Schipperke: 5 Problemas de Saúde Mais Comuns – Guia do Tutor

“Cuidar de um Schipperke é entender que a saúde dele reflete a qualidade da nossa atenção, carinho e informação.”

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1. Introdução

O Schipperke, também conhecido como “cachorrinho de carvão”, é um pequeno cão de origem belga que conquistou corações ao redor do mundo por sua energia, inteligência e personalidade quase “guerreira”. Apesar de ser um cão de porte diminuto (geralmente entre 5 e 10 kg), ele possui um temperamento destemido e uma curiosidade que o faz explorar tudo ao seu redor. Essa combinação única de vigor e inteligência requer dos tutores um compromisso constante com a saúde preventiva, pois, como qualquer raça, o Schipperke tem predisposições genéticas a determinadas enfermidades.

Neste guia, vamos aprofundar nos aspectos essenciais para garantir que seu companheiro de quatro patas viva uma vida longa, feliz e saudável. Você encontrará informações detalhadas sobre as características físicas e comportamentais da raça, cuidados diários indispensáveis, orientações nutricionais baseadas em evidências científicas, os cinco problemas de saúde mais frequentes e como detectá‑los precocemente, estratégias de treinamento que respeitam a sensibilidade do Schipperke e, por fim, dicas práticas que facilitam o dia a dia do tutor brasileiro.

O objetivo é oferecer um material completo, escrito em linguagem acessível e empática, que ajude tanto quem está pensando em adotar um Schipperke quanto quem já convive com ele há anos. Ao final da leitura, você terá um panorama claro das responsabilidades e dos prazeres de ser tutor dessa raça tão especial, além de ferramentas concretas para promover o bem‑estar do seu cão e fortalecer ainda mais o vínculo afetivo entre vocês.

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2. Características Principais

Aparência física

O Schipperke possui um corpo compacto, musculoso e bem proporcionado. A pelagem é curta, densa e geralmente preta, embora existam variantes em tons de cinza, marrom e até mesmo branca (estas últimas são raras e podem indicar crueldade genética). O focinho é curto, mas não tão achatado quanto o de um Bulldog, e os olhos são escuros, amendoados, transmitindo uma expressão alerta e curiosa. As orelhas são eretas, triangulares e posicionadas de forma a captar qualquer som, reforçando a natureza vigilante da raça.

Temperamento e personalidade

Apesar do porte pequeno, o Schipperke tem um espírito “de grande”. Ele é corajoso, muito leal ao tutor e costuma ser bastante protetor, o que o torna um excelente cão de alerta. É inteligente, aprende rapidamente comandos e adora desafios mentais. Contudo, essa inteligência pode se transformar em teimosia se o tutor não oferecer estímulos adequados. O Schipperke tende a ser independente, mas também anseia por companhia humana, podendo desenvolver ansiedade de separação se deixado sozinho por longos períodos.

Necessidades de exercício

A energia do Schipperke é surpreendente. Ele precisa de caminhadas diárias de, no mínimo, 30 minutos, combinadas com brincadeiras interativas (puxar‑pelo, busca de objetos, puzzles). Sem essa descarga de energia, ele pode canalizar o tédio em comportamentos indesejados, como latidos excessivos, mastigação de móveis ou até tentativa de fuga.

Compatibilidade com a família

Por ser pequeno, o Schipperke se adapta bem a apartamentos, desde que receba exercício suficiente. É ótimo com crianças mais velhas que respeitam seu espaço, mas pode ser intolerante com brincadeiras agressivas. Também costuma se dar bem com outros animais, especialmente se socializado desde filhote.

Expectativa de vida

A expectativa de vida do Schipperke gira em torno de 12 a 15 anos, o que reforça a importância de um plano de saúde a longo prazo, com acompanhamento veterinário regular e prevenção de doenças hereditárias.

