Cachorro com Convulsão: O Que Fazer e Causas
Convulsão em cachorro assusta — mas a maioria não é emergência imediata durante o episódio. Aprenda como agir, o que causa e quando é urgente levar ao veterinário.
Ver o próprio cão convulsionando é uma das experiências mais assustadoras para um tutor. A reação instintiva é segurar o cão, colocar algo na boca dele, entrar em pânico. Todas essas reações podem piorar a situação.
Saber o que fazer durante uma convulsão — e o que não fazer — faz diferença real.
O que acontece durante uma convulsão
Uma convulsão (crise epiléptica) é uma descarga elétrica anormal e excessiva de neurônios no cérebro. O resultado depende de onde e como essa descarga ocorre.
Tipos de crise:
Generalizada (tônico-clônica): a mais dramática e comum. O cão cai, fica rígido (fase tônica), depois tem movimentos de pedalar rítmicos (fase clônica), pode urinar, defecar, salivar abundantemente, vocalizar. Perda de consciência total.
Focal: descarga em área específica do cérebro — movimentos de uma parte do corpo (uma pata, o rosto), mastigação no vazio, olhar fixo, desvio de cabeça. O cão pode estar consciente.
Focal com generalização: começa focal e evolui para generalizada.
Fases da crise:
- Pré-ictal (aura): minutos a horas antes — o cão pode ficar inquieto, procurar o tutor, andar em círculos, esconder
- Ictal: a crise em si — segundos a minutos
- Pós-ictal: após a crise — desorientação, cegueira temporária, fraqueza, fome/sede intensas, pode durar minutos a horas
O que fazer durante a convulsão
FAÇA:
- Mantenha a calma — sua calma ajuda o cão no período pós-ictal
- Cronometre — duração é informação crucial para o veterinário
- Afaste objetos duros do entorno — mobília, escadas, quinas
- Reduza estímulos — apague luzes, diminua barulho, fale calmamente
- Cubra com cobertor leve — ajuda a manter temperatura e reduz o choque pós-ictal
- Anote — hora de início, duração, comportamento durante e após
NÃO FAÇA:
- Não coloque a mão na boca do cão — cão em convulsão não engole a língua (mito). A mordida de um cão em crise é forte e involuntária — você pode sofrer lesão grave
- Não tente segurar o cão — movimentos de contenção podem machucar ele e você
- Não jogue água no rosto — piora a desorientação pós-ictal
- Não grite — estímulos intensos podem prolongar o período pós-ictal
Quando é emergência
Status epilepticus: convulsão com duração de 5 minutos ou mais, ou duas convulsões seguidas sem recuperação entre elas. Emergência imediata — o cérebro sofre dano com convulsão prolongada. Leve ao veterinário mais próximo mesmo que esteja no meio da crise.
Cluster seizures: múltiplas convulsões em 24 horas. Mesmo que cada crise seja curta — requer avaliação urgente.
Primeira convulsão de cão idoso: maior suspeita de causa estrutural (tumor, doença sistêmica).
Convulsão + sinais de intoxicação (se o cão pode ter ingerido veneno, planta, produto): emergência + leve a embalagem/identifique o que ingeriu.
Causas
Epilepsia idiopática
A causa mais comum em cães entre 1-5 anos sem alteração estrutural identificável no cérebro. Forte componente genético — certas raças são muito predispostas.
Raças predispostas:
- Border Collie, Labrador Retriever, Golden Retriever
- Pastor Belga (Malinois, Tervuren)
- Beagle, Cocker Spaniel
- Dachshund
- Poodle
Diagnóstico por exclusão: descarta causas metabólicas e estruturais → restando epilepsia idiopática.
Causas extracranianas (sistêmicas)
Hipoglicemia: glicose sanguínea muito baixa — especialmente em filhotes toy, cães diabéticos com insulina em excesso. Convulsão com sinais de fraqueza precedente.
Doença hepática grave: encefalopatia hepática — toxinas que o fígado não remove afetam o cérebro.
Doença renal grave: encefalopatia urêmica.
Hipocalcemia: cálcio muito baixo — clássico em cadela pós-parto (eclampsia puerperal).
Intoxicação
Múltiplas substâncias causam convulsão em cães:
- Veneno para rato (brodifacuma — mas também organofosforados em alguns rodenticidas)
- Inseticidas organofosforados e carbamatos (aplicados em excesso ou produto errado)
- Xilitol — adoçante em alimentos diet
- Cogumelos tóxicos
- Plantas: cicuta, estramônio, entre outras
- Nicotina
- Alguns medicamentos humanos em superdose
Suspeita de intoxicação = emergência, leve ao veterinário com informação sobre o que pode ter sido ingerido.
