1. Introdução
O Shetland Sheepdog, carinhosamente chamado de “Sheltie”, conquistou o coração de milhares de tutores brasileiros graças ao seu porte elegante, inteligência aguçada e temperamento afetuoso. Originário das ilhas Shetland, na Escócia, esse pequeno pastor foi criado para conduzir rebanhos em condições climáticas adversas, o que lhe conferiu resistência, agilidade e um instinto de proteção muito desenvolvido. Hoje, o Sheltie vive principalmente como animal de companhia, destacando‑se em competições de obediência, agility e, principalmente, como membro querido da família.
Entretanto, como qualquer raça, o Sheltie possui predisposições genéticas e necessidades específicas que, se não forem atendidas, podem gerar problemas de saúde recorrentes. Muitos tutores iniciantes desconhecem essas particularidades e acabam enfrentando surpresas desagradáveis, como doenças oculares, ortopédicas ou comportamentais que exigem intervenções precoces. Este artigo foi elaborado para oferecer um panorama completo e detalhado sobre a saúde do Shetland Sheepdog, abordando desde as características físicas e comportamentais até os cuidados diários, alimentação adequada, prevenção de enfermidades e dicas práticas para quem deseja garantir uma vida longa, feliz e saudável ao seu companheiro de quatro patas.
A proposta aqui é ser um guia acessível e empático, traduzindo o conhecimento científico veterinário para uma linguagem simples e direta, sem perder a precisão. Ao final da leitura, você terá ferramentas concretas para reconhecer sinais de alerta, implementar rotinas preventivas e proporcionar ao seu Sheltie o bem‑estar que ele merece. Vamos juntos explorar o universo dessa raça encantadora e descobrir como ser o melhor parceiro humano possível!
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2. Características Principais
2.1 Aparência física
O Sheltie apresenta um porte pequeno a médio, pesando entre 6 kg e 12 kg e medindo de 33 cm a 41 cm de altura na cernelha. Seu corpo é harmonioso, com linhas elegantes, peito profundo e cauda carregada que se curva sobre as costas. A pelagem, um dos grandes atrativos da raça, é dupla: um subpelo macio que protege contra o frio e um manto externo longo, ondulado ou levemente encurvado, que pode apresentar diversas combinações de cores – sable, tricolor, azul merle, chocolate e branco são as mais comuns.
2.2 Temperamento e inteligência
O Sheltie é reconhecido como um dos cães mais inteligentes da categoria de raças de pastoreio. Ele aprende rapidamente, demonstra grande capacidade de resolução de problemas e adora agradar o tutor, o que facilita o treinamento de obediência e agility. Socialmente, é afetuoso e leal, formando vínculos estreitos com a família, mas pode ser reservado com estranhos. Seu instinto de guarda o torna vigilante, emitindo latidos de alerta quando percebe algo fora do comum.
2.3 Energia e necessidade de exercício
Apesar do tamanho compacto, o Sheltie possui energia abundante e precisa de estímulos físicos e mentais diários. Passeios de 30 a 60 minutos, combinados com brincadeiras interativas (puzzle toys, busca de objetos, treinamento de truques) são fundamentais para evitar o tédio, que pode se manifestar em comportamentos destrutivos ou ansiedade de separação.
2.4 Expectativa de vida
Com cuidados adequados, a expectativa de vida do Sheltie varia entre 12 e 15 anos, podendo chegar a 16 anos em casos de manejo preventivo rigoroso e genética favorável. Essa longevidade reforça a importância de um planejamento de saúde a longo prazo, que inclui exames regulares, vacinação em dia e acompanhamento nutricional.
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3. Cuidados Essenciais
3.1 Higiene e banho
A pelagem do Sheltie requer escovação frequente, idealmente 3 a 4 vezes por semana, usando uma escova de cerdas macias ou um pente de metal fino. Essa prática remove pelos soltos, evita a formação de nós e estimula a circulação cutânea. O banho pode ser realizado a cada 4 a 6 semanas, ou quando o cão se suja excessivamente; é importante utilizar shampoos específicos para cães de pelagem longa, preferencialmente hipoalergênicos e sem parabenos, para preservar a camada de óleos naturais.
3.2 Cuidados com as orelhas e olhos
Devido ao formato pendente das orelhas, o Sheltie é predisposto a otites. A limpeza semanal com solução isotônica ou álcool a 70 % (aplicada em algodão) ajuda a remover cera excessiva e prevenir infecções. Os olhos, por sua vez, são vulneráveis a doenças como catarata e atrofia progressiva da retina (PRA). A limpeza suave com um pano úmido, sem pressionar, remove secreções e permite a observação precoce de opacidades ou alterações na coloração da íris.
3.3 Higiene dental
A saúde bucal impacta diretamente no bem‑estar geral. Escovar os dentes do Sheltie 2 a 3 vezes por semana, usando creme dental específico para cães, reduz a formação de placa e o risco de doença periodontal, que pode levar a infecções sistêmicas. Em caso de resistência, comece com sessões curtas, recompensando o animal com petiscos saudáveis.
