é inflamação progressiva, dano à córnea e, sem tratamento, cegueira.
É uma das condições oftalmológicas mais comuns na clínica veterinária — e frequentemente subdiagnosticada porque seus sinais iniciais são confundidos com conjuntivite simples.
Como a produção lacrimal funciona
O filme lacrimal que cobre o olho tem três camadas:
- Camada lipídica (produzida pelas glândulas de Meibomius da pálpebra)
- Camada aquosa (produzida pela glândula lacrimal principal e pela glândula da membrana nictitante/terceira pálpebra)
- Camada mucosa (produzida pelas células caliciformes da conjuntiva)
Na KCS, a deficiência é principalmente da camada aquosa — resultado de disfunção ou destruição das glândulas lacrimais.
Causas
KCS Imunomediada — A Mais Comum (90% dos casos)
O sistema imune infiltra as glândulas lacrimais com linfócitos T, destruindo progressivamente o tecido secretor. Tem predisposição genética (algumas raças têm muito mais risco que outras).
Início: gradual — a destruição é progressiva e pode levar meses a anos até causar sinais clínicos evidentes.
KCS Induzida por Medicamentos
Sulfonamidas (incluindo trimetoprima-sulfa — antibiótico muito usado) podem causar KCS em cães — mecanismo possivelmente imunomediado ou tóxico direto nas glândulas.
Importância: diagnóstico precoce e suspensão imediata do medicamento podem resultar em recuperação parcial ou total. Uso prolongado após o início da KCS resulta em dano permanente.
KCS Neurológica
O ramo parassimpático do nervo facial inerva as glândulas lacrimais. Lesões do nervo (otite média-interna grave, polineuropatia, trauma) podem causar KCS — frequentemente unilateral e acompanhada de outros sinais de disfunção do nervo facial (queda de pálpebra, assimetria facial, xerostomia ipsilateral).
Remoção Inadequada da Glândula da Nictitante
A glândula da membrana nictitante produz 30-50% das lágrimas aquosas. A remoção cirúrgica dessa glândula (procedimento incorreto para tratar "olho de cereja") causa KCS em alta proporção de casos.
O procedimento correto para prolapso da glândula da nictitante é a repositação cirúrgica (técnica pocket flap) — não a remoção.
Outras Causas Menos Comuns
- Disautonomia (síndrome de Key-Gaskell)
- Hipotireoidismo (associação documentada)
- Radioterapia orbital
- Congênita (agenesia das glândulas lacrimais — rara)
Raças Predispostas
Alta prevalência documentada:
- Bulldog Inglês (prevalência estimada 30-40%)
- Cavalier King Charles Spaniel
- West Highland White Terrier
- Cocker Spaniel Americano
Prevalência moderada:
- Pug
- Shih Tzu
- Lhasa Apso
- Boston Terrier
- Yorkshire Terrier
- Schnauzer
Sinais Clínicos
KCS Aguda ou Subaguda
- Olhos avermelhados — hiperemia conjuntival
- Secreção ocular espessa e viscosa — amarelada ou esverdeada (diferente do lacrimejamento: a secreção da KCS é mucosa/mucopurulenta, não aquosa)
- Blefarospasmo — piscar excessivo por desconforto
- Opacidade da córnea — edema estromal por lesão epitelial
KCS Crônica
- Vascularização da córnea — vasos sanguíneos crescem para dentro da córnea (pannus)
- Pigmentação da córnea — melanina deposita na córnea (mancha marrom progressiva)
- Ulceração da córnea — sem lubrificação adequada, o epitélio corneano ulcera facilmente
- Perda progressiva de visão — a córnea opacifica e interfere com a passagem de luz
Diagnóstico
Teste de Schirmer (STT — Schirmer Tear Test)
O exame essencial: tira de papel filtro padronizado inserida no saco conjuntival inferior por 1 minuto.
Interpretação:
-
15 mm/min: normal
- 10-15 mm/min: borderline — reavaliar ou tratar se houver sinais clínicos
- < 10 mm/min: KCS confirmada
- < 5 mm/min: KCS grave
Quando realizar: em qualquer cão com secreção ocular espessa, olho vermelho crônico ou raça predisposta com sinais oculares — o STT deve ser rotineiro.
Exame da Córnea
- Teste de fluoresceína: detecta úlceras corneanas (coloram de verde sob luz azul)
- Biomicroscopia (lâmpada de fenda): avalia a profundidade e extensão das lesões
Tratamento
Ciclosporina Colírio 0,2% (Optimmune)
O tratamento de primeira linha e mais eficaz para KCS imunomediada.
Ciclosporina é inibidor de calcineurina — suprime a resposta imune que destrói as glândulas lacrimais e, simultaneamente, estimula ativamente a produção lacrimal.
Eficácia: 80-90% dos cães com KCS imunomediada aumentam a produção lacrimal significativamente. Em cães com produção muito baixa (< 2 mm/min), a resposta pode ser menor — a glândula pode ter perdido tecido funcional demais.
Tempo de resposta: melhora visível em 4-8 semanas. STT normaliza em 2-3 meses em casos responsivos.
Duração: por toda a vida — interrupção causa recidiva.
Administração: 1 gota em cada olho afetado, 2x/dia.
