1. Introdução

O Yorkshire Terrier, carinhosamente chamado de “Yorkie”, é um dos pequenos gigantes do universo canino. Apesar de medir, em média, entre 15 e 23 cm de altura na cernelha e pesar entre 2 kg e 3,5 kg, esse cãozinho possui uma personalidade que preenche salas, corações e lares. Originário da Inglaterra do século 19, o Yorkie foi criado inicialmente para caçar ratos nas fábricas de algodão, mas rapidamente conquistou a aristocracia britânica devido ao seu porte delicado, pelagem sedosa e temperamento corajoso. Hoje, ele é um dos cães de companhia mais populares no Brasil, presente em apartamentos, casas com quintais e até mesmo em famílias que viajam com frequência.

Mas a popularidade não deve ser confundida com facilidade de manutenção. O Yorkshire Terrier exige cuidados específicos – desde a escovação diária da pelagem até a atenção a predisposições genéticas que podem comprometer sua saúde. Este guia foi elaborado para tutores – iniciantes ou experientes – que desejam oferecer ao seu Yorkie a melhor qualidade de vida possível. Acompanhe cada seção e descubra informações baseadas em evidências veterinárias, dicas práticas e respostas às dúvidas mais recorrentes. Ao final da leitura, você estará preparado para entender, cuidar e celebrar esse pequeno companheiro com a confiança de quem realmente conhece suas necessidades.


2. Características Principais

Aparência física


  • Tamanho: 15 – 23 cm na cernelha; peso de 2 – 3,5 kg.
  • Pelagem: Longa, fina e extremamente lisa, geralmente em tons de “tão” (azul-acinzentado) e “fawn” (marrom claro). A pelagem não solta muito pelo, mas requer escovação diária para evitar nós.
  • Cabeça: Crânio curto, focinho pontudo e orelhas pequenas e eretas. Os olhos são escuros, expressivos e levemente amendoados, conferindo um ar alerta.

Temperamento e personalidade


  • Coragem: Apesar do tamanho, o Yorkie possui um espírito de “cão de guarda”. Ele costuma latir para alertar a família sobre estranhos, protegendo o território.
  • Apego: Muito apegado ao tutor principal, costuma seguir a pessoa pela casa e demonstrar “síndrome do cachorro‑colado” se não receber atenção suficiente.
  • Inteligência: Rápido para aprender comandos, mas também pode ser teimoso se não houver motivação (petiscos, brinquedos).
  • Socialização: Necessita de contato precoce com outros cães, crianças e ambientes diferentes para evitar comportamentos de medo ou agressividade excessiva.

Necessidades de espaço

Por ser um cão de companhia, o Yorkie adapta‑se bem a ambientes pequenos, como apartamentos. No entanto, ele precisa de estímulos mentais e físicos diários – caminhadas curtas, brinquedos interativos e sessões de brincadeira – para evitar o desenvolvimento de ansiedade de separação ou comportamentos destrutivos.

Comunicação não‑verbal

  • Cauda: Quando está relaxado, a cauda repousa ao lado do corpo; quando está animado, pode balançar vigorosamente.
  • Orelhas: Movimentam‑se em resposta a sons e podem indicar curiosidade ou alerta.
  • Postura: Um Yorkie “erguido” e com a cabeça levemente inclinada demonstra interesse; quando encolhido, pode estar com medo ou frio.
Essas características ajudam o tutor a interpretar o estado emocional do animal e a responder de forma adequada, fortalecendo a relação de confiança.


3. Cuidados Essenciais

Higiene da pelagem


  • Escovação diária – Use uma escova de cerdas macias ou um pente de aço inox para evitar nós.
  • Banho mensal – Utilize shampoo específico para cães de pelo longo e hipersensível; enxágue bem para não deixar resíduos que irritem a pele.
  • Corte de pelos – Muitos tutores optam pelo “penteado” (pelo aparado nas patas e ao redor do rosto) para facilitar a limpeza. Procure um profissional experiente em raças pequenas.

Cuidados com as unhas


  • Aparar a cada 15‑30 dias – Unhas muito compridas podem causar desconforto ao caminhar e até fissuras na pele. Use cortador próprio para cães pequenos e, se necessário, peça orientação ao veterinário.

Higiene bucal


  • Escovação – A escovação diária com creme dental próprio para cães previne a “doença periodontal”, comum em Yorkies.
  • Mordedores e brinquedos – Escolha itens que ajudem na limpeza dos dentes, como os de borracha macia com textura.

Banho de orelhas e olhos


  • Orelhas – Limpe suavemente com solução isotônica e algodão; evite inserir objetos profundos.
  • Olhos – Remova secreções com gaze úmida; se houver lacrimejamento excessivo, consulte o veterinário, pois pode indicar problemas oculares.

Exercício físico


  • Caminhadas curtas – 15‑20 minutos, duas vezes ao dia, em ritmo moderado. Evite calor extremo, pois a pelagem densa pode causar superaquecimento.
  • Brincadeiras indoor – Jogos de busca, labirintos de caixas e brinquedos de puzzle são excelentes para estimular a mente.

