Saúde

Anaplasmose Canina: Anaplasma platys e phagocytophilum — Sintomas e Tratamento

Anaplasmose é doença transmitida por carrapatos causada por Anaplasma platys (trombocitopenia cíclica) e A. phagocytophilum (granulocítica). Prevalente no Brasil, especialmente nas regiões com Rhipicephalus e Ixodes. Tratamento com doxiciclina é altamente eficaz.

27 de maio de 2026·7 min de leitura

A anaplasmose canina é uma das doenças transmitidas por carrapatos mais prevalentes no Brasil, muitas vezes subdiagnosticada ou confundida com erliquiose — com a qual frequentemente coexiste no mesmo animal. Causada por bactérias intracelulares do gênero Anaplasma, a doença tem duas apresentações clínicas distintas dependendo da espécie infectante.

A importância do diagnóstico correto vai além do tratamento — o conhecimento da epidemiologia local e o controle rigoroso de carrapatos são os pilares da prevenção.

Os Agentes

Anaplasma platys

A espécie mais prevalente no Brasil.

A. platys infecta as plaquetas (trombócitos) — especificamente, replica dentro de vacúolos dentro das plaquetas, causando a sua destruição e liberação para nova infecção.

Vetor: Rhipicephalus sanguineus (carrapato marrom do cão — o carrapato mais comum em ambientes urbanos e domésticos do Brasil). A. platys é frequentemente co-transmitida com Ehrlichia canis pelo mesmo vetor.

Manifestação clínica: trombocitopenia cíclica — os níveis de plaquetas caem e sobem em ciclos de aproximadamente 7-14 dias, conforme os ciclos de replicação bacteriana. Muitos cães têm infecção subclínica com sinais mínimos.

Anaplasma phagocytophilum

A. phagocytophilum infecta os neutrófilos (granulócitos) — causando anaplasmose granulocítica.

Vetor: Ixodes scapularis (EUA), Ixodes ricinus (Europa), Ixodes spp. — carrapatos de patas-negras. No Brasil, a prevalência é maior nas regiões Sul e Sudeste com presença de Ixodes spp.

Manifestação clínica: doença mais aguda e febril que a platys — febre alta, letargia, poliartralgia.

Epidemiologia no Brasil

A. platys: amplamente distribuída em todo o território brasileiro — correlaciona-se com a distribuição de Rhipicephalus sanguineus. Estudos de soroprevalência mostram taxas de 10-30% em cães de algumas regiões.

Coinfecção: estima-se que 30-50% dos cães com erliquiose também têm infecção por A. platys — mesmo vetor, muitas vezes mesma picada.

Sazonalidade: picos de carrapatos (e portanto maior risco) no verão e no início do outono — mas em regiões tropicais o carrapato marrom pode estar ativo o ano todo.

Patogênese

A. platys — Trombocitopenia Cíclica

  1. A. platys é inoculada pelo carrapato na corrente sanguínea
  2. A bactéria infecta plaquetas e replica dentro delas
  3. Plaquetas infectadas são destruídas pelo sistema fagocítico → trombocitopenia
  4. O sistema imune monta resposta → a bacteremia é temporariamente controlada
  5. Plaquetas sobem → nova onda de replicação → nova queda
  6. Ciclo se repete a cada 7-14 dias

Além da destruição direta: mecanismo imunomediado contribui para a trombocitopenia — anticorpos antiplaquet surgem durante a infecção.

A. phagocytophilum — Anaplasmose Granulocítica

  1. A bactéria infecta neutrófilos
  2. Dentro dos neutrófilos, replica em vacúolos (mórulas visíveis no esfregaço)
  3. Neutrófilos infectados têm função comprometida — aumento do risco de infecções
  4. Citocinas inflamatórias causam febre, mialgia e artralgia

Sinais Clínicos

Infecção por A. platys

Fase aguda (trombocitopenia grave):

  • Petéquias (pontos vermelho-arroxeados) — nas mucosas oral e ocular, na pele (ventre)
  • Epistaxe (hemorragia nasal) — unilateral ou bilateral
  • Melena ou hematúria leve
  • Letargia moderada, inapetência

Fase subclínica: muitos cães — especialmente com baixas cargas bacterianas — têm trombocitopenia documentada sem sinais clínicos evidentes.

Sem co-infecção: A. platys isolada frequentemente causa doença mais branda que Ehrlichia canis.

Com co-infecção: trombocitopenia mais profunda, sinais mais intensos, maior risco de complicações hemorrágicas.

Infecção por A. phagocytophilum

Fase aguda — mais grave:

  • Febre alta: 39,5-41°C — um dos sinais mais consistentes
  • Letargia grave: cão muito abatido, não quer se levantar
  • Poliartralgia: dor em múltiplas articulações — o cão reluta em se mover, apresenta claudicação difusa, articulações dolorosas à palpação. É um dos sinais mais característicos — diferente do Ehrlichia, que raramente causa artralgia.
  • Inapetência e perda de peso
  • Vômito, diarreia (menos frequentes)
  • Linfadenomegalia — linfonodos periféricos aumentados

Diagnóstico

Hemograma com Esfregaço

Primeiro exame.

