Introdução

Os cães são nossos companheiros leais e, por isso, a saúde cardíaca deles ocupa um lugar de destaque no cuidado diário. O coração é o motor que impulsiona sangue, oxigênio e nutrientes para todos os tecidos do organismo, e qualquer comprometimento pode gerar consequências graves e até fatais. No Brasil, estima‑se que cerca de 10 % dos cães acima de sete anos de idade já apresentem algum grau de doença cardíaca, sendo que muitas vezes os sinais são sutis e passam despercebidos pelos tutores.

Identificar precocemente os sinais de problemas cardíacos é fundamental para que o veterinário possa iniciar um tratamento adequado, melhorar a qualidade de vida e, em alguns casos, prolongar a expectativa de vida do animal. Além disso, o diagnóstico precoce permite ajustar a alimentação, o nível de atividade física e os cuidados diários, evitando sobrecarga ao coração debilitado.

Neste artigo, vamos explorar de forma detalhada os principais sinais que podem indicar um problema cardíaco em cães, como diferenciá‑los de outras condições, quais cuidados essenciais devem ser adotados, a importância da nutrição e da prevenção, e ainda oferecer dicas práticas para que os tutores se sintam mais seguros e capacitados. O objetivo é fornecer informações baseadas em evidências veterinárias, sempre com uma linguagem empática e acessível, reforçando a parceria entre tutor e cão na busca por uma vida mais saudável e feliz.


Características Principais

1. Tosse persistente

A tosse seca e “galope” (às vezes descrita como “tosse de guaxinim”) é um dos sinais mais comuns de insuficiência cardíaca congestiva (ICC). Ela ocorre porque o sangue se acumula nos vasos pulmonares, gerando edema e irritando as vias aéreas. A tosse costuma piorar à noite ou após esforço físico.

2. Fadiga e intolerância ao exercício

Cães com problemas cardíacos cansam‑se mais rápido. Eles podem recusar caminhadas antes rotineiras, demonstrar dificuldade para subir escadas ou brincar. Observe se o animal parece “sem fôlego” após atividades leves que antes eram triviais.

3. Abdômen distendido (ascite)

O acúmulo de líquido na cavidade abdominal é conhecido como ascite. O abdômen do cão pode parecer “inchado” e ao tocar a região pode haver sensação de “bolhas”. Essa condição indica que o coração está incapaz de bombear o sangue adequadamente, provocando retenção de líquidos.

4. Cianose e coloração das mucosas

Mucosas (gengivas, língua, conjuntiva) com coloração azulada ou violácea sinalizam baixa oxigenação sanguínea. Embora seja um sinal avançado, a cianose deve ser tratada como emergência.

5. Palpação de pulsos fracos ou irregulares

Ao sentir o pulso na artéria femoral ou carótida, pode‑se notar que o ritmo está irregular, mais lento (bradicardia) ou mais rápido (taquicardia). Em alguns casos, o pulso pode ser tão fraco que quase não se sente.

6. Respiração ofegante ou respiração rápida (taquipneia)

A frequência respiratória normal de um cão em repouso varia entre 15 e 30 inspirações por minuto, dependendo do tamanho e da raça. Valores superiores a 40‑50 podem indicar acúmulo de líquido nos pulmões (edema pulmonar) ou esforço cardíaco.

7. Perda de apetite e emagrecimento

Problemas cardíacos crônicos podem levar à diminuição do apetite, porque o animal sente desconforto abdominal ou falta de energia para se alimentar. O emagrecimento, muitas vezes, ocorre de forma lenta e pode passar despercebido.

8. Colapso ou síncope

Em situações graves, a insuficiência de bombeamento pode causar queda repentina de pressão sanguínea, resultando em desmaio (síncope). É um alerta de que o coração não está suprindo o cérebro com sangue suficiente.

Como distinguir desses sinais de outras doenças?

