Vermifugação em cães: quando e como fazer

Introdução

A saúde do nosso companheiro de quatro patas é uma das principais preocupações de qualquer tutor responsável. Quando se trata de vermes, é fundamental estar bem informado para tomar as melhores decisões, evitando sofrimento ao animal e risco de transmissão para a família.

Neste guia completo, vamos abordar tudo o que você precisa saber sobre vermifugação em cães: quando, como, por quê, quais são os tipos de parasitas mais comuns, como identificar sinais de infestação, a importância dos exames de diagnóstico, a frequência recomendada segundo a literatura veterinária e dicas práticas para tutores brasileiros.

Importante: Este artigo tem caráter informativo e não substitui a consulta com um médico veterinário. Cada cão tem necessidades individuais que só um profissional pode avaliar com precisão.

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O que você precisa saber

1. Principais tipos de vermes que afetam cães

Parasita
Risco para humanos
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Teníase (Cestódeos)
Ingestão de ovos ou de intermediários (pulgas, roedores)
Baixo, mas pode ocorrer
Ascaridíase (Nematódeos)
Transmissão vertical (da mãe para filhotes) e fecal‑oral
Alto – pode causar síndrome de visão de ovos (toxocariíase)
Ancilostomíase
Penetração cutânea ou ingestão de ovos
Médio – larvas podem penetrar a pele humana
Tricocefalia (Trichurida)
Ingestão de ovos resistentes no ambiente
Baixo
Giárdia (Protozoário)
Cisto no ambiente, ingestão de água contaminada
Médio – zoonótico
Coccidiose
Ingestão de oocistos
Baixo
> Dica prática: O Toxocara canis é o parasita mais prevalente em filhotes no Brasil, com prevalência que pode ultrapassar 70 % em cães não vermifugados nas primeiras 12 semanas de vida.

2. Por que a vermifugação é essencial?

  • Saúde do animal – Vermes podem causar desnutrição, anemia, comprometimento do sistema imunológico e até morte em casos graves.
  • Prevenção de zoonoses – Algumas espécies (ex.: Toxocara, Ancylostoma) podem infectar humanos, principalmente crianças que brincam no chão.
  • Controle ambiental – A eliminação dos ovos no ambiente reduz a carga parasitária nas áreas onde o cão circula (casa, quintal, parques).
  • Economia – Tratamentos de doenças avançadas são mais caros que a vermifugação preventiva regular.
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Sinais e Sintomas Importantes

  • Observação diária: Mantenha atenção aos comportamentos do seu cão (apetite, energia, aspecto das fezes).
  • Vermifugação: Identifique os principais indicadores de infestação.
  • Mudanças graduais: Note alterações sutis no dia a dia, como leve perda de peso ou pelagem sem brilho.
  • Parasitas: Compreenda os fatores de risco (ambiente sujo, contato com outros animais, falta de higiene).

Sinais clínicos mais comuns

Sintoma
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Diarreia com muco ou sangue
Verifique a consistência e cor das fezes.
Vômito recorrente
Pode ser confundido com outras causas gastrointestinais.
Perda de peso apesar de boa alimentação
Parasitas competem por nutrientes.
Anemia (palidez das gengivas)
Avalie a frequência de fezes com sangue.
Tosse ou respiração ofegante
Observe especialmente filhotes.
Presença de segmentos (proglótides) nas fezes
Pequenos “grãos de arroz” são fáceis de identificar.
> Observação: Muitos cães podem ser portadores assintomáticos, sobretudo adultos, mas ainda assim excretam ovos que contaminam o ambiente. Por isso, a vermifugação preventiva é recomendada mesmo na ausência de sinais clínicos.

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Prevenção é o Melhor Remédio

A prevenção sempre será a abordagem mais eficaz quando se trata de vermes. Algumas medidas importantes incluem:

  • Consultas regulares com veterinário de confiança (pelo menos 2 vezes ao ano).
  • Acompanhamento preventivo através de exames de rotina (exame de fezes, hemograma, avaliação de peso).
  • Cuidados diários específicos para prevenção (higiene do local de dormir, controle de pulgas).
  • Ambiente seguro e livre de riscos (limpeza diária, descarte correto de fezes, uso de adubos adequados).