Causas intracranianas estruturais
Tumor cerebral: mais comum em cães acima de 5-7 anos. Convulsões podem ser o primeiro sinal.
Encefalite/Meningite: inflamação do cérebro — pode ser infecciosa (Toxoplasma, Neospora, fúngica) ou imunomediada.
Trauma craniano: após acidente, queda ou agressão.
Hidrocefalia: dilatação dos ventrículos cerebrais — mais comum em raças braquicefálicas e toy.
Cinomose: fase neurológica da doença — convulsões em "mastigação de chiclete" são características.
Erliquiose: fase nervosa pode causar convulsões.
Diagnóstico
Primeiro episódio:
- Hemograma + bioquímica (glicemia, função hepática e renal, eletrólitos)
- Urinálise
- Pressão arterial
- Sorologias conforme suspeita (erliquiose, cinomose, Toxoplasma)
Para epilepsia idiopática / causa estrutural:
- Ressonância magnética (RM) ou tomografia (TC) do crânio
- Análise do líquido cefalorraquidiano (punção lombar)
Tratamento da epilepsia idiopática
Quando iniciar:
- Mais de 1 convulsão por mês
- Cluster ou status epilepticus
- Crises muito intensas ou com período pós-ictal prolongado
Medicamentos:
- Fenobarbital: principal antiepiléptico veterinário — eficaz, econômico, bem tolerado. Exige monitoramento de nível sérico e função hepática
- Brometo de potássio: usado sozinho ou em combinação com fenobarbital
- Imepitoin (Pexion): alternativa mais nova com menos hepatotoxicidade
- Levetiracetam: eficaz mas mais caro
Não mude ou interrompa a medicação sem orientação veterinária — interrupção abrupta pode desencadear status epilepticus.
Vida com cão epiléptico
Com medicação adequada, muitos cães epilépticos têm qualidade de vida excelente por anos. Pontos importantes:
- Monitoramento regular de nível sérico do medicamento e função hepática
- Diário de convulsões — anotar data, hora, duração, intensidade
- Evitar privação de sono e estresse intenso (gatilhos conhecidos)
- Identificar padrões — muitos cães têm maior incidência em certas horas ou após estímulos específicos
- Microchip e identificação — cão em pós-ictal pode desorientar e sair
O cão epiléptico pode praticar atividades normais — não precisa ser "protegido" de tudo. O objetivo do tratamento é qualidade de vida, não isolamento.
Perguntas frequentes
O que fazer quando cachorro tem convulsão?+
Durante a convulsão: (1) Mantenha a calma — a maioria dura 1-3 minutos e passa sozinha; (2) Afaste objetos duros ou perigosos do entorno; (3) NÃO coloque a mão na boca do cão — cão em convulsão não engole a língua, e você pode ser mordido gravemente; (4) NÃO contenha o cão — pode machucar ele ou você; (5) Cubra com cobertor leve se possível, apague luzes, reduza barulho; (6) Cronometre a duração; (7) Após o episódio, leve ao veterinário. Convulsão com mais de 5 minutos (status epilepticus) = emergência.
Cachorro convulsionou uma vez — precisa de tratamento?+
Uma convulsão isolada geralmente não inicia tratamento — o veterinário vai investigar a causa e avaliar. Se houver causa identificada e tratável (hipoglicemia, intoxicação, infecção), o tratamento é da causa. Epilepsia idiopática (sem causa identificável) tipicamente inicia tratamento quando as convulsões são: mais de 1 vez por mês, muito intensas (generalizada com cluster), ou causam período pós-ictal muito prolongado.
Quais são as causas de convulsão em cachorro?+
As principais causas são: epilepsia idiopática (genética, a mais comum em cães jovens adultos), intoxicação (veneno de rato, alguns inseticidas, xilitol, cogumelos, plantas), hipoglicemia (especialmente em filhotes toy), doença hepática ou renal grave (encefalopatia), trauma craniano, tumor cerebral, encefalite/meningite, e erliquiose ou cinomose (em fases neurológicas). A causa mais comum em cão adulto saudável entre 1-5 anos é epilepsia idiopática.
Epilepsia em cachorro tem cura?+
Epilepsia idiopática não tem cura — é condição crônica que requer medicação pelo resto da vida. O objetivo do tratamento é reduzir a frequência e intensidade das crises, não eliminá-las completamente (embora alguns cães fiquem livres de crises com medicação). Com tratamento adequado, cão epiléptico pode ter excelente qualidade de vida por muitos anos. O controle regular com veterinário e hemograma periódico (para monitorar níveis do medicamento e função hepática) são necessários.
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