Introdução

O Pekingês, também conhecido como Pekingese, é um dos cães mais antigos e emblemáticos da história canina. Originário da China imperial, esse pequeno mascote era reverenciado como um “cão‑leão” e mantido nos palácios como símbolo de status, proteção e boa sorte. Hoje, o Pekingês conquistou lares ao redor do mundo, especialmente no Brasil, onde sua aparência delicada, personalidade cativante e tamanho compacto o tornam um companheiro ideal para apartamentos, casas e famílias de diferentes estilos de vida.

Entretanto, antes de decidir incluir um Pekingês na família, é fundamental compreender profundamente suas características físicas, necessidades de cuidados, temperamento e possíveis desafios de saúde. Como tutores, nosso papel vai muito além de oferecer abrigo e alimento; trata‑se de promover um ambiente que respeite a natureza da raça, assegurando bem‑estar físico, mental e emocional. Este artigo foi elaborado para proporcionar uma visão abrangente, baseada em evidências veterinárias e em experiências de criadores e tutores experientes, de modo que você possa tomar decisões informadas e criar um vínculo saudável e duradouro com seu pequeno leão de pelúcia.

Ao longo das próximas seções, abordaremos os principais traços do Pekingês, os cuidados essenciais que ele demanda, a alimentação mais adequada, os pontos críticos de saúde, estratégias de treinamento e comportamento, além de dicas práticas para o dia a dia. O objetivo é que você se sinta confiante e preparado para oferecer ao seu Pekingês tudo o que ele precisa para viver feliz, saudável e equilibrado ao seu lado.


Características Principais

Aparência física

O Pekingês possui um corpo compacto, musculoso e bem estruturado, apesar de seu tamanho diminuto. A altura média varia entre 15 e 23 cm na cernelha, e o peso costuma ficar entre 3,5 kg e 6 kg. Seu crânio é largo, com um focinho curto (braquicefálico) e olhos grandes, escuros e expressivos, que conferem um olhar “cativante”. A pelagem é uma das marcas registradas da raça: densa, longa e dupla, com fios finos na camada interna e mais grossos na externa. As cores mais frequentes são dourado, marrom, preto, branco, cinza e combinações dessas tonalidades.

Temperamento e personalidade

O Pekingês é conhecido por ser extremamente leal e apegado ao tutor principal, demonstrando um forte instinto de “cão de companhia”. Ele tende a ser reservado com estranhos, mas não agressivo; costuma reagir com latidos curtos quando sente que seu território está sendo invadido. Essa atitude protetora, aliada ao seu tamanho diminuto, faz com que alguns tutores o descrevam como “um pequeno guardião”.

Apesar de sua aparência delicada, o Pekingês tem uma personalidade bastante digna e até um pouco teimosa. Ele gosta de ser o centro das atenções, adora receber mimos e costuma ser bastante sensível a mudanças no ambiente. É um cão que prefere ambientes calmos e estável, e pode ficar ansioso em situações de barulho excessivo ou em locais muito movimentados.

Energia e nível de atividade

Em termos de energia, o Pekingês se enquadra na categoria de cães de baixa a moderada. Ele aprecia caminhadas curtas – de 15 a 30 minutos – e sessões de brincadeiras dentro de casa, como buscar bolinhas leves ou brincar com brinquedos de pelúcia. Por ser braquicefálico, ele tem maior propensão a cansaço respiratório, portanto, exercícios intensos ou em clima quente devem ser evitados.

Inteligência e capacidade de aprendizado

A inteligência do Pekingês é considerada “media‑alta”. Ele aprende rapidamente quando a recompensa é prazerosa (petiscos, carinhos, elogios), mas pode se mostrar obstinado se perceber que o treinamento não traz benefícios imediatos. Por isso, a consistência, a paciência e o reforço positivo são essenciais para obter bons resultados.