3.4 Controle de parasitas
A aplicação mensal de antiparasitários internos (vermífugos) e externos (pipetas ou coleiras) é essencial. Os vermes intestinais (tênias, ancilóstomos) podem causar diarreia e anemia, enquanto pulgas e carrapatos são vetores de doenças graves como a doença de Lyme e a erliquiose. Consulte o veterinário para escolher produtos adequados ao peso e idade do seu Sheltie.
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4. Alimentação e Nutrição
4.1 Necessidades calóricas
Um Sheltie adulto ativo precisa de aproximadamente 30 a 40 kcal/kg de peso corporal por dia. Para um exemplar de 9 kg, isso corresponde a 270 a 360 kcal diárias, divididas em duas refeições. Filhotes, porém, têm demandas energéticas maiores (até 50 kcal/kg) devido ao crescimento rápido e ao alto nível de atividade.
4.2 Macro e micronutrientes
- Proteínas: Devem compor 22‑30 % da dieta, preferencialmente de origem animal (frango, peixe, carne bovina), garantindo os aminoácidos essenciais para manutenção muscular e saúde da pele.
- Gorduras: Entre 12‑18 % da dieta, fornecem energia concentrada e ácidos graxos ômega‑3 e ômega‑6, importantes para a saúde ocular e a pelagem brilhante.
- Carboidratos: Embora não essenciais, podem ser incluídos em 30‑40 % da fórmula, preferindo fontes de baixo índice glicêmico (arroz integral, batata doce).
- Fibras: Entre 3‑5 % ajudam na regulação intestinal e na prevenção de constipação.
4.3 Suplementação e alimentos funcionais
- Ácidos graxos ômega‑3 (óleo de peixe): Benefícios comprovados para a saúde ocular e redução de inflamações articulares.
- Glucosamina e condroitina: Úteis na prevenção de displasia coxofemoral e osteoartrite, especialmente em cães predispostos a problemas ortopédicos.
- Antioxidantes (vitamina E, selênio): Contribuem para a proteção contra o stress oxidativo, relevante em raças com predisposição a doenças oculares.
4.4 Alimentação caseira vs. ração comercial
A ração de alta qualidade, certificada por órgãos como a AAFCO (Association of American Feed Control Officials), oferece balanceamento nutricional garantido. Caso opte por alimentação caseira, é imprescindível o acompanhamento de um nutricionista veterinário para evitar deficiências de cálcio, fósforo ou vitaminas.
4.5 Controle de peso
O Sheltie tem tendência a ganhar peso se a ingestão calórica não for ajustada ao nível de atividade. O excesso de peso sobrecarrega as articulações e aumenta o risco de displasia, diabetes e problemas cardíacos. Avalie a condição corporal mensalmente usando a “escala de condição corporal” (1‑9), buscando manter o animal entre 4 e 5.
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5. Saúde e Prevenção
5.1 Doenças oculares mais comuns
Doença |
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Catarata |
Exame oftalmológico anual; cirurgia de remoção da catarata em casos avançados |
Atrofia Progressiva da Retina (PRA) |
Teste genético (DNA) para eliminar portadores na criação; não há cura, mas adaptação e cuidados ambientais são essenciais |
Coloboma |
Avaliação precoce; geralmente não requer tratamento, porém monitorar risco de infecções oculares |
5.2 Problemas ortopédicos
- Displasia Coxofemoral (DC): Embora menos frequente que em raças maiores, a DC pode ocorrer, principalmente em indivíduos com crescimento rápido ou sobrepeso. Radiografias de quadril aos 12‑18 meses ajudam no diagnóstico precoce.
- Osteoartrite: A degeneração da cartilagem articular pode surgir a partir dos 6 anos. Suplementos de glucosamina, controle de peso e fisioterapia são estratégias eficazes.
5.3 Doenças genéticas e testes recomendados
- Teste de DNA para PRA e coloboma – Disponível em laboratórios como Embark e Wisdom Panel.
- Teste de predisposição a displasia coxofemoral – Avaliação radiográfica com classificação da Orthopedic Foundation for Animals (OFA).
- Teste de sensibilidade ao colapso pulmonar (PRA) – Importante para evitar cruzamentos entre portadores.
5.4 Vacinação e protocolos de imunização
Vacina |
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V8 (cinomose, parvovirose, adenovírus 2, parainfluenza) |
V10 (inclui leptospirose) |
Raiva |
Gripe Canina (influenza) |
5.5 Exames de rotina
- Hemograma completo e perfil bioquímico: Anual, para avaliar função hepática, renal e estado geral.
- Exame de tireoide (T4): A partir dos 5 anos, já que hipotireoidismo pode surgir em raças de porte pequeno.
