Saúde

Arritmias Cardíacas em Cachorro: Do Holter ao Tratamento

As arritmias cardíacas em cães vão de alterações benignas (arritmia sinusal respiratória) a emergências (taquicardia ventricular, bloqueiro atrioventricular completo). Diagnóstico pelo ECG e Holter 24h. Tratamento com antiarrítmicos (sotalol, lidocaína, atenolol, amiodarona) ou marcapasso. Dobermann e Boxer têm predisposição genética a arritmias ventriculares fatais.

29 de maio de 2026·2 min de leitura

O Dobermann de 5 anos desmaiou durante uma corrida no parque. Recuperou em segundos. O tutor pensou em calor.

Holter 24 horas: 847 contrações ventriculares prematuras. Três episódios de taquicardia ventricular não sustentada (máximo: 8 batimentos, 220 bpm). ECG: morfologia de bloqueio de ramo esquerdo — origem ventricular direita.

ARVC em Dobermann. Sotalol iniciado. O cão está vivo dois anos depois — mas sem o Holter poderia ter morrido antes de um diagnóstico.

O ECG — A Linguagem Elétrica do Coração

Cada parte do ECG corresponde a um evento elétrico:

| Onda/segmento | Evento cardíaco | |---|---| | Onda P | Despolarização atrial — início do batimento | | Complexo QRS | Despolarização ventricular — contração principal | | Onda T | Repolarização ventricular — recuperação | | Intervalo PR | Condução AV — tempo do átrio ao ventrículo | | Intervalo QT | Duração total do ciclo ventricular |

Arritmias: o ritmo é irregular, os complexos têm morfologia anormal, ou o intervalo entre eventos é muito curto ou muito longo.

O Espectro — Do Benigno ao Fatal

| Arritmia | Risco | Tratamento | |---|---|---| | Arritmia sinusal respiratória | Nenhum — normal em cães | Nenhum | | CVP isolada ocasional | Baixo | Monitorização | | Fibrilação atrial crônica | Moderado | Controle de FC | | Taquicardia ventricular sustentada | Alto | Sotalol/lidocaína | | Bloqueio AV completo | Alto | Marcapasso | | Fibrilação ventricular | Morte súbita | Desfibrilação imediata |

O Holter — 24 Horas de Vida Elétrica

O ECG em repouso dura 5 minutos — captura só o que acontece naquele momento. Arritmias intermitentes ficam invisíveis.

O Holter resolve:

  • Cão usa o monitor durante 24 horas de vida normal
  • Registra cada batimento — geralmente 100.000-130.000 batimentos
  • Software conta CVPs, identifica TV, calcula FC média

Critério Dobermann: > 50-100 CVPs/24h → alta suspeita de ARVC mesmo sem síncope

Prognóstico

| Situação | Prognóstico | |---|---| | CVPs isoladas, coração estruturalmente normal | Muito bom | | FA controlada com medicação | Bom a moderado | | TV Dobermann/Boxer + sotalol | Moderado — risco de morte súbita persiste | | BAV completo + marcapasso | Bom após implante | | TV com colapso hemodinâmico | Reservado |

Perguntas frequentes

Quais são os tipos de arritmias em cães e quais são benignas versus perigosas?+

As arritmias cardíacas em cães são alterações no ritmo, frequência ou condução elétrica do coração. Classificação por origem: Supraventriculares (origem no átrio ou nó AV): fibrilação atrial (FA): o mais comum dos supraventriculares graves; taquicardia atrial; contração atrial prematura (CAP); Flutter atrial; Ventriculares (origem no ventrículo): contração ventricular prematura (CVP): isolada — pode ser benigna; taquicardia ventricular (TV): série de CVPs — potencialmente fatal; fibrilação ventricular (FV): emergência absoluta — morte súbita; Bradiarritmias (ritmo muito lento): bloqueio atrioventricular (BAV) completo: ritmo de escape ventricular — urgência de marcapasso; doença do nó sinusal (SSS): síncope recorrente; Benignas em cães saudáveis: arritmia sinusal respiratória (ASR): aumento da FC na inspiração e queda na expiração — normal em cães; bloqueio atrioventricular de 1° grau: atraso na condução — raramente causa problemas; Perigosas: taquicardia ventricular sustentada; fibrilação atrial com FC > 160 bpm; BAV de 3° grau (completo); FV — parada cardíaca.