Sociabilidade

Com socialização precoce, o Pekingês pode conviver bem com outros cães, gatos e até pequenos animais, desde que respeite seu espaço e seja apresentado de maneira gradual. No entanto, devido ao seu instinto de proteção ao tutor, pode desenvolver ciúmes se perceber que a atenção está sendo dividida. É importante ensinar ao cão que a presença de outros animais ou pessoas não representa ameaça.


Cuidados Essenciais

Higiene da pelagem

A pelagem do Pekingês requer atenção diária ou, no mínimo, três a quatro vezes por semana. A escovação com uma escova de cerdas macias ou um pente de aço inoxidável ajuda a evitar nós, emaranhados e a remoção de pelos mortos. Em períodos de muda (geralmente na primavera e no outono), o número de escovações pode ser aumentado para duas vezes ao dia, prevenindo a formação de “bolas de pelo” que podem causar desconforto e até problemas de pele.

Banho

Devido à densidade da pelagem, o banho deve ser realizado a cada 15 a 30 dias, ou quando o cão apresentar odor ou sujeira excessiva. Use shampoos específicos para cães com pelagem longa e sensível, preferencialmente hipoalergênicos e sem fragrâncias agressivas. Enxágue bem para evitar resíduos que possam irritar a pele. Após o banho, seque a pelagem com toalha e, se necessário, use um secador em temperatura morna, mantendo uma distância segura para não queimar a pele delicada.

Higiene facial e ocular

A anatomia braquicefálica do Pekingês predisponha a secreções oculares e lacrimejamento excessivo (epífora). Limpe suavemente os cantos dos olhos diariamente com um lenço úmido ou algodão macio embebido em solução fisiológica. Se notar acúmulo de secreção marrom‑amarelada, pode ser sinal de infecção ocular, exigindo avaliação veterinária.

Limpeza das orelhas

As orelhas do Pekingês são pequenas, mas bastante dobradas, criando um ambiente propício ao acúmulo de cera e umidade. Verifique semanalmente e limpe com uma solução específica para limpeza auricular, usando um cotonete ou gaze. Evite introduzir objetos profundos no canal auditivo para não causar lesões.

Corte de unhas

Deve ser realizado a cada 15-30 dias, ou quando as unhas começarem a tocar o chão ao caminhar. Use cortador de unhas específico para cães pequenos e, se possível, peça orientação ao veterinário ou ao groomer nas primeiras vezes, para evitar cortar a “rápida” (vaso sanguíneo) que causa sangramento e dor.

Exercício e estimulação mental

Além de caminhadas curtas, inclua brinquedos interativos (puzzle toys) e sessões de treinamento de obediência para estimular a mente do Pekingês. A estimulação mental ajuda a prevenir comportamentos indesejados, como latidos excessivos ou destruição de objetos, e fortalece o vínculo entre tutor e cão.

Ambiente seguro

Devido ao seu tamanho diminuto, o Pekingês pode ser facilmente ferido por objetos pesados ou quedas. Mantenha o chão livre de brinquedos pequenos que ele possa engolir, e evite deixá‑lo em áreas onde possa escalar e cair de móveis altos. Use tapetes antiderrapantes para prevenir escorregões, especialmente em pisos lisos.


Alimentação e Nutrição

Necessidades calóricas

Um Pekingês adulto, com peso entre 4 kg e 5 kg, requer aproximadamente 300 a 400 kcal por dia, dependendo do nível de atividade e da idade. Filhotes em fase de crescimento podem precisar de 20‑30 % a mais de energia, enquanto cães idosos podem ter necessidades ligeiramente reduzidas.

Tipo de ração

Escolha uma ração premium de alta qualidade, formulada para cães de pequeno porte, com partículas menores que facilitem a mastigação. A presença de proteína de origem animal (frango, peixe ou cordeiro) como primeiro ingrediente é essencial para o desenvolvimento muscular e manutenção da massa magra. Evite rações com excesso de subprodutos, corantes artificiais e conservantes de baixa qualidade.

