1. Introdução
O Otterhound, ou Cão de Lontra, é uma raça rara e pouco conhecida no Brasil, mas que tem conquistado corações ao redor do mundo graças ao seu temperamento equilibrado, aparência marcante e habilidades de caça que ainda hoje impressionam. Originário da Inglaterra, esse cão foi desenvolvido no século XIX para rastrear e capturar lontras nas águas frias dos rios e lagos britânicos. Seu nome já revela a principal missão histórica: “otter” (lontra) + “hound” (cão de caça).
Para quem está considerando adotar um Otterhound, entender suas particularidades é essencial. A raça combina força física – músculos bem desenvolvidos e um corpo robusto – com um instinto de trabalho que exige estímulos mentais e físicos constantes. Não é um cão que se contenta em ficar o dia inteiro no sofá; ele precisa de atividades que desafiem seu faro apurado e sua energia natural.
Além disso, o Otterhound tem um temperamento tipicamente afetuoso e leal. Ele costuma criar laços profundos com a família e demonstra grande paciência com crianças, desde que seja socializado desde filhote. Contudo, seu instinto de caça pode gerar comportamentos de perseguição a pequenos animais, o que exige atenção e treinamento adequado.
Neste artigo, vamos explorar em detalhes as características físicas e comportamentais da raça, os cuidados essenciais para garantir saúde e bem‑estar, orientações de alimentação, dicas de treinamento e sugestões práticas para quem já tem ou pretende ter um Otterhound como companheiro. Tudo isso com linguagem clara, empática e baseada em evidências veterinárias, para que tutores brasileiros possam oferecer o melhor ambiente possível a esse cão tão especial.
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2. Características Principais
Aparência física
O Otterhound apresenta um porte médio‑grande, com altura que varia entre 58 cm e 71 cm na cernelha e peso entre 27 kg e 38 kg. Seu corpo é compacto, porém musculoso, com peito profundo que favorece a resistência ao nadar – atividade que, historicamente, era parte do seu trabalho de caça. A pelagem é uma das marcas mais distintivas: longa, densa e ondulada, com cores que vão do cinza ao preto, passando por tons de marrom e “sable”. Essa camada dupla protege o animal do frio e da umidade, mas também demanda cuidados regulares para evitar emaranhados.
Olhos e expressão
Os olhos são de tamanho médio, de coloração marrom escura, transmitindo uma expressão alerta e curiosa. A testa larga e as orelhas pendentes, que se dobram levemente para frente, reforçam a aparência de “cão de caça tradicional”.
Temperamento
O Otterhound é reconhecido por seu temperamento equilibrado. Ele combina a coragem típica dos cães de caça com uma natureza dócil e amigável. São cães leais, que tendem a proteger a família sem serem excessivamente agressivos. Essa lealdade cria um forte vínculo com os tutores, e eles costumam seguir seus donos de perto, quase como um “companheiro de vida”.
Instinto de caça
Devido à sua origem, o Otterhound possui um faro excepcionalmente desenvolvido. Ele pode rastrear odores por longas distâncias e tem a tendência natural de perseguir animais de pequeno porte, como coelhos, gatos ou até mesmo animais de fazenda. Essa característica não deve ser vista como um defeito, mas como um aspecto que requer manejo adequado – treinamento de obediência e socialização precoce são fundamentais para canalizar essa energia de forma segura.
Energia e necessidade de exercício
A raça tem níveis moderados a altos de energia. Embora não seja tão hiperativo quanto um Border Collie, ele precisa de atividades diárias que incluam caminhadas longas, brincadeiras interativas e, idealmente, oportunidades para nadar. A falta de exercício pode levar ao desenvolvimento de comportamentos destrutivos, como mastigação excessiva ou latidos compulsivos.
Socialização e inteligência
O Otterhound é inteligente, porém pode apresentar certa teimosia quando não entende o propósito da tarefa. Ele responde melhor a métodos de treinamento positivos, baseados em recompensas (petiscos, brinquedos, elogios). A socialização precoce – exposição a diferentes pessoas, ruídos, veículos e outros animais – ajuda a reduzir a ansiedade e a evitar reações indesejadas em ambientes novos.
Em resumo, o Otterhound é um cão de aparência robusta, com faro aguçado, temperamento afetuoso e necessidade clara de estímulos físicos e mentais. Conhecer essas características auxilia o tutor a criar um ambiente que respeite a natureza da raça, garantindo uma convivência harmoniosa e feliz.
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3. Cuidados Essenciais
Higiene da pelagem
A pelagem longa e densa do Otterhound requer escovação regular, pelo menos 2 a 3 vezes por semana, usando uma escova de cerdas firmes ou um pente de metal. Essa prática previne nós, elimina pelos soltos e estimula a circulação cutânea. Em períodos de troca de pelos (geralmente duas vezes ao ano), a frequência pode ser aumentada para diariamente, ajudando a remover o subpelo solto. Banhos devem ser feitos com shampoos específicos para cães de pelagem densa, evitando produtos agressivos que possam remover os óleos naturais da pele. Um banho a cada 6 a 8 semanas costuma ser suficiente, a menos que o cão se suje excessivamente após nadar.