  • Problemas respiratórios (asma, bronquite) podem gerar tosse, mas geralmente não vêm acompanhados de edema abdominal ou pulso fraco.
  • Doenças ortopédicas podem causar relutância em caminhar, porém não provocam cianose ou ascite.
  • Infecções sistêmicas podem gerar febre e letargia, mas raramente causam ascite sem presença de outros sinais de inflamação.
A observação cuidadosa e a consulta ao veterinário ao notar qualquer um desses sinais são cruciais para diagnóstico precoce.


Cuidados Essenciais

Avaliação veterinária regular

A base de qualquer manejo eficaz é a visita ao veterinário. Cães acima de 7 anos, raças predispostas (como Cavalier King Charles Spaniel, Doberman, Boxer) ou com histórico familiar de cardiopatias devem passar por exames cardíacos anuais, que incluem ausculta, eletrocardiograma (ECG) e ecocardiografia quando necessário.

Monitoramento em casa

  • Registro de sinais: mantenha um diário anotando frequência da tosse, número de respirações em repouso, nível de energia e alterações no apetite.
  • Medição da frequência cardíaca: a taxa normal varia de 60 a 140 bpm, dependendo do tamanho. Use um cronômetro para contar batimentos por 15 segundos e multiplique por 4.
  • Peso corporal: pese o animal semanalmente. Flutuações súbitas podem indicar retenção de líquidos.

Controle do peso

A obesidade aumenta a demanda de trabalho do coração. Um plano de redução de peso deve ser elaborado com o veterinário, combinando dieta hipocalórica e aumento gradual de atividade física.

Ambiente livre de estresse

Estresse crônico eleva a frequência cardíaca e a pressão arterial, sobrecarregando o coração. Proporcione um ambiente tranquilo, com áreas de descanso confortáveis, evitando barulhos excessivos e situações de ansiedade (como separação prolongada).

Medicação conforme prescrição

Alguns cães necessitam de diuréticos, inibidores da enzima conversora de angiotensina (IECA), betabloqueadores ou antagonistas da aldosterona. É imprescindível seguir a dose e a frequência indicadas, nunca interrompendo o tratamento sem orientação. Caso ocorram efeitos colaterais (vômito, diarreia, letargia excessiva), informe imediatamente ao veterinário.

Vacinação e prevenção de parasitas

Infecções como a dirofilariose (verme do coração) podem causar insuficiência cardíaca. A prevenção inclui a administração mensal de medicamentos antiparasitários (ex.: ivermectina, milbemicina oxima) e a vacinação contra a raiva, que, embora não cause diretamente problemas cardíacos, mantém o animal saudável e reduz o risco de complicações secundárias.

Exercício controlado

Cães com doença cardíaca leve podem beneficiar-se de caminhadas curtas e frequentes, ao invés de longas corridas. O ideal é dividir a atividade em 2‑3 sessões diárias de 10‑15 minutos, aumentando gradualmente conforme a tolerância. Observe sinais de cansaço precoce ou tosse durante o exercício.

Controle de comorbidades

Hipertensão arterial, diabetes e doença renal podem agravar a condição cardíaca. O manejo adequado dessas doenças, com dietas específicas, medicação e monitoramento, é parte integrante do cuidado cardíaco.

Resumo dos passos essenciais:

  • Consulta veterinária anual (ou semestral, se indicado).
  • Registro detalhado de sinais em casa.
  • Manutenção de peso saudável.
  • Ambiente tranquilo e livre de estresse.
  • Uso correto de medicação.
  • Prevenção de parasitas e vacinação.
  • Exercício moderado e monitorado.
  • Controle de doenças associadas.
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Alimentação e Nutrição

Dietas específicas para suporte cardíaco

Alimentos formulados para cães com problemas cardíacos contêm níveis controlados de sódio, taurina, L‑carnitina e antioxidantes (vitamina E, selênio). O sódio reduzido ajuda a evitar retenção de líquidos, enquanto a taurina e a L‑carnitina apoiam a contratilidade do músculo cardíaco.

Controle de sódio

  • Limite diário: a recomendação geral para cães com insuficiência cardíaca é de menos de 0,2 % de sódio na dieta (aproximadamente 0,08 g/kg de peso corporal).
  • Alimentos proibidos: evite petiscos salgados, alimentos processados humanos (biscoitos, batatas fritas) e caldos industrializados.

