Introdução

O Pharaoh Hound, também conhecido como Cão-Faraó, é uma das raças mais antigas e elegantes do mundo canino. Originário da ilha de Malta, esse cão de caça traz em sua aparência a reminiscência dos cães representados em hieróglifos egípcios, o que justifica o nome “Pharaoh”. Apesar de sua história milenar, o Pharaoh Hound ainda é relativamente pouco conhecido no Brasil, e muitos tutores que decidem adotá‑lo se deparam com dúvidas específicas sobre como proporcionar uma vida saudável e feliz a esse companheiro tão singular.

Entender as particularidades dessa raça – desde seu temperamento ativo e inteligente até as necessidades de cuidados físicos e emocionais – é fundamental para evitar problemas de saúde, comportamentais e de bem‑estar. Neste artigo, vamos percorrer, passo a passo, tudo o que um tutor brasileiro precisa saber para garantir que seu Pharaoh Hound tenha qualidade de vida, longevidade e uma relação harmoniosa com a família.

Abordaremos as características principais que definem o padrão da raça, os cuidados essenciais diários, a alimentação e nutrição adequadas, as principais questões de saúde e como preveni‑las, estratégias de treinamento e comportamento, além de dicas práticas que facilitam a rotina do tutor. O objetivo é oferecer um conteúdo completo, baseado em evidências veterinárias e em boas práticas de manejo, de forma clara, empática e acessível, para que você, tutor, se sinta confiante e preparado para assumir a responsabilidade de cuidar de um Pharaoh Hound.

Vamos começar conhecendo as particularidades que tornam essa raça tão especial e, ao mesmo tempo, exigente em alguns aspectos.


Características Principais

O Pharaoh Hound possui um conjunto de traços físicos e comportamentais que o diferenciam de outras raças. Seu porte é médio‑alto, com machos pesando entre 27 kg e 32 kg e fêmeas entre 23 kg e 27 kg. A pelagem curta, lisa e fina apresenta duas cores predominantes: tigrado (sable) e prata, sendo que a transição de cor ao longo da vida é característica marcante – filhotes nascem de cor dourada ou “leite” e, gradualmente, desenvolvem a coloração adulta, processo conhecido como “tiger‑striping”.

Do ponto de vista anatômico, o Pharaoh Hound tem orelhas largas e eretas, olhos amendoados que conferem uma expressão alerta e curiosa, e um focinho longo e estreito. Essa conformação lhe garante excelente visão e olfato, habilidades essenciais para sua função original de caça ao coelho. A estrutura óssea é robusta, mas ao mesmo tempo ágil, permitindo corridas de alta velocidade e saltos impressionantes – a raça pode alcançar até 48 km/h em curtas distâncias.

Em termos de temperamento, o Pharaoh Hound é extrovertido, afetuoso e extremamente leal ao seu tutor. Ele adora estar perto de pessoas, demonstra grande entusiasmo ao receber carinho e costuma ser muito sociável com crianças e outros animais, desde que seja socializado desde filhote. Contudo, sua energia quase inesgotável pode ser um desafio para quem leva uma vida mais sedentária. Essa raça necessita de atividade física diária – passeios longos, brincadeiras interativas e oportunidades de correr em áreas seguras são indispensáveis.

Inteligência e capacidade de aprendizado são outras marcas registradas. O Pharaoh Hound responde bem a métodos de treinamento positivos, como reforço com petiscos e elogios, mas pode se mostrar teimoso se perceber que o tutor não está comprometido. Ele também possui um instinto de caça forte, o que o faz perseguir pequenos animais (gatinhos, roedores, pássaros) se não for devidamente controlado.

Por fim, a sensibilidade ao clima merece destaque. Por ter pelagem curta, o Pharaoh Hound pode sentir frio em temperaturas abaixo de 15 °C, sendo recomendável o uso de roupinhas ou cobertores em dias mais frios, principalmente para filhotes e cães idosos.

Essas características definem tanto os encantos quanto as exigências da raça, servindo de base para os cuidados que serão detalhados nas próximas seções.


Cuidados Essenciais

Higiene e cuidados diários


  • Escovação: apesar da pelagem curta, escovar o Pharaoh Hound duas vezes por semana ajuda a remover pelos soltos, distribuir os óleos naturais da pele e detectar possíveis irritações ou parasitas.
  • Banho: dê banho a cada 30 a 45 dias, ou quando o cão ficar realmente sujo. Use shampoos neutros, preferencialmente hipoalergênicos, para evitar ressecamento da pele.
  • Limpeza das orelhas: a forma ereta das orelhas favorece a ventilação, mas pode acumular cerúmen. Limpe semanalmente com solução específica para cães, usando algodão ou gaze macia.

Exercício físico


  • Passeios diários: pelo menos 1 h a 1 h 30 min de caminhada ou corrida, dividido em duas sessões, para atender à necessidade de gasto energético.
  • Espaço para correr: se possível, ofereça um quintal cercado ou leve o cão para parques caninos. O Pharaoh Hound adora correr livremente, mas sempre sob supervisão para evitar fugas.
  • Brincadeiras interativas: jogos de buscar (fetch), esconde‑esconde com brinquedos e obstáculos (agility caseiro) estimulam a mente e o corpo.

