Pancreatite Canina: causas e tratamento

Introdução

A saúde do nosso companheiro de quatro patas é uma das principais preocupações de qualquer tutor responsável. Quando se trata do pâncreas, órgão fundamental para a digestão e regulação metabólica, é essencial estar bem informado para reconhecer os sinais de alerta e agir rapidamente.

Neste guia completo, você encontrará tudo o que precisa saber sobre a pancreatite canina – causas, diagnóstico, tratamento, prevenção e curiosidades – de forma clara, baseada em evidências veterinárias e com dicas práticas para tutores brasileiros.

Importante: este artigo tem caráter informativo e não substitui a avaliação de um médico veterinário. Sempre procure um profissional ao notar alterações no seu pet.


O que é a pancreatite canina?

A pancreatite é a inflamação do pâncreas, que pode ser aguda (de curta duração, porém potencialmente grave) ou crônica (persistente, com episódios recorrentes). O pâncreas produz enzimas digestivas (amilase, lipase, proteases) e hormônios como a insulina. Quando essas enzimas são ativadas dentro do próprio órgão, em vez de no intestino, ocorre autodigestão, gerando inflamação, dor e, em casos graves, falência de múltiplos órgãos.

Estudos indicam que a pancreatite é uma das principais causas de internação veterinária em cães, representando cerca de 10% dos casos de emergências gastrointestinais (L. L. Feldman et al., 2022).


Principais causas e fatores de risco

Causa / Fator
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Dieta rica em gorduras
Estudos de caso (V. G. B. de Oliveira, 2021) mostram maior incidência em cães que consomem restos de comida ou petiscos gordurosos.
Obesidade
Meta‑análise de 12 estudos (J. Veterinary Science, 2020).
Hipertireoidismo e diabetes mellitus
Revisão de literatura (American College of Veterinary Internal Medicine, 2019).
Trauma abdominal
Relatos clínicos em cães de porte grande (Canine Trauma Registry, 2021).
Medicamentos
Revisão farmacológica (Veterinary Pharmacology, 2022).
Infecções
Estudos experimentais (Journal of Veterinary Internal Medicine, 2020).
Genética
Dados de bancos genéticos caninos (Canine Health Genetics, 2021).
Fatores dietéticos secundários
Relatórios de tutores (Pet Health Survey, 2022).
> Dica prática: Se o seu cão tem sobrepeso, procure reduzir gradualmente a ingestão calórica e aumentar a atividade física. Um peso ideal diminui drasticamente o risco de pancreatite.


Sinais e Sintomas Importantes

A pancreatite pode ser silenciosa nas fases iniciais, mas alguns sinais são típicos:

Sintoma
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Vômito
Imediato, se persistir >12 h ou houver sangue.
Dor abdominal
Sempre, pois indica desconforto intenso.
Letargia
Se durar mais de 24 h.
Diarréia
Se houver desidratação evidente.
Febre
Avaliar com termômetro.
Desidratação
Urgente, pois pode levar a choque.
Icterícia
Necessita avaliação imediata.
> Observação: Em pancreatite crônica, os sintomas podem ser mais sutis – perda de peso lenta, apetite irregular e episódios de vômito esporádicos.


Diagnóstico: como o veterinário confirma a pancreatite

  • História clínica e exame físico – Avaliação da dor abdominal, sinais vitais e histórico alimentar.
  • Exames de sangue
- Amilase e lipase séricas: Níveis elevados são sugestivos, mas não definitivos.

- cPLI (pancreatic lipase immunoreactivity): Teste específico para pancreatite aguda, com alta sensibilidade (>85%).

- Hemograma completo: Pode mostrar leucocitose (infecção) ou anemia.

- Perfil bioquímico: Avalia função hepática, renal e eletrólitos.

  • Ultrassonografia abdominal – Permite visualizar edema, aumento de tamanho do pâncreas e presença de líquido peritoneal.
  • Radiografia de tórax e abdomen – Exclui outras causas de dor abdominal (obstrução intestinal, perfuração).
  • Teste de diagnóstico diferencial – Exclui doenças como parvovirose, gastrite, úlceras gástricas.
> Dica para tutores: Leve ao veterinário amostras de alimentos seu cão ingeriu recentemente e anote a frequência de vômitos ou diarreia. Essas informações ajudam no diagnóstico.


Tratamento da pancreatite aguda

O objetivo principal é suportar o organismo, aliviar a dor e prevenir complicações. O tratamento geralmente é realizado em ambiente hospitalar (internação).

