1. Introdução

Ter um cão saudável vai muito além de oferecer água fresca e passeios diários. Assim como os seres humanos, os cães dependem de um conjunto equilibrado de vitaminas e minerais para que seus sistemas biológicos funcionem de forma ótima. Esses micronutrientes são responsáveis por processos tão variados quanto a produção de energia nas células, a formação de ossos fortes, a saúde da pele e do pelo, a regulação do sistema imunológico e até a estabilidade emocional do animal.

No Brasil, a diversidade de raças, tamanhos e estilos de vida dos cães – desde o pequeno yorkshire que vive em apartamento até o grande pastor que acompanha o tutor em trilhas na mata – faz com que as necessidades nutricionais variem bastante. Além disso, a oferta abundante de rações comerciais, petiscos industrializados e dietas “caseiras” pode gerar dúvidas sobre a quantidade e a qualidade dos micronutrientes que o seu amigo de quatro patas está realmente recebendo.

Este artigo foi pensado para tutores que desejam aprofundar o conhecimento sobre as vitaminas e minerais essenciais para a saúde canina, de forma clara, empática e baseada em evidências veterinárias. Ao longo das próximas seções, vamos explorar quais são os principais micronutrientes, como identificar necessidades específicas, quais alimentos são as melhores fontes, e como prevenir deficiências ou excessos que podem comprometer a qualidade de vida do seu cão. Tudo isso com uma linguagem acessível, mas fundamentada em estudos científicos e nas recomendações de órgãos como a AAFCO (Association of American Feed Control Officials) e o Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV).

Prepare‑se para descobrir como pequenas escolhas diárias – como mudar um tipo de ração ou incluir um legume na refeição – podem gerar grandes benefícios para a longevidade, o bem‑estar e a conexão afetiva entre você e o seu melhor amigo.

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2. Características Principais

Vitaminas lipossolúveis vs. hidrossolúveis

As vitaminas são divididas em duas categorias principais: lipossolúveis (A, D, E e K) e hidrossolúveis (do complexo B e a vitamina C). As lipossolúveis são armazenadas no fígado e nos tecidos adiposos, o que significa que o organismo pode utilizá‑las por um período mais longo, mas também aumenta o risco de toxicidade quando ingeridas em excesso. Já as hidrossolúveis são rapidamente absorvidas e eliminadas na urina, exigindo ingestão regular para evitar deficiências.

  • Vitamina A: essencial para a visão, a integridade da epitélio cutâneo e a função imunológica. Deficiência pode causar cegueira noturna e alterações na pele.
  • Vitamina D: regula a absorção de cálcio e fósforo, sendo crucial para ossos e dentes saudáveis. Em cães, a principal fonte é a dieta, pois a síntese cutânea via luz solar é limitada.
  • Vitamina E: antioxidante que protege as membranas celulares contra radicais livres, importante para a saúde da pele e do sistema cardiovascular.
  • Vitamina K: participa da coagulação sanguínea; sua deficiência é rara, mas pode ocorrer em casos de intoxicação por anticoagulantes.

Complexo B e vitamina C

  • Vitamina B1 (tiamina): envolvida no metabolismo de carboidratos; a sua falta pode levar a fraqueza muscular e convulsões.
  • Vitamina B2 (riboflavina) e B3 (niacina): importantes para produção de energia e saúde da pele.
  • Vitamina B6 (piridoxina) e B12 (cobalamina): essenciais para síntese de neurotransmissores e formação de glóbulos vermelhos.
  • Ácido fólico: participa na síntese de DNA, fundamental durante a gestação.
  • Vitamina C: ao contrário dos humanos, cães sintetizam a própria vitamina C, mas em situações de estresse oxidativo intenso (doenças crônicas, cirurgias) a suplementação pode ser benéfica.

Minerais macro e microminerais

  • Cálcio e fósforo: formam a base da estrutura óssea. A proporção recomendada na dieta de cães adultos é aproximadamente 1,2:1 (cálcio:fósforo). Excesso de cálcio pode causar osteoporose em filhotes em crescimento.
  • Potássio: regula a pressão arterial e a função muscular. Deficiências são raras, mas podem ocorrer em casos de vômitos ou diarreia prolongada.
  • Sódio e cloro: fundamentais para o equilíbrio hídrico e a transmissão de impulsos nervosos.
  • Magnésio: participa da produção de energia e da saúde óssea; deficiência pode levar a tremores e convulsões.
  • Ferro: componente da hemoglobina; anemia ferropriva é um problema comum em cães que recebem dietas pobres em carne.
  • Zinco: importante para a pele, pelo, e função imunológica. Deficiência pode gerar dermatites e queda de pelos.
  • Cobre, selênio e manganês: atuam como cofatores de enzimas antioxidantes e metabólicas.

Interações e biodisponibilidade

A absorção desses micronutrientes pode ser influenciada por fatores como a presença de fibras, a forma química (por exemplo, ferro heme vs. não‑heme) e a combinação com outros nutrientes (ex.: vitamina D aumenta a absorção de cálcio). Por isso, dietas balanceadas, desenvolvidas por nutricionistas veterinários, são a forma mais segura de garantir que seu cão receba a quantidade correta de cada nutriente, na forma mais biodisponível possível.