Enriquecimento ambiental


  • Brinquedos de roer: forneça brinquedos de borracha ou cordas para aliviar a ansiedade e manter a dentição saudável.
  • Puzzles alimentares: distribuidores de ração que exigem que o cão resolva um quebra‑cabeça ajudam a reduzir o tédio e a compulsão alimentar.

Socialização


  • Contato precoce: exponha o filhote a diferentes pessoas, ambientes, sons e outros animais até os 4 meses de idade. Isso diminui comportamentos de medo ou agressividade no futuro.
  • Aulas de obediência: grupos de adestramento são excelentes para socializar e ensinar comandos básicos como “sentar”, “ficar” e “vir”.

Segurança em casa


  • Portões e portões de segurança: certifique‑se de que o quintal esteja bem cercado, pois o instinto de caça pode levar o cão a sair em busca de pequenos animais.
  • Identificação: microchip e coleira com plaqueta contendo nome, telefone e endereço são obrigatórios por lei e fundamentais em caso de perda.
Esses cuidados essenciais são a base para garantir que o Pharaoh Hound viva de forma saudável, feliz e bem‑equilibrada dentro do contexto familiar brasileiro.


Alimentação e Nutrição

Uma dieta balanceada é a pedra angular da saúde de qualquer cão, e no caso do Pharaoh Hound, que tem alta demanda energética, a atenção à alimentação torna‑se ainda mais crucial.

Necessidades calóricas


  • Adultos ativos: entre 1 800 e 2 300 kcal por dia, dependendo do peso, nível de atividade e metabolismo individual.
  • Filhotes: necessitam de até 30 % a mais de energia para suportar o rápido crescimento; rações específicas para filhotes de raças médias são recomendadas.

Macronutrientes


Nutriente
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Proteína
Construção e reparo muscular, pele e pelos
Gordura
Fonte de energia, absorção de vitaminas A, D, E, K
Carboidrato
Energia de liberação lenta, fibra para saúde intestinal
Proteínas de alta qualidade (frango, peixe, carne bovina magra) são essenciais para manter a musculatura robusta, sobretudo em cães que praticam atividades intensas. As gorduras devem conter ácidos graxos essenciais, como ômega‑3 (EPA/DHA) e ômega‑6, que favorecem a saúde da pele, do pelo e a resposta anti‑inflamatória.

Micronutrientes e suplementos

  • Cálcio e fósforo: fundamentais para a saúde óssea, especialmente em filhotes; a relação ideal é 1,2 : 1.
  • Vitamina E: antioxidante que protege as células contra o estresse oxidativo, muito importante para raças atléticas.
  • Glucosamina e condroitina: podem ser incluídos em cães adultos que já apresentam leves sinais de desgaste articular, prevenindo a osteoartrite.

Frequência das refeições


  • Filhotes (até 6 meses): 4 refeições diárias, em porções menores.
  • Filhotes (6 meses – 1 ano): 3 refeições diárias.
  • Adultos: 2 refeições diárias, preferencialmente com intervalo de 8 a 12 h.

Alimentação caseira ou “DIY”

Caso o tutor opte por preparar a comida em casa, é imprescindível seguir a formulação balanceada por um nutricionista veterinário, garantindo a presença de todos os aminoácidos essenciais, vitaminas e minerais. Uma refeição típica pode incluir:

  • 40 % de proteína magra (frango sem pele, carne magra, peixe)
  • 30 % de carboidrato complexo (arroz integral, batata‑doce, quinoa)
  • 20 % de vegetais (abóbora, cenoura, brócolis)
  • 10 % de gordura saudável (azeite de oliva, óleo de peixe)

Atenção a alimentos tóxicos


  • Chocolate, uvas, cebola, alho, álcool, cafeína e ossos cozidos são proibidos e podem causar intoxicação grave.
  • Alimentos com alto teor de sódio (sopas, embutidos) devem ser evitados, pois aumentam o risco de hipertensão.

Controle de peso

Manter o peso corporal dentro da faixa ideal (aprox. 23 – 30 kg) reduz a incidência de doenças ortopédicas e metabólicas. Use a escala de condição corporal (BCS) – de 1 a 9 – e ajuste a quantidade de ração conforme necessário.

Ao seguir essas diretrizes nutricionais, o tutor assegura que o Pharaoh Hound receba a energia e os nutrientes necessários para sustentar seu estilo de vida ativo e prevenir desequilíbrios de saúde.


Saúde e Prevenção

A longevidade do Pharaoh Hound, que costuma variar entre 12 e 14 anos, depende diretamente de um plano de saúde preventivo bem estruturado. Abaixo, as principais condições clínicas que afetam a raça e as medidas de prevenção recomendadas.