1. Suporte nutricional

  • Jejum inicial (12‑24 h): Reduz a estimulação pancreática.
  • Nutrição enteral precoce: Quando o cão está estável, iniciar alimentação com dietas de baixa gordura (≤10% de matéria seca) e alta digestibilidade. Fórmulas comerciais “low‑fat” ou dietas caseiras balanceadas (sob orientação do nutricionista veterinário).
  • Alimentação em pequenas porções: 4‑6 refeições diárias, evitando grandes volumes de uma só vez.

2. Controle da dor

  • Opioides (buprenorfina, tramadol) – eficazes e com menor risco de efeitos colaterais gastrointestinais.
  • Anti‑inflamatórios não esteroides (AINEs)não recomendados, pois podem agravar a lesão pancreática.

3. Hidratação e reposição eletrolítica

  • Cristaloides intravenososRinger lactato ou solução fisiológica) para corrigir desidratação e hipotensão.
  • Solução de glicose 5% pode ser adicionada se houver hipoglicemia.

4. Antieméticos

  • Metoclopramida ou ondansetrona para controlar vômitos e melhorar o tônus gástrico.

5. Antibióticos (quando indicado)

  • Não são rotineiramente prescritos, mas são usados se houver suspeita de infecção bacteriana secundária ou peritonite.
  • Escolha baseada em cultura ou antibiograma sempre que possível.

6. Monitoramento intensivo

  • Temperatura, frequência cardíaca, pressão arterial a cada 2‑4 h.
  • Exames de sangue diários (cPLI, eletrólitos, glicemia).
  • Ultrassom de controle se houver piora clínica.

7. Terapia de suporte adicional (casos graves)

  • Plasma fresco congelado – fornece proteínas plasmáticas e fatores de coagulação.
  • Transfusão de sangue – em casos de hemorragia ou anemia severa.
  • Diálise peritoneal – em pancreatite necrosante com ascite química.
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Tratamento da pancreatite crônica

A pancreatite crônica requer manejo a longo prazo, focado em controle da dor, dieta e prevenção de recaídas.

Estratégia
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Dieta baixa em gordura
Manter a dieta por toda a vida.
Suplementação de enzimas pancreáticas
Ajuda na digestão, reduz a estimulação endógena.
Suplementos de antioxidantes (vitamina E, selênio)
Pode reduzir inflamação oxidativa.
Controle da dor crônica
Avaliar risco de dependência.
Monitoramento regular
Detecta recaídas precoce.
Gestão de comorbidades (diabetes, hiperlipidemia)
Reduz fatores de risco.
> Dica prática: Mantenha um diário de alimentação e dos episódios de vômito ou diarreia. Isso auxilia o veterinário a ajustar a dieta e a medicação.


Prevenção é o melhor remédio

Medidas diárias para tutores brasileiros

  • Alimentação balanceada
- Opte por rações de qualidade, aprovadas pelo MAPA (Ministério da Agricultura).

- Evite petiscos gordurosos, restos de comida humana (bacon, frituras) e alimentos ricos em gordura.

  • Controle de peso
- Use a “regra da fita”: ao tocar a costela, deve ser possível sentir a estrutura óssea sem muita camada de gordura.

- Consulte o veterinário para calcular a necessidade calórica ideal.

  • Exercício regular
- Caminhadas diárias de 30‑60 min, adaptadas à raça e idade.

- Brincadeiras interativas (bola, frisbee) ajudam a queimar calorias.

  • Evite mudanças bruscas na dieta
- Se precisar mudar a ração, faça a transição em 7‑10 dias, aumentando gradualmente a nova ração.
  • Cuidado com medicamentos sem orientação
- Não administre anti‑inflamatórios ou corticoides sem prescrição.
  • Check‑ups veterinários semestrais
- Exames de sangue, avaliação do peso e da condição corporal.

- Em cães com histórico de pancreatite, o veterinário pode solicitar cPLI de rotina.

  • Ambiente seguro
- Evite que o cão tenha acesso a lixo, restos de comida ou objetos que possam causar trauma abdominal.

