1. Introdução
O Pharaoh Hound, também conhecido como Molosso Egípcio, é uma das raças mais antigas reconhecidas pela sua elegância, velocidade e olhar “real”. Originário das Ilhas Canárias, esse cão foi trazido ao continente europeu no século XIX, conquistando rapidamente o coração de quem busca um companheiro atlético, inteligente e extremamente apegado à família.
Para quem está considerando adotar um Pharaoh Hound ou já convive com um, entender as particularidades da raça é fundamental. Eles são sensíveis a mudanças de temperatura, demandam estímulos físicos e mentais constantes e, como qualquer outra espécie, podem ser acometidos por problemas de saúde específicos. Conhecer essas vulnerabilidades permite ao tutor agir preventivamente, reduzindo sofrimento e custos veterinários.
Neste artigo, vamos percorrer um caminho completo: começaremos pelas características físicas e comportamentais que definem o Pharaoh Hound, avançaremos para os cuidados essenciais do dia a dia, abordaremos nutrição adequada, detalharemos os 5 problemas de saúde mais comuns e como preveni‑los, exploraremos estratégias de treinamento e comportamento, e finalizaremos com dicas práticas que facilitam a rotina do tutor. O objetivo é oferecer um conteúdo rico, baseado em evidências veterinárias, mas escrito em linguagem clara e empática, para que tutores brasileiros se sintam seguros e preparados para proporcionar ao seu “Faraó” uma vida longa, saudável e feliz.
2. Características Principais
Aparência física
O Pharaoh Hound apresenta um porte médio‑alto, com machos medindo entre 55 cm e 61 cm de altura na cernelha e fêmeas entre 53 cm e 58 cm. O peso varia de 20 kg a 27 kg, conferindo ao animal um aspecto atlético e elegante. Seu pelo é curto, liso e brilhante, com coloração que vai do dourado ao “pêssego” (salmão), passando por nuances mais claras quando exposto ao sol – um fenômeno conhecido como “bronzeamento”. As orelhas são longas, largas na base e finas nas extremidades, lembrando uma “cortina”.
Temperamento e personalidade
Inteligente, curioso e extremamente leal, o Pharaoh Hound tem uma ligação forte com a família, mas pode demonstrar certa reserva com estranhos. Ele adora correr, caçar e brincar ao ar livre, sendo um excelente companheiro para atividades esportivas como corrida, trilhas e agility. Apesar da sua energia, ele também aprecia momentos de sossego ao lado do tutor, preferindo ser incluído nas rotinas domésticas.
Sensibilidade ao clima
Uma característica marcante da raça é a sensibilidade ao frio. Por ter uma camada de pelo curta, o Pharaoh Hound sente desconforto em temperaturas abaixo de 15 °C por períodos prolongados. Por outro lado, ele tolera bem o calor, mas necessita de sombra e água fresca para evitar sobreaquecimento.
Expectativa de vida e longevidade
Com cuidados adequados, a expectativa de vida do Pharaoh Hound varia entre 12 e 14 anos, podendo chegar a 15 anos em casos de excelente manejo preventivo. Essa longevidade está intimamente ligada à atenção que o tutor dedica à saúde ortopédica, dental e metabólica da raça.
Compatibilidade com outros animais
Por ser um cão de caça, o Pharaoh Hound pode exibir instinto predatório natural. Socializá‑lo desde filhote com outros cães, gatos e pequenos animais é essencial para que ele aprenda a controlar esse impulso. A convivência com famílias que possuem crianças costuma ser harmoniosa, desde que as interações sejam supervisionadas e respeitem o espaço do cão.
3. Cuidados Essenciais
Higiene e banho
Devido ao pelo curto e à produção reduzida de oleosidade, o Pharaoh Hound não necessita de banhos frequentes; um banho a cada 6 a 8 semanas costuma ser suficiente, desde que o animal esteja sujo ou tenha se envolvido em atividades com odores fortes. Use shampoos específicos para cães, de preferência hipoalergênicos, para evitar irritações cutâneas. Escovar o pelo duas vezes por semana ajuda a remover pelos soltos e a distribuir os óleos naturais, mantendo o brilho característico da raça.