Controle de temperatura

Yorkies são sensíveis ao calor. Em dias acima de 28 °C, ofereça áreas sombreadas, água fresca e, se possível, um tapete refrescante. No inverno, vista um suéter leve para evitar hipotermia, principalmente ao sair ao ar livre.


4. Alimentação e Nutrição

Necessidades calóricas

  • Adulto: 80 – 120 kcal/kg de peso corporal ao dia, distribuídas em duas refeições.
  • Filhote (até 6 meses): 120 – 150 kcal/kg, com três a quatro refeições diárias para sustentar o rápido crescimento ósseo e muscular.

Dietas recomendadas


  • Ração premium de alta qualidade – Formulada para raças pequenas, com proteína de origem animal ≥ 30 % e níveis adequados de DHA (para saúde cerebral).
  • Ração natural ou caseira – Deve ser balanceada por nutricionista veterinário, garantindo a proporção correta de proteínas, gorduras, carboidratos, vitaminas e minerais.
  • Alimentos complementares – Pequenas porções de carne magra cozida, vegetais (cenoura, abóbora) e frutas (maçã sem sementes) podem ser oferecidas como petisco nutritivo.

Atenção ao peso

Yorkies têm metabolismo rápido, mas tendem ao ganho de peso se alimentados em excesso. Monitore a condição corporal mensalmente: costelas devem ser palpáveis sem excesso de gordura, e a cintura deve ser visível ao observar o animal de cima.

Suplementação

  • Ácidos graxos ômega‑3 – Benefícios para pele e pelagem; pode ser incluído como óleo de peixe ou cápsulas específicas.
  • Probióticos – Auxiliam na saúde intestinal, principalmente após uso de antibióticos.
  • Cálcio e fósforo – Não suplementar sem orientação, pois o excesso pode levar a problemas ósseos.

Alimentos a evitar


Alimento
Por quê? |

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Chocolate
Contém teobromina tóxica. |

Uvas e passas
Podem causar insuficiência renal aguda. |

Cebola e alho
Danificam hemácias, levando à anemia. |

Ossos cozidos
Risco de perfuração gastrointestinal. |

Alimentos muito salgados ou temperados
Podem provocar desequilíbrios eletrolíticos. |

Hidratação

Mantenha sempre água fresca e limpa à disposição. Em dias muito quentes, troque a água a cada 2‑3 horas para evitar proliferação bacteriana.


5. Saúde e Prevenção

Principais doenças hereditárias

  • Luxação patelar – Deslocamento da rótula, comum em raças pequenas. Sintomas: claudicação intermitente ou “cambalear”. Tratamento pode requerer cirurgia ortopédica.
  • Doença de Legg‑Calvé‑Perthes – Necrose da cabeça do fêmur, causa dor e claudicação. Diagnóstico precoce via radiografia e manejo conservador ou cirúrgico.
  • Síndrome de von Willebrand – Distúrbio de coagulação; sangramentos prolongados após cortes ou cirurgias. Teste laboratorial recomendado antes de procedimentos invasivos.
  • Problemas dentários – Acúmulo de tártaro e doença periodontal são frequentes devido ao tamanho pequeno da mandíbula. Escovação diária e limpeza profissional a cada 6‑12 meses são essenciais.

Vacinação essencial (esquema padrão no Brasil)


Idade
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6‑8 sem
Primeira dose.
10‑12 sem
Segundo reforço.
14‑16 sem
Terceiro reforço.
1 ano
Início da manutenção anual.
> 1 ano
Anual ou bienal, conforme orientação do veterinário.

Vermifugação e controle de ectoparasitas

  • Vermífugos internos – Administrar a cada 3 meses (cães com vida ao ar livre) ou a cada 6 meses (cães predominantemente internos).
  • Pulgas e carrapatos – Produtos tópicos (spot‑on) ou coleiras com ação prolongada; escolha de acordo com a sensibilidade cutânea do animal.

Exames preventivos


  • Hemograma e bioquímica – Anual, para avaliação de função hepática, renal e possíveis alterações hematológicas.
  • Radiografia ortopédica – A partir dos 2 anos, especialmente se houver queixa de claudicação.
  • Exame oftalmológico – Avaliação de catarata e outras doenças oculares (Yorkies são predispostos a úlceras de córnea).

Sinais de alerta que exigem consulta imediata


  • Vômito ou diarreia persistente (> 24 h).
  • Falta de apetite por mais de 48 h.
  • Sangramento incomum (gengiva, nariz, urina).
  • Dificuldade para respirar ou tosse seca.
  • Cambalear, dor ao tocar nas articulações ou inchaço visível.
A detecção precoce de problemas aumenta drasticamente as chances de tratamento bem‑sucedido e prolonga a qualidade de vida do seu Yorkie.