Exercício diário
Como mencionado, o Otterhound precisa de pelo menos 1,5 h a 2 h de atividade física diária. Caminhadas de 30‑45 minutos, alternadas com brincadeiras no quintal ou em parques, são recomendadas. Se houver acesso a um lago ou piscina segura, permitir que o cão nade é extremamente benéfico, pois a água ajuda a proteger a pele e a pelagem, além de ser uma excelente forma de exercício cardiovascular.
Cuidados dentários
A saúde bucal é frequentemente negligenciada, mas essencial para evitar doenças periodontais que podem afetar órgãos internos. Escovar os dentes do otterhound 2‑3 vezes por semana com escova e pasta específica para cães reduz o acúmulo de placa. Petiscos dentais e brinquedos de borracha macia também colaboram na limpeza mecânica. Visitas ao veterinário para limpeza profissional a cada 6‑12 meses são recomendadas.
Controle de parasitas
A raça, por seu estilo de vida próximo à água, está mais exposta a carrapatos e pulgas que vivem em áreas úmidas. A aplicação mensal de antiparasitários (topical ou oral) deve ser feita conforme orientação do veterinário. Além disso, a vermifugação regular – a cada 3‑4 meses – protege contra helmintos intestinais, que podem ser transmitidos ao ingerir água contaminada ou ao caçar pequenos animais.
Alojamento e segurança
Embora o Otterhound se adapte bem a ambientes internos, ele precisa de um espaço confortável para descansar. Uma cama ortopédica em local silencioso, porém próximo à família, ajuda a reduzir a ansiedade de separação. Se o tutor possui quintal, é importante garantir que o perímetro esteja bem cercado, já que a raça tem tendência a seguir cheiros e pode tentar fugir para investigar.
Treinamento de obediência básico
Um comando “senta”, “fica” e “vem” bem ensinado facilita o controle em situações de risco, como perto de água profunda ou em áreas com tráfego intenso. Reforçar esses comandos com recompensas positivas desde filhote cria um hábito que perdura por toda a vida do cão.
Visitas regulares ao veterinário
Exames clínicos semestrais são fundamentais para monitorar peso, condição da pele, articulações e a saúde geral. O otterhound tem predisposição a displasia coxofemoral e problemas de ouvido devido ao formato da orelha pendente, portanto, avaliações ortopédicas e otológicas regulares são recomendadas.
Em síntese, os cuidados essenciais para um Otterhound envolvem higiene da pelagem, exercícios adequados, atenção à saúde bucal e parasitária, ambiente seguro e treinamento consistente. Seguir esses passos garante que o cão permaneça saudável, feliz e bem ajustado ao estilo de vida familiar.
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4. Alimentação e Nutrição
Necessidades calóricas
Um Otterhound adulto, com peso entre 30 kg e 35 kg, geralmente necessita de 1.800 kcal a 2.200 kcal por dia, dependendo do nível de atividade. Cães que praticam natação ou longas caminhadas podem precisar de até 10 % a 15 % a mais de energia. Filhotes em fase de crescimento requerem até 30 % a mais de calorias para suportar o desenvolvimento ósseo e muscular.
Macro e micronutrientes essenciais
- Proteínas: A base da dieta deve ser uma fonte de proteína de alta qualidade (carne magra, peixe ou frango) representando 22 % a 28 % da alimentação total. As proteínas são fundamentais para a manutenção da massa muscular, especialmente em cães ativos.
- Gorduras: Entre 12 % e 18 % de gordura fornece energia concentrada e ajuda na saúde da pelagem e da pele. Ácidos graxos ômega‑3 (encontrados em óleo de peixe) são particularmente benéficos para reduzir inflamações articulares, comuns em raças predispostas à displasia coxofemoral.
- Carboidratos: Embora não essenciais, carboidratos de fácil digestão (arroz integral, batata doce, aveia) fornecem energia de liberação gradual e fibras que favorecem a saúde gastrointestinal.
- Vitaminas e minerais: O cálcio e o fósforo devem estar em equilíbrio (cerca de 1,2 % e 0,8 % da dieta, respectivamente) para evitar problemas ósseos. Vitaminas A, D, E e complexo B são importantes para visão, sistema imunológico e metabolismo energético.
Tipos de dieta recomendados
- Ração premium balanceada – Escolher marcas que utilizem proteínas de origem animal como primeiro ingrediente e incluam ômega‑3. Prefira fórmulas “large breed” (raça grande) para garantir níveis adequados de glucosamina e condroitina, que auxiliam na saúde das articulações.
- Dieta caseira – Pode ser uma ótima opção quando supervisionada por nutricionista veterinário. Uma receita típica inclui 40 % de proteína magra (frango ou peixe), 30 % de carboidrato complexo (arroz integral ou batata doce) e 30 % de vegetais (abóbora, cenoura, espinafre). Suplementos de cálcio, óleo de peixe e um complexo multivitamínico são necessários para garantir a completude nutricional.