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3. Cuidados Essenciais

Identificando sinais de deficiência

Os tutores costumam notar alterações comportamentais ou físicas antes mesmo de um diagnóstico laboratorial. Alguns indicadores clássicos incluem:

Deficiência
Sinais clínicos mais comuns |

-------------
----------------------------|

Vitamina A
Olhos secos, visão noturna prejudicada, pele escamosa |

Vitamina D
Fraqueza, dor óssea, convulsões (hipocalcemia) |

Vitamina E
Musculatura fraca, ataxia, pelagem opaca |

Vitamina K
Sangramento prolongado, hematomas |

Vitamina B1
Falta de apetite, perda de peso, convulsões |

Vitamina B12
Anemia, letargia, diarreia crônica |

Cálcio
Tremores, dificuldade para caminhar, fraturas |

Ferro
Palidez das mucosas, fadiga, falta de energia |

Zinco
Dermatite, queda de pelos, feridas que não cicatrizam |

É importante observar que muitos desses sinais podem ser causados por outras patologias; portanto, a consulta ao veterinário e a realização de exames de sangue são fundamentais para confirmar a origem.

Riscos de excesso (toxicidade)

Enquanto a falta de micronutrientes pode ser devastadora, o excesso também pode ser perigoso:

  • Vitamina A: hipervitaminose A pode causar rigidez articular, perda de pelos e até deformidades ósseas.
  • Vitamina D: hipercalcemia leva a calcificação de tecidos moles (coração, rins) e pode ser fatal.
  • Vitamina E: doses muito altas podem interferir na absorção de vitamina K, predispondo a sangramentos.
  • Cálcio: excesso em filhotes pode gerar crescimento ósseo desordenado e predispor a fraturas.
  • Ferro: toxicidade aguda provoca vômitos, diarreia, choque e pode ser fatal.
A maioria das toxicidades ocorre quando o tutor oferece suplementos sem orientação profissional ou quando há ingestão acidental de produtos humanos (por exemplo, suplementos de vitamina A para humanos).

Estratégias de monitoramento

  • Exames de sangue regulares – a cada 6 a 12 meses, especialmente em cães idosos, gestantes ou com doenças crônicas, para avaliar níveis de cálcio, fósforo, ferro, vitaminas do complexo B e marcadores de função hepática e renal.
  • Avaliação física – observar a pelagem, a condição da pele, a força muscular e a mobilidade. Mudanças súbitas podem indicar desequilíbrios nutricionais.
  • Diário alimentar – registrar a marca da ração, quantidades de petiscos e eventuais alimentos caseiros. Essa prática ajuda o veterinário a identificar fontes de excesso ou falta.

Quando recorrer ao suplemento

A suplementação deve ser indicada apenas quando houver comprovação de deficiência ou necessidade específica (por exemplo, cães idosos com artrite podem se beneficiar de vitamina E e selênio). A dosagem deve seguir as recomendações do Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV) e, preferencialmente, ser fornecida em formulações específicas para cães, pois a biodisponibilidade pode variar entre espécies.

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4. Alimentação e Nutrição

Rações comerciais de qualidade

A maioria das rações balanceadas disponíveis no mercado já contém a proporção adequada de vitaminas e minerais, conforme os padrões da AAFCO. Ao escolher uma ração, verifique:

  • Rótulo: deve indicar “nutrientes completos e balanceados” para a fase de vida (filhote, adulto, sênior).
  • Lista de ingredientes: proteínas de alta qualidade (carne, peixe) nos primeiros lugares, seguida de fontes de gorduras saudáveis.
  • Presença de aditivos: antioxidantes (vitamina E, selênio), conservantes naturais e probióticos que ajudam na absorção dos micronutrientes.
Marcas premium costumam enriquecer suas fórmulas com óleos de peixe (ricos em DHA e EPA) e extratos de vegetais para melhorar a biodisponibilidade de vitaminas lipossolúveis.

Alimentos naturais e “caseiros”

Muitos tutores optam por complementar a dieta com alimentos frescos. Essa prática pode ser benéfica, desde que seja feita com planejamento:

Alimento
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Fígado de boi
Oferecer em pequenas quantidades (máx. 5% da dieta) para evitar hipervitaminose A
Ovo cozido
Não alimentar com casca, pois pode ser difícil de digerir
Cenoura crua
Boa para mastigação, mas não substituir a ração
Sardinha em óleo
Retirar espinhas grandes para evitar risco de engasgo
Iogurte natural sem açúcar
Ideal para cães intolerantes à lactose em pequenas porções
Abóbora cozida
Auxilia na regulação intestinal
É essencial que a alimentação caseira seja complementada com um suplemento multivitamínico/calcário adequado, ou que o tutor siga um plano nutricional elaborado por um nutricionista veterinário. Caso contrário, há risco de desequilíbrio, especialmente em filhotes em fase de crescimento ou cães idosos com necessidade aumentada de certos minerais.

