Introdução

O Scottish Terrier, carinhosamente chamado de “Scottie”, é uma raça que conquista corações pela sua personalidade forte, aparência marcante e lealdade incondicional. Originário da Escócia, esse pequeno terrier foi criado para caçar raposas, texugos e outros pequenos animais que habitavam as terras altas e rochosas das ilhas britânicas. Essa origem de caça ainda reflete no temperamento do cão: ele é corajoso, determinado e possui um faro apurado.

Para os tutores brasileiros, entender as particularidades do Scottish Terrier é essencial para garantir que o animal tenha uma vida saudável, equilibrada e feliz dentro do contexto urbano ou rural do país. O clima tropical, a rotina agitada das cidades e as diferenças culturais podem representar desafios únicos, mas, com informação correta e cuidados adequados, o “Scottie” se adapta muito bem‑estabelecido ao estilo de vida brasileiro.

Neste guia, abordaremos de forma detalhada as principais características físicas e comportamentais da raça, os cuidados essenciais que todo tutor deve observar, orientações sobre alimentação e nutrição, aspectos de saúde e prevenção de doenças, estratégias de treinamento e manejo do comportamento, além de dicas práticas para o dia a dia. Tudo isso com linguagem acessível, empática e baseada em evidências veterinárias, para que você, tutor, possa construir uma relação de confiança e bem‑estar com seu companheiro de quatro patas.

Prepare‑se para descobrir como proporcionar ao seu Scottish Terrier uma vida plena, cheia de energia, carinho e saúde – e, ao mesmo tempo, aprender a lidar com as particularidades que tornam essa raça tão especial.

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Características Principais

Aparência física


  • Tamanho: O Scottish Terrier é um cão de porte pequeno a médio, pesando entre 8,5 kg e 10,5 kg e medindo de 25 cm a 28 cm de altura na cernelha.
  • Pelagem: Possui uma pelagem dupla, com uma camada externa dura e áspera e uma camada interna macia — outra característica herdada dos cães de caça que precisavam de proteção contra o frio e a vegetação densa. As cores mais comuns são o preto, o fulvo (marrom avermelhado) e o “brindle” (mistura de preto e fulvo).
  • Cabeça: A cabeça é quadrada, com olhos escuros, amendoados e expressão alerta. As orelhas são eretas, posicionadas na altura dos olhos, conferindo ao cão um aspecto “atento”.

Temperamento


  • Independência: O Scottish Terrier tem um espírito independente e, muitas vezes, demonstra uma certa teimosia. Essa característica não deve ser confundida com agressividade; trata‑se de um cão que gosta de pensar por si e, por isso, precisa de um tutor que ofereça liderança firme, porém gentil.
  • Coragem: Apesar do tamanho reduzido, o “Scottie” possui coragem de sobra. Ele não hesita em enfrentar cães maiores ou situações desconhecidas, o que o torna um excelente guardião dentro de casa.
  • Lealdade: A lealdade à família é uma marca registrada. O cão costuma criar um vínculo muito forte com um ou dois membros da casa, sendo extremamente protetor e afetuoso nesses laços.
  • Energia: A energia do Scottish Terrier é moderada a alta. Ele adora brincar, cavar e explorar, mas também aprecia momentos de descanso ao lado do tutor. Em ambientes urbanos, passeios diários de 30 a 45 minutos são suficientes para queimar energia e evitar comportamentos indesejados.

Inteligência e sociabilidade


  • Inteligência: O “Scottie” aprende rapidamente quando o treinamento está alinhado com seu modo de pensar. Ele responde bem a técnicas baseadas em reforço positivo, mas pode perder o interesse se as sessões forem muito longas ou monótonas.
  • Sociabilidade: Socializar o cachorro desde filhote é crucial. Ele tende a ser cauteloso com estranhos e pode demonstrar desconfiança com outros animais se não for habituado adequadamente. A socialização precoce reduz o risco de comportamentos de guarda excessiva.

Compatibilidade com a vida no Brasil


  • Clima: Por ser originário de regiões frias, o Scottish Terrier pode sentir calor intenso. Em cidades brasileiras, especialmente em regiões tropicais, é importante providenciar sombra, ventilação e água fresca constantemente, bem como evitar atividades extenuantes nos horários de pico de calor (10 h–16 h).
  • Espaço: Embora se adapte bem a apartamentos, ele precisa de estímulos mentais e físicos diários para evitar o tédio. Brinquedos interativos, passeios regulares e sessões curtas de treinamento são suficientes para mantê‑lo equilibrado.
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Cuidados Essenciais

Higiene da pelagem


  • Escovação: Devido à pelagem dupla e áspera, a escovação deve ser feita 2 a 3 vezes por semana, utilizando uma escova de cerdas firmes ou uma luva de borracha. Isso remove pelos soltos, reduz a formação de nós e estimula a circulação cutânea.
  • Banho: Banhos mensais são adequados, usando shampoos específicos para peles sensíveis. Evite banhos muito frequentes, pois a camada de óleo natural pode ser removida, causando ressecamento e coceira.