- Alimentação crua (BARF) – Embora popular, requer planejamento rigoroso para evitar deficiências ou excessos. É crucial incluir ossos crus comestíveis (para cálcio) e garantir a presença de órgãos (fígado, rins) para micronutrientes. Consulte sempre um veterinário especializado antes de adotar esse regime.
Frequência das refeições
- Filhotes (até 6 meses): 3 a 4 refeições diárias, em porções menores, para evitar sobrecarga gástrica e garantir aporte constante de nutrientes.
- Adultos (1‑7 anos): 2 refeições diárias, preferencialmente manhã e noite, ajudam a regular o metabolismo e evitam obesidade.
- Sêniores (8+ anos): 2 refeições menores ou uma única refeição, dependendo da tolerância digestiva; alimentos com fibra moderada ajudam a prevenir constipação.
Controle de peso e obesidade
O otterhound, apesar de ativo, pode ganhar peso se a ingestão calórica exceder o gasto energético. Sinais de sobrepeso incluem dificuldade ao subir escadas, respiração ofegante em repouso e aumento da gordura abdominal. A pesagem mensal e o cálculo do escore de condição corporal (ECC) são ferramentas simples para monitorar a condição física. Caso o cão apresente sobrepeso, ajuste a quantidade de alimento em 10 % a 20 % e aumente a atividade física.
Hidratação
Devido à predisposição ao exercício aquático, a hidratação deve ser constante. Disponibilize água fresca em recipientes limpos, trocando o conteúdo a cada 4‑6 horas, especialmente após nadar ou caminhar em dias quentes.
Alimentos a evitar
- Chocolate, cafeína, uvas e passas (tóxicos).
- Alho e cebola em grandes quantidades (causam anemia).
- Ossos cozidos (risco de fratura).
- Alimentos ricos em gordura excessiva (pode causar pancreatite).
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5. Saúde e Prevenção
Principais problemas de saúde da raça
Problema |
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Displasia Coxofemoral |
Exames ortopédicos radiográficos a partir dos 12 meses; controle de peso e suplementação com glucosamina. |
Otite Crônica |
Limpeza regular (2‑3 vezes por semana) com solução isotônica; inspeção visual de vermelhidão ou odor. |
Hipotireoidismo |
Teste de T4 livre anual; monitoramento de sintomas como pele seca e queda de pelos. |
Problemas Dermatológicos |
Banhos adequados, uso de shampoos hipoalergênicos e controle de parasitas. |
Câncer de Linfonodos |
Exames de sangue de rotina e avaliação de linfonodos aumentados. |
Problemas Oculares (Catarata, Atrofia Progressiva da Retina) |
Exames oftalmológicos anuais, especialmente em cães acima de 6 anos. |
Vacinação
A vacinação segue o calendário padrão para cães no Brasil, porém, por ser uma raça ativa ao ar livre, recomenda‑se reforçar a vacina contra leptospirose (que pode ser transmitida pela água contaminada) a cada 12 meses. O esquema típico inclui:
- V8/V10 (cinco doenças): aos 8 semanas, 12 semanas e 16 semanas, reforço aos 12 meses e anualmente.
- Raiva: reforço anual, conforme legislação local.
- Gripe Canina (CIN): duas doses com intervalo de 2‑3 semanas, reforço anual.
Vermifugação e controle de parasitas
- Vermes internos: vermífugo de amplo espectro a cada 3‑4 meses; filhotes recebem tratamento a cada 2 semanas até 12 semanas de idade.
- Pulgas e carrapatos: produtos spot‑on ou coleiras de ação prolongada (ex.: fluralaner, sarolaner) aplicados mensalmente.
Exames de rotina
- Hemograma completo e bioquímica: a cada 12 meses, para detectar alterações metabólicas.
- Perfil tireoidiano: a partir dos 3 anos, especialmente se houver sinais de hipotireoidismo.
- Radiografias de quadril: aos 12‑18 meses, para diagnóstico precoce de displasia.
- Exame de urina: avaliação da função renal, importante para cães que bebem muita água após nadar.
Cuidados com a pele e pelagem
A pelagem densa pode reter água, favorecendo infecções fúngicas. Após nadar, enxágue o cão com água limpa e seque bem com toalha. Use condicionadores específicos para pelagens grossas, que ajudam a manter a camada oleosa natural.
Saúde auditiva
Devido ao formato das orelhas, a ventilação é limitada, facilitando o acúmulo de cera e umidade. A limpeza deve ser feita com algodão embebido em solução isotônica, nunca inserindo objetos pontiagudos no canal auditivo. Caso note vermelhidão, secreção ou odor, procure o veterinário imediatamente.
Estratégias de prevenção
- Manutenção de peso ideal – Reduz o risco de displasia e problemas cardíacos.
- Exercício controlado – Evita sobrecarga nas articulações, principalmente em filhotes cujas placas de crescimento ainda não fecharam.
- Ambiente seco – Após atividades aquáticas, mantenha o cão em ambiente com boa ventilação para