Cuidados dentários
A saúde bucal é frequentemente negligenciada, mas no Pharaoh Hound pode ser determinante para evitar doenças sistêmicas. Escove os dentes do seu cão ao menos 3 vezes por semana com escova e pasta de dentes específicas para pets. Ofereça brinquedos mastigáveis e petiscos dentais que auxiliem na remoção de placa. Visitas semestrais ao veterinário para limpeza profissional são recomendadas.
Controle de parasitas
Pulgas, carrapatos e vermes intestinais são problemas comuns em todo o Brasil. O uso de produtos preventivos mensais (pipetas, coleiras ou comprimidos) deve ser orientado por um veterinário, considerando a região e o estilo de vida do animal (ex.: frequentador de áreas verdes). Realizar exames de fezes a cada 6 meses permite monitorar a carga parasitária e ajustar o protocolo de desparasitação.
Exercício diário
O Pharaoh Hound possui um nível de energia alto. Pelo menos 1 hora de atividade física diária é ideal: corrida, brincadeiras com bola, jogos de busca e sessões de agility. Para evitar sobrecarga articular, especialmente em filhotes e cães idosos, divida a atividade em períodos curtos ao longo do dia e inclua períodos de descanso.
Acompanhamento veterinário regular
Consultas de rotina a cada 6 meses (ou anualmente, se o animal for adulto saudável) são essenciais. Nessas visitas, o veterinário avalia peso, condição corporal, exames de sangue básicos (hemograma, perfil bioquímico) e faz a atualização de vacinas. Cães acima de 7 anos podem necessitar de exames mais específicos, como radiografias articulares e avaliação cardíaca.
Ambientação e conforto
Forneça uma cama ortopédica, preferencialmente com espuma de memória, para proteger as articulações, principalmente em climas frios. Mantenha o ambiente livre de objetos pontiagudos e evite pisos escorregadios, pois a raça tem tendência a correr em alta velocidade e pode escorregar.
4. Alimentação e Nutrição
Necessidades calóricas
Um Pharaoh Hound adulto ativo requer entre 1.200 e 1.600 kcal/dia, dependendo do peso, nível de atividade e metabolismo. Filhotes em fase de crescimento podem precisar de até 30 % a mais de energia para garantir o desenvolvimento ósseo e muscular adequado.
Dieta balanceada
A base da alimentação deve ser ração de alta qualidade, formulada para raças de porte médio e com proteína animal de origem identificada como primeiro ingrediente (ex.: frango, cordeiro ou peixe). A presença de ácidos graxos ômega‑3 e ômega‑6 auxilia na saúde da pele, pelagem e no controle de inflamações articulares.
Alimentação caseira (opcional)
Se o tutor optar por dieta caseira, deve consultar um nutricionista veterinário para garantir a proporção correta de proteínas, carboidratos, gorduras, vitaminas e minerais. Uma combinação típica inclui:
- Proteína magra (carne magra, peixe sem espinhas ou ovos) – 40 %
- Carboidrato complexo (arroz integral, batata doce, quinoa) – 30 %
- Vegetais (abóbora, cenoura, espinafre) – 20 %
- Óleos saudáveis (azeite de oliva, óleo de peixe) – 5 %
- Suplementos (cálcio, complexo vitamínico) – 5 %
Controle de peso
Obesidade é um fator de risco para várias das doenças que afetam o Pharaoh Hound (por exemplo, displasia coxofemoral e problemas cardíacos). Monitorar a condição corporal usando a escala de 1 a 9 (onde 4‑5 indica peso ideal) ajuda a ajustar a quantidade de alimento. Reduza a ingestão calórica em 10‑15 % se o cão apresentar aumento de gordura nas costelas e na base da cauda.