- Ultrassonografia abdominal: Opcional, útil para detectar alterações em órgãos internos em cães com histórico de vômitos ou diarreia crônica.
6. Treinamento e Comportamento
6.1 Principais traços comportamentais
O Sheltie combina alta energia com sensibilidade emocional. Ele responde melhor a reforço positivo (petiscos, elogios, brincadeiras) e pode ficar frustrado com punições severas. Seu instinto de pastoreio o leva a “guiar” crianças ou outros animais, o que pode ser interpretado como “empurrão” ou “latido de comando”.
6.2 Estratégias de adestramento eficazes
- Sessões curtas e frequentes: 5‑10 minutos, 2‑3 vezes ao dia, mantendo a atenção do cão.
- Uso de clicker: O clicker cria uma associação clara entre o comportamento correto e a recompensa.
- Variedade de comandos: “Senta”, “fica”, “vem”, “deixa” e “trazer” são fundamentais para a segurança e obediência.
- Socialização precoce: Expor o filhote a diferentes ambientes, pessoas e animais até 16 semanas diminui o risco de medo ou agressividade.
6.3 Problemas comportamentais comuns
Problema |
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Latido excessivo |
Enriquecimento ambiental, brinquedos interativos, treinamento de “silêncio” |
Destruição de objetos |
Aumentar o tempo de exercício, usar brinquedos de “mastigação” duráveis |
Puxar na coleira |
Técnica “heel” com reforço positivo, uso de peitoral de treinamento |
Apego excessivo |
Treinos de “ficar” progressivos, criar rotinas de saída/chegada calmamente |
6.4 Enriquecimento mental
- Puzzle toys (Kong, Nina Ottosson) que liberam petiscos ao serem manipulados.
- Jogos de farejar (esconder petiscos em caixas ou tapetes).
- Treinamento de truques avançados (rodar, dar a pata, buscar objetos específicos).
7. Dicas Práticas para Tutores
- Crie um calendário de saúde: Anote datas de vacinação, vermifugação, exames de sangue e revisão ortopédica. Use aplicativos como “PetDesk” ou planilhas simples.
- Mantenha um kit de primeiros socorros: Inclua gaze, antisséptico, pinça para remoção de carrapatos, termômetro digital e a lista de telefones de emergência veterinária.
- Observe o comportamento diário: Qualquer mudança na ingestão de água, apetite, nível de energia ou hábitos de eliminação pode ser sinal precoce de doença.
- Proteja as patas em climas extremos: No inverno, use botinhas impermeáveis para evitar queimaduras de gelo; no verão, evite passeios nas horas mais quentes (10 h–16 h).
- Hidratação adequada: Disponibilize água fresca em vários pontos da casa e durante os passeios. Em dias de muito calor, ofereça gelo picado ou água em copos de plástico.
- Rotina de escovação dental: Se o cão resistir, introduza o hábito gradualmente, começando com a ponta da escova e recompensando com petiscos.
- Planeje o envelhecimento: A partir dos 7 anos, reduza a carga de exercícios intensos, ofereça camas ortopédicas e faça avaliações ortopédicas semestrais.
- Eduque a família: Todos os membros devem saber como lidar com o Sheltie, especialmente crianças, para evitar puxões ou brincadeiras bruscas que possam lesionar a coluna ou as articulações.
- Use transportadora segura: Para viagens de carro, escolha uma caixa de transporte com ventilação adequada e almofada, evitando deslocamentos abruptos que podem causar lesões na coluna.
- Mantenha as vacinas em dia: As imunizações não só protegem o seu cão, como também evitam a transmissão de zoonoses para a família.
8. Curiosidades e Mitos
- Curiosidade: O Sheltie tem o mesmo número de vértebras cervicais (7) que os humanos, mas sua coluna é mais flexível, permitindo que ele execute curvas fechadas ao conduzir rebanhos.
- Mito: “Shelties não precisam de muita atividade física por serem pequenos.” Na verdade, apesar do tamanho, eles são extremamente enérgicos e sofrem de problemas ortopédicos quando são subestimados.
- Mito: “Cães de pelagem longa não sofrem com alergias de pele.” A pelagem pode esconder irritações, como dermatites alérgicas, que exigem atenção veterinária.
9. Perguntas Frequentes
1. Qual a idade ideal para castrar um Sheltie?
A maioria dos veterinários recomenda castração entre 12 e 18 meses, após a primeira vacinação completa, para evitar interferência no desenvolvimento ósseo e reduzir o risco de tumores mamários e prostatite.
2. Meu Sheltie tem tendência a desenvolver problemas de displasia coxofemoral. Como minimizar o risco?
Mantenha o peso ideal, evite exercícios de alto impacto em superfícies duras até que as articulações estejam totalmente desenvolvidas (aprox. 12 meses) e ofereça suplementos de glucosamina.
3. O Sheltie pode conviver com gatos?
Sim, desde que a socialização seja feita gradualmente.