Estratégias para garantir absorção ótima

  • Distribuição ao longo do dia – oferecer duas refeições menores ao invés de uma grande pode melhorar a absorção de minerais, evitando competição entre eles (ex.: cálcio e fósforo).
  • Combinação com gorduras saudáveis – vitaminas A, D, E e K são solúveis em lipídios; incluir um pouco de óleo de peixe ou óleo de coco facilita sua absorção.
  • Evitar anti‑nutrientes – alguns legumes crus contêm fitatos que podem reduzir a absorção de ferro e zinco; cozinhá‑los suaviza esse efeito.
  • Hidratação adequada – água suficiente garante que os rins funcionem bem na excreção de minerais em excesso, prevenindo toxicidade.

Ajustes para necessidades especiais

  • Cães de raças gigantes (ex.: Dogue Alemão, Mastiff) necessitam de mais cálcio e fósforo para suportar o rápido crescimento ósseo, mas sem ultrapassar a proporção recomendada.
  • Cães idosos podem precisar de mais vitamina E, selênio e ácidos graxos ômega‑3 para proteger as articulações e o sistema nervoso.
  • Cães com doenças renais requerem restrição de fósforo e, às vezes, de potássio; dietas terapêuticas especiais são formuladas por veterinários.
  • Cães esportivos (agilidade, agility, canicross) têm maior demanda por vitaminas do complexo B e minerais como magnésio, que participam da produção de energia.
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5. Saúde e Prevenção

Papel das vitaminas na imunidade

  • Vitamina A: fortalece as mucosas (olhos, trato respiratório, gastrointestinal), sendo a primeira linha de defesa contra patógenos.
  • Vitamina D: modula a resposta imunológica, estimulando as células T e reduzindo inflamações crônicas. Estudos demonstram que cães com níveis adequados de vitamina D apresentam menor incidência de infecções respiratórias.
  • Vitamina E e selênio: atuam como antioxidantes, protegendo as células do sistema imunológico contra o estresse oxidativo gerado durante infecções.
A suplementação preventiva, especialmente em períodos de maior exposição a agentes infecciosos (como em canis, creches ou antes de viagens), pode reduzir a gravidade de doenças como a parvovirose ou a cinomose.

Minerais e saúde óssea

O cálcio e o fósforo são os pilares da mineralização óssea. O magnésio, por sua vez, auxilia na absorção de cálcio e na regulação da atividade da vitamina D. A deficiência desses minerais pode levar a osteodistrofia, fraturas espontâneas e, em filhotes, a hipoplasia dentária.

Para cães que praticam atividades de alto impacto (pular, correr, carregar peso), a ingestão de vitamina K2 (menaquinona) tem sido estudada como promotora da deposição de cálcio nos ossos e não nos tecidos moles, reduzindo o risco de calcificação arterial.

Prevenção de doenças dermatológicas

A pele e o pelo são reflexos diretos do estado nutricional. Zinco, cobre, vitamina A e ácidos graxos essenciais (ômega‑3 e ômega‑6) são cruciais para manter a integridade da barreira cutânea. Deficiências podem resultar em dermatite atópica, alopecia e infecções secundárias.

Dicas práticas: incluir óleo de linhaça ou azeite de peixe na dieta pode melhorar a condição do pelo, enquanto alimentos ricos em cobre (fígado, mariscos) ajudam a prevenir a queda de pelos.

Controle de peso e longevidade

Excesso de calorias, mesmo que provenientes de alimentos “saudáveis”, pode levar à obesidade – um fator de risco para diabetes, doenças cardíacas e artrite. Micronutrientes como vitamina B12 e cromo desempenham papéis na regulação do metabolismo de carboidratos e gorduras. Uma dieta balanceada, rica em fibras e com a quantidade correta de vitaminas e minerais, auxilia no controle do apetite e na manutenção de um peso corporal ideal.

Check‑ups regulares

  • Exame de sangue a cada 6–12 meses para avaliar perfil nutricional (cálcio, fósforo, ferro, vitaminas).
  • Avaliação de pelagem e pele durante a visita ao veterinário; alterações podem indicar necessidade de ajuste nutricional.
  • Radiografias em cães de raças grandes ou em crescimento rápido, para monitorar a densidade óssea.
A prevenção eficaz parte da combinação entre uma alimentação adequada e o acompanhamento clínico periódico, permitindo intervenções rápidas antes que um desequilíbrio se torne doença crônica.

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6. Treinamento e Comportamento

Energia e foco mental

Cães que recebem quantidades adequadas de vitaminas do complexo B (tiamina, riboflavina, niacina, B6, B12) costumam apresentar maior capacidade de concentração e resistência física durante sessões de treinamento. Essas vitaminas são co‑fatores essenciais na produção de neurotransmissores como a serotonina e a dopamina, que influenciam humor e motivação.

  • Vitamina B6: necessária para a síntese de serotonina, que ajuda a reduzir ansiedade e comportamentos compulsivos.
  • Vitamina B12: participa da mielinização dos neurônios, facilit