Síndrome da Dilatação Gástrica (SDG): Emergência Veterinária

Introdução

A saúde do nosso companheiro de quatro patas é uma das principais preocupações de qualquer tutor responsável. Quando se trata de torção gástrica – também conhecida como síndrome da dilatação gástrica (SDG) ou torsão gástrica – é fundamental estar bem informado para reconhecer os sinais precocemente, buscar ajuda imediata e adotar medidas preventivas eficazes.

Neste guia completo, abordaremos tudo o que você precisa saber sobre a SDG: desde a fisiopatologia, fatores de risco e diagnóstico, até o tratamento de emergência, cuidados pós‑cirúrgicos e estratégias de prevenção específicas para tutores brasileiros.

Importante: este artigo tem caráter informativo. Em caso de suspeita de SDG, procure imediatamente um médico veterinário. Cada caso é único e requer avaliação clínica detalhada.


1. O que é a Síndrome da Dilatação Gástrica?

A SDG ocorre quando o estômago de um cão se enche de gás, ar ou líquido, aumentando de volume de forma rápida e, em muitos casos, torcendo‑se sobre si mesmo (torsão). Essa torção impede a passagem de conteúdo gastrointestinal e bloqueia a circulação sanguínea da parede gástrica, levando a choque, necrose e, se não tratada, à morte em poucas horas.

1.1. Terminologia

Termo
Significado |

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SDG (Síndrome da Dilatação Gástrica)
Estômago dilatado, sem torção. |

Torsão Gástrica (ou GDVGastric Dilatation‑Volvulus)
Dilatação + rotação (geralmente 180° ou 360°) do estômago. |

Torção parcial
Rotação inferior a 180°, pode evoluir para GDV. |

Síndrome de Volvulus
Torção completa, requer intervenção cirúrgico‑urgente. |


2. Epidemiologia e Raças Mais Suscetíveis

A SDG afeta principalmente cães adultos, entre 5 e 10 anos de idade, embora casos em filhotes e idosos também sejam descritos. As raças de grande porte e com tórax profundo são as mais vulneráveis, entre elas:

  • Giant Schnauzer
  • Dogue Alemão
  • Mastiff (incluindo o Mastiff Inglês e o Mastiff Francês)
  • São Bernardo
  • Labrador Retriever
  • Golden Retriever
  • Pastor Alemão
Estudos brasileiros mostram que cerca de 70 % dos casos ocorrem em cães com peso acima de 30 kg e que a incidência aumenta em períodos de alta ingestão calórica (festas, férias).


3. Fisiopatologia – Como a SDG Se Desenvolve?

  • Ingestão rápida de ar (aerofagia) – ao comer ou beber muito rápido, o cão engole ar que se acumula no estômago.
  • Distúmido de alimentos – alimentos ricos em gordura ou em grãos que fermentam rapidamente aumentam a produção de gás.
  • Dilatação – o estômago se expande, deslocando o diafragma e comprimindo vasos sanguíneos.
  • Torção – o estômago pode girar em torno de seu próprio eixo, bloqueando a saída (piloro) e a entrada (esôfago).
  • Comprometimento circulatório – a torção comprime a veia porta e as artérias gástricas, levando a isquemia da parede gástrica.
  • Choque hipovolêmico – o plasma escorre para o interior do estômago (termo “sequestro de fluido”), reduzindo o volume sanguíneo efetivo.
Essas etapas podem ocorrer em menos de 2 h, o que explica a alta mortalidade quando o diagnóstico é tardio.


4. Sinais e Sintomas Importantes

A SDG costuma se manifestar de forma súbita. Observe atentamente o seu cão e procure os seguintes indicadores:

Sinal
1. Vômito não produtivo
Indica obstrução do piloro.
2. Abdômen distendido
Sinal clássico de dilatação.
3. Salivação excessiva
Reflexo ao desconforto gástrico.
4. Agitação / Ansiedade
Resposta ao desconforto e dor.
5. Respiração rápida e superficial
Compensação ao choque e compressão do diafragma.
6. Fraqueza ou colapso
Choque hipovolêmico avançado.
7. Pupilas dilatadas
Sinal de sofrimento grave.
8. Palidez das mucosas
Redução de fluxo sanguíneo.
> Dica prática: Se notar três ou mais desses sinais simultaneamente, vá imediatamente ao pronto‑socorro veterinário mais próximo. Cada minuto conta!