Doenças ortopédicas

  • Displasia coxofemoral: embora menos frequente que em raças grandes, ainda pode ocorrer. A prevenção inclui controle de peso, exercícios de baixo impacto (natação) e suplementação com glucosamina.
  • Osteoartrite: comum em cães mais velhos. Antiinflamatórios não esteroides (AINEs) prescritos por veterinário, junto a suplementos de condroitina, ajudam a controlar a dor.

Problemas oculares


  • Catarata juvenil: pode aparecer entre 2 e 4 anos. Exames oftalmológicos anuais são essenciais; intervenções cirúrgicas precoce podem preservar a visão.
  • Uveíte: inflamação interna do olho que exige tratamento imediato com colírios anti‑inflamatórios e antibióticos.

Condições dermatológicas


  • Dermatite alérgica: a pele curta facilita a detecção de irritações. Banhos com shampoos de avena ou óleo de coco, além de dietas hipoalergênicas, são estratégias de manejo.
  • Micoses: fungos de pele podem ser controlados com antifúngicos tópicos ou sistêmicos, conforme orientação veterinária.

Doenças cardíacas


  • Cardiomiopatia dilatada: embora rara, o acompanhamento com ecocardiograma a cada 2–3 anos permite diagnóstico precoce.

Parasitas internos e externos


Parasita
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Câncer (linfoma, mastocitoma)
Exames de sangue regulares, vacinação contra vírus oncogênicos (não há vacina específica, mas manter a saúde geral ajuda)
Pulgas e carrapatos
Produtos tópicos mensais (fipronil, selamectina) + inspeção diária
Vermes intestinais (tênias, ancilóstomos)
Desparasitação a cada 3 meses, com medicamentos como praziquantel + pyrantel

Vacinação

  • Vacinas essenciais: V8 (cinomose, hepatite infecciosa, parvovirose, adenovírus tipo 1 e 2, leptospirose) + raiva.
  • Calendário típico no Brasil: 8, 12, 16 semanas (primeira série), reforço aos 1 ano e, depois, a cada 1‑3 anos conforme a vacina.

Exames de rotina


  • Hemograma completo e bioquímica: a cada 12 meses para detectar alterações metabólicas.
  • Exame de urina: importante para detectar doenças renais precocemente, especialmente em cães mais velhos.
  • Escala de condição corporal (BCS): avaliação trimestral para ajustar dieta e atividades.

Cuidados dentários


  • Escovação: 2‑3 vezes por semana com escova e pasta própria para cães.
  • Limpeza profissional: a cada 6‑12 meses para prevenir a periodontite, que pode levar a problemas cardíacos.
Manter um registro de saúde (vacinas, vermifugação, exames) em um caderno ou aplicativo facilita o acompanhamento e garante que nenhum procedimento seja esquecido. A prevenção é sempre mais eficaz e econômica que o tratamento de doenças avançadas.


Treinamento e Comportamento

O Pharaoh Hound possui inteligência e energia que, quando canalizadas corretamente, resultam em um companheiro obediente e bem‑adaptado. Contudo, a falta de orientação pode gerar comportamentos indesejados, como excesso de latidos, perseguição de pequenos animais e destruição de objetos.

Princípios de adestramento positivo


  • Reforço imediato: ofereça petisco ou elogio logo após o comportamento desejado; a associação deve ser clara.
  • Consistência: todos os membros da família devem usar os mesmos comandos e regras.
  • Sessões curtas: 5‑10 minutos, 2‑3 vezes ao dia, mantêm a atenção do cão sem sobrecarregar.
  • Variedade de recompensas: além de petiscos, use brinquedos, carícias e palavras de incentivo.

Comandos básicos essenciais


Comando
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Sentar
Segure o petisco acima da cabeça; ao levantar a cabeça, o bumbum naturalmente desce.
Deitar
Após “sentar”, mova o petisco para frente e para baixo; o cão seguirá o movimento.
Ficar
Comece a poucos passos, recompense o cão que permanecer; aumente gradualmente a distância.
Vir
Use a voz alegre, chame pelo nome + “vem”; recompense ao chegar.
Soltar
Ofereça troca (troque o objeto por um petisco).

Controle de impulso e caça

  • Jogo de “espera” antes de abrir a porta ou de iniciar a caminhada ensina autocontrole.
  • Treino de “deixe‑isso” impede que o cão persiga pequenos animais. Use o comando “não” ou “deixa” seguido de redirecionamento para um brinquedo.

Socialização avançada


  • Encontros controlados: leve o cão a parques com outros cães bem‑educados e observe a linguagem corporal.
  • Exposição a ruídos: reproduza sons de trânsito, trovões e fogos em volume baixo, aumentando gradualmente.

Atividades de estímulo mental


  • Agility caseiro: use cones, túneis de papelão e barras de salto baixas; isso ajuda a canalizar energia física e mental.
  • Obediência avançada: “buscar objetos específicos”, “colocar brinquedo na caixa”, “girar”.

Problemas comportamentais e soluções rápidas


Problema
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| Latidos excessivos