Hidratação
Mantenha sempre água limpa e fresca ao alcance do animal. Em dias quentes, troque a água a cada 2‑3 horas para evitar a formação de lodo ou bactérias.
Suplementação para articulações
Devido à predisposição a displasia e artrite, muitos tutores adicionam condroitina, glucosamina e MSM à dieta. Estudos indicam que a suplementação regular pode retardar a progressão de lesões articulares, principalmente em cães com mais de 5 anos de idade. Consulte o veterinário antes de iniciar qualquer suplemento.
5. Saúde e Prevenção
Nesta seção, detalharemos os 5 problemas de saúde mais comuns no Pharaoh Hound, explicando causas, sinais clínicos, diagnóstico e estratégias preventivas.
1. Displasia Coxofemoral (DC)
O que é? A DC é uma malformação do quadril que leva ao desgaste articular precoce e dor crônica. Embora a predisposição genética seja alta, fatores ambientais, como crescimento rápido e excesso de peso, agravam a condição.
Sinais: Manqueira ao subir escadas, relutância em correr, postura com as pernas traseiras ligeiramente afastadas. Em estágios avançados, o cão pode apresentar inchaço na região do quadril e diminuição da atividade física.
Diagnóstico: Radiografias ortopédicas feitas em posição de “drenagem” (fluoroscopia) são o padrão‑ouro. O veterinário classifica a gravidade em graus (I‑IV).
Prevenção:
- Controle de peso desde filhote.
- Alimentação balanceada, evitando alimentos ricos em energia excessiva.
- Exercício moderado: evitar corridas intensas e saltos até os 12‑meses de idade.
- Suplementação com glucosamina e condroitina a partir dos 2 anos, conforme orientação veterinária.
2. Problemas oculares – Ceratoconjuntivite Seca (Síndrome de KCS)
O que é? Diminuição da produção lacrimal, resultando em ressecamento da córnea e conjuntiva. A raça tem predisposição devido à anatomia da pálpebra e ao histórico de caça em ambientes áridos.
Sinais: Olhos vermelhos, secreção mucosa, sensação de “areia” nos olhos, dificuldade ao abrir os olhos pela manhã.
Diagnóstico: Teste de Schirmer (medida da produção lacrimal) e exame oftalmológico completo.
Prevenção e manejo:
- Uso de colírios lubrificantes (artificial tears) duas a três vezes ao dia, indicado pelo veterinário.
- Evitar exposição a vento forte e fumaça.
- Limpeza suave da região periocular com solução fisiológica.
3. Cardiomiopatia Dilatada (CCD)
O que é? Doença cardíaca progressiva que causa dilatação e enfraquecimento do músculo cardíaco, levando a insuficiência cardíaca. Embora menos frequente que em raças gigantes, há relatos de CCD em Pharaoh Hound, especialmente em cães acima de 8 anos.
Sinais: Tosse seca, fadiga ao caminhar, aumento da frequência respiratória, abdômen distendido (ascite).
Diagnóstico: Ecocardiograma, eletrocardiograma (ECG) e exames de sangue (BNP, troponina).
Prevenção:
- Check‑up cardíaco anual a partir dos 5 anos, com ecocardiograma de rastreamento.
- Controle de peso e exercício moderado, evitando sobrecarga.
- Dieta rica em taurina e antioxidantes (ex.: vitaminas E e C).
4. Hipotireoidismo
O que é? Deficiência da glândula tireoide, que reduz o metabolismo e pode causar ganho de peso, queda de pelos e letargia.
Sinais: Aumento de peso inexplicado, pelagem opaca e queda de pelos, apatia, intolerância ao frio.
Diagnóstico: Exames de sangue que medem T4 livre e TSH.
Tratamento: Administração diária de levotiroxina (hormônio sintético) – dose ajustada pelo veterinário.
Prevenção: Não há prevenção genética, mas a detecção precoce por meio de exames anuais facilita o tratamento e evita complicações secundárias.