Cuidados com as orelhas e olhos


  • Orelhas: As orelhas eretas são propensas a acumular cera e sujeira. Limpe-as semanalmente com um algodão embebido em solução própria para orelhas, sem introduzir objetos profundos no canal auditivo.
  • Olhos: Limpe o canto interno dos olhos com um pano macio e úmido para evitar secreções que podem causar irritação ou infecções.

Higiene dentária


  • Escovação: Escove os dentes do seu Scottish Terrier 3 a 4 vezes por semana usando uma escova e pasta de dentes específica para cães. A placa bacteriana pode levar a periodontite, que afeta a saúde geral.
  • Mordedores: Ofereça brinquedos de mastigação dental (por exemplo, ossos de nylon ou brinquedos de borracha com textura) para ajudar na limpeza mecânica dos dentes.

Exercício e estímulo mental


  • Passeios: Caminhadas curtas, de 30 a 45 minutos, duas vezes ao dia, são ideais. O “Scottie” gosta de explorar, mas não tem resistência de raças de alta performance.
  • Brincadeiras: Jogos de busca, puzzle toys e sessões de “treino de truques” são excelentes para gastar energia mental.

Ambiente seguro


  • Proteção contra calor: Em dias de verão, mantenha o cão em ambientes frescos, com ventiladores ou ar‑condicionado se necessário. Chan‑gelos ou tapetes refrescantes podem ajudar nas áreas onde o animal costuma ficar.
  • Limpeza de áreas externas: Se o cão tem acesso ao quintal, verifique a presença de objetos pontiagudos, plantas tóxicas (como azaleia, oleandro, e algumas espécies de bromélias) e lixo.

Socialização e rotina


  • Rotina consistente: Cães de temperamento independente como o Scottish Terrier prosperam em rotinas previsíveis. Alimentação, passeios e horários de brincadeira devem ser mantidos em intervalos regulares.
  • Socialização: Exponha o filhote a diferentes pessoas, sons e ambientes nos primeiros 12 a 16 meses de vida. Use reforço positivo para associar novas experiências a sentimentos agradáveis.
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Alimentação e Nutrição

Necessidades calóricas

Um Scottish Terrier adulto (10 kg) necessita, em média, de 800 a 1 000 kcal por dia, dependendo do nível de atividade, idade e condição corporal. Filhotes em fase de crescimento exigem cerca de 10 % a mais de energia para suportar o desenvolvimento ósseo e muscular.

Macro e micronutrientes essenciais

Nutriente
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Proteína
Carnes magras (frango, peru, peixe), ovos, proteína de alta qualidade em rações premium
Gordura
Óleos de peixe (ômega‑3), gordura animal presente em rações balanceadas
Carboidrato
Arroz integral, batata doce, aveia
Cálcio e fósforo
Farinha de ossos, suplementos específicos (sob orientação veterinária)
Vitamina E e selênio
Óleos vegetais, suplementos
Ácidos graxos ômega‑3
Óleo de peixe, linhaça

Escolha da ração

  • Ração seca de alta qualidade: Prefira marcas que listam a proteína animal como primeiro ingrediente e que possuam certificação de análise nutricional (AAFCO ou FEDIAF).
  • Ração úmida ou caseira: Pode ser incluída como complemento, mas deve ser balanceada para evitar deficiências. Caso opte por alimentação caseira, consulte um nutricionista veterinário para formular dietas adequadas.

Frequência das refeições


  • Filhotes (até 6 meses): 3 a 4 refeições diárias, em porções menores, para evitar sobrecarga digestiva.
  • Adultos (6 meses a 7 anos): 2 refeições diárias, com intervalos de 8 a 12 horas.
  • Sêniores (acima de 7 anos): 2 refeições diárias, porém com atenção à consistência da ração (ração e alimentos mais macios ajudam na mastigação).

Controle de peso


  • Avaliação corporal: Use a “escala de condição corporal” (BCC) – 1 (extremamente magro) a 9 (obeso). O ideal para o Scottish Terrier está entre 4 e 5.
  • Ajuste de porções: Caso o cão apresente ganho de peso, reduza 5‑10 % da quantidade diária e aumente a atividade física.

Suplementação


  • Ácidos graxos ômega‑3: Benefícios para a pelagem brilhante e saúde articular.
  • Glucosamina e condroitina: Indicado a partir dos 6 anos, especialmente se houver predisposição a displasia de quadril ou artrite.
  • Probióticos: Podem ser úteis em casos de diarreia recorrente ou após uso de antibióticos, sempre sob orientação veterinária.