5. Fatores de Risco – O que Aumenta a Probabilidade?

Fator
Como atua |

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Raça e conformação torácica profunda
Facilita a rotação do estômago. |

Alimentação em grandes porções
Aumenta a pressão intra‑abdominal. |

Comer rapidamente (bowl estreito)
Favorece aerofagia. |

Exercício intenso logo após a refeição
Movimenta o estômago ainda cheio. |

Temperatura ambiente alta
Promove vasodilatação e maior produção de gás. |

Estresse emocional
Pode acelerar a ingestão de ar. |

Obesidade
Aumenta a pressão intra‑abdominal. |

Uso de anestesia ou sedação
Reduz o tônus muscular do trato gastrointestinal. |

Estratégias de redução de risco

  • Divida a ração em pelo menos 2–3 refeições ao dia.
  • Use comedouros anti‑aerofagia (prato largo e raso).
  • Evite brincadeiras vigorosas por 1 h após a refeição.
  • Mantenha o peso ideal com dietas balanceadas e exercício regular.
  • Controle o ambiente: evite calor excessivo e situações de estresse.
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6. Diagnóstico – Como o Veterinário Confirma a SDG?

6.1. Exame Clínico

  • Palpação abdominal: o estômago pode estar “flutuante” e tenso.
  • Ausculta cardíaca e pulmonar: identificar sinais de choque.

6.2. Exames de Imagem

Exame
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Radiografia abdominal (AP e lateral)
Primeira linha de diagnóstico.
Ecocardiografia
Em casos de instabilidade hemodinâmica.
Tomografia computadorizada
Quando a radiografia é inconclusiva.

6.3. Exames Laboratoriais

  • Hemograma completo: anemia, leucocitose.
  • Bioquímica sérica: aumento de ureia, creatinina (desidratação), enzimas hepáticas (lesão isquêmica).
  • Gasometria arterial: acidose metabólica (acúmulo de ácidos lácticos).
> Nota: O diagnóstico de SDG costuma ser clínico + radiográfico. Em situações de urgência, o tratamento pode ser iniciado antes dos exames laboratoriais.


7. Tratamento de Emergência

A SDG é uma emergência cirúrgica. O objetivo é descompressão gástrica, correção da torção e estabilização hemodinâmica.

7.1. Primeiros passos (na clínica)

  • Oxigenação suplementar – máscara facial ou cânula nasal (100 % O₂).
  • Acesso venoso rápido – cateteres 14–16G nas veias jugular ou cefálica.
  • Reposição de fluidos – cristaloides isotônicos (Ringer lactato ou solução fisiológica) à taxa de 90 mL/kg nas primeiras 2 h, ajustando conforme pressão arterial e diurese.
  • Descompressão gástrica – tubo nasogástrico (NG) ou orogástrico para evacuar ar e líquido (até 2 L podem ser liberados).
> Cuidado: Não force a inserção do tubo se houver resistência; risco de perfuração.

7.2. Cirurgia (Gastropexia)

  • Procedimento padrão: Gastropexia ventral (fixação do estômago à parede abdominal) + gastropexia dorsal (fixação ao diafragma).
  • Tempo ideal: Dentro de 2–4 h após o início dos sinais.
  • Anestesia: Protocolos com mínima depressão cardiovascular (propofol + opioide + analgesia local).
#### 7.2.1. Pós‑operatório imediato

Medicação
Indicação |

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Antibióticos de amplo espectro (ex.: cefazolina ou ampicilina)
Prevenir peritonite secundária. |

Analgesia multimodal (opioides + NSAIDs)
Controle da dor e redução do estresse. |

Anti‑eméticos (maropitant, ondansetrona)
Evitar vômitos pós‑cirúrgicos. |

Inibidores de ácido (omeprazol)
Proteção da mucosa gástrica. |

7.3. Cuidados Intensivos

  • Monitorização contínua: pressão arterial invasiva, ECG, saturação de O₂, temperatura.
  • Reposição de plasma ou albumina se houver hipoalbuminemia grave.
  • Transfusão sanguínea em casos de choque hemorrágico ou anemia aguda.
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8. Prognóstico

Fator
Impacto no prognóstico |

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Tempo até a cirurgia (< 4 h)
Sobrevida > 80 % |

Presença de necrose gástral
Sobrevida < 50 % |

Choque hipovolêmico grave
Reduz taxa de sobrevivência |

Idade avançada ou comorbidades
Aumenta risco de complicações |

Em clínicas bem equipadas, a taxa de sobrevivência global varia entre 60 % e 80 %. A principal causa de mortalidade tardia é a síndrome de reperfusão (lesão por retorno do fluxo sanguíneo) que pode levar a falência múltipla de órgãos.