Estratégia de vermifugação preventiva no Brasil

Idade do cão
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2‑4 semanas
Pyrantel pamoato (e.g. Nemex)
3‑6 meses
Praziquantel + Pyrantel (ex.: Drontal)
6‑12 meses
Milbemicina oxime + Praziquantel (ex.: Milbemax)
Adultos (>1 ano)
Produto de amplo espectro (ex.: Strongid, Drontal)
Gestantes/Lactantes
Produtos seguros para gestantes (ex.: Fenbendazol em dose baixa)
\* Obs.: A frequência pode variar de acordo com a região (clima quente, alta prevalência de parasitas) e estilo de vida (cães que frequentam parques, canis, ou que caçam).

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Quando Procurar Ajuda Veterinária

⚠️ ATENÇÃO: Sempre consulte um médico veterinário para diagnóstico e tratamento adequados.

Procure ajuda profissional imediatamente se observar:

  • Sinais persistentes por mais de 24 h (diarreia, vômito, letargia).
  • Mudanças súbitas no comportamento (agitação, agressividade, medo).
  • Sintomas que parecem estar piorando (desidratação, sangramento nas fezes).
  • Qualquer sinal de desconforto ou dor (coçar excessivo, relutância em se movimentar).
Além disso, solicite avaliação veterinária nas seguintes situações:

  • Filhotes recém‑nascidos – diagnóstico de infestação congênita (larvas transplacentárias).
  • Cães gestantes ou lactantes – necessidade de vermifugação segura para mãe e filhotes.
  • Animais com doenças crônicas (diabetes, insuficiência renal) – ajustes de dose são imprescindíveis.
  • Animais que foram expostos a áreas de risco (fazendas, matas, canis de alta rotatividade).
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Cuidados no Dia a Dia

Rotina preventiva

  • Mantenha uma rotina consistente de cuidados: registre datas de vermifugação em um calendário ou aplicativo de saúde pet.
  • Observe atentamente qualquer mudança: anote alterações de apetite, peso, energia e aspecto das fezes.
  • Documente sintomas e comportamentos: fotos ou vídeos facilitam a comunicação com o veterinário.
  • Mantenha contato regular com seu veterinário: agende consultas de acompanhamento e leve o histórico de vermifugação.

Ambiente adequado

Criar um ambiente seguro e saudável é essencial para prevenir problemas relacionados a vermes.

Ação
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Limpeza diária do quintal
Reduz a carga de ovos de Toxocara e Ancylostoma.
Descarte correto de fezes
Impede a disseminação de ovos e cistos.
Controle de pulgas e carrapatos
Pulgas são hospedeiras de Dipylidium caninum.
Evite que o cão caçe roedores
Roedores são hospedeiros intermediários de Taenia.
Higiene da caixa de areia (para cães que a utilizam)
Minimiza a reinfecção por ovos.
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Diagnóstico laboratorial

Exame de fezes

  • Método Flotação (solução de açúcar ou zinco) – mais sensível para ovos leves.
  • Método Sedimentação – indicado para ovos pesados (ex.: Trichuris).
  • Teste de ELISA para antígenos de Giardia – alta especificidade.
> Dica: Realize três amostras de fezes em dias diferentes para aumentar a sensibilidade, pois a liberação de ovos pode ser intermitente.

Exames complementares

  • Hemograma completo – avalia anemia (sugestiva de Ancylostoma).
  • Radiografia de tórax – identifica fase pulmonar de Toxocara.
  • Ultrassonografia abdominal – pode detectar vermes adultos em casos de cestódeos grandes.
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Como escolher o anti‑helmíntico ideal

Principais princípios ativos disponíveis no Brasil

Princípio ativo
Observações |

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Pyrantel pamoato
Rápido, seguro em filhotes a partir de 2 sem. |

Praziquantel
Não eficaz contra nematódeos. |

Fenbendazol
Pode ser usado em gestantes (sob orientação). |

Milbemicina oxime
Necessita de teste de sensibilidade prévio. |

Moxidectina
Produto de longa ação, pode causar toxicidade em cães de raças sensíveis (Collie, etc.). |