Ácidos graxos ômega‑3

EPA e DHA, presentes em óleo de peixe, possuem propriedades anti‑inflamatórias e ajudam a melhorar a função ventricular. Suplementos de óleo de peixe ou rações enriquecidas com ômega‑3 podem ser recomendados. A dose típica é de 20‑55 mg de EPA + DHA por kg de peso corporal ao dia.

Taurina e L‑carnitina

Algumas raças (como o Cocker Spaniel e o Golden Retriever) são predispostas à deficiência de taurina, que pode levar a cardiomiopatia dilatada. A suplementação preventiva, sob orientação veterinária, pode evitar o desenvolvimento da doença. A L‑carnitina auxilia no metabolismo de ácidos graxos, favorecendo a produção de energia no miocárdio.

Antioxidantes e vitaminas

  • Vitamina E e selênio: protegem as membranas celulares do estresse oxidativo.
  • Vitamina C: pode ser útil em situações de estresse fisiológico, mas sua necessidade em cães é menor que em humanos.

Porções e frequência de alimentação

Alimentar em duas ou três pequenas refeições ao dia ajuda a evitar picos de pressão arterial pós‑refeição e reduz a carga de trabalho do coração. Em cães com icc avançada, pode ser necessário dividir a dieta em porções ainda menores e mais frequentes.

Alimentos caseiros – cuidados essenciais

Se o tutor prefere preparar a comida, é crucial equilibrar proteínas magras (frango sem pele, peixe), carboidratos de baixo índice glicêmico (arroz integral, batata doce) e vegetais ricos em fibras (abóbora, cenoura). Evite ossos cozidos, condimentos ricos em sal e alimentos tóxicos (chocolate, cebola, uvas). Consulte um nutricionista veterinário para garantir que a dieta atenda às necessidades de aminoácidos, vitaminas e minerais.

Hidratação adequada

A água deve estar sempre fresca e disponível. Em casos de retenção de líquidos, o veterinário pode recomendar restrição de ingestão de água em determinados momentos, mas nunca deve ser eliminado completamente.

Checklist nutricional para tutores:

  • [ ] Escolher ração com teor reduzido de sódio e enriquecida com taurina/L‑carnitina.
  • [ ] Incluir suplemento de ômega‑3 (conforme dose indicada).
  • [ ] Oferecer duas a três refeições diárias, em porções controladas.
  • [ ] Evitar petiscos salgados e alimentos humanos ricos em sódio.
  • [ ] Manter água limpa e fresca ao alcance.
  • [ ] Consultar veterinário para ajustes de dieta em caso de progressão da doença.
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Saúde e Prevenção

Exames de rotina


  • Ecocardiografia: permite visualizar o tamanho das câmaras cardíacas, espessura das paredes e função de bombeamento. Recomendada anualmente para cães de risco.
  • Eletrocardiograma (ECG): detecta arritmias, bloqueios e alterações de condução elétrica.
  • Radiografia torácica: identifica cardiomegalia (aumento do coração) e congestão pulmonar.
  • Teste de Dirofilariose: exame de sangue ou teste de antígeno para detectar a presença do verme do coração.

Vacinação e controle de parasitas

A prevenção da dirofilariose é a medida mais eficaz para evitar a doença cardíaca causada por Dirofilaria immitis. A profilaxia mensal deve ser iniciada a partir dos 6 meses de idade, com reforço anual.

Controle de hipertensão

A pressão arterial sistólica acima de 150 mmHg em cães é considerada hipertensão e pode acelerar o dano cardíaco. Medições regulares em clínicas veterinárias ajudam a identificar a condição precocemente.

Manejo de comorbidades

  • Doença renal: ajuste de ingestão de proteína e fósforo, uso de dietas renais quando necessário.
  • Diabetes mellitus: monitoramento de glicemia e dieta baixa em carboidratos de rápida absorção.