Como diagnosticar arritmias em cães — ECG, Holter, ecocardiografia?+

O diagnóstico de arritmia requer eletrocardiograma (ECG) — a ausculta cardíaca pode sugerir irregularidade mas não caracteriza. ECG padrão (12 derivações ou 6): análise do ritmo em repouso; duração de 2-5 minutos; detecta arritmias presentes no momento do exame; essencial para arritmias contínuas (FA, TV sustentada, BAV completo); limitação: não detecta arritmias intermitentes; Holter 24 horas: monitorização eletrocardiográfica contínua por 24 horas; cão fica com o equipamento no corpo durante atividades normais; detecta CVPs intermitentes, TV não sustentada, síncopes; padrão ouro para: suspeita de ARVC em Boxer e Dobermann; investigação de síncope; monitorização de resposta ao antiarrítmico; critério: Dobermann com > 50-100 CVPs/24h sugere ARVC mesmo sem sintomas; Monitor de evento: equipamento que o tutor ativa manualmente quando o cão apresenta síncope — registro do evento; Ecocardiografia: avalia estrutura e função cardíaca — identifica causa subjacente (cardiomiopatia, doença valvar); Raças indicadas para Holter de rotina: Dobermann Pinscher: screening de ARVC/DCM a partir de 3 anos; Boxer: screening de ARVC; Labrador Retriever com histórico familiar de DCM.

Como tratar as principais arritmias em cães?+

Tratamento por tipo de arritmia: Fibrilação Atrial (FA): controle de frequência ventricular: digoxina + diltiazem ou atenolol; cardioversão elétrica: em alguns casos de FA de início recente; FA com IC: furosemida + pimobendam + controle de FC; Taquicardia Ventricular (TV): Aguda/emergência: lidocaína IV: 2 mg/kg bólus IV, pode repetir; sotalol IV se lidocaína ineficaz; cardioversão elétrica sincronizada em TV com colapso; Crônica: sotalol VO: antiarrítmico classe III — eficaz em TV canina; mexiletina VO: associado ao sotalol em casos refratários; amiodarona: para casos graves — monitorização de tireoide e fígado; Contração Ventricular Prematura (CVP) isolada: CVPs isoladas < 50/24h sem TV: monitorização sem tratamento; CVPs frequentes, em pares ou tripletos, ou TV não sustentada: sotalol; Bloqueio AV completo: marcapasso permanente — único tratamento definitivo; suporte temporário: atropina ou isoprenalina IV até implante; Doença do nó sinusal (SSS): síncope episódica com bradicardia grave: marcapasso; Fibrilação Ventricular: desfibrilação imediata + RCP.

Por que Dobermann e Boxer têm predisposição a arritmias fatais?+

Dobermann e Boxer têm predisposições genéticas distintas para cardiomiopatias arritmogênicas. Dobermann — DCM e ARVC: cardiomiopatia dilatada (DCM) é extremamente comum no Dobermann; gene STRN (striatin) — mutação europeia: maior predisposição; PDK4 — mutação americana: identificada também; estágio oculto: o Dobermann pode ter DCM e/ou arritmias por anos antes dos sintomas; síncope súbita ou morte súbita pode ser a primeira manifestação; Holter e ecocardiografia de rotina a partir de 3 anos são recomendados; Boxer — ARVC (Cardiomiopatia Arritmogênica do Ventrículo Direito): mutação do gene STRN específica para o Boxer; CVPs com morfologia de bloqueio de ramo esquerdo (origem ventricular direita); síncope ou morte súbita em Boxers jovens aparentemente saudáveis; Holter recomendado em todos os Boxers a partir de 1 ano; O problema em ambas as raças: a fase oculta é traiçoeira — o cão parece saudável mas tem arritmias que podem ser fatais a qualquer momento; a única proteção é o monitoramento periódico com Holter e ecocardiografia; sotalol profilático em animais com > 100 CVPs/24h mesmo assintomáticos.