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3. Cuidados Essenciais

Higiene e banho

A pelagem curta do Schipperke facilita a escovação, mas ainda assim recomenda‑se escovar 2‑3 vezes por semana para remover pelos soltos e distribuir os óleos naturais da pele. O banho deve ser dado a cada 4‑6 semanas, ou quando o cão ficar realmente sujo. Use shampoos hipoalergênicos e específicos para cães, evitando produtos humanos que podem alterar o pH da pele e causar irritações.

Saúde bucal

A higiene oral é frequentemente negligenciada, mas é crucial para prevenir a doença periodontal, que pode levar à perda dentária e até a problemas sistêmicos (por exemplo, endocardite). Escove os dentes do seu Schipperke 2‑3 vezes por semana com creme dental próprio para cães, e ofereça brinquedos mastigáveis que ajudem a limpar a superfície dentária. Visitas ao veterinário para limpeza profissional a cada 6‑12 meses são recomendadas.

Controle de parasitas

Pulgas, carrapatos e vermes intestinais são ameaças reais, principalmente em climas tropicais como o do Brasil. Utilize produtos preventivos de amplo espectro (spot‑on, coleiras ou comprimidos) que sejam aprovados pela Anvisa. Realize exames de fezes a cada 6 meses para detectar vermes intestinais e siga o protocolo de desparasitação indicado pelo veterinário (geralmente a cada 3‑4 meses para filhotes e a cada 6 meses para adultos).

Visitas veterinárias regulares

Além da vacinação anual (cinomose, parvovirose, hepatite, leptospirose e raiva), o Schipperke deve fazer exames clínicos semestrais. Esses check‑ups permitem a detecção precoce de doenças, avaliação de peso, condição corporal, exames de sangue de rotina (hemograma, bioquímica) e avaliação de marcha, essencial para identificar problemas ortopédicos ou neurológicos incipientes.

Ambiente seguro

Como cães curiosos, os Schipperkes adoram explorar cantos e buracos. Mantenha objetos pequenos, fios elétricos e plantas tóxicas (como azaleia, oleandro e cicuta) fora do alcance. Instale portões de segurança em escadas e garanta que o quintal esteja cercado adequadamente para evitar fugas.

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4. Alimentação e Nutrição

Necessidades calóricas

Um Schipperke adulto ativo necessita de aproximadamente 30‑35 kcal por quilograma de peso corporal por dia. Para um animal de 7 kg, isso equivale a 210‑245 kcal diárias, distribuídas em duas refeições. Filhotes têm requerimentos maiores (até 50 kcal/kg) devido ao crescimento rápido.

Composição ideal da ração

  • Proteína: 25‑30 % (de origem animal, como frango, peixe ou carne bovina).
  • Gordura: 12‑16 % (fornece energia e ácidos graxos essenciais).
  • Carboidratos: 30‑40 % (arroz, batata‑doce, aveia).
  • Fibras: 3‑5 % (auxilia na saúde digestiva).
  • Ácidos graxos ômega‑3 e ômega‑6: importantes para pele, pelagem e função cognitiva.
Escolha rações de marcas reconhecidas que possuam controle de qualidade e que sejam formuladas para “raças pequenas” ou “cães de alta energia”. Evite alimentos com excesso de subprodutos, corantes e conservantes artificiais.

Alimentação caseira (opcional)

Se optar por cozinhar em casa, siga a regra 40 % proteína magra, 30 % carboidrato complexo, 20 % vegetais (cenoura, abóbora, vagem) e 10 % gordura saudável (azeite de oliva ou óleo de peixe). Suplementos de cálcio e vitaminas devem ser prescritos por um veterinário, pois a falta de balanceamento pode gerar deficiências ou excessos.

Controle de peso

O Schipperke tem tendência a ganhar peso se alimentado em excesso ou se não houver exercício diário. Use a “Regra dos 9” (divida o número de costelas visíveis pelo número de dobras de pele) para avaliar a condição corporal: 1‑2 = magro, 3‑4 = ideal, 5‑6 = acima do peso. Ajuste a quantidade de ração em 10 % a cada 2 semanas até alcançar o peso ideal.

Hidratação

Mantenha sempre água fresca e limpa ao alcance. Em dias muito quentes, adicione cubos de gelo ou ofereça água filtrada para incentivar a ingestão.

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5. Saúde e Prevenção

5.1 Displasia de Quadril (DQ)

Embora mais comum em raças grandes, o Schipperke pode apresentar DQ devido a predisposição genética. Sintomas incluem claudicação, relutância em subir escadas ou pular. O diagnóstico precoce ocorre por radiografias ortopédicas realizadas pelo veterin prevenção envolve evitar excesso de peso, oferecer exercícios de baixo impacto (natação, fisioterapia) e, em casos graves, intervenções cirúrgicas.

5.2 Atrofia Progressiva da Retina (PRA)

A PRA é uma doença ocular hereditária que causa perda gradual da visão, culminando em cegueira total. Os primeiros sinais são a dificuldade em enxergar em ambientes com pouca luz. Exames de fundo de olho (oftalmoscopia) e testes genéticos são essenciais para detectar portadores. Não há cura, mas a progressão pode ser retardada com suplementos de antioxidantes (vitamina E, luteína) e mantendo o ambiente livre de obstáculos.

5.3 Doença de Legg‑Calvé‑Perthes (LCP)

A LCP afeta a cabeça do fêmur, provocando necrose óssea e dor na articulação do quadril. É mais frequente em cães pequenos entre 4‑12 meses. Os sinais incluem claudicação intermitente, relutância em colocar peso na pata traseira e “caminho de pato”. O diagnóstico é por radiografia. O tratamento pode ser conservador (analgesia, restrição de atividade) ou cirúrgico (osteotomia). A prevenção ainda não é totalmente conhecida, mas a manutenção de peso adequado ajuda.

5.4 Alergias de pele (Dermatite Atópica)

Os Schipperkes podem desenvolver alergias a alimentos, ácaros ou picadas de insetos. Os sintomas são coceira intensa, vermelhidão, perda de pelos e infecções secundárias. O diagnóstico inclui teste de eliminação alimentar, raspagem de pele e exames de sangue. O manejo inclui dietas hipoalergênicas, controle ambiental (aspiração regular, capas anti‑ácaros) e medicação (corticosteroides, ciclosporina, imunoterapia).

5.5 Hipotireoidismo

O hipotireoidismo, deficiência da glândula tireoide, causa letargia, ganho de peso, queda de pelos e intolerância ao frio. É diagnosticado por exames de sangue (TSH e T4). O tratamento é simples: reposição hormonal com levotiroxina, administrada diariamente. O monitoramento regular garante ajuste da dose e evita complicações.

Estratégias de prevenção geral

Medida
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Vacinação completa
Previne doenças graves e contagiosas
Exames de sangue de rotina
Detecta alterações metabólicas precocemente
Exames oftalmológicos
Identifica PRA e outras patologias oculares
Avaliação ortopédica
Detecta DQ, LCP e outras disfunções
Controle de parasitas
Evita infestações e doenças transmitidas por parasitas
Manter um calendário de cuidados e registrar observações em um caderno ou aplicativo de saúde pet facilita a comunicação com o veterinário e a detecção precoce de problemas.

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6. Treinamento e Comportamento

Inteligência e motivação

O Schipperke aprende rapidamente, mas sua motivação está ligada a recompensas de alta qualidade (petiscos saborosos, elogios, brincadeiras). Use reforço positivo e evite punições físicas que podem gerar medo e agressividade.

Socialização precoce

A socialização deve começar entre 8 e 12 semanas de idade, expondo o filhote a diferentes pessoas, sons, superfícies e outros animais. Sessões curtas (5‑10 min) e frequentes ajudam a construir confiança sem sobrecarregar o pequeno cão.

Obediência básica

Os comandos fundamentais (sentar, ficar, vir, deitar) podem ser ensinados em 2‑3 semanas com sessões de 10‑15 min, duas vezes ao dia. O uso de clicker pode facilitar a associação entre comportamento correto e recompensa.

Controle de latidos e “cuidado” excessivo

Devido ao instinto de guarda, o Schipperke pode latir ao perceber estranhos. Ensine o comando “quieto” associando o silêncio a um petisco. Para evitar comportamentos de “cuidado” excessivo, ofereça brinquedos interativos que canalizem a energia de vigilância para resolução de puzzles.

Exercícios mentais

Jogos de busca, esconder petiscos, tapetes de farejar e brinquedos de quebra‑cabeça são excelentes para estimular a mente e prevenir o tédio. Dedique, ao menos, 15 min diários a atividades que desafiem o raciocínio do cão.

Manejo da ansiedade de separação

Se o Schipperke demonstra ansiedade ao ficar sozinho (latidos, destruição, urinar), pratique saídas curtas e gradualmente aumente o tempo de ausência. Deixe objeto com seu cheiro (camiseta) e ofereça brinquedos recheados de petiscos para distração. Em casos mais graves, consulte um profissional de comportamento ou considere o uso de feromônios sintéticos (ex.: Adaptil).

Treinamento avançado e esportes caninos

Para tutores que desejam desafios maiores, o Schipperke pode participar de agility, obediência competitiva e até rastreamento de cheiros. Essas atividades exigem preparo físico, treinamento consistente e supervisão de um treinador qualificado.

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7. Dicas Práticas para Tutores

  • Calendário de saúde – Crie uma planilha (ou use aplicativos como “Pet First Aid” ou “Guia do Pet”) onde você registre datas de vacinação, vermifugação, consultas e exames. Defina lembretes no celular.
  • Kit de primeiros socorros – Mantenha à mão: gaze estéril, antisséptico (clorexidina), bandagens, tesoura sem ponta, termômetro digital e a lista de telefones de emergência (veterinário 24 h).
  • Área de refeição – Use um prato anti‑derrapante para evitar que a ração seja espalhada. Lave o prato diariamente para prevenir proliferação de bactérias.
  • Passeios seguros – Sempre utilize coleira ou peitoral bem ajustado. Leve sacos para recolher fezes e evite áreas com alta presença de carrapatos (como matas densas) nos períodos de maior risco (primavera e verão).
  • Higiene dental em casa – Se o seu cão não aceita escova, experimente escovas de dedo ou brinquedos dentais que liberam enzimas de limpeza. Troque o brinquedo a cada 2‑3 meses.
  • Controle de peso visual – Ao tocar as costelas, você deve sentir uma fina camada de gordura, mas as costelas não devem estar “visíveis”. Ajuste a quantidade de ração se notar aumento de volume nas costelas ou dificuldade para respirar.
  • Temperatura ambiente – Em dias acima de 30 °C, ofereça sombra, água gelada e caminhadas nos horários mais frescos (antes do nascer do sol ou ao entardecer). Cães de pelagem curta ainda podem sofrer de insolação.
  • Visita ao veterinário – Leve o histórico de vacinas, exames anteriores e uma lista de sintomas observados. Isso otimiza o diagnóstico e demonstra responsabilidade.
  • Enriquecimento ambiental – Distribua brinquedos diferentes a cada semana para manter o interesse. Rotacione objetos para que o Schipperke nunca “cansado” dos mesmos.
  • Educação continuada – Participe de grupos de tutores de Schipperke nas redes sociais, assista a webinars de veterinários e mantenha-se atualizado sobre novas pesquisas (ex.: estudos sobre genética da PRA).
Ao aplicar essas práticas no cotidiano, você cria um ambiente seguro, saudável e estimulante para o seu Schipperke, reduzindo a incidência de problemas de saúde e aumentando a qualidade de vida de ambos.

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8. Considerações Finais

Cuidar de um Schipperke é uma jornada que combina paixão, conhecimento e comprometimento. Essa raça, embora pequena, carrega um espírito valente e curioso que exige atenção constante a diversos aspectos: desde a escolha de uma alimentação equilibrada até a vigilância frente a doenças hereditárias como a atrofia