Atenção a alimentos tóxicos


  • Alimentos proibidos: Chocolate, uvas/passas, cebola, alho, abacate, nozes de macadâmia, cafeína e álcool.
  • Frutas e legumes seguros: Maçã (sem sementes), cenoura, banana, melancia (sem casca). Use como petiscos moderados.
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Saúde e Prevenção

Principais doenças predispostas


Doença
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Displasia de quadril
Controle de peso, evitar exercícios de alto impacto em filhotes, avaliação ortopédica anual
Problemas dermatológicos (dermatite atópica, alergias alimentares)
Banhos regulares com shampoos hipoalergênicos, dieta hipoalergênica quando indicado, controle de pulgas e carrapatos
Doença de von Willebrand (distúrbio hemorrágico)
Testes de coagulação em criadores, evitar cirurgias eletivas sem diagnóstico prévio
Câncer de pele (sarcoma, carcinoma)
Exame dermatológico regular, evitar exposição prolongada ao sol em áreas despigmentadas
Problemas oculares (catarata, úlceras corneanas)
Limpeza ocular diária, visitas ao oftalmologista veterinário a cada 12‑18 meses
Hipoglicemia em filhotes
Alimentação frequente nos primeiros meses, monitoramento de peso

Vacinação e vermifugação

  • Vacinas essenciais: V8 (cinomose, hepatite infecciosa canina, parvovirose, coronavírus), antirrábica (anual ou trienal, conforme a legislação local) e Leptospirose (em áreas de risco).
  • Calendário de vacinação: Primeira dose aos 6‑8 semanas, reforços a cada 3‑4 semanas até 16 semanas, com reforço anual ou conforme protocolo do veterinário.
  • Vermifugados: Programa de vermifugação interno a cada 3 meses, com formulações de amplo espectro (tênias, ancilostomídeos, giárdia). Para cães que frequentam áreas verdes ou parques, a frequência pode ser aumentada para a cada 2 meses.

Controle de parasitas externos


  • Pulgas e carrapatos: Utilizar coleiras, spot‑on ou comprimidos mensais (ex.: fipronil, selamectina). Em regiões tropicais, a prevenção deve ser contínua, pois a carga de carrapatos é alta.
  • Doenças transmitidas por carrapatos: Ehrlichiose, babesiose e doença de Lyme (menos comum no Brasil, mas possível em áreas de fronteira). Realizar exames de sangue anuais se o cão tem contato frequente com áreas de mata.

Exames de rotina


  • Hemograma completo e bioquímica: Anual, para monitorar função hepática, renal e detectar alterações precoces.
  • Exame de urina: Avalia a saúde renal e presença de infecções urinárias.
  • Radiografia ortopédica: Avaliação de quadris e coluna ao atingir 1 ano, principalmente se houver histórico familiar de displasia.

Cuidados odontológicos preventivos


  • Limpeza profissional: A cada 6‑12 meses, dependendo da condição dental.
  • Escovação em casa: Como citado na seção de cuidados essenciais, reduz o risco de doença periodontal, que pode levar a complicações sistêmicas (cardíacas e renais).

Primeiros socorros básicos


  • Ferimentos: Limpar a área com solução salina, aplicar compressa estéril e buscar avaliação veterinária se houver sangramento intenso.
  • Intoxicação: Se suspeitar ingestão de substância tóxica, induzir vômito (apenas sob orientação) e levar ao pronto‑socorro veterinário.
  • Calor excessivo: Oferecer água fresca, colocar o cão em local sombreado e aplicar compressas úmidas. Caso a temperatura corporal ultrapasse 40 °C, buscar atendimento imediato.
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Treinamento e Comportamento

Princípios do treinamento positivo


  • Reforço imediato: Utilize petiscos de alta palatabilidade ou elogios verbais assim que o comportamento desejado ocorrer.
  • Consistência: Todos os membros da família devem aplicar as mesmas regras e comandos para evitar confusão.
  • Sessões curtas: O Scottish Terrier tem capacidade de atenção limitada; treinos de 5‑10 minutos, 2‑3 vezes ao dia, são mais eficazes que longas sessões.

Comandos básicos essenciais


Comando
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Sentar
Use a palavra “sentar” sempre que a ação ocorrer.
Deitar
Reforce com “deita” e elogie suavemente.
Ficar
Aumente gradualmente a distância e tempo.
Virar (recuperar o chamado)
Treine em ambientes silenciosos antes de avançar para áreas com distrações.
Não (inibição)
Quando o cão iniciar um comportamento indesejado, diga “não” firme e redirecione para um comportamento aceit