Programa de exercícios controlado

Um programa de atividade física moderada, elaborado por um fisioterapeuta veterinário ou educador físico especializado, pode melhorar a capacidade funcional do coração sem sobrecarregá‑lo. O objetivo é aumentar a tolerância ao exercício em 5‑10 % a cada duas semanas, sempre observando sinais de fadiga ou tosse.

Educação do tutor

  • Sinais de alerta: reconhecer rapidamente tosse, cianose, ascite, colapso.
  • Uso correto de medicamentos: não interromper doses, armazenar em local fresco e seco.
  • Primeiros socorros: saber como posicionar o cão em caso de síncope (deitar em posição lateral, monitorar respiração e buscar ajuda veterinária imediatamente).

Ambiente de vida saudável


  • Ar fresco e livre de fumaça: a exposição a fumaça de cigarro ou poluentes pode irritar o trato respiratório e piorar a congestão pulmonar.
  • Temperatura controlada: calor excessivo aumenta a frequência cardíaca; mantenha o cão em ambientes com temperatura entre 18 °C e 24 °C.
Plano de prevenção anual (exemplo):

Mês
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Jan
Avaliar função cardíaca
Fev
Atualizar profilaxia
Mar
Detectar hipertensão
Abr
Ajustar doses se necessário
Mai
Confirmar dieta hipossódica
Jun
Iniciar caminhada curta
Jul
Manter calendário
Ago
Planejar redução se obesidade
Set
Verificar comorbidades
Out
Avaliar evolução clínica
Nov
Reforçar anti‑inflamatório
Dez
Definir metas de saúde
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Treinamento e Comportamento

Adaptação do treinamento físico

Cães com doença cardíaca requerem um plano de treinamento que respeite o limiar de esforço. Em vez de sessões intensas, opte por:

  • Caminhadas curtas (5‑10 min) 3‑4 vezes ao dia.
  • Jogos de busca leves em áreas planas, evitando subidas íngremes.
  • Natação (se o cão gosta de água) é excelente, pois reduz o impacto nas articulações e permite controle da intensidade.

Técnicas de reforço positivo

Use petiscos de baixa caloria e baixa sódio para recompensar comportamentos desejados. Isso evita a ingestão excessiva de sódio que poderia agravar a retenção de líquidos.

Redução de ansiedade e estresse

  • Rotina previsível: cães com ansiedade tendem a aumentar a frequênciaaca. Manter horários regulares para alimentação, passeios e descanso ajuda a estabilizar o sistema nervoso.
  • Enriquecimento ambiental: brinquedos interativos, jogos de puzzle e períodos de cheirar o ambiente estimulam mentalmente sem exigir esforço físico intenso.
  • Técnicas de dessensibilização: se o cão tem medo de barulhos (trovões, fogos), exponha-o gradualmente a sons suaves, associando-os a petiscos, para reduzir a resposta de “luta ou fuga”.

Socialização segura

A socialização com outros cães pode ser benéfica, porém deve ser feita em ambientes calmos e com supervisão. Evite parques muito movimentados ou brincadeiras que exijam corridas intensas.

Comunicação não verbal

Observe a linguagem corporal: orelhas para trás, cauda baixa e respiração ofegante são sinais de desconforto. Respeite esses sinais interrompendo a atividade e oferecendo um local tranquilo para o cão descansar.

Treinamento de comandos básicos (útil em emergências)

  • Sentar e ficar: facilita a contenção do animal em situações de emergência.
  • Vir aqui: permite chamar o cão rapidamente sem precisar de corrida.
  • Deitar: ajuda a reduzir a atividade física quando o tutor percebe sinais de fadiga.

Uso de coleiras e guias adequadas

Prefira coleiras de tecido ou peitorais ajustados que não comprimam a traqueia, pois a pressão excessiva pode dificultar a respiração já comprometida. Guias de comprimento curto permitem maior controle durante as caminhadas.

Resumo de boas práticas comportamentais:

  • Divida o exercício em blocos curtos e frequentes.
  • Recompense com petiscos