Alimentação caseira

Se optar por alimentação caseira, garanta que a dieta seja balanceada com proteínas (carnes magras, ovos), carboidratos de fácil digestão (arroz integral, batata doce), vegetais (abóbora, cenoura) e fontes de ácidos graxos essenciais (óleo de peixe ou linhaça). Contudo, a alimentação caseira deve ser supervisionada por nutricionista veterinário, para evitar deficiências de vitaminas (como a vitamina D) ou excessos de minerais (cálcio, fósforo).

Suplementação

  • Ácidos graxos ômega‑3: ajudam a manter a pelagem brilhante e reduzem inflamações cutâneas.
  • Probióticos: favorecem a saúde gastrointestinal, especialmente em cães que apresentam sensibilidade alimentar.
  • Glucosamina e condroitina: podem ser indicados em cães mais velhos ou com predisposição a problemas articulares, mas sempre sob orientação veterinária.

Controle de peso

O Pekingês tem tendência a ganhar peso facilmente, devido à sua predisposição genética para obesidade e ao estilo de vida mais sedentário. Mantenha o peso ideal monitorando a condição corporal (avaliando a definição das costelas e a cintura) e ajuste a quantidade de alimento conforme necessário. Evite oferecer restos de mesa, petiscos em excesso e alimentos ricos em gordura.

Hidratação

A hidratação adequada é crucial, principalmente em climas quentes. Certifique-se de que o seu Pekingês tenha acesso a água fresca e limpa em todos os momentos. Troque a água diariamente e lave o recipiente para evitar a formação de biofilme.

Alimentação em situações especiais

  • Gestação e lactação: fêmeas gestantes ou lactantes necessitam de uma dieta com maior teor calórico (aproximadamente 30‑40 % a mais) e com nutrientes essenciais como ácido fólico e DHA.
  • Doenças renais ou hepáticas: pode ser necessária dieta de baixa proteína ou baixa fosfato, sempre prescrita por um veterinário.
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Saúde e Prevenção

Principais doenças da raça

Doença
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Síndrome braquicefálica
Controle de peso, evitar exercícios intensos em clima quente, cirurgias corretivas (palato, narinas)
Olho em lágrima (epífora)
Limpeza diária, uso de colírios lubrificantes, avaliação oftalmológica
Problemas dentários (tartar, periodontite)
Escovação dental diária, brinquedos dentais, limpeza profissional semestral
Luxação patelar
Controle de peso, fisioterapia, cirurgia em casos graves
Hipoglicemia em filhotes
Alimentação frequente, monitoramento de glicemia, intervenção veterinária rápida
Problemas de pele (dermatite, alergias)
Banhos adequados, dieta hipoalergênica, tratamento tópico ou sistêmico

Vacinação

A vacinação básica (V8 ou V10) deve ser iniciada aos 6‑8 semanas de vida, com reforços a cada 3‑4 semanas até 16 semanas, seguida de revacinação anual. Vacinas essenciais incluem: cinomose, parvovirose, hepatite infecciosa canina (adenovírus), parainfluenza, leptospirose (de acordo com a região) e raiva (obrigatória em muitas cidades).

Vermifugação

Filhotes devem ser vermifugados a cada 15 dias até os 3 meses de idade, depois mensalmente até os 6 meses e, a partir daí, a cada 3‑6 meses, conforme a exposição a ambientes externos. Use produtos recomendados por veterinário, adequados ao peso do animal.

Controle de ectoparasitas

Pulgas e carrapatos são vetores de doenças como a doença de Lyme e a babesiose. Utilize coleiras, spot‑on ou comprimidos mensais, sempre aprovados pelo Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV).

Exames de rotina

  • Exame físico anual: avaliação de pele, olhos, ouvidos, dentição, articulações e condição corporal.
  • Hemograma e bioquímica: a cada 1‑2 anos, ou com maior frequência em cães idosos.
  • Radiografia: útil para detectar luxação patelar ou alterações articulares em cães com claudicação.
  • Teste oftalmológico: ao menos a cada 2 anos, para monitorar problemas de epífora e catarata precoce.