6. Treinamento e Comportamento

Princípios básicos


  • Reforço positivo – Use petiscos de alta palatabilidade, elogios vocais e brinquedos como recompensa.
  • Consistência – Repetição diária e comandos curtos (não mais que duas palavras) ajudam na memorização.
  • Timing – Recompense imediatamente (até 2 segundos) após o comportamento desejado para que o cão associe a ação ao reforço.

Socialização precoce (até 16 sem)


  • Encontros controlados com outros cães de temperamento equilibrado.
  • Exposição a diferentes superfíciescer, grama, tapete).
  • Ruídos e cheiros – Trânsito, aspirador, barulho de liquidificador.
  • Visitas a lugares públicos – lojas pet, parques, sempre com coleira leve.

Obediência básica


Comando
Como ensinar |

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Sentar
Segure o petisco acima da cabeça; ao levantar a cabeça, o quadril naturalmente se abaixa. Diga “sentar” e ofereça o petisco. |

Deitar
A partir da posição sentada, mova o petisco em direção ao chão; o cão seguirá o movimento e deitará. |

Ficar
Após “sentar”, mostre a palma da mão e diga “ficar”. Dê um passo para trás; se permanecer, recompense. |

Virar
Use o petisco para guiar o cão em volta de você, dizendo “virar”. Quando completar o círculo, ofereça a recompensa. |

Treino de caixa (crate training)

  • Objetivo: Proporcionar um local seguro, auxiliar no controle de eliminação e reduzir ansiedade de separação.
  • Passo a passo:
1. Coloque a caixa em um ambiente tranquilo.

2. Deixe a porta aberta e espalhe um cobertor confortável.

3. Incentive o cão a entrar com petiscos; feche a porta por poucos segundos, elogiando.

4. Aumente gradualmente o tempo, sempre associando a caixa a momentos positivos (descanso, brinquedo).

Problemas comportamentais comuns e soluções

Problema
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Latidos excessivos
Enriquecimento ambiental, treinamento “quieto” com reforço positivo.
Ansiedade de separação
Desensibilização gradual (saídas curtas, aumento progressivo), brinquedos interativos que dispensam alimento.
Mordidas leves
Redirecionar energia para brinquedos, ensinar “solta” e “não”.
Escavação
Caminhadas mais longas, brinquedos de “esconde petisco”.

Exercícios mentais (brain games)

  • Puzzle feeder – Distribui ração em compartimentos que o cão precisa abrir.
  • Esconde‑esconde – O tutor se esconde e chama o cachorro; reforço ao encontrar.
  • Treino de truques – “Rodar”, “dar a pata”, “pular obstáculo” estimulam concentração e fortalecem o vínculo.
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7. Dicas Práticas para Tutores

  • Calendário de cuidados – Crie um planner (digital ou impresso) com datas de vacinação, vermifugação, banho, escovação e consultas veterinárias.
  • Kit de emergência em casa – Inclua: termômetro digital, solução fisiológica, gaze estéril, antisséptico (clorexidina), e o número do veterinário de plantão.
  • Transporte seguro – Use caixa de transporte certificada ou cinto de segurança próprio para cães pequenos; evite levar o Yorkie no colo durante viagens de carro.
  • Identificação – Crave a microchip e mantenha a coleira com plaquinha atualizada (nome, telefone, endereço).
  • Temperatura da água – Em dias quentes, ofereça água gelada (não gelo) e verifique se a tigela não está exposta ao sol direto.
  • Corte de pelos em casa – Se optar por aparar em casa, invista em tesouras próprias para pelo fino e siga tutoriais de profissionais. Sempre faça em ambiente bem iluminado.
  • Rotina de exercícios – Varie a rota das caminhadas; inclua escadas suaves ou terrenos levemente irregulares para fortalecer músculos e articulações.
  • Viajar com o Yorkie – Leve a caixa de transporte, sacos de lixo para dejetos, e um pequeno kit de alimentação (ração, petiscos, água). Reserve hotéis que aceitam animais e informe a presença do cão com antecedência.
  • Monitoramento de peso – Use uma balança de precisão (até 0,1 kg) e registre o peso mensalmente; ajuste a quantidade de ração conforme necessário.
  • Interação com crianças – Ensine as crianças a respeitar o espaço do cão, evitar puxões na cauda ou nas orelhas, e sempre supervisionar o contato.
Essas práticas simples reduzem riscos de saúde, evitam comportamentos problemáticos e fortalecem a relação de confiança entre tutor e Yorkie.


8. Curiosidades e Mitos

  • Curiosidade: O nome “Yorkshire Terrier” foi abreviado para “Yorkie” já em 1900, quando a raça começou a aparecer em cartazes de exposições caninas nos Estados Unidos.
  • Mito: “Yorkies não precisam de exercício porque são pequenos”. Na realidade, a falta de atividade física leva a obesidade, ansiedade e problemas ortopédicos.
  • Curiosidade: A pelagem do Yorkie não solta muito pelo, mas tem