Fatores a considerar ao escolher

  • Idade e peso – alguns produtos não são indicados para filhotes menores que 2 kg.
  • Estado fisiológico – gestação, lactação, doenças hepáticas ou renais exigem ajuste de dose ou troca de medicamento.
  • Histórico de parasitismo – infecção recorrente pode demandar anti‑helmíntico de amplo espectro ou combinação de fármacos.
  • Acesso ao medicamento – prefira produtos registrados na ANVISA e adquiridos em farmácias ou pet shops de confiança.
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Curiosidades sobre vermes em cães

  • Ciclo de vida impressionante: Toxocara canis pode levar até 4‑5 semanas para completar seu ciclo de desenvolvimento dentro do intestino do cão, mas a fase larval pode permanecer “dormindo” nos tecidos do animal por até 2‑3 meses, reativando-se quando o animal está sob estresse.
  • Vermes que “viajam” no sangue: Dirofilaria immitis (verme do coração) é transmitido por mosquitos e pode viver vários anos nos vasos pulmonares, sendo a causa da doença cardíaca conhecida como dirofilariose.
  • A “vulcão” de ovos: Um único cão adulto infectado com Toxocara pode eliminar até 200.000 ovos por dia nas fezes, o que explica a alta taxa de contaminação dos ambientes.
  • Mitos antigos: Em algumas regiões rurais do Brasil, acreditava‑se que “vermes” surgiam apenas em cães que comiam carne crua. Na verdade, a transmissão fecal‑oral é a principal via para a maioria dos nematódeos.
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Mitos e Verdades

Mito
Verdade |

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“Se o cachorro não tem vermes, não preciso vermifugá‑lo.”
Falso. Cães podem ser portadores assintomáticos e ainda assim excretar ovos que contaminam o ambiente e a família. |

“Vermífugos de uso humano funcionam nos cães.”
Falso. Medicamentos humanos podem ter dosagens inadequadas ou conter princípios ativos tóxicos para cães. Use apenas produtos veterinários. |

“Uma única dose resolve o problema para sempre.”
Falso. A maioria dos vermes tem ciclos de vida curtos; reinfecção é comum, principalmente em ambientes externos. |

“Cães que vivem dentro de casa não precisam de vermifugação.”
Falso. Mesmo em ambientes internos, o contato com fezes de outros animais ou pulgas pode levar à infestação. |

“Se eu vejo vermes nas fezes, é porque o verme está morto.”
Parcialmente verdadeiro. Alguns anti‑helmínticos matam os vermes, mas outros apenas paralisam, permitindo que ainda sejam eliminados vivos nas fezes. |

“Cães de raça grande têm menos risco de vermes que cães pequenos.”
Falso. O risco está mais relacionado ao estilo de vida e ao controle ambiental do que ao tamanho. |

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Perguntas Frequentes (FAQ)

1. Qual a primeira idade ideal para iniciar a vermifugação?

A primeira dose deve ser administrada entre 2 e 3 semanas de idade, repetindo a cada 2 semanas até os 12 semanas interrom a transmissão vertical de Toxocara da mãe para os filhotes.

2. Quantas vezes por ano devo vermifugar meu cão adulto?

A frequência varia conforme o risco de exposição:

  • Baixo risco (cão que vive exclusivamente dentro de casa, sem contato com outros animais): a cada 6 meses.
  • Risco moderado (cão que frequenta parques, creches ou tem contato com outros cães): a cada 3‑4 meses.
  • Alto risco (cão que caça, vive em áreas rurais ou tem acesso a lixo): a cada 2‑3 meses.

3. É seguro usar vermífugos em cães gestantes?

Alguns anti‑helmínticos, como o fenbendazol em dose baixa, são considerados seguros após o segundo trimestre de gestação. Contudo, a decisão deve ser tomada sempre com a orientação do veterinário, que avaliará a saúde da mãe e a necessidade de tratamento.

4. Como saber se o vermífugo funcionou?

A maioria dos vermífugos elimina os vermes em 24‑48 h. Uma boa prática é recolher fezes 2‑3 dias após a dose e enviá‑las ao laboratório para exame de flotação. A ausência de ovos indica eficácia.

5. Posso usar produtos naturais (como alho ou sementes de abóbora) como vermífugo?

Não há evidência científica robusta que comprove a eficácia desses produtos em doses seguras para cães. Alguns