Tacrolimus 0,02-0,03% Colírio
Alternativa para casos refratários à ciclosporina. Mesmo mecanismo (inibidor de calcineurina) mas diferente molécula — pode ser eficaz quando a ciclosporina falha.
Não disponível comercialmente no Brasil — preparação em farmácia de manipulação.
Lágrimas Artificiais
Lubrificação suplementar enquanto o tratamento principal não atingiu efeito máximo, ou em KCS refratária como suporte crônico.
Produtos: carboximetilcelulose, ácido hialurônico, polivinilálcool — colírios de uso frequente (3-8x/dia).
Géis e pomadas: maior durabilidade (usados principalmente à noite).
Higiene Ocular
Remoção da secreção acumulada com gaze umedecida — 2-3x/dia nos olhos com muita secreção. Olhos limpos respondem melhor ao tratamento.
Antibióticos Tópicos
Em casos com infecção bacteriana secundária (muito frequente na KCS) — colírios antibióticos (neomicina, tobramicina) em cursos curtos. A KCS cria ambiente favorável para colonização bacteriana.
Parotideoductoplastia (Transposição do Ducto Salivar)
Para casos refratários a todo tratamento médico:
Procedimento cirúrgico que redireciona o ducto da glândula parótida salivar para o saco conjuntival — a saliva substitui as lágrimas como lubrificante.
Vantagem: elimina a necessidade de medicação diária. Desvantagem: a saliva tem composição diferente das lágrimas — pode causar acúmulo de depósito mineral na córnea (precipitação de cálcio da saliva). Monitoramento necessário.
Reservada para KCS grave com qualidade de vida comprometida e sem resposta à ciclosporina.
Úlceras de Córnea na KCS — Complicação Frequente
A KCS é a principal causa de úlceras de córnea recorrentes em cães braquicefálicos. O olho seco torna o epitélio corneano frágil e predisposto a trauma.
Tratamento das úlceras: colírios antibióticos profiláticos + tratar a KCS subjacente. Úlceras profundas ou refratárias necessitam de cirurgia corneana.
Prognóstico
Com ciclosporina tópica diária, a maioria dos cães com KCS imunomediada mantém produção lacrimal adequada e boa qualidade de vida por anos.
Sem tratamento: cegueira por opacificação progressiva da córnea é inevitável na KCS grave.
O diagnóstico precoce — antes de danos corneanos irreversíveis — é o fator mais importante para o prognóstico.
Perguntas frequentes
Como saber se meu cachorro tem olho seco (ceratoconjuntivite seca)?+
Os sinais de ceratoconjuntivite seca (KCS) em cães: secreção ocular espessa, amarelada ou esverdeada (diferente do lacrimejamento aquoso — na KCS a secreção é viscosa e se acumula nos cantos dos olhos); olhos avermelhados e irritados; piscar excessivo (blefarospasmo); córnea opaca (esbranquiçada ou azulada) — nos casos crônicos, pigmentação marrom da córnea; o cão esfrega os olhos nas patas ou em superfícies. O teste confirmador: Teste de Schirmer — tira de papel filtro inserida no saco conjuntival mede a produção lacrimal em 1 minuto. Normal: > 15 mm. KCS: < 10 mm.
Ceratoconjuntivite seca em cachorro tem cura?+
Depende da causa. KCS imunomediada (a mais comum — 90% dos casos): não tem cura, mas é excelentemente controlada com ciclosporina colírio — a maioria dos cães volta à produção lacrimal normal e mantém visão excelente com tratamento diário por toda a vida. KCS induzida por medicamentos (sulfonamidas): frequentemente reversível ao suspender o medicamento, especialmente se detectada cedo. KCS neurológica ou por remoção da glândula da membrana nictitante (gland nictitante): tratamento difícil, substituição artificial e procedimentos cirúrgicos podem ser necessários. Sem tratamento, a KCS causa cegueira por danos progressivos à córnea.
Quais raças têm mais risco de olho seco?+
Raças com alta prevalência de ceratoconjuntivite seca: Bulldog Inglês e Bulldog Americano (muito alta), Cavalier King Charles Spaniel, Cocker Spaniel Americano, West Highland White Terrier, Pug, Shih Tzu, Lhasa Apso, Boston Terrier, Yorkshire Terrier. Raças braquicefálicas em geral têm predisposição aumentada — possivelmente pela maior exposição ocular e alterações anatômicas das glândulas lacrimais. O Bulldog é a raça de maior prevalência documentada — estimativas de até 40% de animais afetados em algumas populações.
Como é o tratamento do olho seco em cachorro?+
Tratamento principal: ciclosporina 0,2% colírio (Optimmune) — estimula a produção lacrimal pela glândula lacrimal; altamente eficaz em 80-90% dos casos quando a glândula ainda tem tecido funcional; aplicação 2x/dia por toda a vida. Alternativa: tacrolimus 0,02-0,03% colírio — pode ser eficaz em casos refratários à ciclosporina. Suporte: lágrimas artificiais (carboximetilcelulose, ácido hialurônico) — alívio sintomático, 3-8x/dia; higienização dos olhos para remover secreção acumulada. Casos refratários: parotideoductoplastia (transposição do ducto salivar para redirecionar saliva para lubrificar o olho) — procedimento cirúrgico alternativo.
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