Cuidados preventivos específicos

  • Manter o peso ideal: reduz risco de sobrecarga articular e síndrome braquicefálica.
  • Limpeza regular dos olhos: evita infecções secundárias.
  • Escovação dental: diminui a incidência de periodontite, que pode levar a problemas sistêmicos (cardíacos, renais).
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Treinamento e Comportamento

Princípios do treinamento positivo

O Pekingês responde melhor a métodos baseados em reforço positivo – recompensas como petiscos, brinquedos e elogios verbais. Evite punições físicas ou gritos, pois a raça tende a ficar ansiosa e pode desenvolver medo ou agressividade latente.

Socialização precoce

A partir das 8 semanas de idade, exponha o filhote a diferentes ambientes (parques, ruas, casas de amigos), sons (aspirador, carro, trovão) e pessoas de diversos perfis. A socialização reduz o risco de medo excessivo e comportamentos de proteção exagerada.

Obediência básica

  • Sentar: segure um petisco acima da cabeça do cão e mova-o ligeiramente para trás; ao sentar, ofereça o petisco e elogie.
  • Deitar: a partir da posição sentada, leve o petisco ao chão e lentamente para frente; ao deitar, recompense.
  • Virar: use um comando como “vem” ou “aqui”; chame o cão com voz suave e ofereça petisco ao chegar.
Pratique em sessões curtas (5‑10 min) e frequentes, mantendo a motivação alta.

Controle de latidos e comportamento protetor

O Pekingês pode latir ao perceber estranhos ou ruídos. Para gerenciar, siga o método “quieto”: aguarde o cão ficar silente, então recompense imediatamente. Se o latido for desencadeado por situações específicas (visita, porteiro), use a técnica de dessensibilização, expondo o estímulo gradualmente e associando-o a recompensas.

Treinamento para uso do banheiro

Devido ao pequeno tamanho, o Pekingês pode ser treinado para usar tapetes higiênicos ou uma caixa de areia para cães. Coloque o tapete em um local de fácil acesso e leve o filhote ao local após refeições, sonecas e brincadeiras. Recompense sempre que ele eliminar no local correto.

Enriquecimento ambiental

  • Brinquedos interativos: puzzles que liberam petiscos ao serem resolvidos.
  • Jogos de busca: use bolas leves ou brinquedos macios.
  • Treino de truques: “dar a pata”, “rodar”, “fingir de morto”. Esses exercícios estimulam a mente e fortalecem o vínculo.

Manejo da ansiedade de separação

Alguns Pekingês desenvolvem ansiedade quando deixados sozinhos. Estratégias incluem:

  • Desensibilização gradual: comece deixando o cão sozinho por poucos minutos, aumentando progressivamente o tempo.
  • Objetos com seu cheiro: deixe uma camiseta ou cobertor que carregue seu odor.
  • Brinquedos recheáveis: encha um Kong com pasta de amendoim ou iogurte natural congelado para mantê‑lo ocupado.
Se a ansiedade for severa, consulte um veterinário para avaliar a necessidade de intervenção medicamentosa ou de um especialista em comportamento.


Dicas Práticas para Tutores

  • Rotina consistente – Cães prosperam com horários previsíveis. Defina horários fixos para alimentação, passeios, brincadeiras e descanso.
  • Ambiente livre de perigos – Remova objetos pequenos que possam ser engolidos, fios elétricos expostos e plantas tóxicas (como lírio, azaléia).
  • Identificação – Coloque uma plaquinha com telefone e endereço na coleira e considere microchipar o animal; isso aumenta as chances de reencontro em caso de fuga.
  • Visitas regulares ao veterinário – Mesmo sem sinais de doença, exames anuais ajudam a detectar problemas precocemente.
  • Corte de pelos estratégico – Em climas muito quentes, pode ser útil aparar levemente a pelagem (não a tosa completa) para melhorar a ventilação e evitar superaquecimento.
  • Treino de “não subir” – Devido à fragilidade da