5. Alergias Cutâneas e Dermatite Atópica
O que é? Reação alérgica a alérgenos ambientais (pólen, ácaros) ou alimentares, que causa coceira intensa e inflamação da pele.
Sinais: Coceira nas orelhas, face, axilas e região inguinal; vermelhidão, escamação e perda de pelos.
Diagnóstico: Testes de alergia cutânea (intraderma) ou exames de sangue (IgE) e eliminação dietética.
Manejo:
- Banhos com shampoos hipoalergênicos e condicionadores específicos.
- Controle ambiental (ar-condicionado, tiras antiácaros).
- Medicamentos anti‑histamínicos, corticosteroides de curta duração ou ciclosporina, conforme prescrição.
- Dieta hipoalergênica (rações de proteína única ou dietas de prescrição).
Estratégias Preventivas Gerais
- Vacinação em dia: V8 ou V10, conforme recomendação regional, protegendo contra cinomose, parvovirose e leptospirose.
- Exames de sangue regulares: Avaliar função hepática, renal e tireoidiana.
- Higiene dental: Como mencionado na seção de cuidados essenciais, a prevenção de doença periodontal reduz risco de endocardite bacteriana.
- Monitoramento de comportamento: Alterações súbitas no nível de atividade ou humor podem ser o primeiro sinal de dor ou desconforto.
6. Treinamento e Comportamento
Socialização precoce
A socialização deve iniciar entre 3 e 12 semanas de idade, expondo o filhote a diferentes pessoas, sons, superfícies e outros animais. Essa fase diminui a probabilidade de desenvolvimento de medo excessivo ou agressividade territorial.
Obediência básica
Comandos como “sentar”, “ficar”, “vir” e “deitar” são fundamentais para a segurança do cão, principalmente em áreas abertas onde o instinto de caça pode levá‑lo a correr atrás de animais. Utilizar reforço positivo (petiscos, elogios e brincadeiras) é a estratégia mais eficaz para a raça, que responde bem a estímulos motivacionais.
Exercícios mentais
Além da corrida, o Pharaoh Hound adora desafios que estimulam o cérebro: puzzles de comida, jogos de “esconde‑esconde” e treinamento de agilidade (circuitos com túneis, saltos e slalom). Sessões de 10‑15 minutos, 3‑4 vezes por semana, ajudam a prevenir comportamentos indesejados como mastigação destrutiva ou latidos excessivos.
Controle do impulso de caça
Treinar o comando “deixe” ou “não” ao encontrar pequenos animais (coelhos, pássaros) é essencial. Use a técnica de “recompensa por distração”: quando o cão perceber o alvo, redirecione a atenção para um brinquedo ou comando já conhecido e recompense imediatamente.
Problemas comportamentais comuns
- Ansiedade de separação: O Pharaoh Hound pode ficar inquieto quando deixado sozinho por longos períodos. Estratégias incluem deixar brinquedos interativos, criar uma rotina de saída/chegada tranquila e, se necessário, usar feromônios sintéticos (ex.: Adaptil).
- Latidos excessivos: Muitas vezes ligados à caça ou ao tédio. A prática de exercícios físicos e mentais, aliada ao treinamento de “quieto”, reduz esse comportamento.
- Destruição de objetos: O tédio ou energia acumulada podem levar à mastigação de móveis. Disponibilizar brinquedos de resistência (KONG, brinquedos de corda) e dividir o dia em blocos de atividade ajuda a canalizar essa energia.
Dicas de treinamento avançado
- Agility: A raça tem velocidade e agilidade naturais, tornando‑o perfeito para competições de agility. Inscreva‑se em aulas específicas e use reforço positivo para manter a motivação.
- Obediência avançada: Trabalhar com “aportar objetos específicos” ou “trazer nomes de brinquedos” estimula a inteligência e fortalece o vínculo tutor‑cão.
7. Dicas Práticas para Tutores
- Calendário de saúde: Crie