A. platys:

  • Trombocitopenia — frequentemente 50.000-100.000/μL; pode ser < 20.000/μL em coinfecção
  • Anemia (normocítica, normocrômica) — progressiva com a cronicidade
  • Mórulas dentro das plaquetas: visíveis ocasionalmente em esfregaços corados com Diff-Quick — estruturas basofílicas dentro do citoplasma plaquetário (difíceis de visualizar)

A. phagocytophilum:

  • Neutropenia (diferente da erliquiose, que causa trombocitopenia predominante)
  • Linfopenia
  • Trombocitopenia variável
  • Mórulas nos neutrófilos: inclusões basofílicas dentro do citoplasma dos neutrófilos — presentes em 20-30% dos casos durante a fase aguda; mais fáceis de encontrar que as plaquetárias

Bioquímica:

  • ALT e ALP elevadas (envolvimento hepático)
  • Hipoalbuminemia em casos crônicos
  • Hiperbilirrubinemia leve

Sorologia

RIFI (Reação de Imunofluorescência Indireta):

  • Detecta anticorpos IgG contra Anaplasma
  • Limitação: pode ser negativa nas primeiras 1-2 semanas (antes da soroconversão) — colheita de amostra pareada (aguda e convalescente 2-4 semanas depois) para confirmar

SNAP 4Dx (teste rápido em clínica):

  • Detecta antígenos de A. phagocytophilum
  • Resultado em 8 minutos — útil como triagem
  • Não detecta A. platys

PCR (Reação em Cadeia da Polimerase)

Mais sensível e específico. Detecta DNA da bactéria — positivo antes da soroconversão.

  • PCR de sangue total (EDTA)
  • Distingue A. platys de A. phagocytophilum — importante para epidemiologia
  • Quantitativo (PCRq) pode monitorar resposta ao tratamento

Combinação recomendada: hemograma + PCR para máxima sensibilidade e especificidade.

Diagnóstico Diferencial

| Condição | Similaridade | Diferencial | |---|---|---| | Ehrlichia canis | Trombocitopenia, carrapato | Sorologia/PCR específicos; Ehrlichia raramente causa artralgia | | AHIM | Trombocitopenia, anemia | AHIM: hemólise ativa (esferócitos, Coombs+) sem PCR positivo | | Babesiose | Anemia, carrapato | Babesiose: hemólise severa, esferócitos; PCR/esfregaço (merozoitos em eritrócitos) | | Leishmaniose | Trombocitopenia crônica | Leishmaniose: sinais dermatológicos, onicogrifose; sorologia específica | | Artrite imunomediada | Poliartralgia | AHIM: líquido sinovial, sem infecção por PCR |

Tratamento

Doxiciclina — Tratamento de Eleição

Dose: 10 mg/kg VO, 1x/dia — por 28-30 dias.

Resposta:

  • A. phagocytophilum: melhora dramática em 24-72 horas — febre cede, apetite retorna, letargia melhora. A resposta rápida à doxiciclina é quase diagnóstica.
  • A. platys: melhora mais gradual — hemograma melhora ao longo de 2-4 semanas de tratamento.

Duração: 28 dias é o mínimo — tratamentos mais curtos levam a recidiva e seleção de resistência. Nunca interromper antes, mesmo com melhora clínica completa.

Formulação: cápsulas ou comprimidos. Administrar com alimento para reduzir náusea; nunca junto com produtos de cálcio (quelatam a doxiciclina).

Cuidados de Suporte

Trombocitopenia grave (< 20.000/μL com sangramento ativo):

  • Transfusão de sangue total ou concentrado de plaquetas
  • Repouso absoluto — evitar atividade física para minimizar risco de sangramento

Trombocitopenia imunomediada secundária:

  • Prednisolona 0,5-1 mg/kg/dia: quando há componente imunomediado superposto; descontinuar gradualmente após resolução
  • Usado com critério — imunossupressão em infecção ativa deve ser ponderada

Anemia grave:

  • Transfusão se hematócrito < 20%

Anti-eméticos:

  • Maropitant ou metoclopramida se náusea por doxiciclina

Monitoramento Pós-Tratamento

Hemograma: repetir 4 semanas após o início do tratamento — espera-se normalização das plaquetas.

PCR de controle: 1-3 meses após o término do tratamento para confirmar erradicação.

Nota: anticorpos (sorologia RIFI) podem permanecer positivos por meses a anos após a cura — sorologia positiva não é prova de infecção ativa.