9. Pós‑Operatório – Cuidados em Casa

9.1. Hospitalização (24‑48 h)

  • Alimentação: Jejum nas primeiras 12 h; depois, dieta de baixa fibra e alta digestibilidade (ração “gastro‑soft”).
  • Hidratação: Fluidoterapia IV continuada até que o cão esteja estável.
  • Mobilização: Levantar o animal apenas para necessidades fisiológicas; evitar esforço.

9.2. Alta e Rotina em Casa

Ação
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Alimentação fracionada
Reduz risco de sobrecarga gástrica.
Água fresca
Evita ingestão rápida de ar.
Uso de comedouro anti‑aerofagia
Minimiza aerofagia.
Caminhadas leves
Evita esforço intenso.
Revisão veterinária
Avaliar cicatrização da gastropexia.
Medicamentos
Não interrompa sem orientação.

9.3. Sinais de Alerta Pós‑Cirúrgicos

  • Vômito recorrente ou diarreia.
  • Abdômen novamente distendido.
  • Letargia, apatia ou falta de apetite prolongada.
  • Sangramento ou secreção na incisão.
Se qualquer um desses sinais aparecer, procure o veterinário imediatamente.


10 minutos de prevenção no dia a dia – Checklist rápido para tutores

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1
Use duas tigelas ou ofereça porções menores ao longo do dia.
2
Escolha um prato largo e raso; evite “bowls” profundos.
3
Ofereça água em porções de 100 mL, espalhadas ao longo do dia.
4
Espere pelo menos 1 h antes de passear ou brincar vigorosamente.
5
Consulte o veterinário para cálculo da condição corporal (CC).
6
Em dias muito quentes, mantenha o cão em locais frescos e ventilados.
7
Rotina previsível, brinquedos de mastigação, música suave.
8
Avaliação de risco (raça, idade, histórico).
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10. Curiosidades Sobre a SDG

  • Primeiro relato: A primeira descrição da SDG data de 1821, feita pelo cirurgião britânico William Dick.
  • Mortalidade histórica: Até a década de 1970, a taxa de mortalidade ultrapassava 90 % devido à falta de técnicas de descompressão rápida.
  • Gato?: Embora rara, a SDG pode acontecer em gatos de grande porte (ex.: Maine Coon).
  • Procedimento preventivo: Em cães de risco, a gastropexia preventiva (gastropexia eletiva) pode ser recomendada a partir dos 2‑3 anos de idade.
  • Influência da genética: Estudos de associação genômica identificaram loci no cromossomo 12 relacionados à predisposição à torção gástrica em Dobermans e Great Danes.
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11. Mitos e Verdades

Mito
Verdade |

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“Só cães de raças grandes podem ter SDG”
Embora a maioria dos casos ocorra em raças grandes, cães de porte médio (ex.: Beagle) também podem ser afetados. |

“Se o cachorro não vomita, não tem problema”
A ausência de vômito não exclui a SDG; o vômito pode ser “não produtivo” (apenas ar). |

“Alimentar com ração úmida previne a torção”
A textura da ração não impede a dilatação; a velocidade da ingestão é o fator chave. |

“Dar água antes da refeição causa SDG”
A água em si não causa, mas beber rapidamente grandes volumes pode aumentar a aerofagia. |

“Uma pequena cirurgia de correção elimina o risco futuro”
A gastropexia reduz, mas não elimina completamente a chance de nova torção. |

“Só o veterinário pode fazer a descompressão”
Em situações de emergência, se não houver acesso imediato ao veterinário, inserir um tubo nasogástrico com orientação de um profissional (via telefone) pode salvar a vida do animal. |


12. Perguntas Frequentes (FAQ)

1. Quanto tempo um cão pode viver sem risco após a cirurgia?

A maioria dos tutores relata que o risco de nova torção diminui significativamente após o primeiro ano pós‑gastropexia. Contudo, a prevenção continua importante por toda a vida.

2. Posso alimentar meu cão com comida caseira após a cirurgia?

Sim, desde que seja dieta balanceada, baixa em gordura e fibra, preparada sob orientação de nutricionista veterinário. Ex.: