Problemas neurológicos: reconhecer os sintomas

Introdução

A saúde do nosso companheiro de quatro patas é uma das principais preocupações de qualquer tutor responsável. Quando se trata de problemas neurológicos, é fundamental estar bem informado para tomar as decisões corretas e garantir qualidade de vida ao seu cão.

O sistema nervoso dos cães – composto pelo cérebro, medula espinhal e nervos periféricos – controla tudo, desde os batimentos cardíacos até a forma como ele interage com o mundo. Qualquer alteração nessa rede pode se manifestar de maneiras sutis ou dramáticas, e o tutor é o primeiro “detector” desses sinais.

Neste guia completo, vamos abordar tudo o que você precisa saber sobre problemas neurológicos em cães: reconhecer os sintomas, entender as causas mais comuns, descobrir como prevenir, saber quando buscar ajuda veterinária e ainda conferir curiosidades, mitos e verdades que circulam na internet. O objetivo é oferecer informações baseadas em evidências científicas, mas apresentadas de forma acessível e empática para tutores de todo o Brasil.


O que Você Precisa Saber

Sinais e Sintomas Importantes

A identificação precoce dos sinais neurológicos pode fazer toda a diferença no prognóstico. Observe atentamente o comportamento do seu cão e registre qualquer alteração. Alguns dos sinais mais frequentes incluem:

Sintoma
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Desorientação ou perda de equilíbrio
O cão tropeça, cai ao caminhar ou parece “tonto” ao levantar
Convulsões (crises epilépticas)
Movimentos musculares rítmicos, perda de consciência, salivação excessiva
Paralisia ou fraqueza súbita
Dificuldade em levantar, caminhar ou subir escadas; membros “caem”
Tremores ou tremores musculares
Tremor constante ou intermitente nos membros ou no tronco
Alterações de comportamento (agressividade, ansiedade, apatia)
Mudança no temperamento habitual, irritabilidade ao toque
Visão ou audição reduzidas
O cão não reage a sons ou tenta “esbarrar” em objetos
Problemas de coordenação (ataxia)
Passos descoordenados, “caminhar como bêbado”
Incontinência urinária ou fecal
Perda de controle sem estímulo adequado
> Dica prática: mantenha um diário (pode ser no celular) anotando a data, hora, duração e contexto de cada sintoma. Isso ajuda o veterinário a montar um quadro clínico mais preciso.

Prevenção é o Melhor Remédio

A prevenção sempre será a abordagem mais eficaz quando se trata de problemas neurológicos. Embora nem todos os transtornos possam ser evitados, muitas estratégias reduzem significativamente o risco:

  • Consultas regulares com veterinário de confiança – pelo menos duas vezes por ano, ou com mais frequência se o animal já tem histórico neurológico.
  • Acompanhamento preventivo através de exames de rotina – hemograma completo, bioquímica, exames de imagem (radiografia, ultrassom, tomografia e ressonância magnética) quando indicado.
  • Cuidados diários específicos – controle de parasitas internos e externos (verme, carrapato, pulga), vacinação em dia (raiva, cinomose, parvovirose) e alimentação balanceada.
  • Ambiente seguro e livre de riscos – evitar escadas escorregadias, objetos pontiagudos, produtos tóxicos (chocolate, álcool, produtos de limpeza) e temperaturas extremas.
> Importante: no Brasil, a prevalência de doenças transmitidas por carrapatos, como a erliquiose e a babesiose, tem aumentado nas regiões subtropicais. O controle rigoroso desses parasitas ajuda a prevenir encefalites infecciosas que podem causar sérios danos neurológicos.


Tipos mais comuns de problemas neurológicos em cães

1. Epilepsia idiopática

  • Definição: crises convulsivas recorrentes sem causa identificável.
  • Incidência: 0,5–5% da população canina; raças como Beagle, Border Collie e Pastor Alemão são mais predispostas.
  • Tratamento: anticonvulsivantes (fenobarbital, brometo de potássio, levetiracetam) associados a monitoramento regular de níveis séricos e efeitos colaterais.

2. Doença do disco intervertebral (DDIV)

  • Definição: hérnia ou protrusão de disco que comprime a medula espinhal.
  • Raças predispostas: Dachshund, Pug, Shih Tzu, Buldogue Francês.
  • Sinais: dor lombar, claudicação, paralisia parcial ou total.
  • Intervenção: tratamento conservador (repouso, anti-inflamatórios) ou cirurgia de descompressão.

3. Mielopatia degenerativa (Doença da “cauda de cavalo”)

  • Definição: degeneração progressiva da medula espinhal, típica em cães de grande porte com idade avançada.
  • Sinais: fraqueza progressiva, incontinência, perda de coordenação.
  • Manejo: fisioterapia, suporte de mobilidade (carrinhos, rampas) e controle da dor.

4. Encefalite infecciosa

  • Causas: vírus (cachorro parvovírus, vírus da raiva), bactérias (Listeria), protozoários (Toxoplasma) e fungos (Cryptococcus).
  • Prevenção: vacinação, controle de alimentação (evitar carne crua) e higiene ambiental.

5. Tumores cerebrais

  • Tipos: meningiomas, gliomas, adenomas.
  • Sinais: alterações de comportamento, convulsões, visão embaçada.
  • Diagnóstico: ressonância magnética (RM) e biópsia.
  • Tratamento: cirurgia, radioterapia ou quimioterapia, dependendo da localização e tipo tumoral.

6. Neuropatias periféricas

  • Exemplo: neuropatia vestibular idiopática – “síndrome da orelha de coelho”.
  • Sinais: inclinação da cabeça, nistagmo (movimento rápido dos olhos), desequilíbrio.
  • Prognóstico: geralmente autolimitado em poucas semanas, mas requer suporte.
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Diagnóstico: como o veterinário descobre a causa

  • Anamnese detalhada – o tutor descreve o início, frequência, duração e contexto dos sintomas.
  • Exame físico e neurológico – avaliação da postura, reflexos, força muscular, sensibilidade e coordenação.
  • Exames laboratoriais – hemograma, bioquímica, teste de função hepática e renal, sorologias para doenças infecciosas.
  • Imagem diagnóstica
- Radiografia: útil para avaliação de DDIV e fraturas vertebrais.

- Ultrassom: pode detectar coleções de líquido (hidrocefalia).

- Tomografia computadorizada (TC) e Ressonância magnética (RM): padrão ouro para lesões cerebrais e medulares.

  • Eletrodiagnóstico – eletroencefalografia (EEG) para epilepsia, eletromiografia (EMG) para neuropatias.
  • Punções e biópsias – análise de líquido cefalorraquidiano (LCR) e amostras de tecido, quando necessário.
> Nota para tutores: a maioria dos exames de imagem avançada (TC, RM) está disponível em grandes centros veterinários nas capitais e em algumas cidades do interior. Pergunte ao seu veterinário sobre a necessidade de encaminhamento.


Tratamento e manejo

1. Medicamentoso

  • Anticonvulsivantes (fenobarbital, brometo de potássio, levetiracetam) – monitorar níveis plasmáticos a cada 2–3 meses.
  • Anti-inflamatórios não esteroides (AINEs) – para dor e inflamação em DDIV e mielopatia.
  • Corticosteroides – em casos de inflamação aguda da medula ou meningite.
  • Antibióticos/antifúngicos – quando a causa for infecciosa.
> Dica prática: nunca interrompa a medicação sem orientação veterinária; a retirada abrupta pode desencadear crises graves.

2. Cirúrgico

  • Descompressão de disco – microdiscectomia ou hemilaminectomia, com alta taxa de sucesso em raças predispostas.
  • Ressecção tumoral – quando o tumor é operável e o animal está em boas condições de saúde geral.

3. Fisioterapia e reabilitação

  • Exercícios de fortalecimento – caminhar em esteira com suporte, hidroterapia (piscina aquecida).
  • Terapia de estimulação elétrica neuromuscular (TENS) – ajuda a melhorar a contração muscular e reduzir a dor.
  • Massagem e alongamento – promovem circulação e evitam contraturas.

4. Suporte nutricional

  • Dieta balanceada – ricas em ácidos graxos ômega‑3 (óleo de peixe), antioxidantes (vitamina E, selênio) e proteína de alta qualidade.
  • Suplementos – glucosamina e condroitina para suporte articular, N‑acetilcisteína (NAC) como antioxidante neuroprotetor (sob orientação veterinária).
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Cuidados no Dia a Dia

Rotina Preventiva

  • Mantenha uma rotina consistente de cuidados – horários regulares de alimentação, hidratação e exercícios.
  • Observe atentamente qualquer mudança – inclinação de cabeça, tremores, alterações de marcha.
  • Documente sintomas e comportamentos – fotos ou vídeos curtos ajudam na avaliação clínica.
  • Mantenha contato regular com seu veterinário – agende revisões semestralmente, ou mais frequentemente se houver histórico neurológico.

Ambiente Adequado

  • Superfícies antiderrapantes – tapetes de borracha ou carpetes em áreas onde o cão costuma caminhar.
  • Rampas e escadas com degraus baixos – facilitam o acesso a móveis ou veículos, evitando saltos bruscos.
  • Iluminação adequada – especialmente para cães idosos com visão reduzida.
  • Temperatura controlada – evite calor excessivo, pois a hipertermia pode precipitar crises convulsivas.
> Dica brasileira: em regiões de clima quente, use ventiladores ou ar‑condicionado nas áreas onde o cão descansa e ofereça água fresca a todo momento.

Estratégias de manejo em casa

Estratégia
Como aplicar |

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Repouso absoluto (após cirurgia ou crise)
Limite a movimentação a curtos períodos de caminhada controlada; use caixa ou cercado. |

Estimulação cognitiva
Brinquedos de puzzle, treinamento de comandos simples, jogos de olfato. |

Controle de dor
Analgésicos prescritos, compressas quentes ou frias conforme orientação. |

Higiene
Limpeza regular das áreas de descanso para evitar infecções secundárias. |


Curiosidades sobre o sistema nervoso canino

  • Cérebro canino tem 530 g – aproximadamente 0,25% do peso corporal, muito menor que o humano, mas extremamente eficiente para processar cheiros (até 300 vezes mais sensíveis que nós).
  • Mielina – a camada isolante dos nervos de cães é mais espessa que a de humanos, o que permite condução rápida de impulsos, porém a perda de mielina (desmielinização) pode causar síndromes neurológicas graves.
  • Cãibras de “cabeça de coelho” – a síndrome vestibular idiopática costuma ocorrer em cães idosos, mas costuma resolver em até 3 semanas sem tratamento agressivo.
  • Epilepsia canina e humana – cerca de 30% dos genes associados à epilepsia em humanos têm equivalente em cães, o que faz do animal um modelo de estudo importante.
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Mitos e Verdades

Mito
Verdade |

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“Cães só têm convulsões se comerem chocolate.”
Falso. O chocolate pode causar intoxicação, mas a epilepsia idiopática ocorre independentemente da dieta. |

“Se o cão não sente dor, o problema não é neurológico.”
Errado. Muitas lesões medulares podem ser “silenciosas” porque os nervos sensoriais são comprimidos de forma a não gerar dor. |

“Tomar remédios humanos resolve a crise do cachorro.”
Não. Medicamentos humanos podem ser tóxicos para cães (ex.: aspirina em doses inadequadas). Só use fármacos prescritos por veterinário. |

“Cães com idade avançada sempre ficam “desorientados”.
Parcialmente verdadeiro. O declínio cognitivo (demência canina) pode causar desorientação, mas nem todo cão idoso apresenta isso. |

“Um cachorro que tem tremores está com frio.”
Nem sempre. Tremores podem ser sinal de dor, ansiedade, hipoglicemia ou doença neurológica. Observe o contexto. |


Perguntas Frequentes (FAQ)

1. É normal que meu cão apresente esses sinais?

Cada cão tem seu “padrão” de comportamento. Alterações súbitas ou progressivas devem ser avaliadas. Se algo parece fora do habitual, procure o veterinário.

2. Com que frequência devo me preocupar?

A observação diária é importante, mas não é preciso ficar em estado de alerta constante. Quando notar um sintoma que persiste por mais de 24 h ou piora rapidamente, marque consulta.

3. Existem tratamentos caseiros seguros?

Algumas medidas de apoio (ambiente confortável, fisioterapia leve, alimentação adequada) são seguras, mas nunca substituem medicação prescrita. Sempre converse com o profissional antes de iniciar qualquer “remédio caseiro”.

4. Como identificar uma crise epiléptica?

Os sinais típicos incluem: sacudidas musculares rítmicas, perda de consciência, salivação excessiva, incontinência urinária ou fecal. A crise costuma durar 30 s a 2 min; após o término, o cão pode ficar confuso (fase pós‑crise) por alguns minutos.

5. Meu cão tem dor ao subir escadas, devo levá‑lo ao veterinário?

Sim. Dor ao subir escadas pode indicar DDIV, artrite ou lesão medular. O diagnóstico precoce permite tratamento conservador ou cirúrgico antes que a condição piore.

6. É possível prevenir a epilepsia?

Não há prevenção conhecida para a epilepsia idiopática, mas manter o animal livre de toxinas, evitar estresse excessivo e garantir boa nutrição pode reduzir a frequência de crises em alguns casos.

7. Quais exames devo fazer para detectar problemas neurológicos?

Hemograma, bioquímica, teste de função hepática/renal, exames de imagem (radiografia, TC, RM) e, se indicado, análise do líquido cefalorraquidiano (LCR). O veterinário define o protocolo ideal.

8. Meu cão tem “cãibras” ao acordar, é normal?

Movimentos involuntários ao despertar podem ser reflexos musculares benignos, mas se forem frequentes, intensos ou acompanhados de fraqueza, é necessário avaliação neurológica.

9. Posso usar óleo de peixe como suplemento?

Sim, o óleo de peixe (ômega‑3) tem efeito anti‑inflamatório e pode ser benéfico para doenças neurodegenerativas. Use formulações específicas para pets e siga a dose recomendada pelo veterinário.