Prevenção

Controle de Carrapatos — Fundamental

Produtos antiparasitários:

  • Isoxazolines (fluralaner — Bravecto, afoxolaner — NexGard): maior eficácia contra Rhipicephalus sanguineus — protegem por 30-90 dias conforme o produto
  • Sarolaner (Simparica): eficácia similar
  • Deltametrina (coleiras Scalibor): repelência + morte do carrapato

Inspeção regular: verificar e remover carrapatos após cada saída ao ar livre — a transmissão de A. phagocytophilum pelo Ixodes requer 36-48 horas de fixação para ocorrer (janela de prevenção por remoção precoce). A. platys pelo Rhipicephalus — tempo de transmissão incerto, mas remoção precoce é sempre indicada.

Ambiente: controle de carrapatos no ambiente — acaricidas ambientais em quintal, gramado, canis.

Zoonose — Risco para Humanos

A. phagocytophilum é zoonótica — humanos podem se infectar pelo mesmo carrapato Ixodes. A anaplasmose granulocítica humana causa febre, mialgia, cefaleia — tratada com doxiciclina. Cão infestado por Ixodes não transmite diretamente para humanos (não há transmissão direta cão-humano) — mas indica ambiente com Ixodes infestado.

A. platys — risco zoonótico incerto, provavelmente baixo para humanos.

Prognóstico

Sem coinfecção, tratamento precoce: excelente — recuperação completa em 2-4 semanas. A. phagocytophilum é especialmente responsiva à doxiciclina.

Com coinfecção (Ehrlichia + Anaplasma): bom, mas requer atenção à profundidade da trombocitopenia e ao suporte transfusional.

Crônico sem tratamento: A. platys crônica pode causar anemia e imunodeficiência progressivas — oportunismo de outras infecções.

A chave é o diagnóstico precoce — cão com trombocitopenia e histórico de carrapatos deve ser testado e tratado sem demora.

Perguntas frequentes

O que é anaplasmose em cachorro?+

Anaplasmose canina é infecção por bactérias do gênero Anaplasma, transmitidas por carrapatos. Existem duas espécies principais: Anaplasma platys — infecta as plaquetas (trombócitos), causando trombocitopenia cíclica (plaquetas baixas em ciclos de 1-2 semanas); vetor: Rhipicephalus sanguineus (carrapato marrom do cão — o mais comum no Brasil). Anaplasma phagocytophilum — infecta neutrófilos (granulócitos), causando anaplasmose granulocítica; vetor: Ixodes spp. (carrapato-de-patas-negras — menos prevalente no Brasil continental, mais no Sul). A. platys é a espécie mais prevalente no Brasil. Frequentemente coinfecção com Ehrlichia canis — mesmo vetor (Rhipicephalus sanguineus), sinais superpostos.

Quais os sintomas de anaplasmose em cachorro?+

Anaplasma platys (trombocitopenia cíclica): petéquias (pontos vermelhos na pele e mucosas por sangramento), epistaxe (hemorragia nasal), letargia, inapetência. O ciclo de trombocitopenia ocorre a cada 1-2 semanas — plaquetas caem, sobem, caem novamente. Muitos cães têm infecção subclínica — sinais leves ou ausentes mesmo com trombocitopenia. Anaplasma phagocytophilum (granulocítica): febre alta (39-41°C), letargia grave, poliartralgia (dor em múltiplas articulações — cão relutante em se mover, claudicação), inapetência, vômito. Neutropenia — maior suscetibilidade a infecções. Doença mais aguda e mais grave que a platys. Coinfecção com Ehrlichia: sinais mais graves, trombocitopenia mais profunda, anemia mais intensa.

Como diagnosticar anaplasmose em cachorro?+

Hemograma: trombocitopenia (plaquetas baixas — frequentemente < 50.000/μL em A. platys; pode ser severa em A. phagocytophilum). Em A. phagocytophilum: neutropenia, linfopenia, elevação de enzimas hepáticas (ALT, ALP). Esfregaço sanguíneo: A. phagocytophilum pode ser visualizado como inclusões (mórulas) dentro dos neutrófilos — corpúsculos de coloração basofílica no citoplasma. A. platys: mórulas dentro das plaquetas (mais difícil de visualizar). Sorologia: RIFI (reação de imunofluorescência indireta) — detecta anticorpos; pode ser negativa no início da infecção. SNAP 4Dx (teste rápido): detecta antígenos de A. phagocytophilum. PCR: mais sensível e específico — detecta o DNA da bactéria antes da resposta imune.

Qual o tratamento da anaplasmose em cachorro?+

Doxiciclina é o tratamento de escolha para ambas as espécies: 10 mg/kg/dia VO por 28-30 dias (dose única diária — facilita adesão). A resposta é geralmente dramática — melhora clínica em 24-48 horas em A. phagocytophilum (febre cede rapidamente). A. platys responde mais lentamente — monitorar hemograma após o tratamento. Cuidados de suporte: se trombocitopenia grave com risco de sangramento — transfusão de plaquetas ou sangue total; prednisolona 0,5-1 mg/kg/dia pode ser necessária para a trombocitopenia imunomediada secundária. Nunca suspender antes de 28 dias mesmo com melhora clínica — risco de recidiva e seleção de resistência.