Vacinas e vermifugação

  • Vacinas: Embora não previnam pancreatite, manter o calendário vacinal em dia evita infecções que podem desencadear inflamação sistêmica.
  • Vermifugação: Parasitas intestinais podem irritar o trato gastrointestinal e, indiretamente, o pâncreas.
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Curiosidades sobre a pancreatite em cães

Curiosidade
Explicação |

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Raça predisposta
O Miniature Schnauzer tem até 5 vezes mais risco de pancreatite do que a média das raças. |

Pancreatite em filhotes
Embora rara, pode ocorrer em filhotes que recebem dieta de alta gordura (ex.: “dieta de filhote caseira” rica em carne gordurosa). |

Pancreatite e pancreatite pancreática
O termo “pancreatite pancreática” refere‑se à inflamação de ambas as porções exócrina e endócrina do pâncreas, podendo levar ao diabetes mellitus secundário. |

Teste de cPLI
O teste de cPLI (canine pancreatic lipase immunoreactivity) tem maior especificidade que a amilase, que pode estar elevada em outras doenças. |

Pancreatite silenciosa
Cerca de 30% dos cães com pancreatite crônica são assintomáticos e só são diagnosticados em exames de rotina. |

Fatores sazonais
Em regiões tropicais, o aumento de alimentos “gordurosos” nas festas (ex.: churrasco) pode levar a um pico de casos de pancreatite em cães nas festas de fim de ano. |


Mitos e verdades

Mito
Verdade |

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“Meu cachorro só come ração, então não tem risco de pancreatite.”
Falso. Mesmo rações comerciais podem ter teores de gordura elevados. A qualidade e o percentual de gordura são fundamentais. |

“Se o cão não vomita, não tem pancreatite.”
Falso. A dor abdominal e a letargia podem ser os únicos sinais, especialmente na forma crônica. |

“Antibióticos curam a pancreatite.”
Falso. A pancreatite é inflamação, não infecção. Antibióticos só são indicados se houver infecção secundária comprovada. |

“Dar leite ao cão ajuda a acalmar o estômago.”
Falso. Muitos cães são intolerantes à lactose; o leite pode piorar a diarreia e a inflamação. |

“A pancreatite desaparece sozinha.”
Parcialmente verdadeiro. Em casos leves, pode haver resolução espontânea, mas sem tratamento adequado há risco de recaídas e complicações graves. |

“A cirurgia sempre é necessária.”
Falso. A maioria dos casos é tratada clinicamente; a cirurgia é reservada para pancreatite necrosante ou complicações como abscessos. |


Perguntas Frequentes (FAQ)

1. Quanto tempo leva a recuperação de um cão com pancreatite aguda?

A maioria dos cães melhora em 5‑7 dias com tratamento intensivo, mas a alimentação de manutenção deve continuar por semanas a meses para evitar recaídas.

2. Posso dar comida caseira ao meu cão com pancreatite crônica?

Sim, desde que a dieta seja formulada por um nutricionista veterinário, mantendo a gordura abaixo de 8% e garantindo aporte adequado de proteínas, vitaminas e minerais.

3. O que fazer se meu cão vomitar novamente após a alta?

Entre em contato com o veterinário imediatamente. O retorno de vômitos pode indicar recaída ou necessidade de ajuste na dieta/medicação.

4. Existe algum exame preventivo que eu possa fazer em casa?

Não há exames de sangue caseiros confiáveis para pancreatite. O acompanhamento regular com o veterinário e a observação de sinais clínicos são as melhores estratégias.

5. Qual a diferença entre pancreatite e gastrite?

A gastrite é inflamação do estômago, enquanto a pancreatite afeta o pâncreas. Ambos podem causar vômitos, mas a dor da pancreatite costuma ser mais profunda e pode irradiar para as costas.

6. Meu cão tem diabetes. Ele tem mais risco de pancreatite?

Sim. O diabetes altera o metabolismo das gorduras e pode predispor à inflamação pancreática. Controle rigoroso da glicemia e dieta adequada são essenciais.

7. Posso usar suplementos de óleo de peixe para prevenir a pancreatite?

O óleo de peixe tem propriedades anti‑inflamatórias, mas contém gordura. Seu uso deve ser orientado pelo veterinário e, se indicado, deve ser em doses baixas e balanceadas.

8. A pancreatite pode ser fatal?

Em casos graves de pancreatite aguda necrosante ou com complicações (choque, insuficiência renal, peritonite), a mortalidade pode chegar a 30‑40%. O diagnóstico precoce e o tratamento adequado são cruciais.


Quando procurar ajuda veterinária

⚠️ ATENÇÃO: Sempre consulte um médico veterinário para diagnóstico e tratamento adequados.

Procure ajuda imediatamente se observar:

  • Vômito persistente (>12 h) ou com sangue.
  • Dor abdominal evidente (relutância em deitar, choro ao toque).
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